   RICO VERSSIMO

   OLHAI OS LRIOS DO CAMPO

   Digitalizao e tratamento do texto por Guilherme Jorge (esta obra foi digitalizada para uso exclusivo por parte de deficientes visuais ao abrigo do artigo 80
do CDADC)

   1 Parte

   O mdico sai do quarto n. 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
   - Irm Isolda - diz ele em voz baixa - avise o Dr. Eugnio .  um caso perdido, questo de horas, talvez de minutos. E ela sabe que vai morrer...
   Silncio. Uma golfada de vento atravessa o corredor. Ouve-se o rudo seco de uma porta que bate. A irm de caridade sente um calafrio, lembrando-se da madrugada 
em que morreu o paraltico do 103; a enfermeira de planto contara-lhe
   Horrorizada ter sentido o sopro gelado da morte entrar no quarto do doente.
   - Ele est em casa da famlia, doutor?
   - No. Telefone para a chcara do sogro, em Santa Margarida. Diga ao Dr. Eugnio que a Olvia quer v-lo. Talvez ele ainda possa chegar a tempo...
   Encolhe os ombros, pessimista. Acende um cigarro e as mos tremem-lhe um pouco.
   Irm Isolda caminha para o fundo do corredor, entra na cabina do telefone, disca para o centro.
   - Al! Al! Fala o Hospital Metropolitano.  um caso urgente. Quero longa distncia...
   As lgrimas escorrem-lhe pelo rosto.
   
   " .. . veio a hemorragia. . . " - diz a voz velada e distante.
   Como se tivesse recebido a mensagem de desgraa primeiro que o crebro, o corao de Eugnio desfalece, as suas batidas tornam-se espaadas e cavas.
   "... o Dr. Teixeira Torres diz que  um caso perdido. Ela sabe que vai morrer... pediu para v-lo. .. "
   Eugnio sente estas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava. Uma sbita tontura embacia-lhe os olhos e o entendimento. 
Deixa cair a mo que segura o fone. S tem conscincia de duas coisas: de uma impresso de desgraa irremedivel e da presso desesperada do corao, que a cada 
batida parece crescer, inchar sufocadoramente. A respirao  aflitiva e desigual, a boca arde-lhe, o peito di-lhe -  como se de repente lhe tombasse sobre o corpo 
toda a canseira de uma longa corrida desabalada. Pendura o fone num gesto de autmato e caminha para a janela, na confusa esperana de que algum ou alguma coisa 
lhe grite que tudo aquilo  apenas um sonho mau, uma alucinao.
   
   O Sol da tarde doura os campos. O aude reluz ao p do bosquete de eucaliptos. Mas Eugnio s enxerga os seus pensamentos. E dentro deles est Olvia, plida, 
estendida na mesa de operaes, coberta de panos ensangentados. "Ela sabe que vai morrer... pediu para v-lo". Ele precisa ir. Imediatamente.
   
   Uma voz infantil flutua no silncio da tarde, em grito prolongado. Um rapazito vai dar de beber a uma vaca malhada, tange-a para a beira do aude. As imagens 
do animal e da criana refletem-se na gua parada. Paz - pensa Eugnio -, a grande paz de Deus de que Olvia sempre lhe falava. ..
   De novo o silncio. E uma sensao de remorso. A certeza de que vai comear a pagar os seus pecados, a expiar as suas culpas.
   Os olhos de Eugnio inundam-se de lgrimas. Passam-se os segundos. Aos poucos a respirao vai-se-lhe fazendo normal e o que ele sente agora  uma trmula fraqueza 
de convalescente.
   
   Mas da prpria paz dos campos e da idia mesma de Deus vem-lhe de repente uma doida e alvoroada esperana, que lhe toma conta de todo o ser.  possvel que Olvia 
se salve. Seria cruel demais que ela morresse assim. Acontecem milagres... Ele lembra-se de casos...
   Apanha o chapu e precipita-se para a escada. Mas porque se detm de sbito no patamar, como se tivesse encontrado um obstculo inesperado? Eugnio tem a aguda 
conscincia de um sentimento aniquilador: a sua covardia, aquela imensa e dolorosa covardia, no momento em que devia esquecer tudo e correr para junto de Olvia.
   Fica um instante parado, amassando o chapu nos dedos nervosos. Sua mulher est l em baixo, no jardim. Ela pode agora descobrir toda a verdade... Precisa inventar 
uma desculpa para aquela viagem precipitada. Mas Olvia est agonizante, seria monstruoso deix-la morrer sem lhe dizer uma palavra de carinho, sem ao menos lhe 
pedir perdo. E, no instante mesmo em que formula este pensamento, Eugnio sente que o seu orgulho e a sua covardia no lhe permitiro esse gesto de humildade diante 
de estranhos.
   - Meu Deus, mas eu preciso ir, custe o que custar, acontea o que acontecer.
   Comea a descer a escada devagar. Imagina-se no hospital. Olvia estendida na cama... O Dr. Teixeira dando explicaes friamente tcnicas. Os outros... Olhares 
de quem tudo sabe... Cochichos... Quem? Amantes... Ah! Ele  o Dr. Eugnio Fontes, casado com a filha daquele ricao, o Sintra, conhece?
   Os dedos de Eugnio crispam-se sobre o corrimo.
   O corao bate-lhe com desesperada fria.
   Lgrimas quentes escorrem-lhe pelas faces. Ele enxuga-as, todo trmulo, e caminha para o jardim, gritando:
   - Honrio! - O motorista aparece. - Tire o carro depressa. Precisamos ir  cidade numa corrida.  um caso urgentssimo.
   
   Eunice l no jardim, sentada  sombra de um amplo guarda-sol de gomos vermelhos e azuis.
   - Preciso de ir  cidade com urgncia - diz-lhe Eugnio , esforando-se por dominar a voz.
   Ela ergue os olhos do livro, com ar de indiferena, e fita-os no marido.
   
   - Que  que tens? Ests to plido.. .
   - Nada. Foi uma notcia que recebi. . . - Hesitou, desviou o olhar. E mentiu: -  sobre o Ernesto. . .
   Os olhos dela tm uma luz fria e penetrante. Parecem enxergar atravs daquelas palavras mentirosas.
   - No precisas explicar. - Pausa. Contemplam-se por um instante como dois estranhos. - Naturalmente, no voltas hoje...
   Ele consulta o relgio.
   - So quase seis. Chego  cidade s nove, nove e pouco... Acho que s posso estar de volta amanh, de manh.
   Eunice atira a cabea para trs e, como se falasse para as nuvens, diz:
   - Tu sabes que eu no fao questo de me meter na tua vida. Faze como entenderes. Em todo o caso, obrigada pelo aviso.
   - Teu pai chega daqui a pouco. Assim, no passas a noite sozinha.
   - Oh! No te preocupes comigo. Posso tomar conta de mim mesma. Alm do mais, tu sabes, gosto da solido. Ela convida-nos a exames de conscincia. E, j que falamos 
nisso, deves estar precisando de um...
   Eugnio sente-se corar. Eunice torna a baixar os olhos para o livro. Ele fica a contempl-la, sentindo uma raiva fina e fria.
   - At amanh - diz.
   Sai apressado, como quem foge.
   - At amanh - murmurou Eunice, sem erguer os olhos do livro.
   
   O auto pe-se em movimento. Passa o grande porto da chcara e ganha a estrada real.
   - A toda a velocidade, Honrio!
   Sem se voltar, o motorista responde:
   - Quando a gente entrar na faixa de cimento, vou embalar o carro para noventa.
   A luz da tarde  doce e tristonha. O gado pasta nos campos, um quero-quero solta o seu grito estridente, um co late ao longe.
   Eugnio sente vontade de saltar para o banco da frente e confiar a sua angstia e os seus segredos ao motorista. No fundo, ele sabe que pertence mais  classe 
de Honrio que  classe de Eunice. Nunca o pde tratar com a superioridade com que a mulher e o sogro lhe do ordens. Como se ele fosse feito de uma matria mais 
ordinria, como se tivesse nascido exclusivamente para obedecer.
   - Precisamos de chegar  cidade em menos de trs horas, Honrio.  uma questo de vida ou de morte.
   Eugnio cerra os olhos. Olvia, plida, estendida na cama, morta. . .
   
   Foi no ptio da escola,  hora do recreio. Eugnio abaixou-se para apanhar a bola de pano. De repente, atrs dele, algum gritou:
   - O Genoca t com as cara furada no fiof!
   Os outros rapazes cercaram Eugnio , numa algazarra. Houve pulos, atropelos, pontaps, cotoveladas, gritos e risadas. Eram como galinhos correndo cegos a um tempo 
para bicar o mesmo punhado de milho. No meio da roda, atarantado e vermelho, Eugnio tapava com ambas as mos o rasgo da cala. Sentia um caloro no rosto, que 
lhe ardia num formigamento. Os rapazes romperam em vaia frentica:
   Cala furada!
   Cala furada!
   Cala furada-d!
   Gritavam em cadncia uniforme, batendo palmas. Eugnio sentiu os olhos encherem-se-lhe de lgrimas. Balbuciava palavras de fraco protesto, que se sumiam, devoradas 
pelo grande alarido.
   Cala furada-d!
   No fio-f-f-f!
   Oia as calas dele, vov!
   Cala furada-d!
   Do outro lado do ptio, as meninas olhavam, curiosas, com ar divertido, pulando e rindo. Em breve comearam a gritar tambm, integrando-se no coro, num alvoroo 
de gralhas.
   O vento da manh, que agitava os ciprestes do ptio, levava no seu sopro frio aquelas vozes agudas, espalhava-as pela cidade inteira, anunciando a toda a gente 
que o menino Eugnio estava com as calas rasgadas, bem no fiof. As lgrimas deslizavam pelo rosto do rapaz e ele deixava que elas corressem livres, que lhe riscassem 
as faces, que lhe entrassem pela boca, que lhe pingassem do queixo, porque tinha ambas as mos postas como um escudo sobre as ndegas. Agora, de braos dados, os 
rapazes formavam um grande crculo e giravam de um lado para o outro, berrando sempre: Cala furada! Cala furada!
   
   Eugnio fechou os olhos para no ver por mais tempo a sua vergonha.
   Soou a sineta. Terminara o recreio.
   Na aula, Eugnio sentiu-se humilhado como um ru.
   Na hora da tabuada, a professora apontava os nmeros no quadro negro com o ponteiro e os alunos gritavam em coro:
   
   Dois e dois so quatro.
   Trs e trs so seis.
   
   E o ritmo desse coro lembrava a Eugnio a vaia do recreio - Cala furada!
   Que vergonha! O pai estava a dever o dinheiro do ms passado, a professora tinha reclamado o pagamento em voz alta, diante de todos os alunos. Ele era pobre, 
andava mal vestido. Porque era quieto, os outros abusavam dele, troavam-no, botavam-lhe rabos de papel... Sbado passado, ficara de castigo, de p.-num canto, porque 
estava com as unhas sujas. O pior de tudo eram as meninas. Se ao menos na aula s houvesse rapazes...
   Meu Deus, como era ruim, como era vergonhoso ser pobre! O Nelson escrevia com uma caneta de mbar com anis dourados. O Heitor tinha uma mochila de couro, onde 
trazia os livros e cadernos. Nas festas do fim do ano, quem fazia os discursos para a professora era o Tancredo, porque andava limpinho e bem vestido, cheirando 
a extrato.
   
   Oito e oito so dezesseis. Cala furada!
   
   Eugnio: diga a seu pai que venha resgatar o recibo do ms passado. Sim, senhora, eu digo. Resgatar. Palavra horrvel. Resgatar. Rasgar. Cala rasgada. O pai 
sacudindo a cabea, queixando-se: "S o colgio para os meninos custa-me os olhos da cara".
   Um rosto se voltou para Eugnio , no banco da frente. Era Ernesto, seu irmo mais novo. Ele tambm havia ajudado a vai-lo. Sem vergonha! Tu pagas-me...
   A hora da sada, Eugnio atrasou-se de propsito, foi o ltimo a sair. Nem assim conseguiu fugir a nova vaia. Um grupo de seis meninos esperava-o de emboscada 
numa esquina. Quando Eugnio passou, romperam de novo:
   
   Cala furada! Qui, galinha carij!
   Cala furada! Cala furada!
   
   Eugnio caminhava acossado pela gritaria. Voltaram-lhe as lgrimas. Ernesto cochichou:
   - No seja besta, no chora, que  pior. Finge que no d confiana.
   Quando o bando o deixou em paz, seguindo outro rumo, Eugnio continuou a andar, de cabea baixa.
   O vento varria a rua, sacudia as rvores sem folhas, fazia voar pedaos de palha, fragmentos de papel, gros de poeira.
   Eugnio tinha vergonha de olhar para as pessoas que passavam. Decerto, todos sabiam daquilo. Agora, felizmente, o seu velho sobretudo preto, esverdeado de to 
velho, tapava o rasgo da cala. No conseguia, porm, faz-lo esquecer a humilhao da vaia. A seu lado, o irmo mais novo caminhava em silncio, mas sorrindo com 
o canto da boca. Eugnio sentia nos ps (as solas dos sapatos estavam furadas) o frio penetrante das lajes da calada. De repente, Ernesto rompeu a cantarolar, marcando 
o compasso da marcha:
   
   Um, dois, feijo com arrois
   Um, dois, feijo com arrois
   
   Insensivelmente, Eugnio comeou a acompanhar a cadncia, acertou o passo. Ps-se a assobiar baixinho para espantar a raiva, o despeito, a amargura. Mas nunca 
mais lhe sairia da memria aquela vaia, nem que ele vivesse mil anos.
   Ernesto calou-se, tirou do bolso uma ponta de cigarro, meteu-a na boca, acendeu-a.
   - Tu levou cigarro na aula, sem vergonha!
   Ernesto encolheu os ombros, soltou uma baforada de fumo, jogou longe o pau de fsforo.
   - No  da conta de ningum.
   - Se a professora te pega, tu vai v o que  bom.
   - Ela no  minha me.
   - Mas o pai e a me no quer que tu fumes.
   - Eu gosto, pronto!
   Quando avistaram a casa, Ernesto jogou fora a ponta do cigarro e cuspiu, com ar viciado. Eugnio enxugou as lgrimas com as costas da mo.
   - Ernesto, venha lavar os ps antes da bucha!
   Eugnio j enxugava os seus com a grossa e spera toalha feita de um saco de farinha de mandioca. Da bacia de folha, da gua esbranquiada de sabo, subia um 
vapor quase invisvel.
   D. Alzira sentou o filho mais novo na cadeira e meteu-lhe os ps  fora dentro da bacia.
   - A gua do Genoca tem casco! - protestou Ernesto.
   - No seja luxento. Casco tm os teus ps. No sei onde  que estes meninos se sujam tanto. Nem parece que andam de sapatos.
   Eugnio olhava para o pai, enquanto enfiava as pegas de l. L estava ele encurvado sobre um par de calas, cosendo. Era um homem calado e murcho, velho antes 
dos quarenta. Tinha uma cara inexpressiva, dois olhos apagados e um ar de resignao quase bovino. Usava culos, pois a vista j estava curta (as malditas fazendas 
pretas, esta luz fraca). Mais tossia do que falava. Quando falava era para se queixar da vida. Queixava-se sem amargura, sem raiva.
   Eugnio tinha uma grande pena do pai, mas no conseguia am-lo. Sabia que os filhos devem amar os pais. A professora falava na aula em "amor filial", contava 
histrias, dava exemplos. Mas, por mais que se esforasse, Eugnio no lograva ir alm da piedade. Tinha pena do pai. Porque ele tossia, porque ele suspirava, porque 
ele se lamentava, porque ele se chamava ngelo. ngelo  nome de gente infeliz, nome de assassinado. Ernesto no podia olhar para o pai sem se lembrar da stima 
lio do Segundo Livro de Leitura. Sentira, ao l-la pela primeira vez, uma comoo to grande, que ficara um dia inteiro sob a impresso da tragdia.
   ngelo era um velho portugus muito trabalhador e honrado, agricultor nos arredores de uma pequena vila de Portugal.
   Em certa ocasio, seguiu para o lugarejo, levando consigo abundante carregamento de cereais, produto do seu labor, a fim de exp-lo  venda na feira pblica, 
que havia ali mensalmente.
   Tendo feito bom negcio, voltava para a sua casinha, conduzindo fazendas e outros objetos de que carecia a idolatrada famlia.
   Um salteador, que durante a feira lhe seguira os passos intencionalmente e o vira vender os seus cereais, foi esper-lo na estrada da montanha, para o assassinar 
e roubar.
   Quando o pobre velho seguia contente na estrada que levava  sua choupana, salta-lhe de repente o malfeitor e crava-lhe o punhal.
   ngelo pde apenas pronunciar estas palavras, exalando o ltimo suspiro: "Malvado! Quem com ferro fere, com ferro ser ferido! "
   Debalde a polcia procurou saber quem era o assassino de ngelo. No havia testemunhas e o crime ficou impune. Passado apenas um ano, o salteador, estando na 
mesma feira, provocou um conflito e deram-lhe uma punhalada.
   O salteador, conhecendo que ia morrer, confessou ter sido o autor do assassnio do pobre ngelo e disse:
   - Bem ele exclamou na hora da morte: " Quem com ferro fere, com ferro ser ferido! "
   A histria provocara em Eugnio ecos misteriosos. Sempre que a relia, ele emprestava ao assassinado a cara do pai. ngelo era pobre como eles, decerto tambm 
andava com as calas furadas naquele lugar. Eugnio como que sentia na prpria carne, nos prprios nervos, aquela punhalada. E um desejo de justia comeava a nascer 
na sua conscincia. A si prprio fazia perguntas que ficavam sem resposta. De que servia matar? Porque existiam homens maus no Mundo? Ele no era capaz de arranhar 
um colega, de jogar pedras aos cachorros; no fazia malvadez, nem com os bichos nem com as pessoas. Tinha pena. Doa-lhe ver os outros sofrer. Tinha horror ao sangue. 
Como era ento que havia no Mundo gente que tinha a coragem de apunhalar honrados lavradores como o pobre ngelo? Eugnio imaginava a tristeza da "idolatrada famlia", 
que decerto ficara na misria, via em pensamentos o burrico trotando desamparado pela estrada, ou ento ao p do dono morto, lambendo-lhe o rosto com amor. "Quem 
com ferro fere, com ferro ser ferido". Estas palavras traziam-lhe  mente outras que a me costumava dizer: "Deus castiga".
   Um dia, caiu um raio na casa do velho Galvo, matando-o e ferindo-lhe a filha. A me disse: "Deus castigou. Eles eram muito malvados". Alm do castigo da professora, 
do castigo dos pais da gente, havia ento um castigo maior, muito maior - o castigo de Deus?
   Eugnio temia esse Deus que em vo a me lhe queria fazer amar. Quando  noite rezava o "Padre nosso que estais no Cu... " - ele imaginava um ser de forma humana, 
mas terrvel, misterioso e implacvel. Era invisvel mas estava em toda a parte, at nos nossos pensamentos. A idia do pecado; ento comeou a perturbar Eugnio 
. Estudava as lies e portava-se bem na aula porque temia os castigos da professora. No fumava, no dizia nomes feios nem fazia "bandalheiras", porque tinha medo 
dos castigos da me. Fugia dos maus pensamentos e no fazia ms criaes, nem s escondidas, porque Deus estava em todos os lugares e enxergava tudo. Um dia, enumerando 
a lista dos grandes pecados, algum lhe disse: "No amar os pais  pecado". Ento ele estava pecando! Por mais que se esforasse, no podia amar aquele pai que nunca 
levantava a mo para lhe bater, que nem mesmo chegava a erguer a voz para o repreender.
   Na escola, os outros meninos contavam vantagens e proezas de pessoas da famlia. "Meu pai j foi no Rio de Janeiro... O teu j foi?" "Meu tio derrubou um negro 
com um soco". "Tenho um irmo que  remador do Barroso".
   Eugnio , humilhado ficava escutando num silncio invejoso. No tinha nada a contar. Seu pai era apenas o pobre ngelo.
   
   Eugnio enfiou as chinelas e, tiritando de frio, foi buscar revistas velhas para folhear, enquanto esperava o jantar.
   
   -No botes os ps no cho, menino! - gritou D. Alzira para Ernesto. - Tu vais pegar uma constipao.
   ngelo ergueu os olhos cansados.
   - Era s o que faltava um dos meninos cair de cama agora.
   D. Alzira segurou Ernesto pela cintura, sentou-se na mesa e comeou a calar-lhe as pegas. ngelo levantou a agulha contra a luz e, com um olho fechado, procurou 
enfiar nela a linha preta.
   Eugnio molhava na lngua a ponta do indicador e ia folheando as revistas. Eram velhos nmeros de L'Illustration que ele apanhara no lixo da casa de um engenheiro 
belga que morava nas redondezas. Quantas vezes tinha passado os olhos por aquelas figuras? Cem? Mil? No se cansava de olhar... Elas tinham um encanto misterioso. 
Ele gostava particularmente das que lhe mostravam veleiros esquisitos nos rios da Indochina, anamitas de chapus cnicos, europeus vestidos de branco, com capacetes 
de cortia na cabea. Para Eugnio , esses homens eram sempre "valentes exploradores". Ele sabia que as pessoas que iam caar feras na ndia e na frica usavam aquele 
chapu engraado. As legendas das gravuras estavam escritas numa lngua que ele no entendia. Seu Florismal dizia que era francs. Devia ser bom falar francs, alemo, 
ingls, africano...
   Eugnio olhava agora para a figura de um coolie: l ia ele pela beira do rio, levando s costas uma canga com pesados cestos. A sua sombra refletia-se na gua. 
Era triste. Dava vontade de chorar, ele no sabia bem porqu. O chins, o pobre ngelo da histria, o pap - imagens tristonhas que se misturavam. . .
   Eugnio tornou a olhar para o pai. ngelo estava encurvado sobre o trabalho. Encurvado, como se um malvado naquele instante o tivesse apunhalado pelas costas. 
O pobre ngelo...
   Vivia fugindo dos credores. Quando batiam  porta, estremecia, erguia-se ligeiro, j tratando de se esconder ou de fugir pelos fundos da casa. Podia ser algum 
cobrador.. .
   Eugnio no esquecia o que se passara havia alguns dias. Seu Jango do armazm tinha vindo em pessoa cobrar a conta atrasada.
   - Diga que no estou, Alzira, que fui  Intendncia... - cochichou ngelo, com ar alarmado.
   D. Alzira deu o recado:
   - Olhe, seu Jango, no v que o ngelo no est em casa...
   Atrs da porta do quarto, ngelo escutava, mordendo o lbio. Ouviram-se passos fortes no corredor. E a voz de D. Alzira, mais apressada, j aflita.
   - Mas, seu Jango, que  isso? Eu lhe disse que o ngelo saiu...
   Jango entrou de sopeto na varanda. Era um homem alto forte, moreno, de dentes muito brancos. Quando o viu entrar assim, em mangas de camisa, com os braos musculosos 
e peludos  mostra, Ernesto cochichou ao ouvido de Eugnio :
   - Credo! Parece o Maciste.
   Estranho... Eugnio , ao v-lo, pensou logo no Destino. Sempre que acontecia  famlia alguma coisa desagradvel, D. Alzira dizia: - "Foi o Destino".
   O Destino era um ser cruel, todo-poderoso e implacvel. Seu Jango era o Destino.
   ngelo no teve outro remdio seno aparecer. Saiu do esconderijo, acovardado, de cabea baixa.
   - Ento, seu ngelo, enganando os outros, hem? Pensa que eu sou algum pasccio? Conheo bem a minha freguesia.
   - Ora, seu Jango - murmurou ngelo, mal ousando encarar o credor. - No foi por mal. A gente quando deve tem vergonha.
   -  muito fcil dizer. Se tem vergonha, por que no paga? Eu no vivo da brisa, vendi e quero o meu dinheirinho.
   - O senhor tenha pacincia... -interveio D. Alzira.
   - Estou para entregar uma roupa a um fregus... - reforou ngelo. - Vou receber a uns oitenta e cinco mil ris e ento...
   Jango alteou a voz:
   - Essa cantiga  muito conhecida. Todo o mundo vai receber dinheiro, mas ningum paga. O senhor devia era ter mais vergonha nessa cara, ouviu?
   ngelo estava plido. Eugnio ouviu-o murmurar, numa splica:
   - Seu Jango, por favor, os meninos esto ouvindo...
   - Pois que ouam, que saibam que o pai deles  um grandessssimo caloteiro.
   Saiu pisando duro e bateu com a porta.
   Um dia - pensou Eugnio - algum vai  casa de sou Jango e diz para ele todas essas coisas que ele disse para o pai. "Quem com ferro fere, com ferro ser ferido." 
Algum h-de vingar o pobre ngelo. Talvez Deus... Ou ento... Pela primeira vez Eugnio pensou em fazer-se homem, estudar, ficar doutor e ganhar dinheiro, para 
livrar a famlia daquela pobreza, daquela vergonha.
   D. Alzira bateu palmas.
   - Venham comer. Ligeiro, seno a bucha esfria!
   
   Sentaram-se todos em torno da mesa. No centro dela fumegava a travessa de arroz com guisado de charque [Carne salgada e seca].
   Comearam a comer em silncio. Quem falou primeiro foi Ernesto:
   - No colgio hoje dero uma vaia no Eugnio porque ele estava com as calas furadas atrs.
   Encolheu-se todo, reprimindo o riso, e seus olhinhos brilharam de malcia. Eugnio ficou com o rosto em fogo. D. Alzira sacudiu a cabea, vagarosamente, e olhou 
para o filho mais velho.
   - Eu no te disse que no botasse aquela cala de riscado? Porque no botou a preta?
   Eugnio baixou os olhos para o prato e ficou calado.
   ngelo serviu-se de mais arroz e disse com ar reflexivo:
   - Parece mentira. .. Filho de alfaiate e com as calas rasgadas.
   Quando o silncio se fez de novo, eles ouviram o minuano uivando l fora.
   - Coisa triste, o Inverno! - suspirou D. Alzira.
   Eugnio olhou para a me. Ela era bonita, sim, muito mais bonita do que as mulheres ricas que ele conhecia. Dizia sempre que eles ainda haviam de ser felizes 
e de viver com todo o conforto. "Ningum foge ao Destino - eram as suas palavras - e eu acho que, se ele nos tem trazido tanta coisa ruim, um dia nos pode trazer 
coisas boas."
   ngelo tinha cruzado os talheres, quando bateram  porta. Marido e mulher entreolharam-se.
   - Deve ser o Florismal - disse ele.
   - V abrir, meu filho - pediu D. Alzira a Eugnio. Mas logo em seguida acrescentou: - No. Deixa que eu vou, voc  capaz de receber um golpe de ar e pegar uma 
pneumonia.
   Seu Florismal... Para Eugnio, esse nome tinha um seCreto encanto. Florismal aparecia quase todas as noites, chegava muito calmo, fumando o seu charuto de tosto, 
e ia logo sentar-se na cadeira de balano. Era um homem baixo, de cabelos ralos, quase calvo. No rosto gorducho e redondo, a barba forte era sempre uma sombra azulada, 
mesmo quando ele se escanhoava. Os dentes eram maus e midos. Florismal tinha uma voz macia e uma certa dignidade de estadista. Era um esprito conciliador e gabava-se 
de ter muita lbia. "Nasci para advogado - dizia. - Se eu tivesse tido mais um pouco de juzo quando moo..." Calava-se, entortava a cabea, batia a cinza do charuto 
e ficava em atitude sonhadora. Decerto via mentalmente o seu passado, os seus erros e uma carreira perdida. Ou ento pensava apenas no efeito que aquelas palavras 
e aquela sugestiva postura podiam estar produzindo nos interlocutores.
   A verdade era que amigos e conhecidos de Florismal sempre o chamavam para dar sentenas, para resolver questes. Dizia-se que o homenzinho arranjava causas para 
advogados sem clientela e ganhava com isso gordas comisses. Muito figuro tirava o chapu ao cumpriment-lo na rua. Florismal fazia at discursos polticos. Por 
isso todos os amigos lhe chamavam dr. Florismal. A princpio, diziam doutor com uma pontinha de ironia. Florismal aceitava o ttulo sorrindo, entre lisonjeado e 
divertido. Acabou ficando mesmo doutor Florismal. Com o tempo, os amigos, que gostavam dele, esqueceram que aquilo era uma brincadeira e acabaram por acreditar no 
ttulo.
   Naquela noite, o dr. Florismal entrou sombrio.
   - As coisas esto pretas na Europa - foi logo dizendo, mesmo antes da boa-noite.
   Todos os olhares se fixaram nele. O homem sentou-se na cadeira de balano, acendeu um charutinho e, como um estadista que fala a um conselho de ministros, disse 
pausadamente, com ar grave:
   - A Alemanha invadiu a Blgica.
   Marido e mulher entreolharam-se, numa muda consulta. No liam jornais, mas tinham ouvido falar que na Europa as coisas no andavam boas.
   - Ento a guerra sai mesmo? - perguntou ngelo.
   O dr. Florismal entortou a cabea e fez o gesto de quem afasta de si qualquer responsabilidade.
   - Era inevitvel. O Kaiser quer.
   Silncio. ngelo ficou olhando aparvalhado para o amigo. "Agosto, ms de desgosto" - murmurou D. Alzira, levantando-se para desfazer a mesa e levar os pratos. 
A guerra era l longe na Europa e, fosse como fosse, no teria fora para alterar o ritmo da vida em sua casa.
   - Mas o que  que o senhor acha, dr. Florismal? 
   ngelo apelou para o amigo, como se, ali sentado na cadeira de balano, chupando o magro charuto, ele tivesse nas suas mos rechonchudas, bem tratadas e quase 
femininas, a sorte do Mundo. O dr. Florismal alisou com carinho os ralos cabelos. Depois, com voz branda e levemente velada, deu a sua opinio:
   - O que eu acho, ngelo amigo,  o seguinte: a Alemanha esmaga a Blgica e ataca a Frana. Ora, a Inglaterra no pode ficar de braos cruzados e entra no conflito. 
Vai ser uma guerra monstruosa. Num ponto, as minhas previses falham. No sei com quem iro a Itlia e a Holanda. - Tinha grande admirao pela Holanda. - Os holandeses 
 que me preocupam. Que grande povo!
   Ficou um instante silencioso e imvel, num devaneio.
   ngelo sacudiu a cabea, dizendo:
   - Mas sem auxlio, o Kaiser no pode agentar tanta gente em cima.
   - Agenta. Agenta. Voc sabe que os alemes inventaram o raio da morte? No sabe? Pois . Um invento terrvel mata assim da distncia de vrios quilmetros, 
e o pior  que o raio  invisvel. Uma coisa brbara.
   - Veja s... - ngelo sacudiu de novo a cabea, enrolando um cigarro de palha.
   Eugnio escutava. Compreendia. Ia haver guerra na Europa. O Kaiser queria. Ele conhecia o Kaiser de um retrato de L'Illustration. Era um homem carrancudo, de 
chapu de ferro e bigodes retorcidos e duros. A palavra guerra lembrava-lhe a histria do pobre ngelo. Ele tinha visto as figuras coloridas de um livro sobre a 
guerra russo-japonesa. Davam medo. Cossacos barbudos numa carga, japoneses de baioneta calada, cadveres ensangentados no cho, um soldado sem cabea, outros de 
braos e pernas decepados, barrigas abertas... Kaiser... Palavra assustadora - achava ele - porque se escrevia guerra. Crime devia ser crime. Kaiser era tambm o 
Destino. O Kaiser agora aparecia-lhe confusamente como o assassino do pobre ngelo.
   O dr. Florismal fazia profecias, pintava um futuro negro e sangrento para a Europa e para o Mundo.
   Mas deixava no quadro de dor e catstrofe uma brecha por onde podia entrar um raiozinho tmido de esperana:
   
   - Se eu fosse o presidente dos Estados Unidos da Amrica do Norte, evitava a hecatombe.
   A ltima palavra encheu-lhe a boca. Todos adivinharam nela uma significao misteriosa, enorme - porque no lhe conheciam o sentido. D. Alzira, que ia levando 
uma pilha de pratos para a cozinha, parou um instante no meio da varanda. Olhou para o dr. Florismal e ficou esperando que ele salvasse o Mundo.
   Florismal exps o seu plano de pacificao. Tudo neste mundo com jeito se arranja...
   Eugnio , com a boca levemente entreaberta, a respirao suspensa, escutava. Como ele admirava o dr. Florismal! Ali estava um homem que sabia tudo. Decerto tinha 
viajado e estudado muito.
   - Venha c, seu Genoca. Me diga quem foi Florismal.
   Era assim que ele lhe perguntava sempre que aparecia. E, sem compreender o que dizia, Eugnio tinha de dar direitinho a resposta que aquele maravilhoso amigo 
do pai lhe ensinara:
   - Foi um dos Doze Pares de Frana!
   O dr. Florismal sorria satisfeito, mordendo o charuto, com os seus dentes midos e escuros.
   Naquela noite, Eugnio foi para a cama, impressionado. Rezou o seu Padre Nosso, imaginando que Deus, o Kaiser e o Destino eram uma e a mesma pessoa. Os trs eram 
poderosos, invisveis e impiedosos. Deus era dono do Mundo. O Kaiser queria vencer o Mundo inteiro. O Destino era o culpado de todas as coisas ruins que aconteciam 
no Mundo.
   Debaixo das cobertas, com as pernas encolhidas (temia que as almas do outro mundo lhe viessem fazer ccegas nos ps), Eugnio ficou por algum tempo com a ateno 
dividida entre os seus pensamentos e o zunzum das conversas na sala de jantar. L fora o vento ainda uivava, mexendo as telhas, sacudindo o arvoredo, fazendo tremer 
as vidraas.
   
   D. Alzira entrou no quarto e botou um tijolo quente entre os ps dos dois meninos. Saiu sem fazer barulho.
   Eugnio ouviu mais uma vez a vaia dos colegas, fraca, no fundo da sua memria, cortada pela voz mais viva do dr. Florismal. Cala furada! Cala furada! O Kaiser 
tambm estava na roda que girava o redor dele, gritando e pulando. Ele via-lhe o capacete de ferro, os bigodes eriados. Cala furada! As meninas tambm gritavam 
e riam. Que vergonha!
   Adormeceu ao som da vaia... Sonhou que era rico. Acordou pouco depois, quando os pais j se preparavam para dormir. A cama do casal ficava ali mesmo no quarto, 
pois a casa s tinha trs compartimentos. ngelo tossiu, gemeu, suspirou.
   - Tu devias deixar o cigarro - disse-lhe a mulher, em voz baixa.
   Eugnio sentia na nuca a respirao quente do irmo que dormia a seu lado. Escutava a conversa dos pais, que era entrecortada de silncios longos, de suspiros 
e gemidos abafados. Houve um momento em que ele disse:
   - Queira Deus que essa guerra no venha at aqui.
   - Deus sabe o que faz - retorquiu a mulher.
   Depois de alguns segundos, tornou a falar:
   - Ainda ests com os ps frios?
   - Esto que nem gelo!
   - Queres um tijolo quente?
   - No precisa.
   Silncio. E depois, ao cabo de no se sabe que pensamentos, a voz dolorosa do pobre ngelo soou tremida no quarto quieto, escuro e frio, quase num soluo:
   - Ah! Isto no  vida.
   Estas palavras doeram a Eugnio , que adormeceu a pensar nelas.
   
   Os minutos passam. O auto desliza em serena velocidade pela faixa de cimento.
   Eugnio tira o chapu, passa a mo pelos cabelos. Tem na mente, numa inquietadora sucesso, as imagens das pessoas que sacrificou  sua carreira, ao eu egosmo, 
 sua cega ambio. Fui um louco, um bruto - pensa ele. Considerara apenas o seu futuro, a sua ascenso na vida. A carreira estava em primeiro lugar. Depois, vinham 
os outros. Os outros... Os que o amaram sem pedir compensaes, os que no exigiram nada e lhe deram tudo. O pai, obscuro, humilde, humilhado, ferido de morte pela 
vida. A me, que sacrificara a sua mocidade ao marido, aos filhos, ao lar. Agora, ambos estavam mortos. Era o irremedivel. E, para Eugnio , o que mais di  a 
certeza de que, se lhe fosse dado viver de novo os anos da infncia e da adolescncia, ele no poderia portar-se de outro modo, no lograria amar os pais como eles 
mereciam.
   Pensa em Olvia. Ela dera-lhe tudo quanto uma mulher pode dar ao homem que ama. Como ele fora insensato! Tivera nas mos um tesouro fantstico e - nscio! - jogara-o 
fora. Levara anos para compreender Olvia. O desejo de sucesso, a preocupao de olhar para si mesmo, tornavam-no cego a tudo quanto a rodeava. Ele queria subir. 
A mediocridade sufocava-o. A pobreza cheirava a morte. E a sua carreira tinha sido como um elefante sagrado caminhando sobre um tapete de criaturas humanas, de almas 
que as suas patas brutais esmagavam.
   Agora, todo o seu velho sonho est desfeito em poeira,  como cinza spera que lhe foge por entre os dedos, deixando-lhe na alma um ressaibo amargo.
   No fim de contas, que  ele ao cabo de tanta crueldade, de tanta agitao, de tantos conflitos? Nada. Um homem medocre que, tendo procurado o sucesso atravs 
de um casamento rico, acabou por encontrar nele apenas as mesmas inquietudes e incertezas do tempo de pobreza, a antiga e dolorosa sensao de inferioridade. Hoje, 
ele  simplesmente o marido de Eunice Sintra.
   E Olvia vai morrer... Justamente agora que ele acaba de lhe descobrir a alma, agora que ele procura humanizar-se para se tornar digno dela, para reparar o mal 
que lhe fizera.
   O auto corre. Ainda mais duas horas de viagem. E se Olvia j estiver morta?
   Eugnio desfaz o n da gravata, desabotoa o colarinho.
   Onde est Deus, o Deus de Olvia? Ser que ele insiste em se revelar apenas na forma de um cruel castigo?
   Eugnio olha para fora.
   Um colhereiro de asas cor-de-rosa voa rente ao verde ingnuo de um arrozal.
   
   Era Setembro. Naquela manh de domingo, sentado na soleira do porto do internato, Eugnio sentia como nunca as mudanas que se haviam operado no seu corpo e 
na sua vida, depois que ele completara quinze anos. Sim, no existia a menor dvida: estava a ficar homem. Agora examinava-se com freqncia ao espelho - de longe, 
de perto, de soslaio - com fria de analista obstinado. Achava-se feio e rude, e isso angustiava-o. Deus bem lhe podia ter dado outra fisionomia, j que no lhe 
dera riqueza. Rebentavam-lhe espinhas no rosto, no pescoo, nas costas. Era tambm Primavera no seu pobre corpo de adolescente. O buo apontava forte, sombreando-lhe 
o lbio superior. Uma nuvem de estranheza e de selvagem desconfiana velava-lhe os olhos, que no conseguiam fixar-se por muito tempo no rosto das outras criaturas. 
Andavam quase sempre entrecerrados, eram torvos e davam quelas feies uma expresso quase imbecil.
   Com surda clera Eugnio contemplava a imagem do espelho. Era como se estivesse diante de um inimigo - inimigo perigoso que lhe conhecia todos os segredos, todos 
os pecados, at os mais srdidos e escondidos.
   A voz rouca, descia inesperadamente s notas mais graves, para de repente saltar em guinchos desafinados, voltando quase sem transio para o tom profundo que 
no fim das frases se esfarelava num ronco. Essa era uma das suas maiores fontes de inquietao e de vergonha. Quando tinha de ler na aula algum trecho em voz alta, 
sofria horrores. Os colegas riam-se dele e at os prprios professores s vezes no conseguiam ficar srios. E por isso Eugnio fazia-se mais calado do que era.
   Por que  que tudo nele era feio e desagradvel? - perguntava-se a si mesmo. - Por que  que tudo quanto lhe pertencia era desajeitado e sem graa, desde as pobres 
roupas que o pai lhe fazia at ao corpo que Deus lhe dera?
   Eugnio sentia a nostalgia da beleza. Era talvez por isso que a sua paixo por Miss Margaret, a filha do diretor do colgio, era to grande, to infeliz e desesperanada.
   Sim, pensava Eugnio , ele estava a ficar homem. Sentia como nunca o corpo e agora tratava de descobrir que misteriosa relao podia ter a Primavera com os seus 
desejos e com a sua nsia. lembrou-se de uma cena que se passara em casa, nas ltimas frias. A me queixara-se ao Dr. Seixas: "Olhe, doutor, eu sinto uma coisa 
aqui, no fgado. No  bem dor,  uma coisa... " E o mdico respondera: "Quando a gente sente algum rgo  porque esse rgo est doente."
   Eugnio sentia os rgos genitais de um modo estranhamente pungente, que era ao mesmo tempo doloroso e agradvel. Eles eram como que o centro da sua vida, atraam-lhe 
quase todos os pensamentos, desviando-os dos outros assuntos. E isso inquietava-o, revoltava-o, porque os sermes do rev. Parker, o Velho Testamento e o mistrio 
com que se cercavam as coisas do sexo estavam berrando que aquela parte do corpo era a fonte dos mais nojentos pecados.
   Aquilo seria natural ou conseqncia de alguma doena? Eugnio tinha malcia suficiente para chegar  concluso de que era natural. Para a maioria dos rapazes 
do internato, os assuntos sexuais no tinham mistrio. Os alunos mais velhos quase todos j conheciam mulheres.
   Quanto a Eugnio, o que ele antes desejava apenas com a curiosidade e com pruridos precoces passara a desejar agora ardentemente com todo o corpo. Era uma tortura. 
Porque a idia do pecado misturava-se com o desejo, tornando-o ainda mais intenso e doloroso. Entre o seu corpo e o objeto de seus sonhos fogosos erguia-se o castigo 
dos professores e, ainda mais assustador, o castigo de Deus. A verdade, porm, era que nada disso conseguia apaziguar os seus apetites. E ele saciava-os solitariamente, 
no silncio do quarto, cheio de medo, de vergonha e de um trmulo e ansiado prazer. Vinham-lhe depois tremendas lutas de conscincia. Os professores faziam circular 
entre os alunos livros de educao sexual, em que havia pavorosas ameaas para os que se entregavam quelas satisfaes solitrias e pecaminosas. A Natureza castigava 
os que transgrediam as suas sbias leis. Eugnio lia e relia as torvas ameaas e j se considerava perdido, a caminho da imbecilidade, incapaz para o estudo e para 
a vida. Consultava o espelho. Via manchas arroxeadas em redor dos olhos. Sentia a cabea umas vezes oca e outras pesada como chumbo. Doam-lhe as costas. A memria 
era fraca. No havia dvida. Os sintomas que o livro dava... Era preciso emendar-se antes que ficasse completamente desgraado. Atufava-se no estudo, fugia das revistas 
onde houvesse gravuras erticas, procurava espantar os pensamentos maus, evitava os colegas que gostavam de conversar obscenidades. S no conseguia era fugir aos 
seus desejos, ao seu corpo.
   E naquela manh ele sentia como nunca esse corpo.
   Ele pulsava por baixo das roupas leves e speras, estava vivo e aos poucos ia-se enchendo de uma fora to grande, to quente e to estranha, que Eugnio tornava 
a achar que era possvel que estivesse mesmo doente.
   Do campo de desportos, onde alguns rapazes batiam bolas, vinham gritos trazidos pelo vento, pelo vento perfumado que arrepiava a pele de Eugnio , que lhe lambia 
o rosto, despertando-lhe pensamentos lbricos.
   Para fugir s imagens pecaminosas, ele pensou em Margaret. O amor que tinha por ela era diferente. Ele queria mesmo que fosse diferente. Amava-a desde o ano anterior. 
Passara trs meses de frias desejando a volta para o internato, pensando na menina, cheio de uma saudade esquisita, que era temperada de esperana, desconfiana, 
temor e suave desespero. Ela nunca chegaria a saber daquele amor... To loura, to delicada, tinha os olhos azuis de boneca, uma vozinha doce, um jeito de figura. 
Sim, de figura. Ele no achava outra comparao, por mais que procurasse. Margaret no era bem real: era uma pintura. Como aquela moa corada dos cartazes do sabonete 
Ross.
   Eugnio suspirou. Encostou a cabea ao pilar do porto e fugiu olhando o Cu. Margaret estava to longe dele como aquele corvo que voava l perto das nuvens. 
Ele era feio. Ela era delicada. Ele era bruto. Ela era pura. Ele era um porco.
   Eugnio arrancou do cho uma lmina de capim e mordeu-a com fria. Por que lhe vinha de repente uma vontade frentica de morder as rvores, morder as folhas, 
morder a carne das prprias mos?
   Um rapaz de cales brancos e curtos e camiseta vermelha passou correndo naquele instante.
   - Vamos bater bola, Genoca? - gritou.
   Continuou a correr, sem esperar resposta.
   Eugnio pensava ainda em Margaret. Aquele amor secreto era a melhor coisa da sua vida. Tinha um gosto de romance. Um romance que ele escrevia com a imaginao, 
com o desejo, j que a vida se recusava a dar-lhe um romance de verdade. No silncio de certas noites, quando o luar lhe entrava pela janela do quarto, ele pensava 
em Margaret, estendido na cama, de olhos fechados. Imaginava um encontro noturno, debaixo das rvores do jardim. Nessas conversas ele perdia a timidez, era como 
se a luz da Lua conseguisse limpar-lhe o rosto das espinhas e a alma dos pecados, era como se o luar fizesse at o milagre de lhe dar uma voz agradvel, parelha 
e mscula. Os dois ficavam a contemplar-se em silncio. Os cabelos dela pareciam de prata. Os dele, de bronze. Um organista misterioso tocava msicas muito doces 
na capela. Margaret contava-lhe histrias do tempo em que a sua famlia morava na China, onde seu pai fora missionrio. Em troca, ele descrevia-lhe sonhos, planos 
de vida. Pretendia estudar cada vez mais e um dia havia de se formar em engenharia. Engenharia? No. Medicina. Seria mdico, para curar o pai daquela doena do peito, 
para ajudar os pobres, como o Dr. Seixas. Ficaria famoso e rico. Deixaria de ser simplesmente o Genoca, para se transformar no Dr. Eugnio Fontes. Os outros haviam 
de respeit-lo, de tirar o chapu para ele na rua. - Como passa, doutor?
   - Depois, ele viria num dia de Sol pedir a mo de Margaret.
   O prprio rev. Parker os casaria na capela do colgio. Depois, os noivos sairiam de brao dado pela alameda de pltanos que vai desde a porta da igreja at o 
porto central. Seria Primavera, ameixeiras e pessegueiros cobertos de flores. L se vo os noivos muito juntinhos, por entre alas de rvores e gente. Que cochichos 
so esses? "Quem  a noiva, comadre?" "No sabe?  miss Margaret Parker." - "E o rapago?" - " o Dr. Fontes, um mdico que salvou a famlia, est muito rico, tem 
fama."
   Mas de repente todo o sonho desaparecia e l estava apenas o quarto todo nu do internato, as camas de ferro, o lavatrio, a mesinha de pau, a mala e aquele cheiro 
ativo de leo de linhaa. A poucos passos dele, Mrio, o companheiro de quarto, dormia tranqilamente.
   Eugnio nunca sentira tanto as mudanas do seu corpo, da sua vida, como naquela manh. Que era que esperava ali sentado? Nem ele mesmo sabia com certeza. Talvez 
esperasse o fim do culto em lngua inglesa que se estava realizando na capela. Porque Margaret achava-se l dentro. Com grande alvoroo, ele vira-a entrar, toda 
de azul, levando nas mos o chapu de palha amarela, de abas enormes e bambas. Eugnio imaginava-a naquele instante junto do rgo. Pela roscea tricolor do fundo 
da capela de certo se coava a luz do Sol, que pintava reflexos de ouro nos cabelos de Margaret...
   Os sinos comearam a tocar. O som musical enchia o ar, parecendo aumentar-lhe a luminosidade. Eugnio passou a sentir aqueles sons com todo o corpo. Estremecia 
e ficava vibrando a cada badalada. Lembrava-se de outros sinos, de outras igrejas, em outros tempos. Viu e ouviu mentalmente a sineta do seu primeiro colgio. Sentiu 
na memria os ecos tristes daqueles mesmos sinos que dobraram a finados no dia em que morrera de tifo um dos alunos do colgio. De repente, teve vontade de chorar. 
Os sinos traziam-lhe tantas recordaes... O pai contava que tinha sido sacristo. Quando criana, o padre mandava-o puxar a corda de um velho sino rouco. A me 
cantava uma cantiga tristonha e arrastada que falava nos sinos da tarde. Sino. Incndio. Procisso. Missa. Enterro.
   Era alegria o desespero que ele sentia? Eugnio apertava os lbios, fechava os olhos. Os sinos estavam nos seus ouvidos, na sua memria, na sua epiderme, nos 
seus nervos.
   - De certo eu estou doente - murmurou.
   Um automvel parou em frente do porto. Desceram dele uma mulher e um homem. Eugnio abriu os olhos e num relance percebeu que ambos eram louros e magros, estavam 
vestidos de claro e deviam ser ingleses. Por um segundo vislumbrou o rosto avermelhado e sorridente da mulher, iluminado de Sol e projetado contra o fundo azul do 
Cu. O casal caminhou para o porto. Num gesto automtico o rapaz ergueu-se. E, quando os desconhecidos passaram, ele teve a estranha impresso de que era um mendigo 
 porta de uma igreja e que o homem ia jogar-lhe um nquel no chapu. Ao pensar nisso, corou. Por que era que se sentia to inferior diante daquela gente? Talvez 
porque eles passavam sem lhe dar ateno, como se ele fosse uma pedra, uma formiga, um graveto.
   Eugnio tornou a sentar-se. O casal atravessava a alameda, na direo da capela.
   Em breve um bando de homens e mulheres se aproximou do porto. Vinham todos conversando animadamente em ingls. Eugnio viu uma confuso de rostos claros, tostados, 
cabelos esvoaantes, ruivos, brancos, bronzeados, louros. Tornou a levantar-se e teve vontade de fugir. Sentia-se mal na presena daquela gente. E no entanto admirava-as. 
Elas tinham tudo quanto ele sonhava, tudo quanto ele no tinha: personalidade, um belo fsico, roupas limpas e elegantes, dinheiro, posio.
   O bando passou. Eugnio sentou-se de novo. Os sinos calaram-se. Uma nuvem que se erguera por detrs do morro j estava no Cu alto, esgarava-se, levada pelo 
vento. O arvoredo farfalhava. Devia ser assim o som do mar nos dias de calmaria. Eugnio tinha saudade do mar, que na realidade nunca vira. Do mar... Margaret. Pensou 
em levantar-se e ir at  porta da igreja para a ouvir cantar. Ela era a solista do coro.
   Voltou a cabea para o lado, atrado por um latido. Viu um homem alto, ruivo, com casaco cor de charuto e calas de flanela creme. Trazia um co preso por uma 
corrente prateada. Atravessou o porto, apressado. Deu dois passos. Voltou-se:
   - Eh, rapaz! - gritou.
   Eugnio ergueu-se e caminhou para ele. O desconhecido estendeu a mo com a corrente.
   - Segura este cachorro.
   Falou em tom autoritrio e seco. Eugnio obedeceu sem refletir. O homem fez meia volta e dirigiu-se em passadas largas para a capela.
   O co pulava e latia desesperadamente, puxando a corrente e esforando-se por seguir o dono. Eugnio olhava para o animal com ar estpido. O corao batia-lhe 
mais forte. O rosto estava em fogo. Tudo aquilo se passara com tanta rapidez que ele no tivera a menor hesitao. Obedecera. Era uma vergonha. Um desaforo. Olhou 
com dio para o homem de casaco marrom e calas de flanela creme, que entrava agora na igreja. Segura este cachorro! Como se ele fosse um criado, uma coisa sem dono. 
O seu sentimento de humilhao era to grande, to fundo, que ele sentia desejos de se esconder. Procurou com os olhos um refgio. Achou-o entre uma das grandes 
colunas do prtico e o corpo do edifcio. Dirigiu-se para l e sentou-se no degrau de granito. Os seus pensamentos eram um tumulto. Ele e o cachorro - as duas figuras 
centrais do Mundo naquele momento. O cachorro era mais bonito, mais bem cuidado e mais feliz do que ele. Eugnio Fontes, menos do que um cachorro. Gente pobre. Vida 
de cachorro. Meu pai e eu: olhos de cachorro. Cachorro escorraado. Os ingleses pensam que ns somos cachorros. (Lera histrias da guerra no Transval. Autores que 
diziam que os ingleses acham que Deus ps no Mundo os outros homens s para lhes servirem de criados. Os ingleses e os americanos - ele sabia - tinham horror ao 
negro). Ele fora tratado como um negro. No era ningum. Valia menos do que as formigas que caminhavam ali em cima das lajes, carregando folhas e gravetos, menos 
do que as formigas que o cachorro do ingls agora procurava lamber com a sua lngua mida e vermelha.
   Encolhido naquele canto, segurando a corrente, Eugnio ficou pensando na sua situao no internato. Se podia dar-se ao luxo de freqentar um colgio de primeira 
classe era porque a me pagava a penso e ensino lavando toda a roupa branca do Columbia College. Todas as segundas-feiras o pobre ngelo vinha conferir o rol na 
sala da rouparia, em companhia da ecnoma. Eugnio escondia-se nessas ocasies para no ver o pai atravessar o jardim, muito humilde, sorrindo servil para as pessoas 
que encontrava, para os professores que mal o cumprimentavam e para os alunos que riam dele e s vezes o troavam - troa que o pobre homem tolerava com um sorriso 
de pacincia, com ar de quem no fim de contas ainda tinha desculpas a pedir. Um dia, passando pela frente da janela aberta da rouparia, Eugnio ouvira a voz autoritria 
da ecnoma dizer: "lenis, 65"; e a voz apagada e macia do pai responder: "confere". Ficaria com essa palavra nos ouvidos por muitos dias. Atravs dela, via toda 
a vida de servilismo do pai. Confere. Mesmo que o nmero de lenis estivesse errado ele no teria coragem de protestar. Confere. Sempre concordava com tudo. Resignava-se. 
E a sua resignao causava pena a Eugnio e ao mesmo tempo dava-lhe raiva. Raiva, porque por causa dessa falta de energia o pai falhara na vida. Devia ter dado aos 
filhos um nome, uma situao cmoda e decente no Mundo. Preferia, contudo, continuar a dizer "confere", com ar inferior, sem coragem para a luta.
   
   Eugnio olhava sombrio para o co. Sentiu mpetos de dar-lhe um pontap, de mat-lo. Mas arrependeu-se desse pensamento. Devia estar doente para pensar aquelas 
coisas. Veio-lhe uma ternura morna e o olhar que em seguida lanou ao animal foi de piedade.
   Enfim, no podia fugir  realidade. Era um pobre diabo. Os outros rapazes sabiam da sua situao. Eugnio sentia um certo elemento de desprezo na maneira como 
a maioria dos colegas o tratava.
   Nos desportos, ele revelara-se um fracasso. Fora experimentado no primeiro team de futebol. Mostrara-se um mau jogador, sem nenhum mpeto agressivo, preocupado 
demais em no machucar, no ferir. E os outros interpretavam mal essa atitude. E classificavam logo: "Genoca  um galinha".
   No andava metido em grupos, no acompanhava o bando que todos os dias, depois de cada refeio, se reunia atrs do pavilho das aulas para fumar cigarros e conversar 
imoralidades. Por isso todos lhe chamavam maricas. Eugnio esforava-se por entrar na alegria berrante das horas de recreio, dos bailes que os rapazes improvisavam 
no grande salo de ginstica. Era intil. Um dia gritara no meio da balbrdia. E ficara o resto do tempo a ouvir o eco interior da prpria voz, naquele grito sem 
graa, sem alegria, sem espontaneidade, sem juventude. Envergonhara-se de si prprio.
   Por outro lado, via como os rapazes do quinto ano procuravam a companhia de Margaret. Eram convidados para chs semanais e almoos mensais em casa do diretor. 
S por imagin-los em redor da mesa, a pouca distncia de Margaret, Eugnio sofria. Os alunos do quinto ano eram mais velhos do que ele, alguns eram rapages bonitos, 
todos sabiam conversar com uma jovem, vestiam-se com uma elegncia simples e natural.
   
   Eugnio no tinha outro remdio seno procurar compensao nos livros. Estudava muito, distinguia-se na sua classe, ocupava os primeiros lugares. Isso valia-lhe 
novas inimizades e essas inimizades empurravam-no cada vez mais para a solido. A sua alma sensitiva registrava com exagerada preciso os assaltos do mundo exterior, 
ressentia com aguda sensibilidade os golpes que os outros, deliberada ou inadvertidamente, lhe dirigiam. Ia ficando com uma viso deformada do Mundo. As humilhaes 
a que o submetiam como que se lhe incrustavam na personalidade, aleijando-a.
   Aquela corrente queimava-lhe a mo. Se, saindo da igreja naquele instante, Margaret o visse ali, com o cachorro, ele morreria de vergonha. Se os rapazes o descobrissem, 
haviam de dar-lhe uma vaia. Por que era to covarde? Por que no largava o animal, mandando o ingls para o diabo?
   Eugnio ergueu-se de inopino e saiu a caminhar apressado. Foi esconder-se debaixo das rvores do parque, atrs do grande pavilho do internato. Havia ali uma 
sombra fresca e azulada. Quando o sino soasse de novo, anunciando o fim do culto, ele erguer-se-ia para entregar o cachorro quele sujeito idoso.
   Sentado ao p de um pltano, com as costas e a cabea apoiadas no tronco duro, Eugnio procurava tranqilidade, lutava pela paz. Queria ser tranqilo e feliz 
como os outros. Porque no conseguia? Era aleijado? Era acaso diferente dos mais rapazes?
   O vento agitava as folhas dos pltanos. Eugnio sentiu cair-lhe na cabea, no rosto e nas mos um p verde, de cheiro acre e excitante. Sorveu o ar perfumado 
e sentiu que tambm respirava seiva. Pensou numa mulher nua. Um calor perturbador percorreu-lhe o corpo. Porque era que as rvores, o vento, a paisagem toda lhe 
sugeria aqueles pensamentos? Que era que a Primavera tinha a ver com os seus desejos? No lhe bastavam j as outras preocupaes? Aquela poeira verde e finssima 
decerto caa das folhas dos pltanos. Pensou em plen. Viu mentalmente o professor de Botnica, com o lpis na mo, os culos brilhando. "Estudaremos hoje a fecundao 
a distncia". Sim, ele estava respirando plen. Os pssaros que beijam as flores trazem plen no bico. O plen tambm  levado pelo vento. Se ele fosse flor, agora 
ficaria grvido. Odiou esse pensamento. Mas no pde fugir de pensar em gravidez. Na sua mente apareceu a imagem da me com o ventre inchado, a gravidez do seu terceiro 
filho, que nascera morto. Lembrava-se de t-la visto grvida, antes mesmo de compreender com clareza como nasciam as crianas. Depois uma outra imagem apagou a primeira. 
Margaret grvida. Horroroso! Como podia pensar em tais coisas? O rosto crispou-se-lhe numa careta: reflexo fsico daquele pensamento monstruoso. E ento, pela primeira 
vez, dolorosamente, ele desejou Margaret com a carne. Era uma revelao. O corao comeou a pulsar-lhe mais forte. O foco central da sua vida de repente crescia, 
latejante, e tornava-se o centro do mesmo Universo.
   A culpa era da Primavera - explicava ele para si mesmo. As rvores rebentavam em brotos verdes. O vento levantava o vestido de uma mulher que ia passando l longe, 
na estrada. Eugnio odiou a Natureza. Ela no tinha pudor de amar assim abertamente, de gritar os seus pensamentos libidinosos em plena luz do Sol. Procurou afastar 
dela a ateno, como quem desvia o olhar de uma gravura obscena.
   Mas o seu corpo continuava ali, palpitando.
   Devo estar doente - pensou.
   O cachorro latia para um gato preto que caminhava no telhado da casa do diretor. ..
   Eugnio acordou no meio da noite. Passando da escurido de um sono sem sonhos para a escurido do quarto - nos primeiros segundos ele foi apenas uma criatura 
sem memria. Era ainda o atordoamento do sono que lhe enevoava as idias, que lhe dava aquela sensao aflitiva e confusa que devia ser parecida com a da loucura. 
Durante alguns instantes, ele s teve conscincia daquela angstia, daquela nsia, daquela presso no peito, de um formigueiro no corpo e do desejo de luz e de ar. 
Era uma impresso de fim-de-mundo. E ali, na sua cama, deitado de costas, Eugnio procurava vencer a escurido, a nvoa, e a angstia. Durante rpidos segundos, 
perguntou-se a si prprio quem era e aonde estava. Estendeu um brao. Sentiu nas costas da mo o contacto frio do ferro da cama. Aos poucos ia compreendendo... Estava 
no seu quarto do Columbia College. Quanto tempo dormira? Horas ou minutos? Lembrava-se vagamente de uma conversa que tivera com Mrio, antes de se deitar.
   Ouvia o gemido do vento. Isso aumentava-lhe a aflio. Sentia no corpo a tempestade que l fora estava prestes a desabar. Era sempre assim. Acordava de repente, 
como que sacudido por um misterioso aviso. Depois vinha aquele desejo formigante de saltar da cama, de acordar os companheiros, pedir luz aos berros, abrir as janelas 
e respirar todo o ar que houvesse no Mundo.
   
   Com um gesto cego e quase desesperado atirou longe as cobertas, porque era sufocante o calor que lhe percorria o corpo.
   Que fazer? Pensou em chamar o companheiro. Intil. Mrio no acordaria. Se acordasse era para lhe dizer um nome feio e cair de novo no sono.
   Se ao menos o vento parasse... O vento era o que lhe fazia mais mal. No. O pior era a falta de ar. Desabotoou o casaco do pijama com to brutal sofreguido que 
um dos botes, arrancado, saltou longe, caiu no cho com um rudo seco.
   Eugnio remexeu-se na cama. Deitou-se de bruos, apertou o corao contra o travesseiro, cerrou os punhos. Sentiu-se um pouco melhor assim. Devia sofrer do corao. 
No podia ser natural o que sentia. Como era que os outros dormiam em noite de tempestade?
   O sono parecia vir. Eugnio cochilou. E, de repente, sem saber como, estava de novo acordado, a perguntar a si mesmo se tinha dormido ou no. A aflio voltou-lhe 
muito mais forte.
   O vento soprava com fria e ele como que via o vento lanando o desespero na noite. O calor parecia ficar mais opressivo  medida que o tempo passava. De sbito, 
Eugnio teve a impresso perfeita de que via os relmpagos l fora. Via-os, apesar da escurido do quarto e das janelas fechadas.
   Ia morrer asfixiado. Desde que lera uma certa histria, ficara com o pavor de ser entaipado vivo. No enterro de um colega, no ano anterior, vira com horror meterem 
o caixo numa carneira. Pobre do Eduardo! Sem ar, no escuro, sozinho e para sempre. Os entaipados do cemitrio de certo ouviam o uivo do vento nas noites de tempestade.
   - E agora ele tambm estava entaipado. Se no abrisse a janela, morreria...
   Saltou da cama, caminhou na direo do companheiro e procurou-o s apalpadelas. Sacudiu-o de leve.
   - Mrio... Mrio...
   O outro mexeu-se.
   Depois de um instante resmungou:
   - Hum...
   - Sou eu... o Eugnio ...
   - Que ?
   Aquela voz era um consolo, um socorro, uma esperana. Eugnio sentiu os olhos midos. E foi num tom de misria que suplicou:
   - No te importas que eu abra a janela?
   Ouviu o rudo da cama, sentiu que o outro se voltava para a parede. Mrio tornava a mergulhar no sono. Era bom no ter corao. Ele sentiria inveja do outro se 
no estivesse apavorado. Apavorado porque de novo ia ficar sozinho. Eugnio fazia um esforo desesperado para se chamar  razo, para se convencer a si mesmo de 
que no havia nada de anormal. Tinha a experincia de outras ocasies semelhantes. No dia seguinte, de manh, riria das aflies da noite. O Mundo no ia acabar. 
E no dormitrio havia ar suficiente para todos os alunos respirarem a noite inteira. Ele no estava entaipado. Essa idia era absurda, maluca. Sim, maluca... Podia 
ficar louco. Tinha medo de enlouquecer. Se o vento no parasse, ele enlouqueceria. Se no conseguisse luz e ar, era capaz de sair correndo aos gritos pelo corredor, 
na direo da escada, da porta, do ar livre...
   Deu dois passos, procurando a janela. E de repente achou-se perdido na escurido. No sabia j onde ficava a sua cama, onde estava a cama de Mrio, a porta, a 
janela. Ajoelhou-se, encostou as palmas das mos ao soalho e comeou a engatinhar devagarinho. O vago sentimento de ridculo daquela posio misturava-se com a aflio 
de estar desorientado, com a nsia de achar a janela. E sempre o vento. As batidas do corao. O formigueiro ardente no corpo.
   A mo de Eugnio encontrou um objeto duro e frio. Pelo tacto, ele sentiu-lhe a forma: era o lavatrio de ferro. A janela devia estar perto! Moveu-se mais alguns 
palmos para a frente. E com alegria encontrou a parede e, erguendo-se, a janela. Abriu-a com fria. A vidraa de guilhotina estava descida. L fora a escurido era 
densa. Mas a luz suja e m de um relmpago trespassou a treva e num relance Eugnio viu o vulto dos morros. Era como se o Mundo no existisse e de repente aquela 
luz mgica e rpida criasse toda uma paisagem. Mas era uma paisagem de mistrio e horror. Eugnio teve a impresso de que as montanhas tambm estavam aflitas, sofriam. 
Nem l fora havia salvao. Outro relmpago. Eugnio vislumbrou o Cu de ardsia, as nuvens carregadas. Elas entaipavam o Mundo. Eugnio pensou em erguer a vidraa, 
para que o vento lhe refrescasse o rosto, as mos, o corpo e o corao. Teve medo. Porque agora tudo ia ser pior, j que no Mundo no encontrava socorro. Oh! Se 
chovesse, se as nuvens se despejassem, aquela presso, aquele peso, aquela aflio, deixar-lhe-iam em paz o pobre corpo cansado. Ele poderia dormir. Como era bom 
dormir!
   Voltou correndo para a cama e afundou a cabea no travesseiro. De instante a instante, relmpagos clareavam o quarto. Eugnio desejava que a manh viesse, que 
a sineta soasse, que os outros alunos acordassem, para ele ter a certeza de que estava vivo, de que estava salvo.
   Sobressaltou-se. Algum tinha falado. Ouvia uma voz humana. Suspendeu a respirao. No ousava abrir os olhos. Outra vez a voz.
   -  Genoca... Genoca...
   Era Mrio. Eugnio voltou-se para o lado. Um relmpago alumiou o quarto e  luz lvida ele viu o companheiro sentado na cama.
   - Vai fechar a janela - pedia ele.
   Eugnio ficou onde estava, imvel, sem falar.
   - Fecha essa droga!
   Mrio saltou da cama. Eugnio ouviu o rudo macio e surdo de ps descalos no cho. Depois, a batida da janela. O seu mal-estar aumentou. Outra vez a escurido. 
Eugnio chamava a si pensamentos agradveis. Pensou em Margaret, como um marinheiro em meio da tempestade no alto mar pensaria na santa padroeira do navio. Sentiu 
que o sono lhe doa nas plpebras. Apertou o corao contra o colcho, viu-se de brao dado com Margaret, passeando na alameda dos pltanos. Eles caminhavam, caminhavam, 
a alameda no terminava mais, era uma perspectiva sem fim, os dois vultos iam ficando cada vez mais pequenos, mais pequenos...
   Dormiu. Quanto tempo? Despertou de repente e verificou angustiado que ainda no havia amanhecido. Teve vontade de saber que horas eram. No ouvia j o sussurro 
do vento. O calor aumentara, a aflio voltava.
   Precisava de luz. Ergueu-se, foi at  cama do companheiro. Sacudiu-o.
   - Mrio. . .
   - an...
   - Tens uma vela?
   Pausa. Ronco de impacincia. E depois:
   - Tenho. Na gaveta da mesa. Fsforos tambm. Mas que  que tu tens?
   Eugnio no respondeu. Procurou a mesa s apalpadelas, abriu a gaveta, tirou a vela, os fsforos, acendeu o pavio.
   - Cuidado com essa vela. . . - avisou Mrio.
   Eugnio sentou-se  mesa, pegou numa revista, abriu-a e p-la de p atrs da vela, procurando impedir que a luz desta fosse visvel por cima da meia parede que 
dava para o corredor. Ficou olhando idiotamente para a chama amarela e para as pginas da revista. Pensamentos confusos. Plpebras pesadas. Se ao menos o sono viesse... 
Felizmente o vento tinha parado. Abriu um livro. Elementos de Fsica. "Denomina-se ar atmosfrico ou simplesmente ar. .. " E de repente um estrondo formidvel rasgou 
a noite, sacudiu o edifcio, seguido de um trovo que ficou ribombando longamente. Raio - pensou Eugnio. E no automatismo do medo comeou a murmurar uma orao 
que h muito havia esquecido. Viu a me no meio da casa murmurando: " Santa Brbara, S. Jernimo... ".
   Mrio estava sentado na cama, com os ps para fora. E, quando o estrondo do trovo morreu ao longe, num vago rolar abafado, esforando-se por parecer corajoso, 
ele murmurou:
   - Que venha o Mundo abaixo! - E na sua voz notava-se um leve tremor.
   Eugnio olhava para o relgio, ouvia agora no silncio o seu tique-taque ritmado. O ponteiro dos segundos andava  roda; mas como era lenta, como era invisvel 
a marcha do ponteiro maior!
   Se ao menos chovesse! A atmosfera ficaria mais descarregada, mais...
   De sbito, ouviu-se um brutal estalo, como o de um gigantesco chicote de metal, seguido do estrondo da trovoada. Os dois rapazes entreolharam-se. Mrio forou 
um sorriso. Eugnio apenas olhava. Agora lembrava-se do Eugnio de seis anos explicando a causa do trovo a Ernesto. "To de mudana l no Cu. S. Pedro est arrastando 
o mvel.. . "
   Quando a trovoada cessou, eles ouviram um desesperado grito humano. Suspenderam a respirao por um instante. Consultaram-se com os olhos. O grito tinha partido 
do prprio dormitrio. Grito de assassinado, grito de pavor. Mrio soprou a vela num gesto de defesa. E, no escuro, os dois ficaram escutando...
   - De certo  o Pancada - sussurrou Mrio.
   Sim, devia ser Mr. Tearle. Era o professor mais moo e mais novo no Colgio. Viera dos Estados Unidos havia menos de um ano e trouxera consigo a marca da Guerra. 
Fora para a Europa com as primeiras tropas americanas: voltara das trincheiras com os nervos estralhaados. Por intermdio de um membro da Igreja Episcopal, que 
havia sido companheiro de Universidade de seu pai, conseguira aquele lugar no Columbia College. Tinha-se esperana de que o tempo e a tranqilidade da vida num pas 
de paz e bom clima curassem o rapaz.
   Mas ali, no internato, Mr. Tearle constitua um objeto de ridculo. Era a primeira vez que os alunos viam um resto de carne para canho. No compreendiam... Todos 
achavam graa e nenhum se lembrava de ter pena daquela criatura envelhecida antes dos trinta, daquele homem desarvorado que no encontrava sossego, que tinha gestos 
bruscos, que costumava caminhar s e sem rumo, com ar de louco, e que, s vezes, sonhando ningum sabia com qu, soltava berros no meio da noite. Freqentes vezes 
o apanhavam falando sozinho em ingls. E uma noite em que lhe cabia fiscalizar o estudo, no podendo conter o zunzum das conversas, com os olhos chispando e a boca 
crispada num sorriso de dio, Mr. Tearle tirou da cintura um revlver, p-lo com uma nervosa calma em cima da mesa, dizendo por entre dentes: "Ao primeiro que comear 
falando eu meto uma bala na cabea! " Depois destas palavras, fez-se um silncio de morte. Um dos alunos mais velhos queixou-se mais tarde ao diretor. Mr. Tearle 
foi chamado  ordem e o caso deu motivo a que o rev. Parker viesse, com o seu jeito bondoso, explicar que Mr. Tearle estava doente, era um caso de shell-shock. Os 
rapazes deviam ter pacincia, como bons cristos, fazer as vezes de enfermeiros, ajudar a cura do pobre jovem. Citou trechos da Bblia, invocou  o esprito de Jesus, 
anatematizou a guerra e terminou afirmando a sua absoluta confiana nos rapazes do Columbia College.
   Quando o diretor se calou, os alunos romperam em aplausos.
   Mas, dois dias depois, no estudo da manh, um dos rapazes do curso mdio fez estourar na palma da mo um sobrescrito cheio de ar. Pof! Mr. Tearle, que estava 
 mesa, em cima do estrado, deu um pulo e ficou de p, com uma cara de desvairado. Nos seus olhos havia, primeiro, pavor e, depois, dio. Era um homem alto e forte. 
Estava meio inclinado para a frente, com as grandes mos segurando as bordas da mesa, os ombros encolhidos e a cabea um pouco afundada no meio deles. Parecia um 
orangotango. Ofegava como uma fera mal ferida. Ficou assim vrios segundos. Depois, comeou a bater com os punhos fechados na mesa, gritando: "Buros! Buros! Buros! 
" Falava com os lbios apertados, pronunciava um u fechado que quase soava como um e. "Buros! Buros! Buros! " A mesa estremecia, os alunos mantinham-se em silncio. 
Ao cabo de alguns segundos, Mr. Tearle caiu em grande prostrao. Sentou-se, passou a mo pela cabea, soltou u m suspiro e disse: sorry, boys! Enrugou a testa e 
continuou a ler como se nada tivesse acontecido.
   
   Eugnio e Mrio aproximaram-se da porta. Sim, era o "Pancada". Era quase sempre assim nas noites de trovoada. De certo ele lembrava-se da guerra, imaginava-se 
entocado na trincheira, imobilizado pelo bombardeio.
   Rudo de passos no corredor. Passos que se aproximavam. Com o rosto quase colado  porta, os dois rapazes sentiram Mr. Tearle passar. Ficaram horrorizados ao 
ouvir a respirao dele, que parecia o resfolegar de uma fera acossada, quase um gemido de estertor. Os passos afastaram-se, tornaram-se mais rpidos na escada. 
Curto silncio. Depois, a batida da porta.
   Mrio atravessou o quarto e abriu a janela.
   - Venha ver, Genoca.
   Eugnio foi. Olhou para baixo, por cima do ombro do amigo.
   - Onde?
   - Perto do porto.
   Quando o primeiro relmpago clareou a noite, Eugnio viu Mr. Tearle abrindo o porto. Outro claro. Eugnio avistou o homem atravessando a rua. Novo relmpago. 
Mr. Tearle corria na direo do campo de desportos. Com a imaginao, Eugnio viu o professor fardado como um soldado americano (lembrou-se de fitas de guerra), 
viu-lhe o capacete rebrilhar  luz dos relmpagos. Mr. Tearle corria de baioneta calada. Era a ltima carga. Ele ia, sozinho, correndo pelo campo. De certo investia 
contra a trovoada, contra a tempestade.
   - Tomara que um raio caia na cabea desse estupor... - disse Mrio.
   Eugnio ficou calado. Gostava de Mr. Tearle. Tinha pena dele. Era dos poucos amigos que o americano tinha entre os estudantes. Eugnio via nele uma espcie de 
aliado. Mr. Tearle no era tambm um humilhado? No internato, os outros mal o toleravam. No estava ali por favor? No era um solitrio? Tudo isso o aproximava do 
estrangeiro. Mr. Tearle no levou muito tempo a compreender a simpatia do rapaz. Retribua fazendo-lhe confidncias. E, numa noite de profunda depresso, sentado 
nos degraus do prtico do edifcio, contara-lhe o "seu segredo". Sentia-se perdido. Havia uma coisa que no podia esquecer. Tinha na vida um fantasma que o perseguia 
por toda a parte, at quando ele dormia. Era a imagem do alemo que ele matara. Sim, devia ter morto muitos, de longe, sem ver. Mas aquele tinha sido diferente. 
Numa carga de baioneta. . .
   Na noite em que revelou o seu segredo, Mr. Tearle apanhou no quarto o cachimbo e uma lata de tabaco. Preparava-se para a viglia. A noite passada, o homem que 
ele "assassinara" aparecera-lhe em sonhos. Agora ele estava com medo de dormir.
   Pretendia passar a noite caminhando e fumando.
   Um corisco rasgou o Cu. E,  luz de um relmpago, Eugnio procurou o vulto do americano.
   Naquele momento a chuva desabou. Comeou a cair em pingos grossos, que se esborrachavam na vidraa. Eugnio esqueceu o "Pancada" e ficou ouvindo a msica macia 
da chuva. Aos poucos, uma sensao de alvio e bem-estar invadiu-lhe o corpo. Estendeu-se na cama pensando em Margaret. Sentia-se a seu lado. Adormeceu beijando-lhe 
os cabelos.
   A chuva era fresca e boa como a sua amada.
   
   Quem primeiro encontrou o cadver no outro dia foi o preto Bernardo, jardineiro do colgio. O corpo de Mr. Tearle estava estendido de borco, no meio do campo, 
completamente encharcado e frio. O revlver, com uma detonada, achava-se perto da mo direita do suicida. A bala tinha-lhe atravessado o peito, e o mdico que examinou 
o cadver declarou que a morte devia ter sido instantnea.
   O colgio agitou-se naquele dia. O rev. Parker estava aniquilado.
   Aquele suicdio! Alm de ser em si um ato horrvel, contrrio s leis divinas, podia tambm de certo modo manchar a reputao do colgio.
   O corpo de Mark Tearle foi velado no salo nobre do Columbia College.
   Eugnio viu entaiparem Mr. Tearle numa carreira do cemitrio. Teve a estranha impresso de que nem ali ele encontraria paz, nas noites em que c fora a trovoada 
estalasse, lembrando os bombardeios da guerra.
   E, nos meses que se seguiram, muitas noites o fantasma de Mr. Tearle apareceu nos sonhos de Eugnio .
   
   Eugnio olha a paisagem. Montes de feno  beira da estrada. Montanhas azulando ao longe. Lagoa. Plantao de eucaliptos. Bungalow cor-de-rosa, mulher  janela, 
homem no jardim, pijama listrado, chapu de palha, regando as flores. Tudo rpido, fugindo...
   Eugnio pensa nas suas relaes com Eunice. Ao cabo de pouco mais de trs anos de vida matrimonial, descobriram o grave erro que haviam cometido. No tm nada 
de comum. Ele vira nela a sua carreira, a oportunidade de fugir da luta sem glria, dos subrbios e do anonimato. No se conformava com a idia de ser mdico de 
gente pobre. Queria ter consultrio num bom edifcio do centro, automvel, muitos livros... Amava o conforto. Buscava a paz. Ansiava por se libertar da pobreza que 
assombrara a vida de toda a sua famlia. No fim de contas, casando com Eunice, no fizera nenhum sacrifcio. Ela era atraente. Ele chegara at a andar iludido por 
algum tempo, julgando am-la. O que lhe parecera amor no passara de curiosidade, de simples desejo animal de posse.
   Passam grandes cartazes de propaganda. Marcos. Um caminho enorme. O auto atravessa uma ponte.
   Eugnio pensa em Olvia. E, ao lado dela, v agora uma criana que lhe sorri. Ana Maria. Como pde passar todo este tempo sem pensar nela?
   - A minha filha... - balbucia ele num desfalecimento, como quem acaba de fazer uma suave descoberta. Se Olvia morrer, que ser de Ana Maria?
   Eugnio passa a mo pelo rosto, que um frio suor inunda.
   
   Quando naquela tarde, ao sair da Faculdade de Medicina, o Alcibades se aproximou dele e lhe tomou o brao com intimidade, Eugnio sentiu um grande contentamento. 
Orgulhava-se da amizade de Alcibades, um dos rapazes mais admirados e invejados da turma. Era filho do secretrio do Interior, tinha automvel, cavalos de corrida 
e quarenta gravatas notabilssimas.
   - Temos que ir a p hoje, bicho - disse Alcibades. - O meu carro est na oficina. Eu ando mas  com vontade de pedir uns cobres ao velho para comprar um Cadillac 
modelo 1924...
   - Mas o teu ainda est to novo. ..
   Subiram juntos a rua. Eugnio aspirava o perfume que envolvia Alcibades. Era doce, levemente agreste. Devia ser Nuit de Noel e custava - ele sabia - quase cem 
mil ris o frasco.
   - Este segundo ano  uma canja, seu Genoca. Voc viu hoje? A gente ainda pode levar a coisa na flauta. O terceiro  que  duro.
   - O difcil mesmo  entrar para a Faculdade. Depois, a histria no  to feia como dizem...
   Lembrou-se das lutas dos tempos de preparatoriano, das dificuldades em que se vira para pagar a matrcula. Obtivera a muito custo o lugar de reprter policial 
num jornal. Trabalhava at de madrugada. Odiava aquele servio. Pensava noutros colegas pobres, mais felizes que ele, pois tinham conseguido bons empregos pblicos. 
A me dissera-lhe um dia: "Esse teu amigo Alcibades bem podia arrumar-te num emprego. O pai dele no  um manda-chuva?" Realmente, Alcibades, se quisesse, poderia 
arranjar-lhe alguma coisa. Mas Eugnio repelia a idia de pedir. Preferia continuar roendo pedra. Pedir era humilhar-se e ele no queria ser mais humilhado.
   
   Alcibades assobiava baixinho o "Biombo Chins". Era Outono, e Eugnio , no sabia por qu, sentia naquela luz doce da tarde qualquer coisa que lhe lembrava um 
convalescente. A cor do Cu no era parelha nem brilhante: parecia cinza polvilhada de azul desbotado. Era quase violeta a sombra das rvores nas caladas. Os ps 
quebravam folhas secas.
   Continuaram a subir a rua.
   - Vais hoje  sesso do Grmio? - perguntou Alcibades.
   Eugnio ia. Queria ouvir a conferncia do Narciso. - "Se Deus existe, a Cincia o descobrir." No Grmio dos Acadmicos de Medicina havia ateus e catlicos. Travavam-se 
debates. Eugnio inclinava-se para os ateus. Era um deslumbrado da Cincia. Lia Darwin e via em cada homem um macaco. Quando o secretrio do jornal o encarregava 
de fazer reportagens nos subrbios pobres, ele descrevia os seus habitantes como um bando de gorilas que vegetavam no lodo, mal alimentados, mal vestidos, sem higiene, 
sem alegria, sem nada. Deus podia existir? Claro que no. Sendo, como se dizia, a Suma Bondade, no devia permitir a existncia daquela misria, daquela sordidez, 
daquela sub-humanidade. As criaturas das zonas pobres eram animais e no homens. Que artista podia orgulhar-se de ter criado seres tais? O secretrio da redao 
coava a cabea e exclamava: "Mas isto  literatura,  folhetim! Eu quero uma reportagem simples, honesta! " Nas aulas de Anatomia, diante dos cadveres que dissecava, 
o prof. Mota Leme, mostrando a perfeio do corpo humano, pretendia provar com ela a existncia de Deus.
   - Vejam, meus amigos - dizia ele com a sua voz mansa e sibilada. - S uma Inteligncia Superior podia ter criado uma mquina to perfeita como o corpo humano.
   Eugnio escutava com um sorriso de desprezo. Lembrava-se do pai, da pobreza triste da sua casa, dos gorilas das suas reportagens. Ruminava as suas lutas, as suas 
humilhaes, pensava nas desigualdades da vida, nas injustias sociais. Se Deus existia, tinha esquecido o Mundo, como um autor que esquece voluntariamente o livro 
de que se envergonha. No, mas Deus no existia. Ele queria no acreditar em Deus. Alm do mais, achava uma certa beleza no atesmo.
   Mas vinham-lhe momentos de dvida. Era quando lhe parecia vislumbrar Deus atravs das suas impresses de beleza ou de pavor. Quando se comovia ouvindo um trecho 
de boa msica ou lendo uma histria de abnegao; de bondade, ele reconciliava-se com a vida e inclinava-se a aceitar ou, pelo menos, a procurar Deus. Nas noites 
de tempestade, quando lhe voltava a velha aflio, com a cabea tonta de sono e daquele inexplicvel pavor - Eugnio entregava-se a Deus.
   Mal raiava o dia, mal revia o Sol e sentia a volta da calma, Eugnio ria dos pavores da noite. Mas a idia de Deus ainda estava dentro dele, como uma melodia 
longnqua. Lendo a vida de Pasteur, ele comovia-se at s lgrimas. E no compreendia como era que aquele homem excepcional, quanto mais as suas descobertas o levavam 
para o materialismo, mais se aproximava de Deus.
   Fora ainda lendo a histria dos grandes benfeitores da Humanidade que Eugnio decidira estudar medicina. Havia, no entanto, outra razo mais poderosa do que essa. 
Desde menino impressionara-se com o sofrimento do pai e com a figura do Dr. Seixas, um mdico que se sacrificava pelos pobres, que era ele mesmo um pobre, pois aos 
quarenta e vrios anos no tinha automvel, no possua um tosto de seu, vivia crivado de dvidas e atormentado por compromissos de dinheiro desde os tempos de 
estudante. O Dr. Seixas no tinha inventado nenhum soro, no havia descoberto nenhum micrbio, mas era,  sua maneira, um benfeitor da Humanidade. Havia uma grande 
e dramtica beleza na sua vida de renncia. Ficava furioso quando algum dos clientes pobres lhe falava em dinheiro, tornava-se agressivo quando algum lhe queria 
testemunhar gratido. Eugnio admirava-o. Queria ser mdico para seguir os passos do Dr. Seixas e para curar o pai. Assim pensava no tempo dos preparatrios.
   Mas hoje... Hoje via o Mundo com outros olhos. A funo de reprter pusera-o em contacto com a verdadeira misria. A pobreza da sua gente chegava a ser riqueza, 
comparada com a indigncia que agora conhecia. Como lhe era difcil aproximar-se daquelas casinholas ftidas, daquela gente repugnante! Olhava de longe, anotava, 
fazia perguntas apressadas e depois a sua fantasia completava a reportagem. Mas um mdico que se quisesse dedicar aos pobres seria obrigado a botar o dedo naquelas 
feridas, respirar longamente o ar viciado daquelas casas, sentir na cara o hlito pestilento daquela gente. Eugnio j no via beleza na profisso do Dr. Seixas. 
Alm disso, a amizade com Alcibades abria-lhe as portas de um novo mundo. E ele reconhecera nesse mundo o seu clima ideal. A primeira vez que fora  casa do amigo 
chegara a ficar comovido. Como era bom afundar nas poltronas fofas da casa de Alcibades!
   Cho de parquet. Tapetes coloridos. Quadros bonitos. Mveis lavrados, graves, escuros, belos. Alcibades mandara vir ch com sanduches. Ficara depois a mostrar-lhe 
livros raros, encadernaes de luxo, colees de revistas estrangeiras, objetos de arte... Na hora inesquecvel que passara naquela casa, ouvindo sem compreender 
os sonetos que Alcibades lhe lia com voz comovida, Eugnio imaginava-se doutor e rico, dono de uma casa como aquela. Esquecia o pai, a me, o Dr. Seixas, os gorilas 
do sub-mundo... O ambiente em que se encontrava era de tal modo subtil e delicado que no permitia o florescimento de recordaes sombrias. Como Alcibades devia 
ser feliz!
   Olhando para os sapatos velhos e sem lustro, para a roupa de trs anos, com joelheiras e algumas manchas, Eugnio sentiu renascer-lhe a velha sensao de inferioridade. 
E compreendeu mais do que nunca que as atenes que Alcibades lhe dispensava tinham um carter de favor, de esmola. Que encanto ou interesse poderia encontrar nele 
um rapaz rico e adulado que nunca tivera dificuldades na vida? Que era que ele, um pobre diabo, podia oferecer em compensao a uma criatura como aquela, que vivia 
no melhor dos mundos? Qual a razo do convite para a visita? Alcibades mostrara-lhe tudo. O guarda-roupa enorme, cheio de fatiotas, gravatas, chapus. Os perfumes, 
loes e cosmticos do toucador. Os livros. A mquina de escrever. A coleo de moedas... Por que todo esse exibicionismo seno para atorment-lo? Na academia, falava-se 
muito na vaidade de Alcibades...
   Mas agora, subindo a rua ao lado do colega, Eugnio admirava-lhe a roupa, a postura, o perfume, e sentia-se lisonjeado com aquela intimidade.
   - Quero ver se vou a Buenos Aires nas prximas frias. - Imediatamente, sem transio, no mesmo tom de voz: Sabes que vou montar uma garonnire! Estou dando 
em cima de uma pequena e fica sem jeito eu lev-la para um desses rendez-vous vagabundos, tu no achas?
   Sem esperar resposta, continuou a falar. Como Alcibades era ftil e vaidoso! - pensava Eugnio . - S sabia elogiar-se a si mesmo, contar vantagens. Mas era 
inegvel que tinha "boa pinta", como os rapazes diziam, sabia agradar s mulheres e o seu prestgio social era enorme.
   Quando chegaram  Praa Marechal Deodoro, Alcibades apertou mais fortemente o brao de Eugnio .
   - Olha l, o Castanho! - exclamou alegremente, fazendo um sinal com a cabea na direo da calada oposta. - Vamos falar com ele.
   Atravessaram a rua. Eugnio estava comovido. Conhecia na Faculdade a lenda de Aclio Castanho, que estava a terminar o curso de Direito. Era dos alunos mais notveis 
que tinham passado pela academia em todos os tempos. Todos, at os lentes, lhe respeitavam a slida cultura cientfica e literria. Os seus artigos j apareciam 
com sucesso nos jornais. Fora o primeiro a escrever no Rio Grande sobre Albert Einstein. Os rapazes iam at ele para fazer consultas, para pedir conselhos. "- Castanho, 
que  que tu achas desse tal Freud? " - Diz-me uma coisa, Aclio, qual  o livro de Proust por onde a gente deve comear?
   Castanho descendia de uma famlia ilustre e tinha condes e bares no passado. Morava numa velha casa de aspecto senhorial, na cidade alta, e os maliciosos diziam 
que o casaro se dava ao luxo de ter fantasmas de sangue azul e criados de libr. Comentava-se a rgida disciplina moral e mental de Castanho, que era casto e familiar 
dos clssicos. Erguia-se todas as manhs, fazia ginstica e lia Byron ou Keats durante meia hora. Tomava depois um copo de leite e entregava-se a seguir aos clssicos 
gregos. Falava-se num grande ensaio que estava escrevendo sobre a tragdia grega. Entre os estudantes das escolas superiores, o nome de Castanho era pronunciado 
com respeito. Eugnio sempre desejara aproximar-se dele. Se no o fizera antes fora por causa no somente da sua invencvel timidez, como tambm da atitude fria 
e remota do outro. Era por isso que, ao atravessar a rua, ele sentia uma comoo vivssima.
   Alcibades tocou ao de leve nas costas de Aclio Castanho, que voltou a cabea e parou.
   - Ento, Castanho, como vai essa cultura?
   Castanho limitou-se a estender a mo para o outro, com um sorriso polido nos lbios finos. Era um rapaz de estatura mediana, tinha uma testa enorme, um rosto 
plido e de expresso grave e uma corcova bem pronunciada. Vestia-se com discrio e usava bengala.
   - J conhecia o Castanho, Genoca? No?. . Pois este  o grande Aclio Castanho. Naturalmente j ouviste falar... O Eugnio est comigo no segundo ano.
   Eugnio estendeu a mo, balbuciando o nome e sobrenome; o outro deu-lhe a ponta dos dedos finos e frescos, murmurando:
   - Prazer.
   Alcibades tomou-lhe o brao.
   - Aonde vais, Aclio?
   - Vou at s livrarias.
   - Ir s livrarias para ele era cumprir um rito. Adorar os bons livros, uma religio.
   - Vamos descer juntos, ento. Os trs retomaram a marcha. Eugnio sentia-se agora abandonado.
   Alcibades dava toda a sua ateno e os seus abraos ao outro. De repente, tornava-se srio, preocupava-se com a poltica, com a cultura. Instintivamente, Eugnio 
foi ficando para trs. Como um pajem. Sim, ali ele era apenas o pajem. Os outros eram os nobres senhoritos e ele o mordomo. Onde estava a libr? Sentia um esquisito 
e amargo prazer em se diminuir. Mas Aclio voltou-se e fez-lhe uma pergunta:
   - Gosta da Medicina?
   Abriu-se-lhe a porta do paraso. Um pouco corado e confuso, respondeu: - Ah! Gosto muito.
   - Vai dedicar-se  clnica ou  cirurgia?
   - No sei com certeza... Talvez cirurgia.
   Alcibades cortou o dilogo: - Ento, Castanho, quando temos mais um daqueles teus formidveis artigos? O outro murmurou qualquer coisa sobre no ter boa sade. 
Comearam a descer a rua. Alcibades pediu uma definio de felicidade; E Aclio, numa reminiscncia das leituras de Plato daquela manh, respondeu com solene simplicidade: 
- Msica e ginstica. Era o ideal platoniano. Comeou a desenvolver a tese. Eugnio escutava, num deslumbramento. Ali ia ele em companhia do filho do secretrio 
do Interior e do famoso Dr. Aclio Castanho. Em breve estariam na Rua dos Andradas. Ele ia ser visto em companhia dos outros dois. Uma parte do seu ser sentia-se 
contente e lisonjeado a essa idia. Mas dentro do Eugnio feliz agitava-se um Eugnio minsculo, irreverente, figurinha que ria e careteava, fazendo troa do Eugnio 
vaidoso, do Alcibades ftil e do Castanho professoral. Uma sensao de glria e de importncia sufocou no entanto o pequeno demnio, apagando-o. Castanho estava 
ainda na Grcia: - Msica e ginstica - dizia - tanto para o corpo como para o esprito. Eu sinto, meu caro, que devia ter nascido na velha Hlade, para amar Plato 
e ser um dos seus discpulos...
   Eugnio viu um vulto familiar surgir a uma esquina. Teve um desfalecimento. Ele reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil...
   Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no brao. O pai. O pobre ngelo. L vinha ele subindo a rua. Eugnio sentiu no corpo um formigamento quente 
de mal-estar. Desejou - com que ardor, com que desespero! - que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraoso, constrangedor, se ngelo o visse, 
parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcibades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho de um pobre alfaiate que saa para a rua a entregar pessoalmente as roupas 
dos fregueses... Haviam de desprez-lo mais por isso. Eugnio j antecipava o amargor da nova humilhao. Olhou para os lados, pensando na fuga. Inventaria um pretexto, 
pediria desculpas, embarafustaria pela primeira porta de loja que encontrasse. Ouvia a voz baixa e calma de Castanho... o "conceito hegeliano... " Podia entrar naquela 
casa de brinquedos e ficar ali escondido, esperando que ngelo passasse... Hesitou ainda um instante. Quando quis tomar uma resoluo, era tarde demais. ngelo j 
os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto abriu-se num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calada, 
tirou o chapu.
   - Boa tarde, Genoca! - exclamou.
   O orgulho iluminava-lhe o rosto.
   Muito vermelho e perturbado, Eugnio olhava para a frente em silncio, como se no o tivesse visto nem ouvido. Os outros tambm continuavam a caminhar, pois no 
tinham dado pelo gesto do homem.
   A sensao de felicidade, entretanto, desaparecera de Eugnio. Ele sentia-se culpado. O que acabara de fazer era desumano, ignbil, chegara a ser criminoso. Porque 
se envergonhava do pai? No era um homem decente? No era um homem bom? No era, em ltima anlise, seu pai?
   Ainda havia tempo de reparar o mal que fizera. Podia voltar, tomar ngelo pelo brao, carinhosamente subir a rua com ele... Porque no fazia isso? (...aquele 
trecho do banquete... " dizia Castanho. Sim, beijar a mo do pai, confessar-lhe a culpa, dizer do seu remorso, pedir-lhe perdo, humilhar-se. Mas l se ia, acompanhando 
os outros como um autmato. Voltou a cabea, procurando. ngelo tinha desaparecido.
   Entraram os trs na multido que enchia a Rua dos Andradas. Eugnio sentia um peso no peito. Castanho e Alcibades afastaram-se dele, de brao dado, absortos 
numa discusso. Por um instante, Eugnio perdeu-os de vista no burburinho. Olhou para todos os lados, atarantado. Sentiu-se como um co  procura do dono. Tudo que 
era mau lhe acontecia. Odiou Castanho, odiou Alcibades, odiou-se a si mesmo. Fossem todos para o diabo!
   Mas naquele mesmo instante os seus olhos deram com Alcibades, que, parado junto de Aclio,  beira da calada, lhe fazia um sinal.
   Eugnio, sem hesitar, caminhou para eles, alvoroado.
   Sacudindo o rabinho de contente - murmurou o seu demnio interior.
   
   Achavam-se os quatro em torno da mesa e Eugnio ainda no tivera coragem de encarar o pai. Estava envergonhado do que fizera aquela tarde. Passara as ltimas 
horas do dia a temer o encontro da hora do jantar. Pensara em esquivar-se: comeria em qualquer restaurante do centro, voltaria para casa tarde, de noite. E no outro 
dia... fosse o que Deus quisesse.
   Estava ali sem jeito, com a dolorosa conscincia da sua culpa. Percebia que a me tinha os olhos vermelhos e inchados. Chorou. Por causa de Ernesto ou por causa 
dele?
   Comiam em silncio. ngelo tossiu, suspirou, levou o guardanapo  boca. A mulher ps-lhe gua no copo. Ernesto cruzou os talheres e afastou o prato.
   - No queres mais nada? - perguntou-lhe D. Alzira.Comeste to pouco...
   - No estou com fome.
   A voz do rapaz era rouca e cansada. Eugnio ergueu os olhos e viu a cara envelhecida do irmo, os olhos sujos, a boca de expresso amarga. E, apesar de naquele 
momento ele prprio sentir-se como um ru, o olhar que lanou para o outro foi acusador. Os dois irmos miraram-se em silncio. Quem primeiro desviou o olhar foi 
Ernesto; brincou com a ponta da toalha, disfarando.
   - No se esquea das gotas, ngelo - recomendou a mulher.
   ngelo tomou o conta-gotas e comeou a pingar o remdio cor de mbar em meio copo de gua. Uma... duas... - contava baixinho, mal mexendo os lbios tambm para 
o conta-gotas e puseram-se a acompanhar: - quatro... cinco... seis... A gua tingia-se de amarelo. Sete... oito... nove... Houve como que uma trgua. Eugnio olhou 
para o pai. A barba de dois dias, j grisalha, sombreava-lhe de azul e salpicava-lhe de prata as faces ossudas e lvidas. Aquele rosto tinha uma expresso de resignado 
cansao. Por baixo dos olhos havia duas bolsas de carne gretada e roxa.
   E no pobre ngelo o que mais impressionava era a respirao ofegante e ansiada de asmtico. Eugnio tinha pena do pai e odiava-se a si mesmo, porque no era com 
esse sentimento de simples piedade que ele podia pagar toda aquela vida de dedicao e silencioso amor  sua pessoa. Porque no perdia o maldito esprito de crtica 
que o fazia sentir com to irritante agudeza o que o pai tinha de desagradvel e de feio? Porque no conseguia afogar com amor a quase repulsa que lhe causava a 
pessoa fsica de ngelo, os dentes amarelos, as unhas de ordinrio sujas, o rosto de feies vulgares e sem brilho, os olhos servis? Eugnio desejava ser apenas 
um sentimental. S. Francisco beijava os leprosos - era uma histria que sempre o impressionara. No entanto, coisas infinitamente mais fceis ficavam alm de suas 
foras. Ele queria simplesmente aceitar a sua gente, mas aceit-la com naturalidade, sem forar a prpria natureza. Atravs da aceitao talvez pudesse am-la um 
dia. ngelo bem merecia esse amor. Nunca lhe fizera sentir de modo nenhum a sua autoridade de pai. A mulher contava s amigas: "O ngelo  um pai da vida. Os meninos 
fazem dele gato-sapato e ele nem se importa". Mas era intil - achava Eugnio. Havia entre ele e o pai um poderoso e insituvel elemento de estranheza. Com a me 
j no acontecia o mesmo. Eugnio sentia-se melhor na companhia dela. Mas essa predileo no seria ainda uma forma de narcisismo, um prolongamento subtil do seu 
egosmo? A me parecia-se fisicamente com ele. Havia no rosto dela traos seus, pronunciadssimos. Amando-a, de certo modo no estaria ele a amar-se a si mesmo? 
Agora, Eugnio via a me envelhecida pelos trabalhos e pelos desgostos. Mortificava-se por causa de Ernesto, que era um perdido, um desordeiro; no parava nos empregos, 
metia-se com mulheres ordinrias, j estivera at na cadeia. Apesar das marcas do tempo e dos trabalhos, D. Alzira ainda conservava restos de beleza. Os olhos eram 
calmos e nunca assumiam aquela expresso de canina humildade que morava nos olhos do marido. Tambm no tinha nenhuma luz de desafio ou de desassombro. Era um rosto 
sereno diante da vida. Porque ela recebia os fatos como eles vinham: os momentos de felicidade sem grandes iluses nem alvoroo; os pequenos dissabores e as desgraas 
sem gritos nem desespero. "Deus  grande" - costumava dizer. Varria a casa, lavava os pratos, ajudava o marido, cozinhava, fazia quitanda. No havia no Mundo doena 
nem catstrofe que tivesse fora para alterar o ritmo daquela casa. Viviam numa pobreza limpa. Eugnio era-lhe grato por isso, mostrava-se carinhoso para com ela, 
mas ao mesmo tempo sentia que ainda no era com esse carinho e com essa gratido que ele ia pagar tudo quanto lhe devia.
   A medida que progredia nos estudos e que se lhe alargava a viso do Mundo, Eugnio sentia que, como um balo, ia subindo cada vez mais, rumo s coisas superiores, 
deixando l em baixo a famlia presa s necessidades elementares, aos seus solecismos,  sua absoluta ignorncia, a uma vida que s vezes lhe parecia puramente vegetativa. 
Fortalecia-se nele a conscincia da sua superioridade. Sentia-se muito melhor que o ambiente em que vivia e isso dava-lhe a impresso de que era vtima de uma enorme 
injustia, abria-lhe os olhos para as desigualdades do Mundo, amargurava-lhe a existncia e aumentava-lhe por outro lado, o desejo de lutar para fugir  condio 
de pobreza e anonimato. Mas do mais profundo do ser s vezes brotava-lhe uma misteriosa luz que, no fugitivo instante em que brilhava, lhe mostrava a outra face 
das coisas. Ele ento compreendia num relance a enormidade do seu orgulho, o absurdo da sua vaidade, a fealdade do seu egosmo. Um homem superior, ele? Como? Porqu? 
Que fizera de extraordinrio?
   Tinha na cabea meia dzia de noes ainda confusas. Lera aferventadamente meia dzia de livros famosos... Que era isso comparado com a luta silenciosa dos pais? 
Que era isso diante dos verdadeiros grandes homens da Humanidade? Ele devia ser humilde, compassivo, tolerante... Assim, rpida como surgira, a luz misteriosa se 
apagava e Eugnio sentia de novo a realidade, na carne, nos ossos, no sangue. Comparava a casa do Alcibades com a sua. Saa da leitura de um bom autor para ouvir 
a linguagem do pai: "Tu te lembras, Alzira, daquela roupa que o Ribas deu p'ra mim passar? " Voltava da contemplao de alguma pintura bonita para encontrar Ernesto 
rescendendo a cachaa e o pai a escarrar e a gemer. Odiava a pobreza. Odiava a Humanidade. Aborrecia a sua vida.
   ngelo levantou o copo e tomou o remdio. Ernesto levou , aos lbios um cigarro amassado, com mos trmulas, apalpou o bolso,  procura de fsforos. O pai estendeu 
o brao por cima da mesa e passou-lhe o isqueiro aceso. D. Alzira levantou-se:
   - Ningum quer mais nada?
   Eugnio e ngelo sacudiram a cabea, negativamente. Ernesto ficou imvel um instante, acendendo o cigarro. A me comeou a desfazer a mesa.
   Aconteceu, ento, o inevitvel. Os olhos de Eugnio encontraram os do pai. ngelo sorriu para o filho, no um sorriso de quem concede perdo, mas um sorriso servil 
e constrangido de quem pede perdo. Perdo por no ter dinheiro, por ser alfaiate, por andar mal vestido, por no passar de um pobre diabo. Eugnio desviou os olhos, 
muito vermelho, mas aquele sorriso ficou a doer-lhe. Lembrou-se de um cachorrinho que tivera havia muitos anos, pobre vira-lata pelado e sarnento. Vinha lamber as 
mos dos que lhe davam pontaps. ..
   E, pela primeira vez naquela noite, ngelo, dirigiu-se ao filho:
   - Genoca, tu no ests precisando de mais uma roupa?
   Sem ousar fit-lo, Eugnio respondeu:
   - No, pai, muito obrigado. Agora estou bem de roupa.
   Como aquilo lhe roia! Por que era ele assim to ruim? Por que no rompia todas as barreiras? Por que no se erguia para abraar o pai, para lhe pedir perdo pelo 
que lhe fizera? Sentiu um n na garganta.
   - No vs que eu tenho um corte de casimira muito bonito a...
   - No, pai. Muito obrigado.
   Havia timidez e ternura no oferecimento do pai. Era como se ele quisesse compensar com o presente de uma roupa a culpa de no ser rico, de no ter posio, de 
no dar melhor sorte aos filhos.
   Silncio. Ernesto fumava, de olhos baixos.
   D. Alzira voltava da cozinha.
   - O fogo apagou e eu preciso gua quente para lavar os pratos. Tenho de ir rachar lenha...
   Ernesto levantou.
   - Eu vou, me.
   Quando ele falou, Eugnio sentiu um bafio de cachaa.
   - Pois ento vai, Nestinho. Pega a machadinha em cima do tanque. Cuidado, no vai-te cortar.
   Ernesto saiu. Caminhava encurvado como um velho. E no tinha ainda vinte anos! Eugnio seguiu-o com os olhos. Lembrou-se dos tempos em que os dois iam juntos 
para o colgio. Seria saudade o que sentia agora? Ou apenas estranha emoo que lhe causava a atitude do pai?
   ngelo brincava com o copo vazio. Eugnio ergueu-se e comeou a passear de um lado para o outro. A casa era pequena e no oferecia refgios. E ele precisava ficar... 
Tinha um a estudar. Pegou num jornal e abriu-o, sem vontade.
   - No leia depois de comer, que faz mal - avisou a me.
   Eugnio dobrou o jornal e p-lo de lado. Encontrou de novo os olhos do pai. ngelo tornou a sorrir, para dar-lhe a entender que no guardava nenhum ressentimento.
   Insuportvel! Eugnio caminhou para a porta dos fundos.
   - Vou dar uma volta - disse. E saiu.
   Noite clara e morna. De mos nos bolsos, comeou a passear pela frente da casa, de um lado para o outro. A rua estava deserta. No Cu distante, o brilho das estrelas 
era apagado e triste. Eugnio parou, ergueu os olhos e ficou olhando o Cu, cheio de uma nsia sem nome. Lgrimas quentes escorriam-lhe pelo rosto. E ento, em pensamento, 
ele abraou o pai, beijou-lhe a testa ressequida, acariciou-lhe os cabelos speros, amou-o com ternura.
   No fundo do ptio, Ernesto rachava lenha. O seu vulto mal se distinguia na sombra da noite. Os sons do machado eram  secos e ritmados.
   Eugnio sentia-os nos nervos.
   
   O motorista aponta para fora, gritando:
   - O Dr. Carmo comprou aquela chacrinha do velho Tico Resende!
   Eugnio olha. To grande  a velocidade do carro, que ele mal consegue vislumbrar a ponta de um telhado cor de laranja sobressaindo do verde escuro do arvoredo. 
Cercas com moures de granito. Uma horta. um moinho de vento.
   Eugnio pensa na filha. Imagina-a crescendo ao desamparo, no meio da maledicncia do Mundo. Em sua mente soam cochichos: "No tem pai nem me, coitadinha" "Filha 
das ervas..." -"Ah! Essa  que  a filha natural daquele moo casado com..."
   E imediatamente ele v-se a si mesmo tomando a mo de Ana Maria e levando-a... levando-a... para onde?
   Esto os dois ainda de mos dadas na frente de uma casa. Ele reconhece o palacete do sogro. No podem entrar. Olvia vai morrer. E a vida continuar, apesar de 
tudo.
   O automvel atravessa um pontilho.
   
   Terminara a cerimnia da entrega dos diplomas. As ltimas palavras do diretor da Faculdade foram seguidas do estrpito dos aplausos, que encheram o velho teatro. 
Quando a cortina desceu, Eugnio saiu do palco, sufocado. Sentia muito calor e uma leve dor de cabea. Um homem moreno, magro e alto abraou-o com alguma intimidade. 
Deve ser engano - pensou Eugnio, pois no se lembrava daquela cara. Agradeceu desajeitadamente e procurou a porta. Esbarrou num senhor vermelho e lustroso, que 
se desfez em desculpas e sorriso. Enveredou pelo corredor, suando, pois o smoking e a camisa de peito engomado causavam-lhe um mal-estar de sufocao. Abrindo caminho 
obstinada e quase cegamente por entre as pessoas que obstruam o corredor, segurando o pergaminho com ambas as mos, Eugnio teve conscincia de uma agradvel sensao 
de orgulho, de fora, de confiana em si prprio... Teve um desejo absurdo de gritar. Mas represou a alegria, fechou a carranca e isso exigiu-lhe um esforo doloroso.
   Entrou no bar, pediu um refresco e da sua mesa ficou olhando o saguo do teatro. Um viveiro de aves - pensou Eugnio, que andava com a mania das imagens zoolgicas. 
De aves palradoras. Aquela mulher de cabea mida e nariz adunco parecia uma galinha. A outra, a de vestido branco, era como uma cacatua.
   Mas havia tambm bichos maiores. De costas para Eugnio, as calas frouxas, aquele homem gordo parecia um elefante. As conversas enchiam o saguo, cruzavam-se 
no ar, era como se at as grgulas de pedra das colunas estivessem falando, recordando as muitas turmas de diplomados que haviam passado por aquele teatro e vivido 
instantes como aquele. De repente, houve como que um hiato nas conversas. As aves cessaram de palrar, pressentindo a chegada de um bicho maior. Os olhares voltaram-se 
para a escada que levava aos camarotes. Estrugiram palmas. Abriram-se alas. Era o Presidente do Estado, que descia cercado de amigos. Eugnio viu-o apertar a mo 
de Alcibades, que se inclinou em desmedida curvatura, a boca aberta num sorriso de felicidade imbecil. Eugnio sentia uma pontinha de inveja e de despeito. Nos 
dois ltimos anos, Alcibades afastara-se dele. Procurava outras rodas. J se falava que o seu nome seria indicado para uma cadeira de deputado na Assemblia do 
Estado. Estava claro que a amizade dos colegas obscuros no seria do menor interesse...
   Eugnio bebeu o refresco de um gole s. Viu o Presidente sair, com a cartola na mo, sorrindo e sacudindo a cabea para a direita e para a esquerda. Alcibades 
seguiu-o. Na rua, os motores dos automveis roncavam, freios rechinavam, buzinas guinchavam. No meio da balbrdia alegre, Eugnio comeava a sentir-se triste. Chegara 
finalmente o dia to ambicionado. Estava formado. Era agora o "doutor" Eugnio Fontes. Atingira por fim o alto da montanha. Mas que via? Uma paisagem nebulosa e 
incerta. Que sentia? De mistura com a sensao de vitria, uma nsia indefinvel, uma doce melancolia. Quisera esquecer as preocupaes srias e festejar o acontecimento, 
como os outros faziam, abrir todas as comportas interiores e deixar que a sua alegria jorrasse livre. Alegria? Tinha medo de fazer uma anlise ntima, de olhar para 
dentro de si prprio, pois seria cruel descobrir que a represa estava seca ou que continha apenas mgoas, incertezas, gritos de espanto e de dvida, velhos recalques...
   Tinha de pensar no futuro... Havia um ano que trabalhava com o Dr. Teixeira Torres, no Hospital do Sagrado Corao ajudando-o nas operaes. Era verdade que praticava, 
que aprendia, que aproveitava! Mas como isso estava ainda longe dos seus sonhos! Sabia de rapazes recm-formados que eram forados a aceitar empregos fora da profisso. 
Outros metiam-se em cidades ou vilas do interior, arriscando a sorte. Quase sempre eram bem sucedidos, se se podia considerar sucesso juntar alguns contos de ris, 
ganhar uma barriguinha prspera e um renome municipal. Eugnio olhava para o copo vazio. Pensou em Ernesto, que continuava a beber como um desesperado. Contemplou 
o diploma em cima da cadeira. Pensou no pai: o pobre ngelo morrera no ano anterior, de angina de peito. O Dr. Seixas ficara  sua cabeceira at  ltima hora. Tudo 
intil. Eugnio no se esquecia da expresso do rosto de ngelo, dentro do caixo. Era como se a dor e a humilhao resignada continuassem ainda na morte. Diante 
do cadver do pai, ele chorara lgrimas que no eram s sentimento por aquela perda, mas tambm de arrependimento, de remorso.
   
   Eugnio ergueu os olhos para o saguo, que aos poucos se esvaziava. Viu Olvia encostada a uma das colunas, com um ramalhete de rosas vermelhas nos braos. Ergueu-se, 
pagou a bebida, segurou o diploma e caminhou para ela.
   - Abandonada? - perguntou, com um meio sorriso.
   Olvia mirou-o por um instante com fingida gravidade e depois, mostrando com um movimento de olhos o canudo que tinha debaixo do brao, disse.
   -  o peso do diploma que me deixa um pouco abafada.
   Olvia era a nica mulher da turma. Formara-se tambm com sacrifcio. Trabalhando num laboratrio de anlises clnicas, ganhava um ordenado que mal lhe dava para 
o sustento prprio e para custear os estudos.
   Ficaram ambos em silncio.
   - E agora? - perguntou Eugnio.
   Olvia encolheu os ombros.
   - A vida continua.
   - Eu sei... Mas... e ns?
   - Continuamos tambm.
   Ele fez um gesto de impacincia.
   - Tu sabes bem o que eu quero dizer. .. - Apontou para o diploma. - Isso. ..
   - Bota-se num quadro.
   Eugnio no teve remdio seno sorrir. Mas no era s a calma e a naturalidade de Olvia que o faziam sorrir. Era aquele seu estranhssimo vestido branco e vaporoso, 
de cintura apertada e alta, de saia comprida e rodada. Nunca a tinha visto assim. Acostumara-se a uma Olvia que andava de preferncia de boina, costume simples 
e sapatos de taces baixos. Agora ali estava ela como que pousando para um pintor: encostada  coluna, com ar sonhador e uma braada de rosas vermelhas... Olhou-a 
de alto a baixo.
   - Parece que vais tirar o retrato.
   Olvia deu um passo  frente e comeou a girar sobre si prpria, parodiando a atitude dos manequins vivos.
   - Estou chique?
   - Fantstica.
   Mas a verdade era que Eugnio estava mesmo impressionado. Pela primeira vez sentia a qualidade feminina da companheira de curso. Era como se estivesse diante 
de outra Olvia. Habituara-se a ver nela o companheiro de curso, quase um rapaz como os outros.
   - Gostas das flores?
   Eugnio sacudiu a cabea afirmativamente e indagou:
   - Quem foi que te mandou?
   - O admirador misterioso.
   -Ah...
   - Achas naturalmente que eu no posso ter um admirador. . .
   Ele encolheu os ombros. Ela sorriu.
   Pausa curta.
   - Mas que  que a gente est a fazer aqui parada como um dois de paus?
   Olvia baixou os olhos e murmurou:
   - Estou esperando que um cavalheiro me convide para o seu automvel...
   Nessa pardia de faceirice havia mais uma stira a si prpria do que propriamente ao coquetismo das mulheres em geral.
   Eugnio sabia que Olvia no se portava assim por despeito ou esprito de revolta. Achava-se feia e procurava a maneira menos dramtica para dizer aos outros 
que com isso no sofria, no odiava o Mundo nem se julgava vtima de nenhuma injustia. Era por causa da honestidade de Olvia para consigo prpria e para com os 
outros, por causa da sua simplicidade genuna, que Eugnio se sentia bem junto dela. Sempre achara nas mulheres em geral uma tendncia para a chantagem. As pinturas, 
a coquetice e a fragilidade eram as suas principais armas.
   Olvia oferecia uma exceo: apresentava-se tal qual era.
   Eugnio conhecera-a no terceiro ano da Faculdade. S no fim do quarto, porm,  que fizeram camaradagem mais estreita.
   Sofrera por causa dela nas aulas de Anatomia, quando o lente dissertava sobre as partes do corpo humano que uma conveno secular declarou vergonhosas. Os estudantes 
tinham um perverso e libidinoso prazer em procurar no rosto de Olvia as reaes que o nome do aparelho sexual do homem lhe provocava. Nessas ocasies, Eugnio ficava 
com o rosto e as orelhas vermelhas. Olhava furtivamente para a colega e via-a tranqila, os olhos muito abertos, fitos na lente - uma criana escutando contos de 
fadas. Quando dissecavam cadveres no necrotrio, Olvia era submetida a duras provas. Certa vez, um dos estudantes fez com ela uma brincadeira cruel. A histria 
espalhou-se entre os rapazes como boa anedota para uns e como brincadeira de mau gosto para outros. Eugnio ficou revoltado. Sentia-se um aliado de Olvia. Via-a 
assim quase hostilizada, revia no drama dela o seu prprio drama. Tinha na Faculdade poucos amigos. Era um aluno obscuro e pobre. Mesmo assim, porm, no se aproximou 
de Olvia. Primeiro, admirou-a de longe. Depois, esqueceu-a. E esqueceu-a pela mesma razo por que desejara aproximar-se dela. Olvia era obscura e era pobre; no 
lhe restava nem o recurso de ser bonita.
   Mas a imagem que Eugnio tinha agora diante dos olhos era um desmentido da idia, geralmente aceite, que Olvia no tinha beleza.
   - Automvel no tenho - disse ele. - Mas se aceita o meu brao...
   - Com prazer, baro...
   Saram de brao dado. Estacaram, indecisos,  beira da calada. Havia parado ali perto um automvel solitrio. A cabea do motorista assomou  janela.
   - Pronto, doutor!
   Eugnio despediu-o com um sinal. Atravessaram a rua, ganharam a calada da praa e pararam diante do monumento. Olvia baixou os olhos para as rosas.
   - Vamos prestar uma homenagem ao Patriarca?
   - Vamos.
   Subiram as escadas. A praa estava deserta.
   Detiveram-se de novo ao p da esttua. Sentado na sua cadeira, que era feita da mesma substncia do seu corpo, o Patriarca meditava. Tinha um ar grave. A seus 
ps, o drago da inveja tentava uma investida. Mas os olhos da esttua pareciam fitos no futuro. Olvia deitou a braada de rosas ao p do monumento.
   - E o drago? - perguntou Eugnio.
   - Ah!  verdade.
   Olvia apanhou um boto vermelho e enfiou-o na boca do drago de bronze.
   - E o baro?
   - Oh! Perdo...
   Olvia tomou uma rosa e meteu-a na botoeira do smoking de Eugnio.
   Sentaram-se os dois em um dos degraus e ficaram olhando a noite. Fechavam-se as portas do teatro. Apagavam-se as luzes do prtico. Olvia encostou o diploma ao 
olho esquerdo,  maneira de culo, fechou o olho direito e ficou olhando o Cu.
   - Que estaro fazendo l na Lua a esta hora?
   Eugnio transformou tambm o diploma em culo e assestou-o para a Lua:
   -Sabes o que estou vendo l em cima? Uma jovem e um rapaz que acabaram de ganhar os seus diplomas e no sabem que  que vo fazer com eles.
   - Deixa-te disso. Na Lua no h diplomas. Sabes que  que eu vejo? O rapaz nunca botou camisa de peito engomado, a jovem est com um vestido emprestado.
   Eugnio sorriu, fingiu graduar o culo:
   - Olha... O smoking dele  alugado.
   Era estranho... Julgava-se incapaz de fazer aquela confisso a quem quer que fosse. No entanto, fazia-a espontaneamente a Olvia, sem corar, sem se sentir diminudo.
   Ficaram algum tempo em silncio. Ele acendeu um cigarro.
   Ela recostou a cabea no flanco do drago.
   Tinha o rosto comprido, de um moreno plido;  primeira vista, no impressionava nem bem nem mal. Quando a vira pela primeira vez, Eugnio sentira-se inclinado 
a dizer: feia no . Mas bonita... muito menos. Fixando mais demoradamente a ateno naqueles olhos negros, vendo aquele rosto animar-se de uma vida e de uma estranha 
beleza, que surgiam inesperadas de algum misterioso esconderijo interior e que no dependia em absoluto dos traos fisionmicos, ele ficara pensando... Acabara por 
fazer concesses: "Tem um certo qu... " Seria a boca? No. A boca era grande e de desenho comum. O nariz? Tambm no. Era comprido e delgado.
   Eram, ento, os olhos. Pretos e serenos, no se distinguiam pela vivacidade, pela mobilidade ou por algum brilho raro.
   Eram olhos para os quais, ao cabo de algumas reflexes, Eugnio s achou um qualificativo: humanos. Envolviam mornamente a pessoa ou objeto em que se fixavam, 
davam uma idia de profundidade insondvel e principalmente de compreenso.
   Pareciam enxergar alm das coisas com uma penetrao que nada tinha de indiscreta ou agressiva. Eugnio, porm, quando pensava em Olvia, no podia separar da 
imagem da amiga a memria da sua voz. At na maneira de falar Olvia se recusava a fazer chantagem. A sua voz no era rica de inflexes musicais, no se coloria 
de falsas douras. Era, antes, quase monocrdica, grave e tranqila; tinha, como os olhos, uma quente qualidade humana.
   Os colegas de Olvia, que se compraziam no princpio em fazer-lhe partidas estpidas, acabaram vencidos pela serena superioridade dela. Pediam-lhe conselhos. 
De um modo geral, tratavam-na como um colega, um companheiro.
   Eugnio contemplava Olvia ali a seu lado, e admirava-se de ter levado tanto tempo para descobrir que, no fim de contas, mais do que uma simples colega, ela era 
uma mulher interessante.
   Em que estaria pensando agora? Eugnio ergueu os olhos para o Cu: a sua testa pregueou-se de rugas.
   - Fora de caoada, Olvia, eu s queria saber o que  que a gente vai fazer agora. ..
   Olvia voltou a cabea para o amigo.
   - Porque  que o futuro te preocupa tanto?
   Sem desviar o rosto das estrelas Eugnio continuou:
   - Se tu soubesses como eu desejei este dia, este ttulo. Se imaginasses como estou... - hesitou um instante - ...orgulhoso. - Franziu a testa. - Mas, misturado 
com esse orgulho, h um pouco de decepo...
   - Pensavas que esse papel teria a fora de transformar a tua vida de uma hora para a outra...
   - Sim, e que o ttulo de doutor de certo modo acrescentasse alguma coisa a mim prprio, me desse mais coragem... mais... mais... como  que vou dizer?... Fizesse 
desaparecer esta sensao de inferioridade...
   Houve uma curta pausa, em que Olvia consultou o Cu com o canudo do diploma.
   - Acreditas na Astrologia? - perguntou ela.
   - Tu brincas.  bom quando se tem o teu gnio. A gente no se importa de nada. Mas se soubesses o que foi a minha vida... Rapaz pobre, Joo-ningum, sempre humilhado, 
na luta danada pelo dinheiro... Antigamente o meu dolo, o meu modelo, era o Dr. Seixas. Eu achava que devia ser grandioso a gente entregar-se aos pobres, viver 
para eles, no desejar nada alm da caridade. - Largou o diploma num gesto dramtico, deixando-o rolar escadas abaixo. Olvia sorriu sem malcia. Mas acontece que 
eu odeio a pobreza, odeio o anonimato. Quero ser algum, ter um nome, ser respeitado, viver...
   Calou-se. Estava arrependido daquele gesto teatral e intil. Porque no podia ser calmo como Olvia, encarar os fatos com esprito claro e sereno?
   - Eugnio, vai apanhar o canudo.
   Eugnio levantou-se, desceu cinco degraus, inclinou-se, apanhou o diploma, tornou a subir e a sentar-se ao lado da companheira.
   - E o mais triste  que eu descubro que no tenho nenhuma vocao para a Medicina. No dia em que me entregarem um paciente para operar, acho que saio correndo 
desesperado. No sei. . . Deve ser falta de confiana em mim prprio.
   -Ou ser apenas a impresso incmoda de que os outros  que no tm confiana em ti?
   - Deve ser isso. S no sei  como consegues saber coisas que nunca te disse...
   - Conheo-te melhor do que tu pensas.
   - Talvez...
   - Observo-te desde o segundo ano...
   - E porqu?
   - Interesse profissional.
   - Eu gostaria de ver a minha ficha, doutora. ..
   - Ah. .. Mas ela est guardada no meu arquivo secreto. ..
   Eugnio olhou bem dentro dos olhos dela. Olvia bateu com o indicador na testa.
   - O arquivo est aqui dentro.
   - Entrada proibida?
   - s pessoas estranhas ao servio, sim.
   - Compreendo. Sou um estranho.
   - Quem foi que te disse isso?
   Eugnio tirou o leno do bolso, passou-o pela testa, pelo rosto e, depois, tornou a falar.
   - Sabes de uma coisa engraada? Perto de ti sempre sinto vontade de fazer confidncias...
   - No aceito isso como elogio. Em geral, a gente abre-se s pessoas mais velhas...
   - Escuta aqui, Olvia, porque  que ests hoje to irnica?
   - No ser uma forma de a gente se mostrar comovida?
   Ele refletiu um instante.
   - Sim, esta noite  diferente... Talvez daqui a muitos anos ns nos lembremos desta hora com saudade.
   ... E havemos de nos rir da bonita figura que fazamos, eu de vestido de baile e tu de smoking, os dois sentados nos degraus do monumento do Patriarca, na praa 
deserta...
   Eugnio olhou com olhos reflexivos para a ponta das botinas emprestadas, como se estivesse vendo as imagens dos seus pensamentos no espelho do verniz polido.
   - H dias inesquecveis na vida da gente. Sempre me lembro de uma tarde de Inverno em que levei no colgio uma bruta vaia porque estava com as calas rasgadas. 
Eu devia ter uns nove ou dez anos... Outra coisa que no posso esquecer  a noite em que um professor do ginsio onde eu estava como pensionista meteu uma bala no 
peito. Desabou um temporal medonho e eu acordei com a impresso de que ia morrer sufocado. No outro dia, encontraram o corpo do homem estendido no campo. Foi o primeiro 
defunto que vi na minha vida..
   Calou-se. Tinha vergonha de mencionar outros momentos igualmente inesquecveis: aquela manh dos quinze anos em que sentira pela primeira vez o sexo como um foco 
de agradvel aflio; e aquela tarde em que fingira no ter visto o pai.
   Houve uma pausa longa. Depois Olvia olhou para o relgio de pulseira - meia-noite - e disse:
   - Eugnio, tua me deve estar acordada, esperando para te abraar...
   -  verdade. - Levantou-se, limpando as calas com as palmas das mos. - Vamos embora?
   Deu a mo a Olvia para a ajudar a erguer-se. Ao contacto daquela epiderme quente, teve um estremecimento agradvel. E quando, lado a lado, desceram as escadas 
devagar, ele sentiu como nunca que estava perto de um ser humano, de algum que era, que existia, de maneira profunda, integral, que no constitua apenas uma soma 
de vaidades, de atitudes, de desejos de parecer.
   - Olvia, porque  que a gente no continua esta amizade to boa? No sei... Perto de ti tudo fica mais fcil e eu sinto mais coragem. Palavra.
   Olvia olhou o Cu.
   -  muito bonito fazer projetos numa noite como esta. A vida amanh nos separar e tu nem te lembrars de que numa noite sentimental manifestaste esse desejo 
de amizade. Sinto que as nossas rbitas infelizmente so diferentes...
   Entraram numa rua deserta. Era triste a luz dos candeeiros alumiando o silncio noturno. Eugnio ia com ar ausente, pensando. Sentia a verdade das palavras de 
Olvia. Amanh estariam separados. Porque ele queria caminhar numa direo oposta  dela. Na direo do sucesso. S via a sua carreira.
   Ansiava por ter conforto, dinheiro, um nome. Assim conseguiria matar aquela insuportvel sensao de fracasso, de inferioridade. No se conformava com a mediocridade. 
No gostava da sombra.
   Sentia-se com coragem para lutar. Alimentava sonhos: havia de realiz-los.
   Eugnio quebrou o silncio:
   - Achas que eu fao mal por pensar tanto na minha carreira...
   - Mas que  uma "carreira"?
   - Oh! Tu bem sabes. Fao mal?
   - Que  "mal"?
   - Ests impossvel, hoje!
   Com um gesto de desespero, Eugnio tirou um cigarro e acendeu-o. A sua testa estava vincada de rugas de aborrecimento e ele fechava-se agora num silncio de ressentimento. 
Olvia sorriu e segurou-lhe o brao.
   - No vs que estou fazendo o possvel para no cair em estado de melancolia ou de desespero, como tu? No compreendes que sinto o que sentes, que me fao as 
mesmas perguntas que tu me fazes? Vamos, alegre esse esprito, Mr. Hyde.
   Eugnio soltou uma baforada de fumo.
   - Tens razo. Sou um mdico e um monstro. Talvez mais monstro do que mdico.
   - Eu sempre digo. Ns todos temos dentro de ns um Dr. Jekill e um Mr. Hyde. Parece filosofia barata, mas  a pura verdade. Mr. Hyde  um sujeito truculento, 
cruel, perigoso: um caso perdido. Mas o Dr. Jekill tem tremendas obrigaes. Dominar o mais possvel Mr. Hyde.  por isso que os homens, em geral, no so nem completamente 
bons nem completamente maus. As vezes, Mr. Hyde vence; outras, mais raras, quem vence  o Dr. Jekill. Em geral, vivem como numa gangorra: quando um sobe, o outro 
desce. Mr. Hyde  o animal: sente e reage. O Dr. Jekill pensa e controla. - Olvia suspira. - Se o diretor da Faculdade estivesse escutando, acho que me arrancava 
o diploma das mos...
   Eugnio j sorria.
   - E tu acreditas nessa histria de Jekill e Hyde?
   Olvia olhou muito sria para o amigo, deu alguns passos em silncio e depois sacudiu a cabea:
   - No.
   Eugnio jogou longe o cigarro. Entraram rindo noutra rua.
   
   Escurece aos poucos. Sapos coaxam num banhado. No Cu descorado lucila a primeira estrela.
   Eugnio consulta o relgio. Tem a impresso de que est rolando atravs de alguma regio misteriosa fora do tempo. Talvez nunca, nunca mais, chegue a lugar algum 
da Terra.
   Se tivesse f, ao menos poderia murmurar uma orao e por meio dela recuperar a tranqilidade.
   Olvia vai morrer... Deus no existe. Ou existe e  cruel. No! Cruel sou eu...
   De novo a lembrana das suas cegas brutalidades.
   - No sou mau, no sou mau - murmura Eugnio, numa obstinao, como que procurando convencer-se a si prprio. Sente secretas reservas de bondade. H no seu ser 
uma parte boa e pura que est apenas  espera de uma oportunidade para dominar.
   Olvia estava-lhe criando aos poucos essa oportunidade. Costumava dizer-lhe:
   - O que tu precisas  aceitar as criaturas. A Humanidade no tem culpa da maldade daqueles poucos homens que te humilharam.
   Ela tinha razo. Ele vive contra o Mundo. Talvez sinta at uma certa volpia nesse conflito.
   E agora, se Olvia morrer, ele ter de procurar sozinho o seu caminho. Eunice ser sempre uma pedra de tropeo. O passado, um peso morto.
   E a sua pobre carne nega-se a sofrer e o seu esprito vago no encontra energia para comand-la. Ainda hora e meia de viagem! Atira a cabea para trs, contra 
o encosto do banco. O auto desliza sobre o cimento.
   Eugnio lutava por vencer o medo, por controlar os nervos. Uma situao insuportvel. O estmago era agora como que o centro da sua vida: ele tinha-o frio e vazio, 
numa sensao de nusea. Eram onze horas da noite e l fora o combate continuava. Ouvia-se o tiroteio, longe. Havia pouco, uma voz anunciara no corredor: "O quartel 
ainda no se entregou."
   Parado no meio da sala de esterilizao, Eugnio procurava dominar-se, no queria que a Irm Isolda, que estava  porta, notasse a sua luta, a sua indeciso, 
o seu temor. Aquele compartimento de ladrilho branco fazia-lhe mal. Aproximou-se do lavatrio, abriu a torneira e comeou a lavar as mos e os antebraos com uma 
fria trmula. Ergueu a cabea e olhou-se no espelho. Estava plido, de uma palidez esverdeada.
   - Podemos trazer o doente, doutor? - perguntou a Irm.
   Eugnio sacudiu a cabea afirmativamente.
   - No encontraram o Dr. Rosa? - perguntou, fazendo um esforo para dominar o tremor da voz.
   Se ao menos o Dr. Rosa viesse, dividiria com ele a responsabilidade... Estava com um mau pressentimento. Os nervos traam-no. O doente tivera j duas hemorragias 
internas. Era um caso perdido. Porque no deix-lo morrer na cama? Depois, havia ainda aquela revoluo estpida.. .
   - O telefone da casa no atende - respondeu a enfermeira.
   
   Eugnio comeou a esfregar as unhas com a escova.
   - A Dr.a Olvia est pronta?
   - Est, sim, senhor.
   Irm Isolda retirou-se. Eugnio ficou a escutar o tiroteio. Nunca acreditara na possibilidade daquela revoluo. Rira-se dos boatos. Agora ela l estava... Podia 
transformar-se na mais horrenda das guerras civis. Os homens eram uns brutos. Que estaria fazendo sua me quela hora? Perigo das balas perdidas. Se tomasse alguma 
bebida alcolica, talvez conseguisse acalmar os nervos... no, no devia beber. Viu mentalmente o irmo estendido na sarjeta, bbedo. Logo em seguida, quem lhe apareceu 
nos pensamentos foi o pai, tossindo e sorrindo para ele com confiana. Mas todas as imagens se apagaram e ento Eugnio s teve conscincia da sensao de mal-estar, 
de tontura, de nusea. Sentia o estmago como o foco de onde se irradiava todo aquele medo que lhe tomava conta do corpo.
   Caminhou para a sala de operaes com os braos erguidos. O doente estava j amarrado  mesa. Era um homem de meia idade, magro e lvido. Dr. Teixeira Torres 
chamara Eugnio a toda a pressa para lhe entregar o paciente. Tinha quela mesma hora uma operao de urgncia no Hospital Metropolitano. Tratava-se de um oficial 
do exrcito, gravemente ferido havia poucos minutos. Um tanto plido, com a voz levemente quebrada, o Dr. Teixeira Torres dera-lhe instrues apressadas no hall:
   - lcera perfurada do duodeno. Faa uma gastroenterostomia. No foi voc quem me ajudou na operao da mulher do velho Espnola? Pois  um caso idntico. - Parou 
um instante, olhou para Eugnio e seus lbios crisparam-se num mal perceptvel sorriso de paterna ironia. - A no ser que voc prefira fazer uma duodenoctomia...
   Abalou para o automvel. Antes de entrar, voltou-se e gritou:
   - No se impressione se a coisa correr mal... O homem pode "chorar". Isso acontece.
   Olvia preparava-se para fazer a anestesia. Irm Isolda fitou em Eugnio os seus olhos insondveis. Ele julgou ler dvida e desconfiana naquele olhar cinzento.
   Silncio. L fora o tiroteio cessara por instantes. Eugnio sentia todos os olhos focados na sua pessoa, como se estivesse no palco e se esperasse dele uma representao 
de primeira ordem. Olhou para o doente e odiou-o. Odiou-o como se ele tivesse culpa de todas aquelas coisas terrveis: a lcera, a revoluo, o outro caso que afastara 
o Dr. Teixeira Torres...
   Meteu as mos na bacia do lcool iodado. O bafio do lcool entrou-lhe pelas narinas e chegou-lhe ao crebro, onde se transformou na imagem de Ernesto. Eugnio 
dobrou os braos, mergulhou-os at ao cotovelo no lquido frio.
   Entrou na sala um enfermeiro e disse a Olvia em voz baixa.
   - Parece que o quartel vai entregar a rapadura.
   Sorriu e apareceram-lhe trs dentes de ouro.
   Eugnio afastou-se da bacia, premiu o pedal do tambor e tirou dele um avental. Roupa branca. Lavadeira. A me lavando a roupa do internato, as mos murchas de 
tanto ficarem na gua, o pai conferindo o rol. Porque lhe vinham com tanta freqncia aquelas recordaes da infncia?
   Enfiou os braos nas mangas do avental, enquanto uma enfermeira o abotoava nas costas. Botou a mscara, e, estranhamente, como se estivesse a esperar por um sinal 
convencionado, seu corao desandou a pulsar em ritmo mais rpido. Aproximava-se o momento decisivo.
   Olvia comeou a anestesia. O cheiro doce e enjoativo do basofrmio espalhou-se no ar. Padilha, um estudante do quinto ano com quem Eugnio no simpatizava, comeou 
a dispor os ferros em cima da mesa auxiliar.
   Eugnio aproximou-se do doente. Olhou em torno. Os outros esperavam. Pareceu-lhe que Padilha sorria com o canto da boca, num sorriso de desdenhosa incredulidade. 
Por cima do rosto do paciente (a pele quase to branca como a mscara) Eugnio sentia a presena amiga dos olhos profundos de Olvia. S eles podiam ampar-lo. Por 
alguns segundos, Eugnio hesitou. Gastroenterostomia. Via mentalmente o Dr. Teixeira Torres operando a esposa do velho Espndola, seguia o trajecto da mo gil e 
firme segurando o bisturi. Foi ento que notou o tremor das prprias mos. Era horrvel. Tinha feito j vrias intervenes menores, lutara com a nusea e com o 
medo... Mas fora sempre bem sucedido e isso dera-lhe uma sensao de alvio e um princpio de confiana em si mesmo. Agora, porm, era diferente. Noite. L fora 
os homens loucos, os homens brutos lutavam. (Recomeara o tiroteio). Entregavam-lhe um cadver para operar. Talvez nem conseguisse ir at ao fim...
   Eugnio olhou para Olvia, numa consulta silenciosa. Ela pesquisou o reflexo palpvel do paciente. Sacudiu a cabea em sinal afirmativo. O auxiliar pinou a pele 
do doente: no se notou nenhuma reao. Eugnio pegou no bisturi. Teve a vaga sensao de que ia cometer um crime, de que naquele instante a porta se abriria e algum, 
fosse quem fosse, entraria para o substituir, para o prender, para evitar que ele continuasse.
   O tiroteio recrudescia. Mas o silncio no hospital era pavoroso.
   Eugnio fez a inciso. Estranho... Quando o sangue brotou, ele de certo modo se sentiu aliviado. Agora, de qualquer maneira, tinha de continuar.
   O silncio ali na sala continuava, quebrado apenas pelo rudo agudo e seco das batidas dos ferros. A enfermeira, uma alem muito tesa e corada, apresentava ao 
operador os ferros com gestos de autmato - mas um autmato que raciocinava, que chegava a ler os pensamentos do cirurgio, adivinhando o instrumento que ele ia 
pedir.
   Eugnio picou o peritnio do paciente com a ponta da tesoura e comeou a cortar... Aconteceu ento o que de um modo obscuro ele esperava e temia. Manou da inciso, 
em mar montante, uma lama escura e viscosa, formada de pus, de exsudatos e de contedo duodenal. Por uma frao de segundo, Eugnio teve uma como que hesitao. 
Os msculos faciais contrairam-se-lhe; seu rosto era uma mscara de repugnncia. A lama continuava a manar, invadindo o campo operatrio. Dir-se-ia que o corpo do 
pobre homem no passava de um repositrio em que se escondesse toda a podrido do Mundo. Eugnio ergueu os olhos para Olvia, num mudo mas desesperado pedido de 
socorro. Padilha e a enfermeira avanaram com compressas e tampes.
   Estrondos surdos ao longe. Decerto agora estavam atirando com canhes. Eugnio imaginou as casas ruindo, a cidade destruda, uma granada atingindo a sua casa. 
Viu a me estendida no cho, coberta de sangue. Olhou para as luvas sujas daquele lquido horrendo, teve vontade de gritar. Tudo aquilo era brutal. Os homens eram 
maus. Os homens estavam podres.
   O tiroteio continuava, cortado de quando em quando por um estrondo mais forte. No s o operado ia morrer. Todos morreriam sob o bombardeio. O calor era insuportvel. 
Ou estava frio? Devia ser o cheiro de basofrmio que o marcava.
   Haviam-lhe dado um defunto para operar. Odiou o Dr. Teixeira Torres. Se se tratasse de um doente rico, ele ficaria para abrir o ventre do paciente num momento 
e tornar a fech-lo no minuto seguinte, num simulacro de operao. Contavam-se piratarias do Dr. Teixeira Torres. Ou eram injustias? Ele era um ingrato. O homem 
mostrava-se seu amigo, procurava auxili-lo na profisso. Lindo auxlio! Largar-lhe um caso daqueles nas mos. S um milagre poderia salvar o doente. Mas no existem 
milagres. No Mundo s havia a estupidez dos homens, a brutalidade inapelvel da vida.
   -No se sente quase o pulso. . . - avisou Padilha.
   O rosto e as mos do doente estavam brancos como papel.
   A respirao enfraquecia, tornando-se superficial. Olvia retirou a mscara.
   - No tem mais pulso - declarou o auxiliar, ao cabo de alguns segundos.
   Era triunfo, desafio ou censura o que havia na voz de Padilha? Eugnio olhou para ele obliquamente.
   Naquele instante, a porta abriu-se, o enfermeiro entrou e disse alguma coisa ao ouvido da Irm Isolda. Foi como se a morte tambm tivesse penetrado com ele na 
sala, porque Eugnio sentiu um brusco calafrio (corrente de ar ou pura iluso?) e o doente cessou de respirar. Olvia examinou-lhe a pupila. Padilha largou-lhe o 
pulso, auscultou-lhe o corao. Depois, olhou para Eugnio e disse com indiferena:
   - Esticou.
   Eugnio teve vontade de o esbofetear. Como assentava mal aquele plebesmo na hora em que uma vida ali se acabava, na hora em que l fora muitas criaturas estavam 
morrendo!
   A enfermeira apresentou a Eugnio a agulha e o cat-gut. Os seus olhos, de um azul puro, no revelavam a menor comoo. Ela tinha no rosto uma expresso infantil, 
era como se, em vez de estar passando ao cirurgio agulha e linhas para costurar um cadver, estivesse pedindo ao irmo mais velho que lhe cosesse o vestido da boneca.
   Eugnio suturou a inciso num s plano.
   Agora ouvia um cochicho: "Morreu na mesa de operao".
   Algum dizia estas palavras em seu esprito. Mas quem? "Morreu na mesa de operao". Sim. Os seus colegas cochichavam uns para os outros. "Morreu nas mos do 
Eugnio" - eram vozes conhecidas, vagamente inimigas.
   Estava tudo acabado.
   - Irm Isolda - disse Eugnio, faa o favor de avisar a famlia. - Estranhava a firmeza da prpria voz. - O Dr. Teixeira Torres j tinha prevenido que no havia 
esperana. De onde lhe vinha de repente esta calma, esta frieza?
   A fuzilaria continuava. Padilha e o enfermeiro conversavam em voz alta, discutiam a revoluo, riam. Na sua tortura, Eugnio apenas percebia frases soltas - "... 
rebentou uma granada na calada... metralhado no elevador... dizem que o batalho aderiu..."
   Tirou as luvas e jogou-as agressivamente ao balde. Arrancou a mscara e de repente sentiu-se desprotegido. Desmascarado! O bandido tira finalmente a mscara.
   Livrou-se do avental e precipitou-se para a sala de esterilizao. Veio uma voz do corredor:
   - O quartel ainda no se rendeu.
   Lavando as mos, Eugnio ergueu os olhos para o espelho e viu nele o rosto tranquilo de Olvia. Voltou-se, com as mos pingando.
   - Tome isto - disse ela, apresentando-lhe um clice cheio de lquido cor de mbar.
   - Conhaque?
   Ela sacudiu a cabea. Eugnio levou o clice  boca e emborcou-o. Enquanto ele enxugava as mos, ela meteu-lhe o cigarro entre os lbios e acendeu-o.
   - Vamos descer juntos? - convidou ele.
   - Vamos. Espere um instantinho que j volto.
   Cinco minutos depois desciam o elevador. No hall, um grupo de homens conversava animadamente.
   Olvia e Eugnio saram para a noite. Caminhavam lado a lado, em silncio. Eugnio sentia voltar-lhe a calma. Cessara a fuzilaria. Ele no esquecia o operado, 
mas resignava-se  fatalidade. Enfim, tratava-se de um caso perdido. Entretanto tinha sido um tolo em prestar-se quela farsa.
   - Olvia... - disse ele depois de alguns instantes. - Sou um fracassado.
   - Porque no conseguiste ressuscitar um morto?
   Eugnio encolheu os ombros.
   - No  por isso... Mas se soubesses da minha luta ntima, do meu medo, da minha indeciso. Cirurgia exige sangue-frio. E eu no tenho sangue-frio. Quando corto 
a carne do paciente,  como se estivesse cortando na minha prpria carne,  como se estivesse cometendo um crime...
   Como nica resposta, Olvia tomou-lhe o brao suavemente, e assim, mais chegados um ao outro, continuaram a descer a rua.
   - Por que  que tudo  to diferente do que imaginamos quando somos crianas? - continuou Eugnio. -  muito bonito dizer que o dr. Fulano salvou uma vida, sacrificou-se 
pela Humanidade... Ficamos comovidos, queremos ser tambm heris, esperamos o nosso dia de salvar vidas, de fazer sacrifcios. Oh! Mas como na realidade tudo muda... 
Est claro que desde que eu comecei a ver as coisas com mais profundidade descobri a iluso. Mas  que eu tinha confiana em que com o tempo e com o estudo eu adquirisse 
uma personalidade, tu compreendes? - confiana em mim mesmo, uma coragem serena, uma qualidade absolutamente adulta... uma... eu sei que tu compreendes... qualquer 
coisa que me fizesse operar um homem com a mesma calma com que um menino corta figurinhas de papel... E sabes o que sinto quando estou operando?
   Olvia apertou-lhe mais o brao, com ternura.
   - Sei. O mesmo que sentirias se tivesses quinze anos e algum te levasse para uma sala de hospital, te apresentasse um caso de ventre agudo, te desse um bisturi 
e dissesse: opere, menino!
   - Exatamente.
   - Acho que posso dizer com maior ou menor exatido o que sentiste hoje. Quando o Dr. Teixeira Torres te entregou o caso, sentiste medo, de mistura com uma pontinha 
de orgulho. Medo, porque ficavas com a enorme responsabilidade de um caso perdido. Orgulho, porque o Dr. Teixeira Torres te confiava um doente. Mas o orgulho desapareceu, 
para dar lugar a uma sensao quase de pavor. Est certo?
   Eugnio olhou para a companheira, hesitou um instante.
   - Es... est.
   - Depois, o que mais te incomodava era a impresso de que os outros podiam achar que no estavas  altura daquela responsabilidade. Julgavas ver desconfiana, 
ar de troa nos olhos da freira, da enfermeira, do teu auxiliar. Achavas aquela situao acima das tuas prprias foras, mas ao mesmo tempo era-te insuportvel que 
os outros pensassem isso.
   Era-lhe vagamente incmodo ser assim descoberto, assim adivinhado nos sentimentos mais ntimos. Ele relutava em concordar, em se dar por vencido. Mas era intil. 
Os olhos de Olvia pareciam ver alm das coisas fsicas. E por que era que ele nunca se zangava, nunca se irritava com as observaes dela, por mais diretas, cruas 
e contundentes que fossem? Por que era que ele no se irritava mesmo quando, com espantoso olho clnico, ela botava o dedo nas suas feridas mais profundas?
   - Olvia, eu no sei como  que tu descobres essas coisas...
   Ela sacudiu a cabea, de leve, pensou um instante e depois disse:
   - Decerto porque sou mdica e medicina  intuio...
   Ele sacudiu a cabea: no aceitava a razo.
   - Ento  porque sou mdica e mulher. . .
   - Deve haver mais alguma coisa...
   - Ou porque tu, sem saberes, mostras demais os teus pensamentos e os teus sentimentos...
   - No creio.
   - Ento porque tenho vivido e aprendi a ver.
   - Tens apenas vinte e cinco anos...
   - Conheci um homem que tinha sessenta e ainda no tinha aprendido a conhecer-se a si mesmo.
   Silncio. Entraram noutra rua. Passou correndo por eles um caminho cheio de soldados que gritavam vivas.
   - Que revoluo estpida! - murmurou Eugnio.
   - Eu no sei como h gente.. .
   No completou o pensamento. Acendeu novo cigarro. Olvia sacudiu os ombros de leve.
   - a vida.
   Na outra calada, agarrado a um poste, um bbado soltava berros:
   - Viva el poder constituido! Abajo los selvagens unitrios... - E rompeu num canto fanhoso e desafinado.
   De novo a fuzilaria, longe. Eugnio sentiu um desagradvel arrepio na pele e o ritmo do corao marcou a sua impresso de medo.
   Pararam. Ainda bem que iam em direo oposta  da zona onde se combatia... O enfermeiro contara-lhes que s o quartel do 7 B. C. ainda resistia. Em todos os 
outros sectores a revoluo j estava vitoriosa.
   Olvia apertou-lhe mais o brao, colou-se ao corpo dele quando atravessaram a rua. Apressaram o passo, quase correram, pois achavam-se fora da proteo das casas.
   Ao alcanarem a calada oposta, retomaram o passo normal. O tiroteio comeou a afrouxar de novo. Eugnio, mais calmo, pensou no homem que lhe morrera nas mos.
   - Durante quase toda a operao - disse ele - a propsito de pequenas coisas, objetos, sons, cheiros, eu estive a lembrar-me de pessoas e fatos da minha infncia. 
Porque ser que a gente no se liberta dela?  como se a nossa vida toda estivesse l e o resto no fosse nada. Porqu?
   - Isso  que tu mesmo deves procurar descobrir. Eu poderia dar-te uma explicao pedante. Mas prefiro oferecer-te uma resposta humana.
   Eugnio atirou o cigarro para o ar, soltou uma baforada de fumaa, sorriu com melancolia e disse:
   - Sou um caso perdido, no achas?
   - No acho, sinceramente.
   Ele enfiou as mos nos bolsos, mas Olvia no lhe soltou o brao. Era como se tivesse medo de que, sem o seu apoio, ele perdesse o equilbrio.
   Quando se aproximaram da casa em que se hospedava Olvia, Eugnio comeou a pensar nas horas que viriam depois. Temia ficar longe da amiga. Sabia que os temores 
voltariam e que de novo a vida lhe apareceria fria e vazia diante dos olhos. Todo o seu desejo de felicidade e de correspondncia humana ficava sem resposta. Aquela 
noite de Outubro, inquietante e indiferente, dava-lhe arrepios na epiderme. O ar era frio como os homens, como os homens cruis que quela hora se matavam. Ele ia 
para casa, onde a me decerto o esperava aflita. Ficaria no quarto a fumar e a pensar. Era s e infeliz. E essa permanente sensao de infelicidade, desconforto 
e Insatisfao torturava-lhe a vida sombria e triste. Havia uma parte do seu ser - a maior, a mais forte e palpvel - que se julgava vtima de uma grande injustia 
e que desejava ansiadamente subir, melhorar de condio social, fosse como fosse. A outra parte do seu eu - to imprecisa e dbil que em certos momentos desaparecia, 
como se nunca houvesse existido - exercia sobre a primeira uma crtica que no era destituda de malcia, inclinava-se a aceitar a realidade com coragem e at com 
humor.
   Atravessaram o pequeno jardim. Olvia meteu a chave na fechadura. Morava com os Falk, um casal alemo sem filhos.
   Eugnio estendeu-lhe a mo. Ela olhou o relgio-pulseira.
   -  cedo. Entra um pouquinho.
   Ele hesitou por alguns segundos. Desculpou-se com a me, mas sem nenhuma convico. D. Alzira devia estar aflita, sem saber notcias dele. Mas, enfim, como era 
cedo... Entrou.
   
   O auto atravessa uma vila, bem no momento em que os combustores se acendem. H qualquer mistrio nas ruazinhas desertas e mal alumiadas, nas velhas casas coloniais 
de fachadas sombrias. Cachorros latem. As portas iluminadas de uma venda. O vulto da igreja antiga. Sempre uma sugesto de Deus dentro e fora de nossos pensamentos. 
Porque no se revelara Ele de um modo mais definido? Na forma de um milagre, por exemplo... Olvia escapando da morte. Sim. A salvao de Olvia pode ser sinal da 
existncia de Deus.
   O carro torna a entrar na faixa de cimento, deixando a povoao para trs.
   A noite desce, perfumada de ervas midas. Mais estrelas aparecem. O vento  morno como um hlito humano. Estranhamente, Eugnio lembra-se da sua primeira noite 
de amor com Olvia.
   Tudo se passara da maneira mais absurda e inesperada. Tinha entrado no quarto dela, depois daquelas horas horrveis -o doente que morrera nas suas mos, a revoluo, 
a sensao de derrota e de medo - e ela portara-se para com ele como uma enfermeira. Fizera-o deitar-se no sof, aninhar a cabea cansada no seu colo. E ele ficara 
assim um instante, de olhos fechados, procurando a paz. Olvia acariciava-lhe os cabelos em silncio. Ele sentia na nuca a rija maciez da carne da amiga, por baixo 
do vestido fino. A carne de uma mulher. .. Olvia era uma mulher. Abriu os olhos. Viu aquele rosto sereno. Curioso! Era belo, tinha um encanto particular. Ficou 
alguns instantes a contempl-lo. O calor do desejo tomava-lhe conta do corpo, aos poucos tornava-lhe a respirao difcil. No pde mais continuar deitado. Ergueu-se 
brusco e ficou sentado ao lado de Olvia, olhou-a de tal modo que ela franziu a testa, numa expresso de inquieta curiosidade, perguntando:
   - Ests sentindo alguma coisa?
   Ele sacudiu a cabea, numa negativa.
   Olvia era atraente, tinha uns olhos quentes, uma boca vermelha de lbios cheios. Ele sentia vontade de beij-la. E por que no a beijava? Olvia podia repeli-lo, 
ficar magoada. No era como as outras.
   Mas que importava? O Mundo ia acabar. Os homens matavam-se. A vida era cruel. Um dia ambos estariam apodrecendo debaixo da terra.
   Pegou na cabea de Olvia com ambas as mos, beijou-lhe a boca longamente.
   E ela entregou-se-lhe num comovido silncio.
   Os sapos coaxam. A luz dos faris do carro varrem a estrada, varam a noite.
   
   Saiu do quarto de Olvia muito tarde. Sentia-se como um homem novo entrando num mundo que amanhecia. De repente como que a sua vida se transformava e ele no 
era mais ele, e sim apenas um ser areo, sem memria, caminhando na madrugada. Galos cantavam longe. O ar frio, tinha uma qualidade mordente, cheirava a sereno. 
Eugnio parecia no sentir o prprio corpo. Levou a mo  testa fresca. Sentiu nos dedos o perfume de Olvia. Lembrou-se dos momentos em que a tivera nos braos. 
Aquela surpresa e aquela revelao davam-lhe um suave atordoamento. Ele no queria pensar. Agora s sentia desejos de dormir, muito, sem procurar saber o que amanh 
pudesse vir...
   Quando chegou a casa eram quatro horas da manh. Abriu a porta sem fazer barulho e foi para o quarto na ponta dos ps. Tirou o casaco, sentou-se na cama. Ouviu 
passos surdos no corredor. Ficou  escuta... A porta abriu-se e D. Alzira apareceu, enrolada num xale xadrez.
   - Mas, meu filho! Eu estava to assustada pensando que te tinha acontecido alguma coisa. - Aproximou-se de Eugnio, inclinou-se, beijou-lhe a testa. - Passei 
todo o tempo rezando, ouvindo o tiroteio, com medo que alguma bala perdida podia acertar em ti.
   - No aconteceu nada, me.
   - Que horas so?
   - Devem ser quatro, quatro e pouco.
   - Demorou tanto assim a operao?
   Eugnio fez um sinal afirmativo com a cabea. Desviou os olhos do rosto da me. Via nele tantas perguntas...
   - Porque no vieste logo para casa? Eu estava to aflita... Toma o teu leite, meu filho. - Mostrou o copo de leite e os biscoitos em cima da mesa de cabeceira. 
- No levaste nenhum agasalho. A noite est to fria! Queres que eu aquea o leite?
   - No, me, obrigado. Prefiro frio.
   Era-lhe um pouco incmoda aquela insistncia, aquela solicitude. Porque no o deixavam em paz? Ele precisava de tranqilidade, de solido.
   - E a revoluo? - Na pergunta havia espanto, incompreenso, censura e medo.
   Eugnio no respondeu. Fez-se um silncio curto, durante o qual se ouviu um tiroteio ralo, muito longe.
   - Escuta... -fez D. Alzira. - Ainda esto brigando - suspirou. - Que horror! Parece que o Mundo se vai acabar.
   
   Eugnio estendeu-se na cama. Que lhe importava a revoluo! A me comeou a tirar-lhe os sapatos.
   - Sabes quem foi que morreu? O Alusio, da D. Gugu...
   - O Alusio?
   - Era da guarda-civil. Morreu no assalto ao quartel-general, diz que de uma granada. A coitada est desesperada, teve um acesso de loucura.
   Eugnio fechou os olhos e viu Alusio estendido na rua com a cabea aberta e os miolos escorrendo, como um fruto podre que se esborrachou no cho.
   D. Alzira sentou-se  cabeceira da cama e comeou a afagar devagarinho a cabea do filho.
   - Correu tudo bem? - perguntou em voz baixa.
   Sem abrir os olhos, com m vontade, apesar de saber do que se tratava, Eugnio perguntou:
   - O qu?
   - A operao.
   Oh! Porque fazia ela perguntas? Porque no o deixava em paz? Ele amava-a, sim, talvez no tanto como ela merecia, mas amava-a. Sabia que ela se sacrificara por 
ele, trabalhando para o sustentar, para lhe pagar o colgio. Devia-lhe tudo: a vida, o ttulo de doutor, as meias remendadas e um milho de pequenas coisas. Mas 
o que ele no suportava era que ela ainda o tratasse como uma criana. O leite que lhe trazia todas as noites, de certo modo era para manter a iluso de que ainda 
continuava a amament-lo.
   Depois de uma breve relutncia, Eugnio falou:
   - O paciente morreu.
   A me suspirou e as carcias de suas mos nos cabelos do rapaz ficaram mais prolongadas, como se quisessem ser mais sedativas.
   - No h-de ser nada, ningum pode com o destino.
   Pior ainda - achava Eugnio - eram aquelas tentativas de consolo. O que ele precisava era de silncio, de sono, de esquecimento.
   - Deus  grande, meu filho.
   Deus no existia. Em pensamentos, Eugnio fazia esta afirmativa. Mas fazia-a com timidez, com um temor subterrneo. Era vagamente ameaadora aquela madrugada 
de sangue, com homens morrendo. Deus podia existir. Talvez Olvia tivesse razo. Lembrou-se de um dilogo que tivera com ela havia poucos dias.
   - Se Deus existe, ento porque no se revelou?
   - Porque at Deus precisa de oportunidades - respondera ela.
   - Se Deus existisse, eu j O teria encontrado.
   Lembrava-se do sorriso da amiga, da voz serena com que ela o envolvera, respondendo:
   - Vocs ateus, querem tirar-nos Deus para nos dar em lugar d'Ele... o qu... o qu?  o mesmo que tirar po da boca de quem tem fome e dar-lhe em troca um punhado 
de cinza ou de areia.
   Eugnio tornava a ouvir a prpria voz, chegava a ver-se, erguendo-se e investindo para Olvia.
   - Mas po, cinza e areia so coisas concretas. Deus  uma abstrao...
   -Tu acreditas no sucesso. Pois "sucesso" tambm  uma abstrao...
   Olvia... Olvia... Agora, de olhos cerrados, Eugnio pensava nela. Que seria da amizade deles depois do que acontecera naquela noite? Era muito cedo ainda para 
ver claro em tudo aquilo, para saber ao certo se o que ele sentia era alegria, remorso, susto, surpresa ou asco de si mesmo. A verdade era que se lembrava dela com 
ternura e o choque daquela revelao no lhe era de todo desagradvel. No podia fugir a um sentimento de vitria, no fundo do qual, entretanto, descobria um elemento 
de amargor.
   Tudo acontecera num momento de tontura. Era o seu desejo de felicidade, de gozo, depois de todas aquelas cenas desagradveis no hospital. De repente, ele como 
que se lembrara da solido da sua vida e do Mundo e se abraara com Olvia, como se s ela o pudesse salvar. No eram moos os dois? No eram sos? No tinham direito 
ao seu bocado de felicidade? Fora um momento de esquecimento, e ao mesmo tempo um momento inesquecvel. Mas os seus pensamentos foram cruzados pela voz da me, dolorosa 
no seu pensamento:
   - No soubeste nada do Ernesto?
   Era uma pergunta tmida, murmurada-sentia-se-depois de uma grande indeciso, de uma tremenda luta ntima.
   Aquela noite era um mundo, aquela noite era uma eternidade, ele nunca, nunca, nunca mais havia de esquec-la. O cadver na mesa de operaes. Os beijos de Olvia. 
A fuzilaria, os homens estraalhando-se. A madrugada. Os seus pensamentos confusos. E agora a lembrana de Ernesto.
   - Nada, me, nada.
   Quis afastar dos pensamentos a recordao daquele dia. Intil. Via Ernesto de olhos baixos, olhando para o prato, via a me com a mo na boca, os olhos espantados, 
o pai encolhido na cadeira de baloio, via-se a si prprio amassando o jornal, com a fria a ferver-lhe no peito, a embargar-lhe a voz.
   - Outra vez no jornal. - A clera alterava-lhe a voz, o seu rosto devia estar desfigurado. - Baderna no Beco do Imprio. E o retrato dele, pai, veja, me. - Mostrava 
a seco policial do Correio do Povo. Lia. - "Beberro Contumaz Provoca Distrbios no Beco." O retrato e o nome. Ernesto Fontes, o nome inteiro! - Jogou o jornal 
ao cho, encarou o irmo com raiva. -  para isso que eu vivo estudando?  para isso que o pai e a me se matam? Para voc andar no vcio, fazendo badernas? - Ernesto 
continuava de cabea baixa. - A gente fazendo o possvel para sair desta sujeira e voc puxando-nos pro barro. - Voltou-se para a me, num apelo. - Se os rapazes 
da Faculdade chegam a descobrir que ele  meu irmo, acho que no tenho mais cara de aparecer l.
   ngelo ergueu-se, disfarou e foi para a cozinha. D. Alzira murmurava palavras de conciliao. Mas Eugnio (com que agudeza lhe vinham as recordaes e com que 
perversa volpia ele agora olhava para os prprios pensamentos!) queria decidir a questo de uma vez por todas.
   - Fique sabendo, seu Ernesto. Um de ns  demais nesta casa. Ou voc desaparece amanh ou eu me mudo p'ra uma penso.
   Sentou-se. O seu corpo todo tremia. D. Alzira chorava. ngelo tossiu na cozinha. Ernesto disse baixinho:
   - Eu vou-me embora.
   No dia seguinte desapareceu. E nunca ningum mais soube dele. ngelo foi aos jornais, foi  polcia. Intil. Poucas horas antes de morrer, perguntou:
   - Aonde andar o Nestinho?
   Oh! Aquela noite... De repente, Eugnio jogou as pernas para fora da cama, brusco.
   - Credo, Genoca, que  isso?
   Sentado na cama, com as mos segurando o ferro do lastro, a cabea enterrada entre os ombros erguidos, Eugnio olhava para a parede.
   - O que precisas  de um bom sono. Dorme, meu filhinho. Teu pai sempre dizia: sono  po.
   Beijou-lhe a testa e saiu sem fazer barulho. Mas deixou Eugnio na companhia de um fantasma. Sono  po: teu pai dizia.
   Eugnio acendeu um cigarro e caminhou at  janela, abriu-a e olhou para fora. O dia clareava. Havia um mistrio no Mundo. Devia haver um secreto sentido em tudo 
quanto acontecera naquela noite: o doente que morrera nas suas mos, a mulher que tivera nos braos, os homens que se fuzilavam. Aquilo tudo no podia ser gratuito.
   Eugnio ficou fumando e pensando por longos minutos.
   Olhou para o pequeno jardim da sua casa e viu com a imaginao o pai curvado sobre o canteiro maior, cuidando da roseira predileta (Rainha das Neves), arrancando 
as ervas daninhas que cresciam em torno, matando as formigas. Ali se erguia agora a roseira, com todo o vio. ngelo estava morto. Ele, Eugnio, fora tambm como 
a roseira predileta. Crescera e florira, graas aos cuidados do pai. Crescera para se envergonhar do jardineiro... Aquela tarde, descendo a rua...
   Eugnio jogou o cigarro para o jardim, fechou a janela, estendeu-se na cama. Sentia as plpebras doloridas, a cabea zonza. Pensou em Olvia, viu a pele do operado 
tostada de iodo, o sangue brotando, pensou em Alusio estendido na calada, em Mr. Tearle cado de borco no campo, sob a chuva. Ernesto... Olvia... a lcera perfurada... 
o tiroteio ao longe.
   E uma grande paz caiu sobre ele, uma grande bno, um lago profundo de tranqilidade e frescura, sono pesado e sem sonhos.
   
   Um vagabundo caminha pela beira da estrada. Eugnio vislumbra-o num relmpago,  luz dos faris. O auto continua na sua carreira precipitada e ele fica pensando 
no irmo perdido.
   
   Eugnio cerra os olhos e rev um quarto de hospital.
    Inverno, a chuva bate macia nas vidraas, a luz cinzenta e gelada da manh d s pessoas uma aparncia cadavrica. " Fique descansada, me, eu vou procurar 
o Nestinho"... (A sua prpria voz volta-lhe  memria em apagado cochicho). E Eugnio v-se a si prprio sentado  cabeceira da me, poucas horas antes de ela morrer. 
Como as suas mos estavam frias e como eram frgeis aquelas pobres mos que tanto se haviam cansado e ferido por amor dele... O Dr. Seixas coara a barba e ali de 
p, ao lado da cama, olhava para a velha amiga que aos poucos morria. E de quando em quando resmungava com a sua voz spera: "No  nada Alzira, amanh voc est 
boa. No  nada." Tinham feito tudo quanto fora possvel fazer. Haviam chamado em conferncia os melhores mdicos da cidade. Agora s lhes restava esperar a morte 
e tornar  moribunda menos dolorosas aquelas ltimas horas de vida.
   Houve um momento em que ela moveu os lbios. Eugnio aproximou deles o ouvido e as palavras de sua me foram pouco mais do que um sopro: "O Nestinho... ele  
to bom... "
   O auto rola. Os vagalumes lucilam. Passam cercas, rvores, o vulto rpido e branco de uma casa caiada.
   As lgrimas rolam pelo rosto de Eugnio. E ele sacode a cabea de um lado para o outro, como um menino doente, como algum que tentasse no sono espantar um sonho 
mau. "Fique descansada, me, eu vou procurar o Nestinho." Assim pronunciadas  cabeceira de um moribundo, estas palavras tinham a fora de um juramento. Mas que 
fizera ele para achar o irmo nos dois anos que se seguiram, seno fracas tentativas com o fim nico de apaziguar a conscincia? O tempo passava. Havia o escritrio, 
o consultrio, as malditas Obrigaes sociais, o temor do escndalo, o desejo de esconder da mulher e do sogro a existncia daquele irmo transviado. E ele iludira-se 
com promessas. Amanh... Mais tarde... H tempo... Um dia, timidamente; contara tudo a Eunice. E ela dissera-lhe apenas isto: "Como se no te bastassem os teus prprios 
problemas..."
   A Lua cheia ergue-se por trs do escuro contorno de um morro. O seu claro  to forte que as estrelas quase que se apagam no Cu plido.
   Eugnio consulta o relgio.
   Era a hora a que geralmente jantavam naquele tempo... Ernesto ficava na sua frente  pequena mesa. s vezes, dava-lhe pontaps nas canelas, mas o seu rosto permanecia 
srio: s os olhinhos midos riam com mal simulado lampejo de malcia. "Olha o jeito do Ernesto, me. Deu-me uma canelada, o sem-vergonha!" E a me: "Que  isso, 
Nestinho? Tenha modos."
   
   Depois  uma noite de tempestade. O vento sacode as telhas, faz tremer portas e janelas. A chuva tamborila no telhado, fustiga as vidraas. Relmpagos clareiam 
o quarto. Troves rasgam o silncio. Debaixo das cobertas, unidos num abrao apertado, ele e Ernesto esto transidos de medo. Perdidos num mundo de pavor e de desastre. 
Os troves vo fazer o Cu vir abaixo. Os raios partiro as casas, incendiando-as. A chuva inundar toda a Terra, num novo Dilvio. Santa Brbara, S. Jernimo. "Padre-nosso 
que estais no Cu, santificado seja o Vosso nome. Genoca, que  isso que t batendo?" - "No sei... Acho que  o meu corao." "Ser que o Mundo vai-se acabar? " 
- "Decerto vai. Reza, reza: Ave-Maria, cheia de Graa." E abraados eles esperam que passe a fria do Pai do Cu.
   "O Nestinho... Ele  to bom..." Sim, ele era bom. Repartia com o irmo mais velho os doces e os tostes que lhe davam. Um dia no colgio atracou-se com um dos 
colegas que tinha falado mal do Genoca. Tirava notas baixas, mas era com orgulho que dizia: "O meu irmo  o bicho da aula." Com o correr do tempo, entretanto, 
eles separaram-se. Todos os cuidados dos pais eram para o filho mais velho. Ele havia de cursar as escolas superiores, seria doutor. No havia dinheiro para educar 
os dois...
   Eugnio passa a mo pelo rosto. Agora  Olvia que lhe volta ao pensamento. No. Olvia est e esteve todo o tempo em sua mente. A cena do hospital, a lembrana 
de Ernesto, as imagens da sua infncia tinham uma estranha transparncia e atravs dela todo o tempo ele enxergara Olvia, a Olvia, mesmo, tinha uma diafaneidade 
misteriosa, atravs da qual Eugnio via vagamente a morte. Mas a morte no tinha formas fixas. Ora era uma mulher plida entre quatro crios, ora era um tmulo branco 
ou simplesmente um corpo que se descompe.
   Olvia vai morrer. Talvez a esta hora j esteja morta, oh Deus! Esta viagem no acaba mais, nunca mais!
   
   Quando Eugnio entrou no quarto, a criana debatia-se num novo acesso de tosse. Jogara as cobertas longe e agora estava ali a revolver-se na cama, sufocada, roxa, 
aflita, os olhos muito arregalados, o corpo convulso. Era uma tosse surda, rouca. Quando o acesso passou, o menino ficou de braos e pernas abertos, cansado do esforo, 
muito plido, os lbios arroxeados, os olhos cheios de um medo angustiado.
   Eugnio no tinha mais dvidas: tratava-se de um caso adiantado de laringite diftrica. Tomou o pulso do doente - era um menino corado e gordo, devia ter cinco 
anos auscultou-lhe o corao. O pulso estava acelerado e filiforme. O corao marchava descompassado, acusando de quando em quando o rudo de galope.
   - Porque no chamaram logo um doutor?
   Mal acabou de proferir estas palavras, Eugnio compreendeu o seu vazio, a sua inutilidade pretensiosa. Dissera aquilo como quem cumpre uma praxe, talvez porque 
tivesse ouvido outro mdico pronunci-las em circunstncias idnticas, porque, se aquela cena estivesse num romance ou numa pea de teatro, era de se esperar que 
o mdico fizesse aquela pergunta com ar severo e profissional. Eugnio olhou para a me da criana. Era uma mulher gorda e baixa, de pele terrosa, e olhos de um 
verde aguado. Desatou a dar explicaes com voz desagradvel, numa loquacidade nervosa. Eugnio no a escutava. Olhava para o menino, descobria sintomas de cianosa, 
via-o agitar-se na nsia da dispnia. Era uma criana bonita, os seus cabelos crespos e longos espalhavam-se pelo travesseiro, os seus olhinhos eram claros e de 
uma pureza que persistia mesmo na dor.
   - Salve o nosso filho, doutor. - Eugnio sentia a respirao quente do pai da criana, via-lhe a expresso dolorosa do rosto, os olhos espantados, os lbios trmulos. 
- Por amor de Deus, seu doutor, eu lhe dou tudo o que tenho.
   Nesse instante, o menino teve novo acesso de tosse, ergueu-se na cama, os bracinhos agitaram-se no ar, o som cavo da sua tosse encheu o quarto. Depois, ele caiu 
de novo e ficou imvel, aparentemente sem respirar. Com um grito, a me precipitou-se para a cama e comeou a abraar o menino num desespero!
   - O meu filho morreu! O meu rico filhinho!
   A custo, o marido conseguiu arranc-la dali. A mulher levantou-se ficou hirta por um momento, olhou para o mdico com os olhos vazios de expresso e por um instante 
pareceu oscilar nas fronteiras da loucura. A sua boca crispou-se num esgar. Eugnio contemplava-a angustiado. O rosto dela empalideceu, anuviou-se-lhe o olhar e 
caiu com um baque surdo.
   E agora, absurdamente, Eugnio sentia-se invadido por uma calma fria, por uma lucidez inexplicvel. Tinha de hospitalizar a criana e de oper-la dentro do menor 
tempo possvel. No trouxera consigo nenhum ferro. O pai da criana encontrara-o na rua.
   - V buscar um auto - gritou para o homem, que, ajoelhado ao p da mulher, lhe sacudia os ombros e a chamava pelo nome, repetidamente. - Depressa! - berrou.
   O homem ergueu-se, olhou para Eugnio com olhos estpidos, como se no tivesse compreendido:
   - V buscar um automvel, depressa!
   O outro saiu a correr. Naquele instante, chegavam vizinhos, duas mulheres e um homem. Vinham com ar interrogador, as mulheres soltavam exclamaes, o homem ia 
ensaiando uma pergunta. Eugnio interrompeu-o:
   - Onde  que est o telefone?..
   - A... aqui no vizinho do lado, doutor. Mas...
   - Ponham essa senhora na cama, com a cabea mais baixa que o corpo.
   Saiu a correr. Bateu na casa contgua. Quando lhe abriram a porta, despejou:
   - Sou o Dr. Eugnio. O filho do vizinho est passando mal, preciso do telefone, urgente!
   A mulher que abrira a porta respondeu:
   - Pois no, doutor. Por aqui...
   Eugnio espantava-se de si prprio, da sua deciso. Noutras circunstncias bateria quela porta humilde como um mendigo que fosse pedir roupas velhas.
   Telefonou para o hospital, pediu que preparassem tudo para a operao. E rematou o recado:
   - Mandem chamar a Dr.a Olvia. Dentro de dez minutos no mximo, estou a.
   
   Quando saiu para a rua, viu o automvel j diante da casa do doente. Entrou. Enrolou o menino num cobertor e ergueu-o nos braos. De repente sentia-se forte. 
Era como se acabasse de aceitar o desafio do destino. Queria salvar aquela criana.
   No quarto vizinho, as mulheres tagarelavam, agitavam-se, e a me do menino ainda no tinha recuperado os sentidos.
   - Vamos! - gritou Eugnio para o marido.
   O pobre homem hesitou um instante.
   - Doutor... - disse ele, timidamente. - A minha... a minha mulher...
   Caminhando para a porta, sem voltar a cabea, Eugnio respondeu:
   - Deixe a sua mulher. Vamos salvar o menino.
   Precipitou-se para o automvel.
   - Hospital do Sagrado Corao. A toda a velocidade.
   O pai da criana entrou tambm no carro, que se ps em marcha. Eugnio sentia contra o peito o calor do corpo do menino. Pela primeira vez na sua vida sentia-se 
numa posio de protetor, numa situao quase herica. Estava contente consigo mesmo. Caminhava para uma batalha e ia de nimo forte. Uma intuio secreta, entretanto, 
dizia-lhe que, se comeasse a analisar os seus sentimentos, a pensar na situao, toda aquela calma, toda aquela lucidez iriam guas abaixo. E ele precisava conservar 
a serenidade, continuar lcido. Pensou em Olvia. Olhou para o menino. Parecia um cadver. Sentado a seu lado, o pai chorava baixinho.
   Olvia aproximou-se de Eugnio e com um leno enxugou-lhe o suor da testa. Estava terminada a traqueotomia. A enfermeira juntava os ferros. Rudo de metais tinindo, 
de mesas arrastando-se. Eugnio tirou as luvas e foi tomar o pulso do pequeno paciente. A criana como que ressuscitava. A respirao voltava lentamente, a princpio 
superficial, depois mais funda e visvel. O rosto perdia aos poucos a lividez ciantica.
   Eugnio examinava-lhe as mudanas do rosto com comovida ateno.
   Vencera! Salvara a vida de uma criana!
   Chamou a Irm Isolda:
   - Arranje um quarto para o menino - pediu. - Ns nos responsabilizamos pelas despesas. Pea ao Padilha que lhe d uma injeo de soro antidiftrico.
   Fez mais algumas recomendaes e, depois de se vestir, saiu da sala, aparentemente calmo.
   Mas quando, ao cabo de alguns instantes, Olvia o procurou para sarem juntos, encontrou-o na sala de espera, mergulhado numa poltrona, o rosto escondido nas 
mos, chorando como uma criana.
   
   -Vamos jantar juntos no "Edelweiss"? - convidou ele.
   - Cada um paga a sua parte - condicionou Olvia.
   - V que seja.
   Comearam a andar de brao dado. Cara um aguaceiro havia poucos minutos. O ar estava fresco e no cu limpo o brilho das estrelas tinha uma pureza lquida. Era 
a hora em que se fechavam lojas, oficinas e escritrios. Homens e mulheres caminhavam apressados pelas ruas, precipitavam-se para os carros eltricos e para os nibus. 
Por cima da cabea das criaturas, brilhavam os anncios luminosos.
   A vida  boa! - pensava Eugnio. Ele tinha salvo uma criana. Comeou a cantarolar baixinho uma cano antiga que julgava esquecida. Sorvia com delcia o ar fresco 
impregnado do cheiro da gasolina queimada. Sentia-se leve e areo. Era como se dentro dele as nuvens de tempestade se tivessem despejado em chuva e a sua alma agora 
estivesse lmpida, fresca e estrelada como a noite.
   - Porque ser - perguntou ele a Olvia - porque ser que s vezes, de repente, a gente tem a impresso de que acabou de nascer... ou de que o Mundo ainda est 
fresquinho, recm-sado das mos de quem o fez?
   Sem esperar resposta, retomou a cantiga. Apertou o brao de Olvia. Ele amava agora aquela gente com quem se cruzava na rua, nas caladas, sentia prazer em ser 
tambm uma rvore daquela floresta mvel. Teve vontade de beijar Olvia. Sentia que naquele momento o seu desejo no tinha malcia nem sensualidade. O que ele queria 
dela era o beijo do companheiro, o beijo que todas as criaturas deviam dar-se ao defrontarem-se na rua, mesmo sem se conhecerem; era um sinal de solidariedade, um 
smbolo de boa vontade, o beijo, enfim, que as pessoas trocariam naturalmente se o Mundo fosse outro...
   Como se tivesse estado a rolar a pergunta no esprito, Olvia respondeu:
   - So clareiras que se abrem de repente para a gente poder vislumbrar Deus.
   Sim, Deus existia! - achava Eugnio. Recordaes das lies da Bblia no Columbia College. A ressurreio de Lzaro. A filha de Jairo. Cristo era um mdico. Cristo 
podia ser aquela estrela pura. Ou ento...
   De repente, num sobressalto que lhe ps o corao a correr, Eugnio sentiu-se puxado pelo brao, ouviu o rechinar dos traves de um automvel e num relance compreendeu 
o perigo. Recuou um passo.
   - Quase que ficas debaixo do carro - disse-lhe Olvia, com o tom de uma me que repreendesse o filho.
   Eugnio olhou para o grande automvel que parara na sua frente. Dentro dele, um senhor idoso e simptico sorria com benevolncia. Na porta do carro, havia este 
nome em letras brancas: V. Sintra.
   - No fazia mal. Era um lindo Packard... - disse Eugnio para a companheira.
   Continuaram a andar.
   No "Edelweiss" a custo conseguiram uma mesa. Era um restaurante de ambiente tirols. Os fregueses, na sua maioria, eram austracos e alemes. Comiam, bebiam, 
fumavam, conversavam e cantavam. Pairava no ar uma nvoa azulada. Na extremidade do balco, montando guarda  caixa registradora, que de instante a instante tilintava, 
uma mulher gorda e sardenta descansava os seios e os braos carnudos no mrmore, olhando a freguesia com olhos maternais.
   - Que  que vamos pedir? - indagou Eugnio.
   Olvia olhou a ementa com ar distrado, passou-a depois a Eugnio. Houve uma breve discusso cheia de pausas de indeciso, e no fim, chegando a um acordo, pediram 
salsichas, ovos e cerveja.
   O gramofone comeou a tocar as Ondas do Danbio. O dono do restaurante, um austraco atarracado, de nariz vermelho, pescoo grosso e cabea rapada, andava de 
mesa em mesa, saudando os fregueses. Levava na coroa da cabea um minsculo chapu de alpinista com uma pena colorida. Tirava-o diante de cada fregus, num cumprimento 
gaiato, piscando o olho para as mulheres. Estoiravam risadas. L do fundo da sala brotou uma possante voz masculina, acompanhando a msica. O criado passou com uma 
bandeja cheia de copos de cerveja.
   Batendo com a ponta da faca nas bordas do prato, Eugnio marcava o compasso da valsa.
   - As coisas melhoraram - disse ele, como se Olvia tivesse seguido at ali o curso dos seus pensamentos alegres. - Acho que dentro de uma semana estou nomeado 
para aquele lugar na Assistncia Pblica...
   - J  um desafogo para o bolso, no?
   - Se !. .. - E quase sem transio: - Estou com uma fome doida.
   - Eu tambm.
   Eugnio soltou uma risada.
   - Porque foi que riste assim?
   Ele inclinou-se sobre a mesa e explicou:
   - Quando tu eras menina nunca ouviste aquela histria de empulhao do Eu tambm? No? Olha:  assim. Eu digo uma coisa e tu respondes: "Eu tambm". Est? Ento 
vamos comear. "Eu ia por um caminho... "
   - Eu tambm.
   - Encontrei um passarinho.
   - Eu tambm.
   De repente, Eugnio parou.
   - Ora! Que pena! - exclamou, com uma careta de contrariedade fingida. - Agora me lembro que essa histria  imprpria para senhoras... A minha cabea!
   O criado chegou nesse momento com a travessa de salsichas e ovos e dois copos de cerveja.
   - Viva! Agora vamos tratar de comer! - declarou Eugnio. - Quem falar primeiro leva uma multa.
   Comeram com voracidade, num silncio que de instantes a instantes era quebrado apenas por monosslabos ou por palavras soltas. Eugnio j sentia a cabea invadida 
por uma leve e deliciosa tontura.  medida que esvaziava o copo de cerveja, o Mundo parecia-lhe claro, a vida melhor, mais agradvel aquela reunio. Como tudo era 
fcil, e como ele tinha vontade de ser amigo de toda aquela gente! Via na sua frente Olvia a sorrir-lhe.
   - Sou fraco para bebida... - disse ele, numa ressalva.
   - Rapaz, mais uma cerveja.
   - Cuidado, doutor. .. Devagar com o andor.
   - Oh! Hoje  dia de festa. Nem sempre estou alegre. Vamos aproveitar a mar. Uma cerveja dupla, rapaz. - Apontou para o dono do restaurante, que estava junto 
do gramofone, fazendo macaquices. - Com que  que tu achas aquele sujeito parecido?
   - Com uma salsicha.
   - No deixa de ser. Mas ele parece-me mais um bicho. Uma foca. No me admiraria nada se ele aparecesse daqui a pouco com um peixe vivo atravessado na boca!...
   O gramofone tocava agora uma velha cano alem. Do alto-falante da mquina saa uma voz de falsete, cantando Ach du lieber Augustin, Augustin, Augusti.n. Os 
fregueses do "Edelweiss" comearam tambm a cantar, num coro desafinado e rouco.
   Eugnio contemplava o novo copo de cerveja. Bebeu um longo gole. Lambeu a espuma que lhe ficara nos lbios.
   - Isto j est com o gosto de sabo... - disse, com cara de nojo, afastando o copo. Olhou longamente para o ltimo pedao de salsicha que ficara na travessa.
   - Tu sabes, Olvia, tu sabes do que  que me estou lembrando agora?
   Olvia sacudiu a cabea.
   - Estou-me lembrando daquela operao de apendicite da semana passada...
   Olvia desatou a rir, estendeu o brao e puxou para junto do seu prato o copo de Eugnio.
   - Chega de beber. J ests ficando inconveniente.
   Eugnio olhava agora fixamente, para o aqurio quadrangular que havia sobre uma prateleira, na parede fronteira. Pequenos peixes dourados e azuis nadavam na gua 
esverdeada, por entre uma floresta submarina em miniatura. Eugnio fez um sinal para o criado. O homem aproximou-se.
   - Quero uma fritada daqueles peixes l... l... - e com o indicador muito teso espetava o ar, na direco do aqurio.
   O criado sorria, dizia repetidamente: - Oh! Oh! - muito polido, olhando de quando em quando para Olvia.
   - Traga caf bem forte para dois - pediu ela.
   
   Depois do caf, Eugnio entrou a lutar com a melancolia e com o sono. Via a imagem de Olvia muito esfumada, como que turva num aqurio como se fosse um peixe 
e estivesse mergulhada na gua O gramofone comeou a tocar uma valsa torrencial de Strauss. Uma senhora monumental ergueu-se de repente e arrastou o marido para 
o meio do salo, como se quisesse dar-lhe uma sova ali,  vista de todos. O homenzinho ergueu-se perfilou-se, limpou a cinza da gola do casaco e enlaou a esposa.
   Saram a danar. Em breve o salo estava cheio de pares que valsavam furiosamente.
   De repente, Eugnio pareceu despertar.
   - Vamos danar? - convidou ele.
   Olvia hesitou um instante.
   - Como vo essas pernas?
   - Oh! Esto bem. Vamos cair na dana.
   Olvia ergueu-se. Foram para o meio do salo. Eugnio puxou-a contra si. Danaram fora do compasso, incapazes de participar no mpeto geral daquele ritmo vivo 
e alegre. No meio do emaranhado de cabeas sobressaa, danando, a pena do chapu alpino do dono da casa. A mulher do balco sorria sempre ao p da registradora.
   Os cabelos de Olvia tinham um perfume doce. Eugnio apertava-a contra o peito. Sentia-a sua, muito sua. No queria pensar. No queria saber o que viria amanh. 
Olvia pertencia-lhe. Entregava-se-lhe sem condies. Beijou-lhe a testa e pela primeira vez murmurou-lhe ao ouvido:
   - Querida!
   Ela retrucou:
   - Vou pedir mais um caf bem forte.
   Eram onze horas quando saram do "Edelweiss". Eugnio disfarou um bocejo. Olvia convidou:
   - Precisamos ir at ao hospital ver como est o pequeno.
   -  verdade.
   Entraram num eltrico. Eugnio estava melanclico. Fizeram todo o trajeto sem conversar.
   O hospital achava-se muito quieto quela hora. Encontraram a Irm Isolda no corredor do primeiro andar.
   - Como vai o nosso pequeno, - sussurrou-lhe Olvia.
   - No tem febre, est passando muito bem.
   - timo.
   Entraram no quarto. A me do menino estava junto da cama. Ergueu-se ao ver Eugnio aproximar-se. Quis dizer alguma coisa, mas ele fez-lhe um sinal para que no 
falasse.
   Tomou o pulso do doente. Contemplou-o com ternura. Era um rosto corado e tranqilo. Passou-lhe a mo de leve pela cabea. Lembrou-se de Ernesto. Quando saiu, 
a me da criana acompanhou-o at ao corredor.
   - Doutor, eu... ns... ns queria...
   A voz trancou-se-lhe na garganta e explodiu logo em seguida num soluo. A mulher pegou na mo de Eugnio e comeou a beij-la.
   - Ora... ora... dona... - gaguejava ele, procurando retirar a mo. Esforava-se por dominar a prpria comoo, envergonhava-se da situao, olhava para Olvia, 
pedindo-lhe ao mesmo tempo desculpa e socorro.
   Decaimentos acompanhou-os at ao elevador, gaguejando agradecimentos. No "hall" do hospital, Olvia e Eugnio encontraram o Dr. Seixas.
   - Olha quem vem vindo a! - exclamou ela alegremente.
   O Dr. Seixas era um homem alto, barbudo e de ar agressivo.
   Vestia-se mal e era o mdico mais pobre que eles conheciam.
   - Boa noite, Doutor! - cumprimentou Eugnio.
   O Dr. Seixas parou e respondeu:
   - Boa noite.
   A sua voz era spera, peluda. Mas lia-se-lhe bondade nos olhos claros.
   Olvia pegou no brao de Eugnio e, como quem conta a proeza de um filho precoce, disse:
   - Sabe, doutor? O Eugnio hoje salvou uma criana por um triz. Traqueotomia. Se demorasse mais cinco minutos o pequeno morria...
   O Dr. Seixas olhou Eugnio da cabea aos ps, com ar incrdulo ao fim de alguns segundos soltou uma espcie de ronco , que tanto podia ser de assentimento como 
de desprezo ou de elogio. Eugnio sentiu-se mal. Para ele, o Dr. Seixas era ainda o "doutor barbudo e bravo" que ia  sua casa no tempo em que ele era menino, o 
doutor desbocado que lhe mandava purgantes, remdios amargos e cataplasmas.
   
   - Me d o fogo, carniceiro - pediu o Dr. Seixas. - Aquela vaca do quarto 17 da segunda classe est de novo com febre.
   Apanhou os fsforos que Eugnio lhe passava, acendeu um cigarro e botou a caixa no bolso. Tirou uma baforada de fumo e olhou para Olvia em silncio. Depois, 
cuspindo no cho de ladrilhos, disse:
   - Ns, mdicos, salvamos os outros, mas no podemos salvar-nos a ns mesmos.
   Fez meia volta e foi-se, sem a menor palavra de despedida.
   Na rua, Eugnio entregou-se a reflexes amargas.
   - Para que  que hei-de ser hipcrita? Odeio a pobreza. Ter poucas roupas (no  vaidade,  uma questo de higiene, de decncia), no ter nenhum conforto, andar 
sempre pensando no fim do ms...
   Parou. Dobrou a perna direita, formando um quatro.
   - Olha s a sola deste sapato. Furada. Muito romntico.
   Olvia sorria em silncio. As estrelas cintilavam.
   Eugnio continuou:
   - No ser ningum, viver humilhado.. . - Caminhava olhando para a ponta dos sapatos. - Quando temos dinheiro, pelo menos podemos viajar, comprar boas coisas, 
esquecer. Mas no ter dinheiro nem nome  o que pode haver de humilhante. Pelo menos para mim. Os mdicos que j tm fama nos impingem os abacaxis, os clientes que 
no pagam, e ainda por cima assumem ares protetores.
   Como nica resposta, Olvia tomou-lhe o brao.
   - Quando tinha vinte anos, eu queria reformar o Mundo, fazer coisas belas, grandiosas. Agora, estou encalhado no Hospital do Sagrado Corao. Um fracasso hoje, 
um sucessozinho amanh, depois novos fracassos, o fim do ms, o padeiro, o aougueiro... sei l. Como  que h pouco eu estava to alegre e agora estou assim?
   Caminharam alguns passos em silncio. Depois, com a sua voz clara e caridosa, Olvia disse:
   - Olha para as estrelas, rapaz.
   Eugnio no olhou para o cu, olhou para ela, com olhos de quem no compreendia. Olvia s vezes parecia to vaga, to diferente, to misteriosa... No entanto 
era tambm de carne e osso, de certo sofria, tinha as suas dificuldades, as suas tristezas. Porque  que nunca se queixava, nunca fazia confidncias? Ele queria 
fazer perguntas, mas a sua timidez impedia-o. Por outro lado, era to agradvel aquela situao, to conveniente, to cmoda, to sensata... Nada de alvoroo, nada 
de declaraes piegas, de palavras de amor, nenhum ajuste de contas.
   Aps curto silncio, Olvia falou.
   - Respondi hoje  carta do Dr. Bellini.
   - Sim? E disseste que aceitavas?
   Ela sacudiu a cabea afirmativamente.
   - So s trs ou quatro meses. Nova Itlia deve ser um lugar adorvel. E a gente de quando em quando precisa de um retiro para consertar as idias... - Sorriu. 
- Que achas?
   Eugnio sacudiu a cabea.
   - No sei. .. no sei. .. Tu  que resolves. Eu morreria de tdio numa colina como Nova Itlia. Sempre achei essa histria de parreiras e colonos e vida simples 
e no sei mais que... muito bonita em poesia. Uma vez fui com a turma do quinto ano numa excurso pela regio colonial italiana. Passvamos um dia em cada lugar. 
No queiras saber a angstia que eu sentia quando via anoitecer. E note-se que andvamos sempre metidos em festas.
   - A gente foge da solido quando tem medo dos prprios pensamentos, da prpria memria...
   - Talvez. . .
   - Mas se tu soubesses como a solido nos pode enriquecer...
   Eugnio encolheu os ombros. A palavra solido lembrava-lhe estranhamente a sua angstia de entaipado das noites de tempestade.
   - Mas que diabo esse tal Dr. Bellini quer contigo?
   J comeava a querer mal quele desconhecido que sem saber se metia na sua vida. Mas Eugnio arrependeu-se da pergunta que formulara. Ela continha uma leve insinuao 
de cime, era uma quebra daquela lei tacitamente aceita de que no deviam falar em amor, que no deviam ser como os outros, dando um carcter vulgar quela ligao.
   - Eu j te disse que ele quer que eu organize a maternidade do hospital que vai inaugurar. E queria que tu visses a carta que o homem me escreveu. Pode ser um 
mau mdico, mas  um talento comercial. Mandou-me um rascunho de contrato em que tudo est previsto. O Dr. Bellini, como organizador,  um gnio.
   - E quando tens de ir?
   - Dentro de duas semanas.
   - E se no te deres bem com o homem?
   - Volto.
   - E depois? Ela encolheu os ombros e fez um sinal para o cu.
   - As estrelas esto a mesmo. Entraram no quarto de Olvia. Ela abriu as janelas.
   - No acendas a luz. . . - pediu ele. Atirou-se para o sof. O luar azulava o quarto. Olvia tirou o chapu, sentou-se ao lado de Eugnio e fez com que ele se 
deitasse, com a cabea aninhada no seu colo. Comeou a acariciar-lhe os cabelos em silncio. Houve um instante de paz, de doce tranqilidade, quase de sono. Mas 
o silncio, o calor do corpo de Olvia, o perfume que vinha dela comearam a conspirar. Eugnio ergueu os olhos para a companheira. O desejo subiu-lhe  flor do 
rosto, animando-a de uma expresso iniludvel. Olvia compreendeu, baixou a cabea e beijou-o na boca. E mais uma vez se entregou, como quem quer aliviar o sofrimento 
de um doente com uma injeo sedativa. Eugnio sentiu ento que nunca, nunca mais havia de esquecer aquela noite.
   
   H um instante de absoluto esquecimento, de nvoa, de estupefao. Sensao morna de torpor, de sono. Mas Eugnio est de olhos abertos, v esfumaadamente o 
cu, chega a perceber o fraco brilho das estrelas, sente no rosto o vento fresco da noite. De repente, desperta com a impresso de que o sacudiram pelos ombros. 
Que foi que aconteceu? Olha para os lados, atarantado. O auto continua a correr. Longe, no meio de um arvoredo, brilha rpida a luz de uma janela. Vultos de bois 
parados no campo sombrio. No banco da frente, as costas impassveis do motorista. Que foi que aconteceu? Algo de terrvel e de irremedivel se passou no Mundo. Eugnio 
julga sentir no ombro o calor produzido pelo contacto dos dedos invisveis que o sacudiram. Sim, um aviso.
   Olhou o relgio. Vinte para as oito. Lembrou-se de que Mr. Tearle sempre lhe dizia que, quando alguma coisa acontece, sempre passam vinte minutos ou faltam vinte 
minutos para alguma hora. Alguma coisa aconteceu.
   Ele deixa-se cair para trs no banco. Sim, Olvia deve ter acabado de expirar. O aviso misterioso no pode ter outra significao.
   Eugnio sente a garganta seca, a boca amarga, o corpo dolorido. Como se o tivessem espancado sem piedade. Agora parece que as surdas pancadas do seu corao lhe 
ecoam estonteadoramente no crnio.  o castigo. Para ele no haver mais salvao. Olvia morreu. Ele ficar no Mundo com a sua dor, com o seu remorso, com a sua 
cobardia.
   Que bom se pudesse ficar no campo,  beira da estrada, encostar as faces  frescura do capim molhado, dormir, esquecer, ser uma pedra do caminho, a folha de uma 
rvore Fugiria  situao pavorosa de ver Olvia morta. As enfermeiras no o veriam chorar.
   Ficar na estrada. Como uma lmina de relva. Como um monto de esterco. Sim. Ele no passa de um monto de esterco. Matria apenas. Um homem que satisfaz os seus 
apetites, um homem sem alma. Esterco.
   Olha para o Cu. As estrelas agora esto mais ntidas. Olvia fala na sua memria: "Olha as estrelas. Sempre h esperana na vida." Ela sempre lhe dizia estas 
palavras. Tinham um misterioso sentido. As estrelas eram um smbolo de pureza, qualquer coisa intangvel que a mo dos homens ainda no conseguira poluir. As criaturas 
que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas.
   Haver mesmo esperana no Mundo?
   O auto corre. Aparecem as primeiras luzes da cidade, longe.
   
   O enfermeiro largou o telefone e voltou-se para Eugnio.
   - Temos servio, doutor. Uma sujeita cortou o pulso e est a esvair-se em sangue.
   Eugnio ergueu-se, atirou para cima da mesa a revista que estava folheando e gritou:
   - Vamos embora!
   O enfermeiro apanhou a mala. Saram. Entraram no carro que os esperava junto da calada. A corrida comeou. A sereia soltava o uivo triste e prolongado.
   - Suicdio? - perguntou Eugnio, que se tinha sentado no banco da frente.
   - Acidente. - A voz do enfermeiro veio do fundo do carro. - Com uma abridor de latas.  na casa do tal Sintra.
   - Gente da famlia?
   - Qual nada. Foi a criada. No v que esses ricaos vo-se dar ao trabalho de andar abrindo lata...
   - Mundo velho sem porteira! - exclamou o motorista, aumentando a velocidade do auto, com o rosto aberto num sorriso de gozo. Aquilo para ele era uma festa. Tinha 
sido antes condutor de um carro de praa. Vivia s voltas com a Inspetoria de Veculos, por causa de excessos de velocidade. Agora era diferente. Podia correr  
vontade. A aproximao do seu carro, os agentes do trfego apitavam, os outros veculos paravam, a rua ficava livre como uma pista de corridas.
   - Ontem - dizia o motorista - fui com o Dr. Tranquedo buscar um sujeito a quem o comboio esmagou o brao na estrada de Canoas. Minha madrinha, nunca vi tanto 
sangue! O gajo estava branco como o papel. Na volta peguei um negro na estrada.
   O diabo decerto era surdo, no ouviu a buzina. Foi - pef - e o tipo voou... Travei o carro, botamos o negro dentro e se viemos pra cidade!. ..
   Comeou a assobiar com fria, como se quisesse abafar o gemido da sereia.
   O dia principiava bem - pensava Eugnio. s nove horas da manh uma mulher que corta o pulso. Depois viriam os indefectveis desastres de automvel. Na cidade 
baixa, uma rapariguinha qualquer tomaria lisol por ter sido abandonada pelo amante, provavelmente um soldado da Brigada Militar.
   Sangue! Desastre! Morte! Ele tinha a impresso de que a cidade era um enorme hospital! No se esquecia de um caso impressionante da semana passada. Fora no carro 
da Assistncia atender a vtima de um conflito num beco de m fama. Encontrou o homem degolado com um golpe de navalha. No pde fazer mais nada...
   O carro corria. A sereia gemia. O motorista assobiava.
   Eugnio sentia um vcuo na boca do estmago, uma leve sensao da nusea.
   - Qual  o nmero? - berrou o motorista.
   - 678! - respondeu o enfermeiro.
   - Palpite p'r bicho!
   Eugnio viu um jardim tranqilo com massas de folhagens verdes, sombras azuladas e zonas douradas de Sol. Lembrou-se de Olvia. Havia um ms que ela estava em 
Nova Itlia. Escrevera uma nica carta, contando que estava satisfeita e que o Dr. Bellini era o "homenzinho mais engraado do Mundo".
   -  aqui! - O motorista fez o carro estacar.
   O jardineiro da casa esperava-os ao porto. F-los entrar pela porta do fundo. A mulher que se cortava estava deitada numa cama, o sangue brotava-lhe do pulso, 
escorria-lhe pela mo, pingava-lhe dos dedos numa bacia de gata. Ela balia como um cordeiro doente, muito plida, revirando os olhos de um lado para outro. Haviam-lhe 
amarrado um pano com fora, pouco acima do golpe.
   - Eu morro - gemia ela - ai, eu morro...
   Em poucos minutos o curativo estava terminado. Eugnio enxugava as mos que acabara de lavar e dava instrues  cozinheira, uma preta gorda e lustrosa. Falava 
com voz firme, em tom um pouco paternal. Olhava para o auditrio - a cozinheira, a mulatinha camareira e o velho jardineiro - e a certeza da sua superioridade dava-lhe 
um certo repouso, uma sensao agradvel. Surpreendeu-se a usar termos tcnicos, pensou em Olvia, imaginou-a ali a seu lado, a ouvi-lo, e corou.
   - Ento no tem mais perigo? - perguntou a preta, com voz untuosa.
   - Faam o que eu disse e tudo correr bem. Se houver novidade telefonem-me.
   Mal terminara estas palavras, notou ali no quarto uma presena estranha, que nos primeiros instantes se manifestou por uma vaga mancha escarlate e uma onda de 
perfume. Voltou a cabea. Uma rapariga loura achava-se parada junto da porta, metida num roupo vermelho. Eugnio ficou todo atrapalhado, balbuciou um cumprimento 
e imediatamente se sentiu nivelado aos criados. A jovem contemplava-o com indiferena. Os seus olhos revelavam curiosidade fria. Parece artificial -achou ele. O 
Sol dava-lhe aos cabelos cor de palha um brilho metlico. E ali estava ela muito tesa. Como em pose estudada. Colorida... irritantemente colorida, contra a porta 
esmaltada de branco. Capa de revista - refletiu ele.
   O silncio foi curto. Eugnio quebrou-o:
   - J est tudo em ordem - disse para a desconhecida.A moa est fora de perigo.
   Forou um sorriso. A jovem do roupo escarlate continuava a contempl-lo sem falar. Eugnio teve a impresso de que as prprias palavras lhe voltavam contra o 
rosto, como uma bofetada. O seu constrangimento cresceu. Ele j no sabia que fazer com as mos. Vestiu o casaco, desajeitadamente.
   - Ponha fora esse lenol sujo de sangue! - ordenou a mulher loura  mulatinha. - Jogue-o no lixo, ou queime-o.. . mas leve isso depressa! - Contraiu o rosto numa 
careta de nojo. Depois de examinar Eugnio da cabea aos ps com ar de divertida curiosidade, disse-lhe seca: - O senhor.. . venha comigo.
   Fez meia volta e enveredou pelo corredor. Depois de um segundo de hesitao, Eugnio seguiu-a. Passou as mos pelos cabelos, arrumou a gravata. Ouviu a voz do 
enfermeiro:
   - Vou esperar no carro, doutor!
   Atravessaram o corredor claro. Eugnio seguia a mancha escarlate. O cachorrinho atrs da dona - pensou. Aborreceu-a. Aborreceu-se a si mesmo. No havia de lamber-lhe 
as mos; talvez chegasse at a mord-las... se no lhe faltasse coragem. Mas que diabo quereria dele aquela mulher?
   Chegaram a um salo sombrio e fresco, vasto living-room cuja decorao ia do marrom profundo ao bege claro. Por alguns instantes Eugnio esqueceu a rapariga. 
Olhou o sof e as poltronas fofas, de aspecto confortvel, os quadros das paredes (cujo desenho ele no distinguia bem, mas adivinhava modernos e estranhos), a estante 
de livros com lombadas atraentes, o vasto tapete peludo... Respirou fundo. Se o conforto tinha um cheiro especial, ele estava-o aspirando agora: um cheiro adocicado 
e pulverulento que vinha da madeira lustrada, dos estofos finos, da cera do soalho.
   A jovem voltou-se para Eugnio e mostrou-lhe uma poltrona.
   - Sente-se.
   "Como se eu fosse um criado..." - pensou ele. E uma ordem.
   Lanou-lhe um olhar sombrio. Mas sentou-se. Mergulhou fundo na poltrona, com uma inesperada sensao de bem-estar. Por alguns segundos, deixou-se embalar por 
aquela impresso de conforto e de macio repouso. Deu, porm, com os olhos da rapariga postos nele com fixidez. Desagradvel ser analisado daquela forma! E no era 
de direito que ele se achasse em posio to displicente, to  vontade, como se estivesse em casa... Sentou-se mais na ponta da poltrona, empertigando o corpo. 
A jovem do roupo escarlate inclinou-se sobre a pequena mesa redonda e abriu a caixa de cigarros.
   - Fuma? - perguntou, aproximando de Eugnio  caixa prateada.
   - No - mentiu ele. - Muito obrigado.
   Fumar s lhe podia aumentar o embarao.
   Ela acendeu um cigarro, soltou uma baforada e continuou a contemplar Eugnio com olhos maliciosos. O embarao dele aumentava. Eugnio tinha a impresso de que 
formigas de fogo lhe passeavam pelo corpo, desagradavelmente. "Devo estar vermelho como um tomate, - pensou. Desviou os olhos. Via agora na outra extremidade do 
salo uma lareira de ladrilhos cuja cor combinava com a dos estofos e dos tapetes. Em cima do parapeito da chamin havia uma estatueta preta... uma mulher nua, parecia, 
ou um atleta... ou era um negro?
   Quando tornou a olhar para a jovem. Eugnio viu-a sria, com uma ruga de reflexo na testa.
   - Qual  a sua opinio sobre Freud? - perguntou ela de repente.
   A pergunta escapou-lhe dos lbios junto com uma baforada de fumo. Mas as suas palavras no tinham a natureza vaporosa do fumo. Eram slidas, agressivas, bateram 
com violncia no peito de Eugnio, deixando-o por um instante sem respirao. Ela contemplava-o com ar irnico. Havia uma indescritvel malcia nos seus olhos cor 
de mel queimado. Eugnio remexeu-se na cadeira e gaguejou:
   - Que  que penso de Freud? Bom... eu... - Riu amarelo. - Essa sua pergunta... - tirou o leno do bolso e passou-o pelo rosto, que sentia agora mido do suor.
   Ela continuava a sorrir com um canto da boca.
   - Ser que nunca ouviu. falar em Freud? O senhor no  mdico?
   - Sim, sou mdico. Mas a senhora compreende... a pergunta foi to inesperada... Enfim, eu no...
   Calou-se. Sentiu que devia estar com cara de tolo. Que imbecil! A pequena mangava com ele. Divertia-se  sua custa. Devia ser dessas meninas ricas, mimadas e 
literatas, que gostam de falar em Freud e na questo sexual s para mostrarem que so "modernas" e que no tm preconceitos. E ele prestando-se para a ridcula brincadeira! 
Devia ter percebido antes e ido embora. Sentiu desejos de dizer barbaridades, nem que fossem vestidas de termos cientficos. No entanto, mantinha-se num silncio 
embaraado, danando na cadeira.
   - Mas acha estranha a minha pergunta? No sei porqu... Preferia que eu lhe perguntasse a sua opinio sobre o Prof. Piccard? Ou sobre o cmbio?
   O seu rosto estava srio mas os olhos soltavam gargalhadas, brilhavam por trs do fumo azulado.
   Eugnio ergueu-se.
   - Com licena - disse. - A senhora est brincando comigo e eu tenho que fazer.
   Esforava-se por assumir o ar paternal do adulto que diz  criana travessa que "no tem tempo a perder com brincadeiras".
   
   A jovem deu um passo  frente e aproximou-se mais de Eugnio.
   - Brincando? Pelo contrrio, nunca falei mais srio em toda a minha vida. Como  mesmo o seu nome?
   - Eugnio Fontes.
   Ele sentia o perfume que vinha do corpo dela, um perfume quente e doce. A sua perturbao agora era de outra natureza. Pensamentos confusos enevoavam-lhe a mente.
   Contemplaram-se em silncio por breve instante. Ela sacudiu a cabea devagar, largou o cigarro no cinzeiro e disse:
   - O senhor  um exemplar raro de uma espcie quase desaparecida.
   "Ela est a assar-me na grelha" - pensou Eugnio, sentindo a raiva voltar.
   - No compreendo...
   - Um homem que fica vermelho e atrapalhado s porque se acha sozinho diante de uma mulher que no conhece...
   - Mas, perdo...
   Sentiu vontade de esbofete-la. Ou de beij-la?
   -  um mdico! - acrescentou ela. - Ainda se fosse um seminarista...
   Eugnio sentia a clera avolumar-se-lhe no peito, subir, crescer: podia romper a muralha da timidez e tomar a forma de um palavro. E num relmpago viu mentalmente 
a me dizer para o Eugnio de seis anos: "Deus castiga os meninos que dizem nome feio."
   De repente veio-lhe um desejo de reagir. No fim de contas, aquilo era um incidente sem conseqncias. Dentro em pouco ele estaria longe dali e decerto nunca mais 
tornaria a ver aquela rapariga.
   - E que espcie de mulher  a senhora? - perguntou, encarando-a num desafio.
   A jovem sacudiu a cabeleira num gesto de faceirice, olhou para as unhas muito vermelhas e polidas e depois respondeu com calma:
   - Sou uma mulher que gosta de provocar reaes. Os cientistas fazem experincias com rs, com cobaias... Eu prefiro utilizar nas minhas seres humanos...
   Eu sabia - disse Eugnio para si prprio. - Uma literata. Uma esnobe. Que idiotazinha! Merecia uma lio.
   - E acha algum prazer nisso?
   - Um prazer enorme.
   Eugnio enfiou as mos nos bolsos. Lembrava-se de que um dia tomara parte numa representao teatral. Sofrera agonias, apesar de saber o papel na ponta de lngua. 
Agora tinha a impresso de que se achava de novo no palco. A herona e o heri frente a frente, num duelo de palavras.
   - E qual  a utilidade dessas experincias?
   - A gente diverte-se.
   - S?
   - E haver coisa mais importante no Mundo do que a gente divertir-se?
   - H.
   - Por exemplo...
   - Pensar uma vez ou outra em que nem todas as pessoas podem andar bem vestidas e bem alimentadas como a senhora...
   - Ol!
   Embalado pelas prprias palavras, Eugnio continuou:
   ...e que no Mundo no existem s cobaias para o divertimento de uma jovem rica, mas h, tambm, criaturas humanas que sentem, que sofrem, que tm direito a um 
bocado de felicidade...
   Calou-se de repente, encabulado. Aquilo era teatro, puro teatro, ele nada mais fazia seno repetir um papel decorado. Mas decorado onde?... quando? No sentia 
o que acabara de dizer. Repetia palavras e idias que andavam no ar. Mas a verdade era que a pobreza e a infelicidade alheia, para ele, no tinham existncia real. 
Ele s sabia das suas dores, das suas necessidades, do seu drama.
   Dissera aquelas palavras influenciado pelos livros e artigos que lera, pelas peas que vira, pelas palavras que ouvira de outros. E aquilo soava-lhe como um clich, 
era uma chapa. Tinha o tom de uma mentira. O que importava, porm, era ofender aquela criaturinha que zombava dele. Mas ela sorria:
   - Magnfico! Enfim, a minha cobaia reage, mexe as perninhas, solta grunhidos. Muito bem. J tenho o diagnstico feito. - Mirou-o de alto a baixo e disse:
   - Complexo de inferioridade.
   Eugnio sentiu faltar-lhe o equilbrio. Ela tinha-lhe posto o dedo na ferida. Provocara-lhe quase dor fsica. Por um instante ele permaneceu indeciso e tonto. 
Sem palavra, fez meia volta e procurou a porta com os olhos. E sempre em silncio caminhou para ela.
   - Olhe aqui. .. - gritou a rapariga.
   Eugnio voltou-se mecanicamente. A jovem estendia-lhe a mo branca: entre o indicador e o anelar havia uma cdula nova de cinqenta mil ris cuidadosamente dobrada.
   - Uma gorjetinha - disse ela com maldade. - Reparta com o seu amigo.
   Uma nuvem escureceu os olhos de Eugnio. E toda a sua raiva explodiu, cega:
   - Vo pro inferno! - gritou ele. - A senhora, o seu dinheiro, Freud e toda a sua raa!
   E abalou.
   
   - Temos ainda uns bons quarenta minutos de viagem - respondeu o motorista.
   Eugnio passa a mo pelo rosto e sente que nas ltimas duas horas envelheceu anos.
   Mas esta angstia, esta sensao de culpa, de remorso, no ser o sinal de que algo de bom ainda existe dentro dele?
   Pensa na filha. A carinha redonda, os olhos grados, vivos, num permanente espanto diante de tudo, o nariz redondo, a franja de chinesinha, preta e lustrosa... 
As feies eram as suas no havia a menor dvida. A parecena surpreendia, evidenciava-se  primeira vista. O que Ana Maria herdara de Olvia fora uma expresso 
de suave seriedade, um ar reflexivo e sereno e um certo carter humano, algo de indefinvel e insituvel que no estava no desenho do rosto nem nos gestos, mas no 
entanto existia, impunha-se como uma particularidade, no apenas rara, mas inesquecvel.
   E de sbito na mente de Eugnio, a imagem da filha  trespassada pelas palavras frias de Eunice, numa voz convencional: "No quero saber de filhos. Esses mamferos 
esfaimados deformam-nos o corpo."  o que ela costuma dizer s amigas. Ter filhos  uma aco burguesa e inferior. Bom entretenimento para os proletrios, para a 
classe mdia. Como pode uma criatura refinadamente intelectual sujeitar-se a uma experincia to brutal, to repugnante, to animal? Ficar grvida  permanecer nove 
meses em estado de doena e ao cabo desse tempo sujeitar-se a um perigo de morte. Ela no podia dissociar a lembrana do parto da idia do dilaceramento. Ter filhos 
era quase o mesmo que fazer "hara-kiri". Acontecia que o clssico suicdio japons tinha a sua nota romntica, e a maternidade era um prosaico suicdio lento.
   O velho Sintra sorria, tinha veleidades de jovem, mas s vezes sentia a nostalgia de um neto, confessava isso com ar displicente, e mesmo, quando fazia essa confisso, 
estava representando o papel de gentleman, to do seu gosto.
   E agora, no meio dos pensamentos tumultuosos de Eugnio, l est uma cara branca e comprida, de larga testa e olhos febris. Aclio Castanho fala em Plato. Recita 
para Eunice alguns trechos de uma traduo francesa do Banquete. Eugnio lembra-se nitidamente desta frase: "Pour enfanter de belles penses." Enquanto Sintra e 
Filipe falavam de negcios, enquanto a mulher de Filipe procurava Eugnio com os seus olhos quentes, a um canto da sala, Castanho murmurava para Eunice trechos de 
Plato. Eles uniam-se num amor espiritual "pour enfanter de belles penses". Os belos pensamentos no deformam nem o corpo nem o esprito; ao contrrio, do-lhe 
uma harmonia eterna. Um belo par! Feitos um para o outro. Porque no se casaram? A sociedade est construda sobre bases de erro e de incompreenso.
   E agora, ali, na noite, enquanto o auto rola, Eugnio deixa que os pensamentos corram para aqueles dias de noivado com Eunice. Depois do encontro casual em que, 
como mdico da Assistncia Pblica, ele fora a casa dos Sintras atender uma criada que se ferira, Eunice telefonara-lhe diversas vezes, convidando-o para passeios 
no seu carro. A princpio ele rejeitara os convites. A menina queria faz-lo bobo, cozinh-lo em fogo lento para se divertir. No havia de prestar-se quele papel 
ridculo. No teve, porm, a coragem de uma resposta positiva e rspida. Deu desculpas imprecisas, agradeceu. E um dia, quando saa do hospital,  tarde, encontrou-a 
junto da calada, ao volante de uma grande limusine cor-de-oliva. Cumprimentou-a perturbado, quis continuar a andar, mas ela chamou-o.
   - Que  isso? Est com medo?
   - Medo eu, Ora...
   Voltou-se de chapu na mo, vermelho e engasgado. Ela sorria, com a cabea levemente inclinada para o lado. Tinha uma beleza irritante de coisa mimada, uma fragilidade 
que convidava mais  carcia brutal do que  ternura.
   - Se voc permite - disse ela - eu rapto-o. Sua me no se zanga?
   - Oh!
   No teve palavras. Entrou no carro, sentou-se ao lado de Eunice. Rodaram pela cidade at ao anoitecer.
   Ela falou no crepsculo, puxou conversa sobre livros, mostrou-se menos cruel e irnica, interessou-se com ar srio pela vida dele, fez perguntas. Entraram num 
restaurante. Ele sofreu agonias durante o jantar. Tinha apenas dez mil ris no bolso. O que haviam pedido devia j andar em mais de vinte. Os olhos de Eunice no 
se afastavam dele, examinavam-no com um interesse que o deixava verdadeiramente desnorteado. Ele suava frio pensando numa maneira de sair daquele embarao. Olhou 
para os lados  procura de algum conhecido a quem pudesse pedir dinheiro emprestado. Ningum. Eunice pediu a nota e pagou. Enquanto o rapaz dava o troco, ele olhava 
para os lados, agitava-se na cadeira, muito vermelho e perturbado. Ergueram-se. Saram. O ar da noite refrescou-lhe o rosto, deu-lhe mais clareza s idias e algo 
que se parecia um pouco com a serenidade.
   O auto rolava macio pelo cho de paraleleppedos. Ele ia em silncio, preso agora de uma atormentadora melancolia. A presena de Eunice - uma mulher bonita, bem 
vestida e perfumada era-lhe agradvel, mas tinha a virtude de faz-lo sentir com mais pungncia a sua condio de rapaz pobre. Pediu-lhe que o deixasse na primeira 
esquina. Quando desceu disse:
   - Muito obrigado por tudo. - Esforava-se para parecer tranqilo. - Mas as nossas relaes devem parar aqui. gua e azeite no se misturam. - (Ele no dizia isto 
com sinceridade). - Pertencemos a classes diferentes, a senhora no pode lucrar nada com a minha amizade. - Ela estava sria, atenta, o sobrolho enrugado. - Os seus 
amigos so mais interessantes. Este deve ser o nosso ltimo encontro. Adeus.
   Apertaram-se as mos. Houve um silncio curto e ela depois disse simplesmente:
   - Gosto de voc tal como voc . Acho que apesar de tudo poderemos ser bons amigos...
   Naquela noite, ele pensou muito em Eunice e em Olvia.
   Se ao menos Olvia estivesse na cidade, ele podia pedir-lhe conselho. Conversariam longamente sobre Eunice, estudariam todos os aspectos do caso. Revolvia-se 
na cama. Sentia com na memria o perfume de Eunice. Mitsouko. E a voz dela era esquisitamente frgil, tinha um certo qu de infantil.
   No dia seguinte surpreendeu-se a dar um cuidado maior ao ; n da gravata,  roupa. Pensou em comprar um novo par de sapatos, um chapu. Ao meio-dia. Eunice telefonou-lhe 
para a Assistncia, marcando-lhe um encontro para a noite. Ele aceitou imediatamente. Foram a um cinema. Foi indiscutivelmente deliciosa a sensao que teve de ser 
visto em pblico ao lado de Eunice. Entrava num mundo novo. Foram a uma confeitaria depois do cinema. Gelados. O vestido dela era da cor da pistache. Ela falou em 
Verlaine. No fim do gelado, o nome de Freud foi pronunciado. Ele achava tudo delicioso. Eunice, o gelado, a psicanlise, a vida. A sua sensao de felicidade foi 
maior quando meteu a mo no bolso e tirou dinheiro para pagar a despesa.
   Como seria possvel lembrar-se com mincia dos outros dias, dos outros encontros? Eles confundiram-se no tempo, misturavam-se, interpenetravam-se.
   Olvia continuava em Nova Itlia. Escrevia de raro em raro. Eram cartas inexpressivas, em que ela mais uma vez revelava a sua absoluta averso por qualquer espcie 
de chantagem amorosa. Cartas de homem para homem, de amigo para amigo.
   Mas ele vivia momentos amargos de dvida. Tudo aquilo ia correndo deliciosamente como um paraso. Mas em que acabaria? Um casamento ali seria coisa desigual e 
quase impossvel? Cada um deles pertencia a um mundo diferente. E se no fim de contas, da parte de Eunice, tudo ainda no passasse de uma brincadeira sem conseqncias? 
Ela era rica, podia dar-se ao luxo de fazer experincias com cobaias humanas.
   E ele conheceu Sintra, conheceu amigos e amigas de Eunice. Sentiu-se mal no meio deles, imaginava-se a cada passo alvo da ironia e do desprezo de todos. Mas Eunice 
no lhe dava tempo para reflexes pessimistas. Arrebatava-o. Corriam de automvel pelas ruas. Cada dia descobriam um recanto novo, um ngulo diferente para olhar 
a cidade. Falavam em pintura, em poesia, faziam longos silncios. Uma noite, na esplanada da igreja de S. Pedro, olhando as luzes da cidade, de repente, se surpreenderam 
de mos dadas. Ficaram assim muito tempo, sem dizer nada. Ainda em silncio voltaram para o carro e rumaram para o centro. Despediram-se com menos alvoroo. Ele 
fumou cigarro sobre cigarro at de madrugada. Estaria mesmo apaixonado? E Eunice gostaria realmente dele? Fazia-se perguntas que ficavam indecisas, escorregadias, 
falsas. No havia dvida: ela era bonita, inteligente, fina... E ele no podia esquecer que a desejava como um homem so pode desejar uma mulher bela. Queria a sua 
carne como admirava o seu esprito. Isso seria paixo? E onde ficava Olvia naquilo tudo? Lembrava-se da amiga com ternura. Ela dera-lhe tudo e no lhe pedira nada. 
Mas seria que Olvia o amava mesmo? O que ela sentia por ele seria amor ou piedade? A sua funo acidental de amante no seria um prolongamento da sua misso de 
mdica, de enfermeira?
   Deitou-se sem sono. As perguntas ntimas continuaram. Olvia no lhe saa do pensamento. Ele revia-a bem no instante em que a possura pela primeira vez. Como 
eram humanos aqueles olhos e que expresso de abandono havia naquele rosto! No entanto ela no fazia um gesto, no dizia uma palavra que lhe desse a certeza, a certeza, 
a certeza...
   Ele sentia ainda nas mos o perfume de Eunice. Era a um tempo doce e perverso. O que ele sentia por Eunice era diferente. Um desejo de outra espcie, com uma 
pontinha de sadismo. Por Olvia (julgava ter chegado a uma soluo) tinha ternura. Por Eunice, um desejo malfico de posse. Seria isso? Era horrvel no poder ver 
claro no emaranhado dos prprios sentimentos.
   No outro dia, no hospital, um colega, ao passar, fez-lhe uma observao brincalhona:
   - Ento, vamos entrar nos dinheiros do velho Sintra, hem?
   Ele ficou vermelho e continuou a caminhar sem dizer palavra. Aquilo, porm, no lhe saa dos ouvidos. Era incrvel como uma tola observao casual se lhe pudesse 
gravar com tanta fora de penetrao no esprito. Os dinheiros do velho Sintra! Fiao e Tecidos Sintra, Companhia Arrozeira Sintra, Companhia Imobiliria Sintra. 
Por aqueles dias ele foi chamado para um caso deplorvel. Um estafeta dos correios fora atropelado por um automvel. Fratura da base do crnio. Durou oito horas. 
Era um sujeito magro e mirrado. Tinha cinco filhas - rapariguitas plidas, de ar assustado. A mulher parecia tuberculosa. Moravam numa casa apertada, mida e sem 
luz. Quando o homem expirou, as seis mulheres romperam num choro frentico. Ele baixou a cabea e esperou. O cheiro de mofo da casa, misturado com o fartum das roupas 
sujas, entrava-lhe pelas narinas, envenenava-lhe a alma. O estafeta estava estendido na cama, o rosto cor de cidra, a cabea envolta em panos ensangentados. Apareceu 
um sujeito alto e fortemente moreno, que chamou a viva para um canto. Deu-lhe o carto de visita, para processar o dono do auto que lhe matara o marido. Ela no 
dizia nem fazia nada, s chorava, os soluos sacudiam-lhe o corpo ossudo. As meninas continuavam a chorar. Era a misria. Eugnio teve necessidade de Sol e ar livre. 
Murmurou uma palavra qualquer e saiu. Respirou fundo. Olhou para o Cu. A vida continuava. Os homens cruzavam-se nas ruas. Havia criaturas curvadas e pobres como 
o estafeta. Mas passavam automveis caros e na fresca sombra dos seus interiores acolchoados iam senhoras e cavalheiros de aspecto prspero. Eugnio parou a uma 
esquina, cheio de uma sbita resoluo. Imaginou-se dentro de um daqueles automveis. Dr. Eugnio Fontes, genro de Vicente Sintra.
   E porque no? No queria deixar-se vencer pela vida. No correra atrs de Eunice. O destino aproximara-os. Ele no tinha culpa.
   Foi para casa, tomou um banho, mudou de roupa, telefonou para Eunice. Era a primeira vez que a procurava para marcar um encontro. Viram-se  noite. No ms seguinte 
estavam noivos. Vicente Sintra cumprimentou-o sem entusiasmo. Com infinita cautela, combinou delicadamente "detalhes materiais". Dar-lhe-ia um lugar na fbrica, 
coisa simples, assinar papis, fiscalizar, o senhor compreende... Nome-lo-ia tambm mdico de um sindicato onde tinha influncia.
   Olvia em breve estaria de volta. Era melhor escrever-lhe quanto antes, contando-lhe tudo. Eugnio redigiu uma longa carta. Corou ao rel-la. Hesitou antes de 
p-la no correio. Por fim decidiu-se. Suspirou aliviado.
   O auto rola. E, numa sntese milagrosa de alguns segundos, Eugnio relembra o seu noivado com Eunice.
   Poucos anos de vida matrimonial tinham sido o bastante para lhe mostrar o engano em que cara. Fizera um casamento de interesse. A beleza, ou antes, a boniteza 
de Eunice tornara-lhe a coisa mais suave e agradvel. Ela - Eugnio compreendia agora - deixara-se levar pelo seu romntico desejo de aventura. Era como essas meninas 
ricas que para fazerem publicidade adotam rfos nos asilos e posam ao lado deles para os fotgrafos dos jornais. Menina da nossa sociedade que adota um jovem mdico 
pobre... Cinema. Romance. Aventura.
   Mas sempre, sempre, por trs de todos esses pensamentos, est Olvia. Olvia j morta, entre quatro velas, na capela do hospital. Na mesma capela em que se velara 
sua me naquele Inverno de chuva.
   O auto corre. Eugnio sofre. As estrelas cintilam.
   
   Era a primeira vez que se encontravam a ss no quarto de Olvia, depois que ela voltara de Nova Itlia.
   Eugnio compreendeu que lhe seria mil vezes mais fcil enfrentar a situao com a luz apagada. No queria que Olvia visse to claramente o seu embarao, o seu 
desajeitamento, a sua misria.
   - No te importas de deixar a luz apagada? - perguntou ele no momento em que a amiga fechava a porta da frente.
   - Claro que no. Est um luar to bonito. . .
   Escancarou a janela e caminhou para o quarto de dormir. Eugnio acendeu um cigarro, sentou-se numa das poltronas e ficou a olhar o Cu da noite que a janela emoldurava. 
Era preciso fit-lo demoradamente e com ateno para perceber o brilho mido das estrelas. Uma roseira subia do canteiro do jardim at ao peitoril da janela; viam-se-lhe 
os ltimos galhos e uma enorme rosa branca, imvel, contra o Cu. O ar da noite era fresco e cheirava a flor de madressilva.
   Eugnio sentiu ento que tinha de novo doze anos. Estava  janela de sua casa, olhando a noite. O p de madressilva que pendia do muro da casa vizinha perfumava 
o ar. Era uma noite de plenilnio e ele perguntava a si prprio se havia ou no habitantes na Lua. No se cansava de olhar para o disco com tnues manchas escuras. 
s vezes tinha a impresso de que aquele cheiro doce e gostoso no vinha do p da madressilva: era o prprio cheiro do luar.
   
   Qual a causa daquela tristeza to grande? Ignorava... Era uma coisa esquisita no peito, uma vontade no sabia de qu... de chorar, ou de poder subir at  Lua... 
Ou era simplesmente desejo de ter uma bola azul e amarela, como uma que vira numa vitrina da cidade? A Lua era uma bola. Bola branca. As estrelas estavam jogando 
futebol. Deus era o porteiro. (Credo! Deus me perdoe!). O campo do Cu era bem maior que o caminho em que ele e Ernesto jogavam a bola com os outros meninos da rua. 
Alguns tinham camisetas coloridas, chuteiras de verdade, joelheiras... Ele e o irmo jogavam de p-no-cho, espinhavam-se nas rosetas... Se Deus fosse bem bom mesmo, 
mandava do Cu uma bola para ele e o Nestinho. Olhou mais intensamente para a Lua, como se aquela mancha escura fosse Deus. E murmurou: "Seu Deus, o senhor que  
bicho, que manda em todo o Mundo, me mande uma bola p'ra ns joga, sim? Eu pronto, Ficava sentado ali ao p da janela, olhando para a Lua, esperando o milagre. 
Deus lhe mandaria a bola nas mos de um anjo, ou ento simplesmente a jogaria l de cima, fazendo-a cair no jardim, em cima do canteiro das margaridas. Eugnio esperava. 
O vento farfalhava nas rvores. Deus era grande, Deus era bom, a me dizia - Que lhe custava satisfazer o pedido de um menino pobre S uma bola... nem precisava 
ser das maiores. Pequena mesmo servia. Ele j estava cansado, j estava enjoado de jogar com bolas feitas com um p de meia cheio de trapos. Os minutos passavam. 
Ele continuava a esperar. Os olhos j lhe ardiam de olhar a Lua, o pescoo doa-lhe por ficar tanto tempo com a cabea erguida.
   - Genoca, venha dormir que  tarde.
   A voz da me, Eugnio levantou-se e foi para o quarto.
   Ernesto j estava deitado. O pai costurava ao p da mesa.
   Eugnio olhou para ele e teve medo: a luz do lampio deixava a cara de ngelo to feia como se ele fosse uma caveira...
   Da sua cama, atravs da vidraa, Eugnio ainda viu a Lua enorme, redonda, brilhante. Mas Deus no tinha atendido.
   Dormiu com a alma amargurada.
   
   Eugnio agora fumava, perdido em pensamentos, com os olhos fitos na janela. Uma aragem mais forte sacudiu a rosa branca, que se agitou por um instante. Eugnio 
teve a impresso de um aceno, de um sinal misterioso que vinha de um outro mundo, ou de um passado muito remoto. Sentiu um vago arrepio. Ficou com a sensao estranha 
de que algum o chamava, de que um secreto algum lhe queria dar um aviso.
   Fechou os olhos e pensou no pai. Viu-o a caminhar curvado pela rua, com as roupas no brao. Depois viu-se a si prprio no Columbia College, olhando para Mr. Tearle 
estendido no seu caixo, afogado em flores. Tornou a ouvir o tiroteio daquela sua noite de pavor e viu o rosto plido do homem que lhe morrera nas mos. Outras imagens 
lhe vieram  mente, misturadas, confusamente interpenetradas: Eunice de roupo vermelho - " Que  que o senhor pensa de Freud? .. . " O Pestana, testa "larga, aspecto 
doentio - "Ginstica e msica... Olvia com uma braada de rosas... Ernesto rachando lenha...
   Tornou a abrir os olhos. No, era impossvel que no houvesse um sentido em tudo aquilo, era demasiadamente cruel que a vida no tivesse uma finalidade, um propsito.
   Rudo de passos no compartimento contguo...
   Olvia voltava. O corao de Eugnio comeou a bater acelerado. Aproximava-se a hora difcil, o momento decisivo. Teria de falar na carta, se ela no falasse. 
Seria mil vezes melhor que ela principiasse.
   Olvia entrou e sentou-se na frente dele. Ficaram em silncio por alguns instantes.
   Eugnio amassou o cigarro no cinzeiro e propositadamente demorou mais tempo nessa operao insignificante, dando-lhe um cuidado exagerado.
   Sentia-se agora dominado por uma espcie de trmulo torpor, por um desejo de relaxamento, de repouso. Queria paz para o seu corpo, para os seus nervos. Desejava 
entregar-se quela hora suave, perfumada de madressilva, banhada de luar. De repente vinha-lhe um horror de falar em Eunice, uma morna necessidade de confidncia, 
de aconchego, de compreenso. Como seria bom deitar a cabea ardente no colo de Olvia, deixar que ela lhe acariciasse os cabelos, enquanto ele aliviasse a alma 
contando as suas dores, as suas dvidas, os seus desejos, de formas ainda incomodamente imprecisas!
   Aquele silncio era uma tortura. Ergueu-se brusco e foi at  janela. Olhou para fora, mas no enxergou nada alm dos seus pensamentos confusos. Tornou a sentar-se, 
inclinou o busto para a frente, descansou os braos nas coxas, tranou as mos e, num esforo quase desesperado, sem erguer os olhos do cho, perguntou:
   - Recebeste a minha carta?
   No reconheceu a prpria voz. Seria que chegara mesmo a falar? O corao batia-lhe descompassado. Ardiam-lhe as faces e as orelhas.
   Foi pavoroso para ele o silncio em que se sumiram as suas palavras.
   Ouviu a voz tranqila de Olvia:
   - Recebi, sim.
   Pausa. Eugnio teve mpeto de se lanar aos ps dela e desabafar o seu arrependimento. Tinha-se portado como um canalha. Era um traidor. Ia casar-se por interesse, 
por dinheiro. Ia vender-se. Abandonando a nica criatura que realmente se interessava por ele.
   - Tu deste-me uma explicao. . . - continuou Olvia. - Bastava um aviso. Seja como for, obrigada.
   Aquelas palavras doeram-lhe como o sorriso do pai naquela noite longnqua. Olhou para fora e desejou no estar ali...
   Eugnio tornou a levantar-se e a ir at  janela. Olhou para a rosa com olhos vazios, estendeu a mo para ela num gesto automtico e segurou-lhe o caule para 
o quebrar. Um espinho enterrou-se-lhe no dedo. Sentindo a picada, Eugnio retirou a mo como se tivesse recebido um choque eltrico e levou-a instintivamente  boca. 
Gosto de sangue. Ficou por alguns segundos chupando o dedo. (Tire o dedo da boca, menino! - disse a professora, repreendendo-o na frente de toda a classe).
   - Eugnio!
   Ao ouvir uma voz viva e prxima pronunciar o seu nome, ele voltou-se, brusco.
   - Hem?
   - Tu ests afligindo-te  toa. Vem. - Puxou-o pelo brao. - Vou fazer ch para ns.
   Eugnio queria agora abra-la, beij-la muito, pedir-lhe perdo, suplicar-lhe que esquecesse tudo. Ou seria melhor pegar no chapu, ir-se embora e no voltar 
ali nunca mais.
   Olvia levou Eugnio at ao sof e f-lo sentar-se. Ele no sabia que fazer. A passividade dela, a sua aquiescncia fcil, criavam nele a necessidade de contar, 
de explicar, de falar torrencialmente, tecendo com palavras um manto para lhe esconder a vergonha e o embarao.
   Olvia ps a gua a agentar e voltou para a sala. Eugnio tinha acendido outro cigarro.
   Ela sentou-se na guarda do sof, passou a mo pelo ombro do amigo e perguntou-lhe:
   - Como  o nome dela?
   - Eunice. Eunice Sintra.
   Eugnio sentiu-se de novo corar. Aquilo chegava a ser ridculo para ele. Era como se Olvia o estivesse tratando como a um menino desmiolado e ftil. E depois, 
se por um lado a concordncia dela lhe tornava tudo mais fcil, por outro lado ele no deixava de se sentir um pouco ferido no seu orgulho de homem. Sabia - Oh! 
com toda a firmeza! - que ela seria incapaz de fazer escndalo, incapaz do menor alvoroo. Mas uma aceitao assim to serena, uma conformidade to natural, era 
de embasbacar. Sim, decerto ele enganara-se. Olvia no o amava. Era melhor assim. Mas... seria mesmo melhor? Na realidade, era um pouco decepcionante. No havia 
dvida que isso facilitava as coisas. Era, entretanto, impossvel que ela no sentisse alguma coisa por ele. Ou ento sentia e estava fingindo. Mas... se o amava 
mesmo, por que no lutava, por que no procurava ret-lo?
   - Eunice. .. Eunice. .. - repetia Olvia. - J ouvi esse nome no me lembro onde. Mas... conta como foi que comeou a histria. Que imbecil! Que palhao! Que 
idiota! Eugnio, agoniado, contou como conhecera Eunice. Contou fragmentariamente. Inventou fatos com o fim de esconder o que havia de ridculo, de absurdo naquela 
ligao desigual.
   - A gua j deve estar quente... Espera um instantinho.
   Foi at ao fundo da casa buscar a chaleira. Voltou poucos minutos depois com duas taas, um bule cheio de ch, um aucareiro e um prato com biscoitos. Ps a bandeja 
em cima da mesa e despejou ch nas duas xcaras.
   - Acar? - perguntou.
   - Pou... Assim, obrigado.
   Eugnio comeou a beber o ch. Via que o momento mais difcil havia passado. Mas a sua sensao era de derrota, de aniquilamento. No obstante, sentia-se de certo 
modo aliviado. As mos ainda estavam trmulas e o ritmo do seu corao - com que pungncia insuportvel ele sempre sentia o corao! - ainda no se tinha normalizado.
   Contemplava Olvia. O luar batia-lhe em cheio no rosto. Ela era bela, bela de uma beleza que nada tinha de agressivo, mas que jazia escondida como um tesouro; 
era serena e possua algo que fazia pensar nas coisas eternas e imutveis. Por que no a amava mais? Por que no abandonava Eunice e tudo o mais para se entregar 
s a Olvia?
   De repente ela falou:
   - Eugnio, um dia, daqui a muitos anos, tu hs-de lembrar-te desta noite, deste momento desta sala. Tu a, no sof, bebendo o teu ch, eu aqui na tua frente... 
No sei por que me veio agora esta idia...
   Ele sacudiu a cabea devagar, tomado por uma inexplicvel sensao de tristeza, de remorso e de mau pressgio.
   Por alguns instantes s se ouviu o tinir das xcaras batendo nos pires.
   Ele agora sentia necessidade de se justificar.
   - Eu no gosto dela, Olvia. O que te escrevi  a pura verdade. S penso no meu futuro, na minha carreira. No me disseste um dia que a f  tudo? Pois eu tenho 
f na minha carreira, preciso de me livrar da idia horrorosa de que a vida  simplesmente esta luta sem recompensa... este... esta misria... este ramerro sem 
graa. Eu sinto que posso realizar alguma coisa. Tu sabes o que tem sido a minha f at hoje.
   Calou-se. Os olhos de Olvia brilhavam, muito humanos, na penumbra azulada. O rosto dela tinha uma serenidade melanclica.
   - Acho intolervel esta situao de Joo-ningum. Daqui a alguns anos que serei eu? Um mdico de gente pobre, como o Dr. Seixas, sempre com contas a pagar... 
Talvez um empregadinho municipal...
   Outra pausa. Olvia continuava a contempl-lo, imvel e silenciosa.
   Eugnio observara que os brios quando comeam a fazer discursos no sabem ou no querem acabar. Palavra puxa palavra e eles deixam-se ir num crculo vicioso 
de repeties, de redundncias, mas continuam falando, e as suas palavras como que lhes aumentam a embriaguez, prolongando ainda mais o discurso. Continuou:
   - Um amigo meu costumava dizer que a vida  como uma travessia transatlntica... Os passageiros so das mais variadas espcies. Uns passam a viagem a preparar-se 
para o desembarque no porto do seu destino e desprezam as festas de bordo, o simples prazer de viajar. Outros no sabem do seu destino, no tm nenhuma esperana 
no porto de chegada e procuram passar da melhor maneira possvel a travessia. Este  o meu caso. Tu sabes que em vo eu tenho procurado Deus. Ainda h pouco me lembrei 
de uma noite da minha vida, h quinze anos. Eu pedi a Deus que me mandasse uma bola de futebol. Em vo esperei o milagre. Foi uma tolice de menino, eu sei, mas depois 
outras coisas pedi e esperei. Nada. Por ltimo j me contentava apenas com a revelao da simples existncia desse Deus. Ainda nada! No creio na outra vida. Quero 
fazer uma viagem agradvel... E de certo modo me recuso a viajar em terceira classe... Tu vs que estou tentando passar para a primeira... - Achou a comparao ignbil 
e sentiu-se cnico por ter lanado mo dela. - Sei que o meu procedimento pode no ser considerado decente, olhado de certo ngulo... - Animou-se de repente, como 
se quisesse convencer-se a si prprio. - Mas chegamos ento quela histria do fim justificando os meios. Em suma: eu olho a minha carreira. Tu compreendes.
   No posso continuar nesta vida. E depois, preciso dar conforto a minha me...
   Ficou de sbito muito perturbado, porque teve a intuio de que Olvia enxergava atravs das suas palavras, descobrindo a grande mentira. A histria da me surgira-lhe 
naquele mesmo instante. Era um pretexto. Uma declarao insincera. Um recurso de ltima hora. Realmente, ainda no havia pensado na me...
   Olvia continuava a mir-lo com olhar insondvel.
   Eugnio sentiu que aqueles olhos lhe estavam enxergando a alma. Quase chegou a odi-los. E de repente, sem que ele mesmo soubesse porqu, veio-lhe um sentimento 
de revolta. No fim de contas no estava cometendo nenhum crime. Era senhor do seu corpo, capito da sua alma. Fosse como fosse, nunca prometera nada a Olvia. Ela 
j no era virgem quando viera para os seus braos. Tinham sido bons companheiros, nada mais. As palavras de amor que lhe escaparam, os carinhos que ele dera e recebera, 
corriam por conta dos momentos de fraqueza, dos momentos em que qualquer outro gesto ou qualquer outra palavra que no fosse de amor e carcia seria uma coisa ridcula, 
absurda, fora de lugar.
   Eugnio esperava. Havia uma luz de desafio em seus olhos. Mas Olvia sorriu para ele um sorriso bom e disse:
   - Est tudo certo. No precisas de ficar aflito. Eu compreendo, sim, compreendo!
   Estas palavras desarmaram Eugnio. De novo ele sentiu vontade de ficar, de esquecer, de desabafar. Mais do que nunca, desejou confiar  amiga os seus temores 
quanto ao futuro, o seu constrangimento em entrar num ambiente estranho e diferente do seu. Tinha uma espcie de pressentimento de infelicidade. Acontecia apenas 
que o seu desejo de conforto, a sua nsia de sucesso, o seu af de conseguir um nome, de ser algum, o faziam esquecer tudo. Era algo parecido com as noites de insnia, 
de angstia: queria ar, luz a todo o custo, pouco lhe importando o que isso depois lhe viesse a custar.
   Da sua poltrona, Eugnio viu de novo a rosa branca oscilar. Teve a impresso de um adeus.
   - De sorte - disse Olvia - que vens despedir-te da tua companheira de terceira classe...
   Ele ficou muito perturbado e no respondeu. Olvia sacudiu a cabea devagarinho, sempre sorrindo:
   - Esta noite  como uma encruzilhada.
   Calou-se de repente, como que arrependida do que dissera ou do que ia dizer. E, num tom de voz diferente, continuou:
   - Quando  o casamento?
   - Sei l! - disse Eugnio, como se estivessem falando de um casamento que lhe fosse indiferente. - Daqui a trs meses, parece...
   Este parece era a maior das insinceridades. Ele sabia que o casamento seria em Janeiro, a data estava fixada. O seu ar negligente de desinteresse era ainda um 
resto de respeito por Olvia.
   Eugnio ergueu-se, ao cabo de grande relutncia. Olvia levantou-se tambm. Ficaram frente a frente, a contemplar-se em silncio.
   Os olhos dela... Aqueles olhos humanos, envolventes, acalentadores. Ele sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo. Em vo procurava discernir um desenho lgico, 
um contorno definido no emaranhado dos seus sentimentos. Quereria ele ir-se para sempre ou ficar para sempre? Devia ficar s por aquela noite? Queria casar com Eunice 
ou continuar com Olvia? Se no amava Eunice, porque sentia ento aquelas coisas esquisitas na presena dela, o desejo de possu-la, de domin-la, de estar a seu 
lado? E se no amava Olvia, porque lhe era to difcil separar-se dela?
   Eugnio olhava a amiga bem nos olhos. No se pde conter. Ergueu ambas as mos e acariciou-lhe a cabea. E, como um menino que confessa uma travessura, ele murmurou:
   - Eu sou um... um...
   No achou o termo. Desceu os braos, enlaou Olvia, puxou-a contra o corpo, beijou-lhe os olhos, a testa, as faces, a boca.
   Passaram juntos aquela noite. Eugnio julgou vislumbrar um elemento de desespero nas carcias de Olvia. Ela nunca se lhe entregara com um to comovido abandono. 
Dir-se-ia que se estava despedindo no somente dele, mas tambm da vida. Eugnio ficou a pensar confusamente em suicdio. Essa idia amargurou-lhe as horas daquela 
noite.
   Saiu de madrugada. Com a certeza - no sabia se dolorosa ou grata - de que voltaria no outro dia, de que no lhe seria to fcil separar-se de Olvia.
   O Cu clareava. O Mundo parecia diferente. Eugnio sentiu-se perdido.
   Eunice. .. - murmurou. - Eunice.
   Era um nome frio como a madrugada. Ergueu a gola do casaco.
   Olvia... Tambm este nome agora lhe parecia vazio, no tinha o mesmo calor do corpo da mulher que havia pouco ele deixara.
   Ambas lhe pareciam criaturas remotas...
   Eugnio... Ele tambm era um estranho a si prprio. O Mundo todo era frio e indiferente. Poc-poc-poc - soavam os seus passos na rua deserta.
   No outro dia,  tarde, recebeu no hospital este bilhete: "Resolvi embarcar hoje mesmo para Nova Itlia. Desta vez a demora vai ser longa. Sempre amigos! - O.".
   Eugnio precipitou-se para a casa dos Falk. Disseram-lhe que Olvia havia partido naquela manh.
   
   A cidade cresce para eles. Comeam os subrbios. O auto entra numa rua. E de repente Eugnio sente renascer-lhe uma grande esperana. E se Olvia ainda estiver 
viva? E se os mdicos conseguiram p-la fora de perigo?
   - Honrio, depressa!
   Passam casas, lojas, com portas iluminadas, restaurantes, muros, rvores, gente.
   Olvia est viva. Eugnio em pensamentos beija-lhe os olhos cansados, de plpebras mornas, o rosto, os lbios, as mos. Que importa o que os outros digam e pensem? 
Que importam Eunice e as convenes sociais? No Mundo s existe Olvia. Ela precisa viver. A vida deixaria de ter sentido se ela morresse...
   
   Eugnio imagina-a em convalescena, fraca e sorridente, apoiada ao seu brao. Ana Maria vem ao encontro deles, pulando e gritando como um cachorrinho.
   So felizes. A vida recomea.
   - Honrio, depressa, por favor. . .
   Passam por um eltrico iluminado. E,  medida que se aproximam do centro da cidade, um escuro pavor se vai apossando de Eugnio, um desejo e ao mesmo tempo um 
horror de chegar.
   Olha o relgio. Vinte para as nove. Algo de extraordinrio acaba de acontecer. Olvia ressuscitou. Olvia no pode morrer. Vinte para as nove! Olvia est salva!
   - Depressa, Honrio, depressa...
   O suor escorre pelo rosto de Eugnio. O auto precipita-se maciamente por sobre os trilhos dos eltricos.
   
   Trinta e um, hem, meu velho?
   Filipe Lobo deu uma palmadinha amistosa no ombro de Eugnio, que como nica resposta sorriu melancolicamente, baixando os olhos para o clice de vinho.
   Eunice mandou a criada servir os gelados. O jantar chegava ao seu termo. Sintra inclinou-se para Dora e perguntou:
   - Que  que voc tem hoje, menina?
   - Eu? - Dora pareceu despertar de repente de um sonho. Arregalou os olhos em exagerado espanto, fez um meio sorriso e, como se a estivessem acusando de crime 
tremendo, defendeu-se: - Eu? Mas no tenho nada, estou at muito bem...
   Sintra acendeu o charuto e riu a sua risada baixa e lenta, enquanto sacudia a cabea grisalha.
   - Depois do jantar a Dora vai cantar. . . - anunciou para os outros, soltando uma baforada displicente.
   A jovem deu um pequeno pulo na cadeira.
   - Oh! No tem graa.
   - No se discute... - Sintra falava com os dentes apertados, mordendo o charuto. - No se discute.
   O peito engomado da camisa e a gola do smoking brilhavam. Os olhos entrecerravam-se-lhe com brilho brincalho por trs do fumo, ao passo que ele ria a sua risada 
interminvel e enigmtica.
   Eugnio olhou para o sogro. No lhe queria mal, compreendia os esforos que ele fazia para lhe tornar a existncia naquela casa fcil e agradvel. Viviam numa 
cordialidade meio convencional, dir-se-iam amadores de teatro representando uma alta comdia. O velho Sintra gostava de fazer o papel do gentleman repousado e paternal. 
Era limpo e saudvel, lembrava esses cavalheiros idosos, mas corados e rijos, que aparecem sorrindo em lindas tricromias, dizendo: "Eu sou assim porque tomei tal 
remdio." Tinha um cuidado meticuloso com as suas roupas, manicurava as unhas e jogava golfe no Country Club.
   Dora ainda relutava, olhando para os outros numa busca de socorro.
   - Mas... mas faz tanto tempo que eu no canto.
   - No seja boba, Dora - disse-lhe a me. - Voc no  nenhuma Lily Pons para se fazer rogada assim.
   Naquele instante a criada chegou com os gelados e Dora foi deixada em paz. Eugnio partiu o biscoito-russo. Lembrou-se de uma noite de Vero com Olvia, no "Edelweiss": 
ela na sua frente tomando sorvete e contando uma histria muito engraada a respeito da opinio de um mdico muito conhecido sobre a cirurgia plstica. E, imediatamente, 
Eugnio lembrou-se do anncio que lera naquela manh, nos jornais: "A Dr.a Olvia reabriu o seu consultrio. Edifcio Hora, 3 andar, sala 8".
   Na outra extremidade da mesa, Sintra fazia um porco com miolo de po, dizendo qualquer coisa a Dora em voz muito baixa. A menina sorria, com os cotovelos fincados 
na mesa, as mos traadas e encostadas a uma das faces.
   Quando Eugnio ergueu a cabea, deu com os olhos de Eunice. Tinham eles uma expresso de irnica censura, pareciam dizer: "Com efeito, Eugnio! Para qu essa 
cara de mrtir? Voc  o tipo do desmancha-prazeres. Sorria ao menos por delicadeza."
   Para fugir ao olhar da esposa e ao embarao que ele lhe causava, dirigiu-se a Filipe, que estava a seu lado, Eugnio voltou ao assunto que ocupara a ateno dos 
homens durante quase todo o jantar:
   - Ento, quer dizer que o "Megatrio" vai subindo?
   Os olhos de Filipe brilharam.
   - A caminho das nuvens - declarou ele, com a sua voz cheia e retumbante. - Dentro de um ano vocs esto bebendo uma taa de champanhe na soteia do Edifcio mais 
alto da Amrica do Sul. Esse ser o dia mais feliz da minha vida!
   Bateu a cinza do charuto nas bordas do prato. Eugnio, meio absorto em seus pensamentos, ficou vendo a cinza dissolver-se nos restos lquidos do gelado. Onde 
estaria morando Olvia? Teria voltado para casa dos Falk?
   - Eu s vezes penso - continuou Filipe - que cada homem  posto no Mundo para realizar uma determinada obra. Acredito na predestinao...
   Eunice sorriu com malcia e disse:
   - Tu, por exemplo, vieste "para nos dar o "Megatrio".
   
   Impermevel  ironia, Filipe ficou sereno, como se no tivesse ouvido a observao da dona da casa. Ele estava cego - achava Eugnio - ou ento enxergava mais 
longe e mais claro do que os outros, como se j estivesse a olhar a vida do alto do ltimo andar do "Megatrio".
   Filipe passou a mo enorme pelos cabelos ondulados e tornou a falar:
   -  engraado... Lembro-me de uma noite, quando eu tinha vinte e um anos. Estava sem sono e debrucei-me  janela da minha penso e fiquei olhando as casinholas 
velhas e tristes da cidade baixa. Eu era ento apenas um pobre estudante que fazia o seu curso com sacrifcios. No tinha um vintm de meu. Mas sentia que ainda 
havia de fazer grandes coisas. Foi naquela noite que tomei a grande resoluo. Fechar os olhos a tudo, baixar a cabea e tocar para a frente como um capivara, trabalhar 
como um animal para realizar o meu sonho. Precisava abrir caminho na vida, cumprir a minha misso, deixar no Mundo um vestgio da minha passagem. Ou ento a vida 
no valia a pena ser vivida!
   Amassou o guardanapo e jogou-o para o meio da mesa. Houve um curto silncio. Trabalhando ainda no porco de miolo de po, Sintra sorriu e contemplou o engenheiro 
atravs do fumo do charuto.
   - Eu j lhe disse, Lobo, voc arrisca-se. Agora j  tarde, o mais que pode fazer  reduzir o nmero de andares... 25 mil contos... no sei... Esse dinheiro posto 
numa boa indstria...
   Filipe empertigou-se na cadeira, enxugou o suor da testa reluzente e quase gritou:
   - Indstria! - Mordeu o charuto com raiva. Estava pesado, tinha comido e bebido demais, no encontrava argumentos. - Ora essa! Indstria.. .
   Tranqilo, Sintra sorria, cravando no focinho do porco dois olhinhos de ervilha mida.
   - Veja bem. Esse capital empregado numa fbrica seria uma oportunidade para dar emprego a milhares de homens.
   Filipe Lobo bebeu um gole de vinho e investiu:
   - Mas qual! Imagina a imponncia de um arranha-cus  trinta andares subindo acima dessas miserveis casas do p da ona.  qualquer coisa de formidvel,  mais 
do que edifcio,  uma verdadeira cidade, um mo-nu-men-to. E voc me vem com sua indstria! Chamins para sujar o ar de fuligem, salas escuras e sem ar para fabricar 
tuberculosos...
   Sintra esgrimiu o seu florete:
   - No haveria salas escuras se fosse voc quem fizesse a planta da fbrica... - Olhou para a filha como para pedir aplauso. Eunice conversava com a mulher de 
Filipe sobre flores, enquanto as suas mos brancas acariciavam as orqudeas do vaso raro de cristal, ao centro da mesa.
   - Ao passo que o " Megatrio" - prosseguiu Filipe - tem vrias centenas de janelas. Todas as peas com luz direta.
   - Nem me diga. Indstria. Ora bolas!
   - Sua alma, sua palma - disse Sintra biblicamente.
   - Botei todo o meu dinheiro, at o ltimo tosto, nessa empresa - confessou Filipe Lobo, apertando a haste do clice com paixo. - Mais do que isso: estou dando 
a esse empreendimento todo o meu tempo, toda a minha ateno. Lutei como um louco para convencer os nossos ilustres capitalistas de que o negcio era seguro. Gastei 
com eles o meu latim. Tive de ir a S. Paulo para conseguir o capital. Oh! Isto no passa de uma aldeia! Ainda  a lei do p de meia. Dinheirinho no Banco, juro magro, 
mas certo. Depois do balano semestral, o capitalista chega ao guich, esfregando as mos, e diz ao empregado: "Moo, eu quero levar o meu jurinho." Que grandes 
empreendedores! Que notveis financistas!
   Eugnio sorria. Dora prestava ateno ao porco de miolo de po. Isabel falava a Eunice em rosas de todo o ano.
   - Era natural que os homens quisessem construir o "Megatrio" em S. Paulo. Foi uma luta. Eu achava que o "Megatrio" tinha de ser erguido aqui, na minha cidade. 
Finalmente venci. Quero ver s a cara dos nossos homens de negcio quando virem o colosso dominando a cidade, com todas as salas alugadas. O maior edifcio da Amrica 
do Sul. Vejam bem. No s do Brasil. Da A-m-ri-ca-do-Sul. - E noutro tom, olhando de Eugnio para o seu clice. - Mas este teu vinho trepa um pouco, hem?
   - Filipe no pensa noutra coisa - disse Isabel. - Parece que anda maluco.
   - Ora, Isabel. .. Tu no compreendes. Fica l com os teus chs de caridade, com os teus benefcios. Me deixa...
   Dora soltou uma risada:
   - Mas o seu Sintra  um escultor do outro mundo! - exclamou, erguendo no ar o porco feito de miolo de po. - Francamente, o senhor podia ganhar a vida fazendo 
bonequinhos assim...
   Isabel sorriu, os seus olhos oblquos apertaram-se, e, no meio da confuso de risos e palavras entrecruzadas, ela contemplou Eugnio com olhar quente e apaixonado. 
Ele baixou a cabea.
   Filipe parecia no querer deixar fugir o assunto, pois, aproveitando uma breve pausa, disse:
   - H coisas engraadas na vida.. . Quando eu tinha doze anos, o brinquedo que eu mais amava era um jogo de armar. Fazia com ele casas e pontes. Um dia, constru 
um arranha-cus. O meu padrinho me perguntou como era o nome daquele casaro. Eu me lembro to bem... como se fosse ontem. Pensei um pouquinho e depois respondi: 
"Megatrio". Eu andava impressionado com um livro de gravuras de monstros antediluvianos. - Pausa. A criada serviu o caf. Eugnio acendeu um cigarro. -  curioso 
- continuou Filipe - como certas brincadeiras do tempo de menino se transformam em realidade...
   Como quem arremessa um dardo, Eunice soltou estas palavras:
   - Mais tarde ou mais cedo o homem realiza os desejos de menino...
   L vem Freud - pensou Eugnio, prevendo uma dissertao da mulher sobre psicanlise, coisa que lhe parecia muito imprpria no fim de um jantar, quando todos j 
estavam cheios daquela vaga tristeza que vem do apetite satisfeito e dos vapores do lcool. Mas Sintra tornou a investir:
   - Mas construir um arranha-cus de meio metro com pauzinhos coloridos no  o mesmo que fazer um edifcio de verdade, com trinta andares...
   Isabel aliou-se  ofensiva:
   - Depois de ele terminar esse de trinta andares h-de querer fazer outro de quarenta...
   - Sim - riu Sintra. - Mas travessuras caras e perigosas como essas no so fceis de repetir...
   Dora tirou uma flor do vaso e p-la na botoeira do pai de Eunice. Voltou-se depois para Filipe com ar casual e disse:
   - Que  que a gente vai fazer? Pap gosta mais do "Megatrio" do que de mim.
   Filipe, a princpio, limitou-se a encolher os ombros, mas depois seus olhos fixaram-se em Dora com uma expresso menos fria. E Eugnio julgou ver duas imagens 
a dominar-lhe o esprito naquele instante: uma Dora pequenina, frgil e humana diante do enorme edifcio de cimento armado.
   Eunice ergueu-se, convidando:
   - Vamos para a sala de msica?
   Ergueram-se todos. E quando os outros j tinham sado da sala de jantar, Filipe reteve Eugnio, segurou-lhe o brao com brutal cordialidade e perguntou:
   - Que diabo, homem, que  que voc tem? Anda a triste, parado. No posso ver ningum assim. A gente precisa saltar pro ringue e botar a vida knoch-out. - Com 
o punho fechado feriu o ar. Eugnio sorriu com melancolia. - No nasci para perder a partida. - Arrotou. - Se voc tivesse a um pouquinho de sais de frutos... Acho 
que abusei do lcool. Comigo  tudo ou nada. . . Ou no bebo uma gota "u bebo muito. Um bungalow de um pavimento s, ou logo um monstro de trinta andares. . .
   Eugnio encolheu os ombros.
   - So temperamentos...
   Filipe bebeu os sais de frutos que a criada lhe trouxe dissolvidos em gua.
   - Mas seja como for,  preciso vencer. Admiro Hitler, admiro Mussolini... Saram do nada, olhe onde esto. Quando no cinema vejo aquelas paradas militares, aquelas 
massas humanas disciplinadas, geomtricas, aquele entusiasmo, sinto um estremecimento... Veja bem... - abraou Eugnio. - A terra era nua e feia. Vieram os homens 
e povoaram-na de grandes monumentos. . .
   
   Eugnio s desejava que Filipe o deixasse em paz. Queria um pouco de ar fresco e de silncio.
   - Quais foram os homens que ficaram na Histria? ... Alexandre! Csar! Napoleo! Voc j percebeu o significado da vida desse corso de uma figa? Que grande cavalo! 
Como eu o admiro, como fico comovido quando leio a vida dele!
   Dirigiram-se para a sala de msica.
   - E aquele idiota do Beethoven riscou o nome dele da dedicatria da Herica! O surdo pretensioso! S porque Napoleo se fez imperador! O recalcado no podia compreender 
a grandiosidade do gesto de Bonaparte.
   Ao p da porta do salo, Filipe segurou com fora o brao de Eugnio e disse-lhe:
   - Para os vencidos no h compaixo. Pense nessa coisa horrvel. Para os vencidos no h compaixo.
   Entraram.
   Sintra bateu palmas.
   - Silncio - pediu. - A Dora vai cantar.
   Dora sentou-se ao piano. Eunice apagou a luz do lustre e acendeu uma lmpada de quebra-luz que estava ao p do piano.
   
   O salo ficou mergulhado numa doce penumbra, onde se abria aquela ilha de luz azulada. Era uma espcie de luar artificial que lembrava a Eugnio certa noite, 
havia trs anos... Na sala de Olvia. As luzes apagadas. Eles tinham ceado no "Edelweiss", o menino doente estava salvo da morte horrorosa pela sufocao.
   Dora tirou dois acordes.
   - Que  que vais cantar? - perguntou Isabel.
   - "Vem a meus braos".
   - Ah!
   Fez-se silncio. A pequena comeou a cantar. Tinha uma voz clara e suave, levemente trmula. Sintra olhava para Dora, sorrindo e acompanhando a melodia com um 
discreto movimento de cabea. Filipe agitava-se na poltrona, ao lado de Eugnio, como se no achasse posio cmoda.
   Era uma cano lnguida. Eugnio sentiu uma tristeza sem remdio. Teve um desejo de carcias. Devia ser o vinho. Ou a cano. Ou, ento, apenas a saudade de Olvia 
(Edifcio Hora, 3 andar, sala 8).
   Filipe cochichou-lhe ao ouvido:
   - Essa msica  uma ignomnia. - Fez um gesto com a grande mo cabeluda, gesto de quem procura em vo pegar alguma coisa. - No diz nada,  mole... ...  besta... 
 um bu-bu-bu- sentimental para menina de colgio de freiras. No tem nenhuma dignidade. Efemina os homens, amolece a vontade.. Fora de Bach e de Wagner, no h 
salvao.
   Eugnio sacudiu a cabea num vago assentimento e naquele mesmo instante percebeu que os olhos de Isabel estavam postos nele, numa fixidez apaixonada. Eunice achava-se 
muito tesa na sua cadeira, as mos descansando no colo, parecia mesmo a esttua do repouso. Dora continuava a cantar. Sozinha na sua ilha azul. Cantava com paixo 
e havia na sua voz um acento doloroso. Lanava ao ar palavras arrastadas em frementes modulaes. " Beija-me! Ama-me! " Com que fresca sensualidade dizia estas palavras... 
"Dou-te meus lbios! " - A sua voz era apertada, ela erguia para o teto os olhos semicerrados, os seios fremiam-lhe, as mos acariciavam o teclado. "Amo-te com loucura." 
Sentia-se que ela estava dizendo aquelas frases de amor para algum que no se encontrava na ilha, para algum que talvez estivesse muito longe, perdido no mar. 
Do fundo do seu torpor, Eugnio contemplava-a. De onde estava via Dora de perfil. Ela era morena e frgil. Os seus cabelos negros e lisos tinham agora um reflexo 
azulado. Primavera - pensava ele. - Ela era a prpria Primavera. Porque lhe vinha aquela idia? Dora fazia que ele se lembrasse das ameixas e pessegueiros floridos, 
daquelas remotas Primaveras perfumadas do Columbia College. Margaret, os pltanos, o luar, os seus sonhos insatisfeitos, o cheiro da seiva dos pltanos, o vento 
desfolhando as rvores. Primavera. Oh! L estava Isabel sempre com os olhos grudados nele. Era imprudente. Os outros podiam ver...
   Filipe soltava pequenos grunhidos de impacincia. Aquela msica parecia deix-lo abafado.
   
   Da sua ilha azul, Dora cantava de amor. A sua voz era um soluo. E ento, comovido, Eugnio lembrou-se do dia do seu casamento. Dora tinha treze anos. Com um 
vestidinho cor-de-rosa e vaporoso, um diadema de flores na cabea, ela entrara na igreja levando nos braos o almofado em que os noivos deviam ajoelhar-se diante 
do padre. Isso acontecera apenas ontem!
   E agora ali estava Dora, j mulher, o corpo fremindo de amor. Eugnio sabia da sua histria. Dora amava um estudante judeu, pobre e rebelde. Os pais opunham-se 
ao namoro. Eles sofriam.
   Eugnio contemplava Dora e sentia-se velho e amargo. No entanto, cantando naquela ilha azul, a menina estava como a dizer-lhe que no Mundo ainda havia beleza 
e esperana. Pensou em Olvia, imaginou-a tambm sentada em um daqueles cantos sombrios da sala, com os seus grandes olhos postos nele, adivinhando-lhe os pensamentos, 
vendo que ele era infeliz e que, no fundo, continuava a ser ainda o mesmo homem indeciso e amargurado que no encontrou o seu caminho.
   Dora bateu o acorde final. Sintra aplaudiu com entusiasmo.
   Filipe soltou um suspiro de alvio. A jovem ergueu-se do piano e caminhou para a janela do terrao. Eugnio julgou ver brilhar-lhe uma lgrima no canto dos olhos.
   Eunice acendeu a luz. Isabel desviou os olhos de Eugnio e comeou a arrumar os cabelos, num gesto disfarado. E, absurdamente, para surpresa de todos, Filipe, 
da sua cadeira, jogou para Sintra esta pergunta, atravs do salo:
   - Como vai o monoplio do leite?
   Isabel desatou a rir. Eunice apenas sorria com malcia. Sintra refletiu um instante e depois respondeu:
   - No  um negcio to romntico e grandioso como o "Megatrio"... Mas  um bom negcio. Vai-se processando devagarinho. H a meia dzia de cabeudos que no 
querem entrar no alinhamento.
   - Energia com eles! - exclamou Filipe. - Pulso de ferro!
   Sintra bateu a cinza do charuto e continuou, muito macio:
   - Se for preciso mandarei vender o leite a quinhentos ris o litro. Hei-de lev-los  falncia... - Apesar da violncia e da deciso da afirmativa, o tom de sua 
voz permaneceu doce e acariciador, o sorriso continuou.
   - Isso! - dizia Filipe. - Isso! Depois, a populao ter bom leite por bom preo. Ordem, organizao.
   Isabel sacudiu a cabea:
   - Bom leite.. . bom preo. No acredito.
   - Tu l sabes o preo do leite - bocejou Filipe com desprezo.
   - Por falar em leite - disse Isabel, olhando para Eunice -estou horrorizada, aumentei dois quilos.
   - Sim? - Eunice ergueu as sobrancelhas, numa expresso de fingido interesse.
   Eugnio levantou-se e saiu para o terrao. Precisava de respirar, ver a noite - que era muda mas estava decerto cheia de recordaes. Dora achava-se junto da 
balaustrada, olhando: para os tanques da Hidrulica. Do jardim l em baixo subia o perfume adocicado e espesso dos jasmins-do-cabo.
   Ouvindo os passos de Eugnio, Dora voltou-se num leve sobressalto. Escapou-lhe dos lbios um "ah! " fraco de reconhecimento. Eugnio aproximou-se da balaustrada, 
e olhou. Os tanques estavam tranqilos, tinham uma serenidade que lembrava as coisas eternas e sem paixo. (A Dr.a Olvia reabriu seu consultrio. Edifcio Hora, 
3.o andar, sala 8).
   Eugnio acendeu um cigarro e comeou a fumar.
   - L dentro est muito abafado. .. - disse.
   -  verdade - respondeu Dora. Estava com o rosto voltado. Talvez quisesse esconder as lgrimas.
   Vinha da sala o som do piano. Debussy? Ravel? Devia ser Eunice tocando. As estrelas palpitavam. Eugnio olhou para Dora e sentiu-se paternal para com ela. Se 
tivesse uma palavra de consolo, se pelo menos achasse um modo de testemunhar a sua simpatia, o seu desejo de ajudar.. . Sentia uma grande capacidade de ternura. 
Mas naquela casa havia uma combinao tcita de fugir ao sentimentalismo, de no-ser "vulgar" como os outros. Era preciso conservar a linha. Um gentleman nunca exterioriza 
as suas emoes. H sentimentos que ficam muito bem em outras classes mais baixas. No h nada mais ridculo do que a pieguice. No entanto, ali estava uma noite 
clara e perfumada, uma rapariga em flor e um homem que s agora, aos trinta e um anos, comeava a descobrir que at ento no tinha sido humano.
   Eugnio queria dizer alguma coisa. Ao mesmo tempo, temia violar aquela delicada intimidade, parecer intrometido. O silncio prolongava-se, aumentando-lhe a sensao 
de desajeitamento. Por fim, vencendo a timidez, falou:
   - Dora, voc tem alguma coisa...
   Sabia que ia sair uma frase imbecil.
   - Eu? No tenho nada, no, senhor.
   - Eu sei, Dora. Sou seu amigo, pode contar comigo.
   Corou. Pensou em Isabel. Era um hipcrita. Tornava-se amante da me e vinha fazer  filha protestos paternais de amizade. Odiou-se.
   Agora j no era possvel recuar; por isso prosseguiu:
   - Eu sei de tudo.  o Simo, no ? Seus pais se opem...
   Dora permaneceu imvel por um instante. Depois sacudiu a cabea afirmativamente. E de sbito fez uma vira-volta, como que resolvida a lutar frente a frente.
   - O senhor acha que ser judeu  um crime?
   - Claro que no acho.
   - Todo o mundo fala, todo o mundo me censura. Mas eu gosto dele e pronto!
   - No desanime. Tenha coragem. Estou certo de que um dia tudo melhora e vocs vo ser muito felizes.
   Dora encontrava-se com o rosto erguido para ele. As lgrimas escorriam-lhe pelas faces. Os lbios tinham um tremor nervoso. Os olhos cintilavam, midos.
   - Eu sei que o senhor tambm no  feliz - disse ela.
   - Eu? - Eugnio sentiu um desfalecimento. Como conseguira ela saber? - Porqu?
   - No negue. Eu vejo. Pensa que no tenho olhos?
   Era inacreditvel que Dora descobrisse os seus segredos mais ntimos. Aquilo dava-lhe uma sensao de inferioridade, como que lhe tirava a autoridade paternal. 
Devia negar? Ou desabafar?
   Tornou a olhar a noite, os tanques serenos, as ruas desertas.
   Jogou fora o cigarro, que riscou o ar como uma estrela cadente, aninhando-se l em baixo, no tabuleiro de relva.
   - Voc est enganada. Sou um homem feliz.
   Contemplou Dora e de novo se sentiu velho e amargo. A sua vida era vazia. No entanto, havia no Mundo a beleza, o amor, a ternura, a compreenso. E a Primavera. 
Uma menina num terrao ao luar. E a noite morna de Dezembro, toda cheia de estrelas e de desejos indefinveis.
   - O senhor pode dizer o que quiser, mas eu sei que no  feliz.
   Valia a pena continuar negando? Eugnio encolheu os ombros. Algum l da dentro chamou:
   - Dora!
   - J vou! Com licena, doutor. - Estendeu-lhe a mo, sorrindo, um sorriso de agradecimento. - Obrigada. No esquecerei que o senhor  meu amigo.
   Deu meia volta e caminhou para dentro.
   Eugnio sentou-se na balaustrada. Imaginou Olvia a seu lado, naquele vestido vaporoso em que a vira na noite da colao do grau. Ela tinha ainda nos braos o 
ramalhete de rosas vermelhas. Sim. Os dois de novo estavam olhando para a Lua pensando no futuro.
   Eugnio suspirou, atravessou o terrao e tornou a entrar no salo. Isabel e Dora cochichavam a um canto, enquanto Eunice tocava "Les Nuages", de Debussy. As suas 
mos perpassavam sobre o teclado, brancas e leves como nuvens.
   Eugnio foi sentar-se na sua poltrona. Isabel devorava-o com os olhos. Ao lado de Sintra, todo inclinado para ele, Filipe dizia:
   - Debussy pode ser o ideal dos ourives e das fiandeiras, mas nunca o de um construtor ambicioso. Eu amo  Wagner. Quando o ouo penso em grandes montanhas cheias 
de bruma e de Sol. Ou ento num edifcio enorme, subindo para as nuvens, num desafio.
   
   O sinal vermelho acende-se. O auto pra. Empertigado no banco, Eugnio espera. Passam-se alguns segundos. Brilha a luz verde. O carro retoma a marcha.
   Agora uma esperana alvoroada se apossa de Eugnio. Olvia est fora de perigo. Deus existe.  o sinal por que ele est esperando. Vai comear uma nova vida 
para todos eles. Uma vida pura, simples, construda sobre bases de verdade e sinceridade.
   De que vale o sucesso? O que ele quer agora  uma alma, um esprito claro para compreender e aceitar a vida e os homens. A cegueira j passou. As mos frescas 
de Olvia pousaram-lhe nos olhos. Os sonhos doidos e perversos dissiparam-se.
   O auto corre. Mais dez minutos e estaro  porta do hospital.
   A luz vermelha tornar a brilhar na sinaleira. O carro estaca.
   Eugnio enxuga o suor que lhe escorre pelo rosto e lhe empapa o colarinho.
   
   Encontravam-se uma vez por semana no consultrio de Eugnio, aos sbados  tarde, quando os escritrios daquele terceiro andar do Edifcio Mxico estavam todos 
fechados.
   Naquele dia, Isabel entrou toda inquieta e receosa e a sua inquietude e o seu receio acabaram por contagiar Eugnio. Ao entrar encontrara o Dr. Castanho, que 
nesse momento descia do seu automvel. Tivera a impresso perfeita de que ele a vira com o rabo dos olhos e que, fingindo dizer qualquer coisa ao motorista, ficara 
a observ-la disfaradamente, enquanto ela entrava no elevador.
   Isabel contava estas coisas com voz quebrada e trmula, sentada na poltrona, os olhos arregalados, a mo no peito.
   Eugnio fumava, num silncio nervoso.
   - Mas que tem isso, Isabel? Ele viu voc entrar? Muito bem. Centenas de pessoas entram e saem por essa mesma porta durante o dia. No estamos num edifcio pblico?
   - Sim... mas  que ele sabe que tu tens consultrio aqui...
   - Mas no sou s eu. Mais de vinte mdicos e advogados tambm tm consultrio aqui.
   - Mas  que Castanho sabe das nossas relaes.
   - Qu?
   - Quero dizer: sabe que eu e Filipe nos damos com vocs. . . pode ter desconfiado alguma coisa. ..
   Com o corpo inclinado para a frente, os braos descansando nas coxas, o cigarro ardendo entre dois dedos da mo direita.
   Eugnio olhava para o padro do tapete que naquele instante correspondia ao desenho mesmo de seus pensamentos. Aquilo agora s vinha aumentar-lhe a sensao de 
insegurana, a de presso, a melancolia. Tivera na noite anterior um sonho impressionante. Vira Olvia perdida num nevoeiro a acenar para ele como que a pedir socorro; 
queria precipitar-se para salv-la, mas uma fora misteriosa prendia-o ao cho, aflitivamente.
   Pausa prolongada. Depois de pequena relutncia, Isabel tirou o chapu, as luvas e p-las em cima da mesa.
   - Eu s vezes penso. .. - disse ela. Mas calou-se de repente, levou as duas mos aos olhos e comeou a chorar.
   Eugnio ergueu-se bruscamente, mortificado. Esmagou o cigarro no cinzeiro, com raiva, e olhou para Isabel. Porque no tinha a coragem de dizer-lhe que no a amava? 
Porque no se mostrava sincero ao ponto de lhe confessar que a tomara como amante porque precisava sacrificar vtimas ao seu complexo de inferioridade, porque necessitava 
alimentar a sua vaidade e ao mesmo tempo dar pasto aos seus desejos animais? Espiritualmente eles nada tinham de comum.
   E ali agora estava Isabel com as mos trmulas apertando o leno na boca, os olhos cheios de lgrimas, o peito arfante. Apiedou-se dela. Enfim, tratava-se de 
uma criatura humana. Fez um esforo desesperado para dar ao rosto uma expresso de simpatia, para emprestar  voz um tom mais brando que lhe escondesse a irritao, 
a impacincia.
   - Minha filha, que  isso? Se achas melhor. . .
   Calou-se.
   Subia da rua a trovoada dos eltricos, o guincho das buzinas.
   Por alguns instantes Eugnio lutou consigo mesmo. Depois, num extremo esforo, terminou:
   - ...acabamos com isto para sempre.
   Isabel voltou-se, deixou cair as mos e ficou olhando para Eugnio com seus grandes olhos negros e midos, assim como se no tivesse compreendido o sentido das 
suas palavras:
   - Acabar? - disse. -  s isto que sabes dizer?
   - Mas, minha filha...
   - Eu me arrisco... venho aqui... fao todos os. sacrifcios...
   - Mordeu os lbios, as lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, abrindo sulcos no p de arroz. - Acabar, no ?
   - No  que eu queira. .. mas tu compreendes que, mais tarde ou mais cedo, algum pode descobrir... E o diabo...
   Isabel enxugou as lgrimas. Apanhou a bolsa, caminhou at ao espelho do porta-chapus e comeou a empoar-se e a pintar os lbios. Eugnio olhava o rosto congestionado 
que o espelho refletia, compreendia o esforo desesperado que Isabel fazia para no chorar, para manter uma mscara de indiferena.
   Houve uma curta pausa. Mas, de sbito, a expresso daquela face perdeu a rigidez, os olhos apertaram-se, a boca contraiu-se e Isabel desatou a chorar. Eugnio, 
agoniado, aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, beijou-lhe a nuca.
   - Isabel... minha filha, por favor... mas que  isto? Eu no te quis magoar, palavra que no quis. Olha aqui...
   Ela voltou-se brusca e abraou-o com fora, encostando a cabea no peito dele. Os soluos sacudiam-lhe o corpo convulsivamente e, como o tremor do desespero de 
algum modo lembrasse os movimentos do amor, Eugnio, atravs da piedade, comeou a sentir um vago desejo e por causa desse desejo, que lhe pareceu confusamente sacrlego, 
ele odiou-se ainda mais.
   - Vamos, fica quieta, no faas assim...
   Acariciou-lhe os cabelos, procurou ser paternal, lembrou-se de Dora, imaginou Eunice ali na sala a observ-los, sentiu que corava, teve a um s tempo desejos 
de maltratar Isabel, de am-la com ternura, de fugir...
   Os soluos dela aos poucos cessaram. Isabel ergueu para - Eugnio um rosto devastado pelo sofrimento. As lgrimas lhe estriavam as faces de manchas mais escuras 
que desciam sinuosas como o desenho de um rio.
   Olhando assim de perto, como todos os seus defeitos bem visveis - a pele sem frescura, os lbios mal pintados, os olhos de plpebras cansadas e murchas - aquele 
rosto no tinha nenhuma beleza. Mas nos olhos de Isabel no havia s o desejo: havia tambm o pavor da mulher que no quer envelhecer. E ela abraava Eugnio com 
fria, apegava-se a ele como a um ltimo resto de mocidade. Naqueles breves instantes Eugnio sentiu bem vivo o drama de Isabel. Teve pena.
   Mirou-lhe os lbios entreabertos e palpitantes e baixando a cabea, beijou-os quase com ternura. Sentiu que o corpo dela estremecia de novo e que as suas mos 
escaldantes lhe seguravam a cabea. Isabel agora mordia-lhe a boca num frenesi.
   Mas o desejo desaparecera estranhamente do corpo dele. Eugnio sentia-se inibido pelas lgrimas de Isabel, pelo sofrimento de Isabel, pelo drama de Isabel. Tinha 
a impresso de que ia cometer um incesto.
   Naquele dia a despedida da amante pareceu-lhe mais uma fuga. Ele ficou amargurado com as recordaes daqueles instantes desagradveis. Enfim, todas as coisas 
ms lhe aconteciam. A vida rolava de fracasso em fracasso. No se entendia com Eunice, sentia-se um estranho na prpria casa, a sensao de inferioridade acompanhava-o 
por toda a parte. E aquela ligao com Isabel, longe de lhe devolver a confiana em si mesmo, de lhe dar uma impresso de superioridade, de plenitude, aumentava-lhe 
a angstia, complicava-lhe a vida, fornecia-lhe novos motivos para remorso, para auto-censuras, para preocupaes sem fim. Foi at o lavatrio, lavou as mos, o 
rosto, molhou os cabelos, penteou-se, mirou-se no espelho, murmurando interiormente: canalha! Quem falara assim fora a parte melhor do seu ser, a que se conservara 
pura e inteiria, apesar de todas as misrias e de todas as derrotas. Canalha! Talvez um dia ela pudesse conseguir o milagre de lhe dar uma personalidade nova, fora 
para reagir contra a dissoluo, o aniquilamento, a cobardia. Talvez... Apanhou o chapu e saiu. Tinha de ir ao escritrio assinar uns documentos. Alis ele no 
fazia outra coisa na fbrica seno rabiscar o nome nos papis que outros preparavam. Entrou no carro e disse: - Para a fbrica. Eram quatro horas da tarde. O auto 
avanava pela rua coalhada de veculos, de sons e de vultos humanos. Eugnio tornou a pensar em Olvia. Viu-a perdida no nevoeiro, acenando para ele. E se na realidade 
ela se achasse em situao difcil, precisando de auxlio?
   Recostou-se no banco e cerrou os olhos. No podia vencer aquela inexplicvel sensao de insegurana, de perigo prximo, de vspera de catstrofe. Alguma desgraa 
lhe parecia prestes a acontecer. Ele pressentia-a de maneira indefinvel, mas inquietadora.
   Quando tornou a abrir os olhos, o automvel passava pelo Parque da Redeno. Crianas corriam e brincavam  beira do lago onde marrecos nadavam serenamente. As 
sombras das rvores eram azuis, uma gara voou do viveiro, um grito cortou o ar, dois cachorros corriam latindo atrs de uma bola amarela.
   Eugnio naquele instante sentiu com mais pungncia o vazio sem cor da sua vida. Desejou a presena de Olvia. Edifcio Hora, 3.o andar, sala 8.
   Atravessou o ptio interno da fbrica. Os grandes pavilhes de concreto pareciam estremecer ao ritmo das mquinas. Eugnio ouvia aquela pulsao surda que lhe 
sugeria o bater de um enorme corao subterrneo. Ela dava-lhe uma vaga angstia, causava-lhe um indefinvel temor: era como que a aflio de um homem que sente 
no subsolo o agitar-se de uma sub-humanidade que trabalha com silenciosos propsitos de destruio. O atroar das mquinas era um rudo inimigo.
   O escritrio pareceu-lhe mais frio e convencional que nos outros dias. Sentou-se  mesa, abriu uma das gavetas, remexeu nos papis. No encontrando os que procurava, 
chamou a secretria. Era uma rapariga magra, de ar cansado.
   - Boa tarde, D. Ilsa. Algum me procurou?
   - No, senhor, ningum.
   - Onde esto aquelas folhas que vo para o Ministrio do Trabalho?
   - Esto na gaveta do centro.
   - No achei. .. Mas vamos procurar de novo.
   Tornou a abrir a gaveta. Encontrou os papis.
   - A senhora tinha razo, c esto eles.
   P-los em cima da mesa, tomou a caneta.
   - A senhora anda muito plida e com jeito de cansada. Porque no tira umas frias?
   Assinava os papis automaticamente, sem revis-los. Sentia agora um interesse fraternal pela secretria. Ela tinha um jeito de passarinho doente.
   - E a dor nas costas... ainda sente?
   - s vezes, quando me deito, ela vem.
   - Deve ser da posio em que fica quando escreve  mquina. Precisa cuidar-se, D. Ilsa.
   A jovem sorriu, meio constrangida.
   Eugnio perguntava a si mesmo porque era que de repente se fazia assim to solcito, to atencioso, to irmo mais velho. Concluiu que era porque tinha pena da 
moa: pena de todos os que sofriam. Por um breve instante sentiu-se reconciliado consigo mesmo. Mas o seu eu puro e implacvel cochichou-lhe que, se ele se mostrava 
gentil e amvel para com essa secretria e para com os outros empregados da fbrica, era para com essa gentileza e essa amabilidade comprar a cumplicidade, a boa-vontade 
e a simpatia deles. Porque todos ou quase todos sabiam da sua situao de inferioridade naquela casa. No passava de um manequim, de um autmato que assinava papis 
preparados pelos que realmente entendiam do negcio, pelos que trabalhavam de verdade, mas que, no entanto, em questes de ordenado, se achavam a baixo dele. Aquela 
gente sabia que ali ele era apenas o marido da filha do patro. E, sendo benevolente e mostrando-se generoso, ele como que queria comprar-lhes pelo menos a tolerncia, 
se no fosse possvel a simpatia.
   Eugnio escreveu o nome com raiva, a pena rasgou o papel, um pingo de tinta saltou e espalhou-se no centro da folha. A secretria avanou com a prensa de mata-borro.
   - Obrigado.
   O telefone tilintou. Eugnio tomou o fone.
   - Al! Aqui fala Eugnio. (Tinha escrpulos de dizer "doutor" Eugnio, podia parecer um acinte aos que no eram formados, ou uma exibio vaidosa) - Quem?. . 
. ah!. . . - Ficou escutando em silncio, enquanto o seu rosto se ensombrecia, numa expresso de contrariedade. - Sim... - disse ao cabo de um minuto - est bem, 
j vou...
   Reps o fone no lugar e ergueu-se. No pavilho n.o 3, o chefe das mquinas esperava-o. Tinha apanhado um de seus homens a escrever imoralidades numa das paredes 
do lavatrio. Queria que Eugnio visse com os seus prprios olhos. Tratava-se de um operrio chamado Galvez, que j estivera preso como agitador comunista: era um 
sujeito perigoso - garantia o chefe das mquinas - um elemento de desordem.
   Eugnio caminhava para o pavilho n.o 3. Ia contrariado. No bastavam os momentos difceis que passara com Isabel. Agora acontecia-lhe aquilo... Tinha horror 
a questes daquela natureza, era-lhe desagradvel tratar com o pessoal da fbrica, resolver pendncias, dar conselhos, repreender, castigar...
   Seria mil vezes melhor viver longe de todas aquelas coisas.
   O chefe das mquinas esperava-o  porta do pavilho. Era um alemo alto e forte, de pescoo de atleta, cabea rapada e os olhos de um cinzento azulado. Eugnio 
sentia-se sempre muito deprimido na presena dele.
   - Galvez  um patife! - disse o homem com os lbios apertados. - Venha ver.
   O seu rosto era uma mscara de pedra.
   - Onde est ele?
   Entrou. Deu trs passos sobre o cho de cimento do pavilho. E, como ao sinal de um invisvel e cruel contra-regra que estivesse apenas esperando a sua entrada 
em cena, algo de pavoroso aconteceu.
   - Galvez! - berrou o alemo.
   A sua voz, que tinha uma qualidade metlica, soou acima do surdo matraquear das mquinas. Eugnio olhou na direo em que o outro lanara o grito. E viu horrorizado, 
que a polia grande de uma das mquinas naquele instante apanhava o corpo de um homem. Ouviu-se um grito agudo. O corpo rodopiou enrolado na polia e depois, como 
um boneco de pano, foi lanado ao ar, caindo longe no meio de outras mquinas. Houve um momento de atarantamento. De todos os lados partiam exclamaes. O alemo 
correu para a tbua dos comutadores e puxou a chave geral. As mquinas pararam. O silncio que se seguiu gelou o sangue de Eugnio. Os homens correram numa s direo. 
Trouxeram depois um corpo ensangentado e puseram-no aos ps de Eugnio, como se ele tivesse pedido aquele sacrifcio, como se ele fosse um deus cruel. Fazendo um 
enorme esforo para vencer o tremor das pernas, ele inclinou-se. No havia nada a fazer. O crnio do operrio estava todo esfacelado, o rosto j no tinha feies 
definidas. O corpo quase perdera a forma humana. No cho, em redor dele, formava-se uma poa de sangue.
   O pavor estrangulava aqueles homens, reduzindo-os ao silncio. Os olhos do chefe das mquinas conservavam-se frios e o seu rosto era uma mscara inumana de pedra.
   
   Quando tornou a sentar-se  sua mesa, Eugnio teve a impresso de que sara dali no havia apenas vinte minutos, mas sim vinte anos. Sentia-se mais velho, mais 
cansado e mais amargurado. Ficou com os cotovelos fincados na mesa, as mos segurando o rosto, a olhar fixamente para o tinteiro. Do ptio interno chegava at ele, 
atravs das janelas, um rumor de vozes.
   - Mandem tocar de novo as mquinas. No podemos ficar parados. Tempo  ouro.
   Ouro... Porque era que os homens no se esqueciam nunca do ouro? Ouro lembrava-lhe outra palavra: sangue. Tempo tambm era sangue. Ouro fazia-se com sangue.
   Eugnio chamou a secretria. D. Ilsa, muito plida e assustada, apareceu.
   - D. Ilsa. . . - Eugnio esforava-se por falar com voz firme. - A senhora me faa o favor de trazer a ficha... "dele".
   Ela saiu e voltou dentro de pouco com uma ficha amarela.
   Eugnio tomou-a nas mos trmulas. O homem chamava-se Torbio Nogueira. 37 anos. Casado. Cinco filhos. Diria: 10.000. Num dos cantos da ficha havia um retrato. 
Rosto magro, olhos tristes. Eugnio achou-lhe uma vaga parecena com o pai, com o pobre ngelo.
   Naquele instante, Sintra entrou. Foi logo dizendo:
   - Voc viu que coisa lamentvel? - Limpou a aba do palet e ajeitou a gravata. - Esses homens so umas verdadeiras crianas, no sabem o que fazem. Vivo fazendo 
recomendaes...
   Voc no faz idia de como essas coisas me deixam aborrecido.
   Eugnio mostrou-lhe a ficha. Sintra examinou-a com ar volvel.
   -  bom voc mesmo arranjar as coisas com a famlia dele. Vamos pagar a indenizao de acordo com as leis de trabalho.
   Eugnio sacudiu a cabea.
   - Mas ser preciso ir hoje mesmo?
   Sintra encolheu os ombros.
   - No digo que v agora. . . Mas amanh. O essencial  no deixar a coisa esfriar. Algum advogado pode meter-se no caso e  o diabo.
   Sintra ps a ficha em cima da mesa.
   - Faa esse sacrifcio, Eugnio. V procurar a famlia do homem. Fica mais decente ir uma pessoa da firma,  uma prova de considerao. - Botou o chapu. - Tenho 
de ir a uma reunio do Sindicato do Arroz. E depois - acrescentou noutro tom - voc tem jeito para essas coisas, rapaz.
   Eugnio odiava que ele lhe chamasse rapaz.
   Junto  porta, Sintra voltou-se, acrescentando:
   - Diga que pagamos o enterro. At logo.
   Fechou a porta.
   "Voc tem jeito para essas coisas." Eugnio ficou ruminando nestas palavras. Era o mesmo que dizer: - "Voc no d para outra coisa."
   Ergueu-se. No podia esquecer o corpo ensangentado, a cabea esmigalhada, os membros triturados. Olhou de novo para a ficha. Cinco filhos. Sentiu-se culpado. 
Como se tivesse matado o pai daquelas crianas.
   Foi at  janela. O fantstico corao subterrneo continuava a pulsar. O seu ritmo marcava a passagem dos segundos e cada segundo que passava - parecia-lhe - 
era mais um passo no rumo da destruio total, da catstrofe. No pavilho n  3 a mquina assassina continuava a marchar como se nada tivesse acontecido.
   Era de ferro - refletiu ele - mas sabia ter uma crueldade de homem.
   Eugnio botou o chapu e saiu. Entardecia. Parecia haver uma imensa e imperturbvel paz no Mundo. Passarinhos cantavam nas rvores que orlavam a avenida da fbrica. 
O Cu do crepsculo tingia-se de vermelho. Eugnio tornou a pensar em Olvia. Como estava precisando dela! Aquele dia mais do que nunca. Pensou com antecipado horror 
nos momentos que passaria com o sogro e com a mulher, em torno da mesa do jantar.
   
   Sintra falou pouco durante o jantar, parecia preocupado. Referiu-se por alto  reunio do Sindicato, em que o seu ponto de vista no encontrara apoio.  hora 
do caf, porm, ficou mais comunicativo, fez um boneco de miolo de po e contou uma anedota em torno de conhecido poltico.
   Eunice tomou conta da conversa, falou quase todo o tempo, dirigindo-se mais ao pai do que ao marido: o filme que vira naquela tarde, observaes casuais sobre 
pessoas das suas relaes, livros, a resoluo que tinha tomado de estudar grego e psicanlise (diziam que o Dr. Stekel viria fazer uma srie de conferncias na 
Sociedade de Medicina)... Eugnio lutava com a melancolia, com a depresso. Falou pouco, comeu menos ainda. Sintra no fez a menor referncia ao desastre da tarde. 
Era um gentleman.
   Pondo no boneco de miolo de po o anel do charuto,  guisa de chapu, perguntou:
   - Aonde  que vocs vo hoje  noite? Estou com vontade de ir ao clube.
   Eugnio no respondeu, mas Eunice declarou:
   - Vou  conferncia do Castanho, no Crculo de Cultura. - E, olhando para Eugnio, perguntou: - Tu vais?
   O tom em que ela fez a pergunta - achou Eugnio - trazia implcita a idia de que naturalmente ele no iria porque no se interessava por aquelas coisas do esprito.
   Eugnio franziu a testa:
   - Se quiseres que eu te leve. . .
   - Tu sabes que posso muito bem ir sozinha. Ningum te obriga a ir onde no queres...
   Em seguida sorriu um sorriso polido para corrigir a aspereza das palavras. (Uma mulher de esprito nunca se zanga - percebeu ele). E, ainda sem coragem para dizer 
um no puro e simples, Eugnio perguntou:
   - Qual  o tema da conferncia?
   "A Tragdia Grega e o Mundo Moderno."
   - Ah!
   Eugnio acendeu um cigarro, perdido em dvidas. No se achava disposto a ouvir conversa fiada. Do que ele precisava naquela noite era de solido ou ento de uma 
presena amiga. Tornou a lembrar-se de Olvia. Teria ela voltado para a casa dos Falk?
   - Bom - fez Eunice com ar final. - No vais, no ? Pap me deixa no Crculo quando for para o clube. - Ergueu-se e, com um brilho malicioso nos olhos, disse 
para o marido:
   - Olha, no Apolo esto passando "A Fuga de Tarzan".
   Eugnio ficou vermelho, baixou os olhos para a xcara de caf. Sintra levantou-se tambm, rindo a sua risada lenta e prolongada, que naquele instante tinha o 
propsito nico de atenuar a mordacidade das palavras da filha.
   - Pois eu vou ao clube - disse ele. - A propsito, Eugnio - acrescentou noutro tom. - Propus voc para o Country. J paguei a jia e o primeiro ms.
   - Obrigado.
   - Ento, voc no vai?
   - No.
   - Bom.
   Eugnio ficou sozinho na sala de jantar. Sozinho, com aquela singular sensao de insegurana, de abandono, de indeciso, de melancolia. Comeou a pensar coisas 
ridculas de Castanho. Ele chegaria aos sessenta anos sem publicar o seu famoso ensaio sobre a tragdia grega, to pomposamente anunciado desde os tempos de estudante. 
Imaginou-o  mesa no salo do Crculo, metido num manto grego, coroado de louros, muito plido e intelectual. Viu-o e ouviu-o recitando com voz branda trechos de 
Sfocles, ao passo que vestia mscaras - mscaras que eram todas e sempre a reproduo do seu rosto doentio e vago.
   E j agora, ali imvel, olhando para a xcara vazia, Eugnio via-se atravessando o salo pelo meio dos espectadores, avanando resoluto na direo da mesa. Uma 
cena rpida. Estendeu o brao com fora, o punho fechado golpeou violento o rosto de Castanho, que caiu de costas. Tumulto no salo.
   Eugnio bateu a cinza do cigarro nas bordas do pires. Porque era que aborrecia tanto Aclio Castanho? -perguntou a si prprio, j cheio de remorso e confuso, 
como se na realidade tivesse cometido aquele ato de truculncia. Achou respostas vrias e insatisfatrias. Talvez no gostasse de Castanho porque de certo modo ele 
estava ligado a uma recordao dolorosa da sua mocidade. Ou ento porque sabia da profunda admirao intelectual de Eunice por ele. Ou ainda porque  medida que 
o tempo passava mais se fazia visvel a silenciosa paixo que Castanho tinha por Eunice. Ele amava-a com a obstinao e a metdica fria de que so capazes os homens 
castos.
   Ergueu-se da mesa e foi at  janela. A noite estava serena, parecia um convite de Olvia. Continuaria ela a morar com os Falk?
   Na casa vizinha crianas gritavam e riam. Eugnio pensou nos cinco filhos do operrio que a mquina matara. Precisava fazer alguma coisa por aquela famlia. E 
de repente uma idia deixou-o muito perturbado. Havia no Mundo gente que precisava do seu amparo. Estava ao seu alcance melhorar a vida de algum... Aquilo talvez 
lhe conseguisse apaziguar um pouco a conscincia. Lembrou-se do tempo em que, como mdico da Assistncia atendia os pobres. Olhou.para o porto da casa e viu-se 
a si prprio descendo da ambulncia, metido na sua surrada roupa cinzenta, a maleta na mo. Teve saudade de si prprio. Naquele tempo, as suas angstias eram grandes, 
a preocupao de fazer carreira atormentava-o. Mas ele tinha relativa independncia e um certo sentimento de rebeldia. Ao passo que, agora...
   O silncio da casa deixava-o mais deprimido. Pegou num livro, abriu-o ao acaso, leu algumas linhas. O livro no lhe disse nada. Nas suas pginas tornou a ver 
o operrio que a mquina estraalhara, cinco caras magras e doentias, cinco crianas sem infncia.
   Pegou no guia telefnico. A... B... C... D... E... F... Fabrcio... Fagundes... Falco... Falk... Hans Falk, 5765. No. No telefonaria. Atirou o guia longe. 
Apanhou o chapu e saiu.
   
   A porta abriu-se e, com o corao a bater-lhe desordenadamente, ele viu-se em presena de Olvia.
   - Eugnio! - disse ela com alegria.
   Ele estendeu a mo, que Olvia apertou. Ficaram a olhar-se por um instante, de mos dadas, ela sorrindo, ele muito srio e perturbado.
   - Eu sabia que tu vinhas. Entra.
   Tomou-lhe o chapu, fechou a porta. Ele no conseguia dizer uma nica palavra. Como em outros tempos, segurando Eugnio pelo brao, Olvia conduziu-o suavemente 
at  poltrona, como uma enfermeira que guia e ampara os primeiros passos de um convalescente.
   Eugnio sentou-se. Contemplou Olvia, que se sentara na sua frente. Os olhos dela ofereciam-lhe a paz. Ele passeou o olhar em torno: o quarto estava bem como 
havia trs anos passados: todos os mveis no seu lugar.
   - Quanto tempo! - exclamou ele de repente, sem saber como lhe haviam escapado estas palavras. Olvia sacudiu a cabea lentamente. Fez um sinal na direo da janela:
   - Eu no dizia sempre? As estrelas esto a mesmo...
   - A noite passada sonhei contigo... Tu estavas assim no meio de uma cerrao, fazendo sinais para mim. Fiquei aflito, acordei impressionado.
   Pausa. O vento fresco da noite entrava pela janela, batia no rosto de Eugnio e ele tinha a impresso de que aquela frescura vinha de Olvia. Prosseguiu:
   - Mas devo confessar que vim porque... porque estou precisando de ti... Aconteceram tantas coisas hoje... no s hoje. . . em todos estes trs anos. - Baixou 
a cabea, continuou a falar sem olhar para Olvia. -  a volta do filho prdigo, no achas?
   Olvia levantou-se e disse:
   - Ento vou mandar matar um vitelo. Olha, a chaleira deve j estar chiando no fogo. Eu tinha comeado a fazer ch para dois, com o pressentimento de que vinhas 
hoje.
   - Mas como  que sabias?
   Ela encolheu os ombros.
   - So avisos misteriosos... eu nem sei explicar.
   Retirou-se. Eugnio acendeu um cigarro. Estava agora perfeitamente  vontade. Aquela era a sua casa. Ergueu-se e comeou a caminhar, devagar, pela sala, parando 
de quando em quando na frente de um quadro, de um mvel, de um vaso, de um bibelot. Deteve-se diante do seu retrato, que se achava ao p de um vaso com flores. Tinha-o 
tirado no dia da formatura. Estava muito srio, a testa franzida, a boca apertada. Tomou o quadro, examinou-o mais de perto.
   Quando Olvia voltou, mostrando-lhe o vaso e o retrato, Eugnio disse:
   - Flores para o defunto.
   Ela parou, com a bandeja no ar:
   - No te esqueas de que Cristo ressuscitou Lzaro.
   Ele reps o retrato no seu lugar.
   - Isso foi no tempo em que Jesus andava pelo Mundo.
   Olvia servia o ch.
   - Mas Jesus ainda anda pelo Mundo. Ser preciso que a gente s acredite no testemunho dos cinco sentidos? Jesus nunca deixou de estar no Mundo. O pior cego  
o que no quer ver.
   Ele sacudiu a cabea com obstinao. No lhe era possvel distinguir a imagem de Jesus no meio daquele matagal cerrado de problemas, idias confusas, conflitos, 
interesses cruzados, dvidas e baixezas. E se Jesus ainda estivesse na Terra, de certo, como medida de defesa, se tinha adaptado  misria do Mundo como um camaleo. 
Quis dar palavra a esta idia. Um secreto temor, porm, deteve-o. E, depois, ele havia recuperado a paz, sentia-se feliz, os dois iam tomar o seu ch como nos velhos 
tempos.
   Sentaram-se frente a frente. Eugnio contou-lhe o desastre da tarde.
   - Ser que tudo isso no tem um sentido... uma significao, uma finalidade? Eu s vezes penso...
   Ela avanou a cabea, olhou-o bem nos olhos e disse-lhe, com uma expresso que ele nunca havia de esquecer:
   - Graas a Deus, graas a Deus, tu sofreste.
   Eugnio fitou os olhos nela sem compreender. E de repente, como que arrependida da seriedade da sua atitude, Olvia voltou  habitual postura de serena simplicidade.
   - Pouco ou muito acar?
   - Assim est bem.
   Ela passou-lhe a xcara.
   - Biscoito?
   - Obrigado?
   Serviu-se.
   - Est bom?
   Ele sacudiu a cabea afirmativamente e perguntou:
   - Pode-se molhar o biscoito no ch?
   - E lamber os dedos, se quiseres.
   - Pergunto porque l em casa no tenho licena de fazer isso.  gente de bom-tom, tu compreendes...
   Sorriu, mas corou. Fez-se um curto silncio.
   - Conta tudo, Eugnio - pediu ela.
   - P'ra qu? Sei que j adivinhaste.
   E sacudiu a cabea devagarinho.
   - Ela agora?
   Ele encolheu os ombros.
   -  a pergunta que fao todos os dias a mim prprio.
   Deps a xcara em cima da mesa, olhou muito srio para Olvia, longamente, e por fim perguntou, numa splica:
   - Olvia.. . eu no tenho nenhum direito de te fazer perguntas. Mas h alguma coisa que eu queria saber... No imaginas o que isso agora significa para mim...
   Calou-se. Ela esperava.
   - Tu lembras-te daquela noite, da nossa ltima noite?
   - Ela sacudia a cabea, afirmando. O rosto dele tinha uma expresso de dolorosa nsia. - Porque, porque me deixaste ir, porque no me quiseste reter? Quando sa 
de aqui foi com a certeza de que voltaria no outro dia e mandaria o resto para o diabo. Porque te foste embora depois? Porqu?
   Ela apertou as mos dele nas suas e disse:
   - Quando a gente est sozinha numa casa e ouve barulho no andar trreo, fica logo assustada pensando em ladres. Se no desce para ver o que , passa o resto 
da noite preocupada, no dorme ou dorme mal, tem pesadelos. O melhor  descer, verificar que foi apenas o gatinho que virou a cadeira; depois voltamos pra cama e 
dormimos tranqilos. - Pausa. - Se eu te retivesse naquela noite, tu passarias o resto da vida amargurado e arrependido, julgando que a tua felicidade estaria nesse 
outro mundo em que hoje vives.
   Ela sacudiu a cabea. A explicao era clara, mas ainda no respondia  sua pergunta.
   - Olvia, eu j disse que no tenho direito... H coisas que no compreendo, que nunca compreendi e que no meu egosmo nunca procurei saber... Nunca falamos abertamente, 
evitamos certos assuntos... Eu, por comodismo... por cobardia, confesso. Tu... no sei porqu. Mas h uma coisa que me preocupa. - Calou-se e, depois de alguma relutncia, 
perguntou:
   - Olvia, tu... tu amavas-me?
   - Cego.
   Ela apertou-lhe as mos com mais fora. E Eugnio viu-lhe no rosto uma expresso to grande de amor que teve um suave desfalecimento. Nunca ningum olhara para 
ele daquele modo. O amor de Isabel era diferente... Eunice, uma estranha. Enfim, ali estava uma criatura que se interessava por ele, que o amava de maneira profunda. 
S agora tinha a conscincia de que era algum, de que possua uma personalidade.
   Beijou as mos de Olvia. Depois olhou-as bem de perto, examinou-as com muito cuidado, como se quisesse verificar se elas eram mesmo reais, e no mos de fantasmas 
ou de uma figura de sonho. Olvia acariciava-lhe os cabelos muito de leve. Eugnio sentia-se feliz, uma felicidade tonta, inesperada, um pouco sufocante. Mas naquele 
paraso surgiu a imagem de Eunice. Sintra tambm apareceu, rindo a sua risada lenta e baixa. Isabel chorava. Ele ainda no estava salvo. Ergueu-se de sbito, sentindo 
arder-lhe o rosto e as orelhas. Foi at  janela. Olvia seguiu-o e disse-lhe baixinho:
   - Olha as estrelas e tem coragem.
   Eugnio sacudiu a cabea devagar. Segurou a mo de Olvia e, sem tirar os olhos do Cu, disse-lhe:
   - Se tu soubesses o bem que me fazes! Eu tinha a impresso de que todo o estmulo havia desaparecido da minha vida. Eu sentia-me como uma "coisa"... S via em 
meu redor caras indiferentes, criaturas que no me pareciam humanas... Se pudessem imaginar como isso di...
   Como nica resposta, ela abraou-o com ternura.
   - s vezes - continuou ele - descubro dentro de mim foras de bondade, de pureza. So elas que me do alguma esperana, que me dizem que nem tudo est perdido.
   - Eu sei, nunca deixei de saber, de ter esperana em ti.
   Ficaram alguns instantes em silncio, olhando as estrelas. O vento bafejava-lhes o rosto. Ao cabo de alguns instantes, Eugnio perguntou:
   - Como deves ter sofrido... Todo esse tempo em Nova Itlia, sem um amigo, sozinha...
   - Sozinha? - Ela sorriu. - Deixaste comigo a melhor das recordaes daquela nossa ltima noite.
   Eugnio voltou a cabea para a amiga e encarou-a com ar interrogador. Aquelas palavras tinham um tom singular. Seriam meramente retricas ou significariam algo 
de mais fundo?
   - Tu lembras-te da noite em que eu disse que estvamos numa encruzilhada? Pois tenho todas as razes para crer que esta noite tambm  uma encruzilhada. E o princpio 
de alguma coisa muito nova e muito grande. Vem...
   Puxou-o de leve pela manga do casaco e levou-o at ao quarto de dormir. Acendeu a luz. O que Eugnio primeiro viu foi a cama de Olvia, esmaltada de verde, com 
cobertas muito claras. Ao lado dela achava-se um bero branco. Nele dormia uma criana. Eugnio aproximou-se. O corao, que adivinhara tudo, j marcava o ritmo 
daquele choque. Comovido, trmulo, areo, Eugnio reviu-se no beb adormecido. Os seus traos estavam naquele rosto fresco e sereno, era como se lhe fosse dado ver-se 
a si prprio com dois anos, como num retrato que ainda guardava. Eugnio olhou para Olvia, de testa franzida.
   - Tu compreendes - disse ela. - Eu no podia ficar sozinha. - Sorriu. - E ela j tem esse teu jeito de franzir a testa e o nariz. Chama-se Ana Maria.
   As lgrimas brotavam nos olhos de Eugnio, que continuava imvel e tonto, incapaz do menor gesto, da menor palavra.
   
   Passam pelo parque. Os bancos esto cheios de namorados. O lago brilha impreciso por entre as rvores. A Lua reflete-se tremulamente na gua. Eugnio, num relmpago, 
lembra-se de uma noite - h to poucos dias! - em que passeou por por entre estas mesmas rvores com Olvia e Ana Maria. Era uma nova lua de mel. A revelao da 
filha dera-lhe uma sensao doce e indescritvel, semelhante  que ele sentira aos treze anos, ao descobrir a primeira paixo. Depois daquele reencontro com Olvia, 
a sua vida mudara por completo. De repente, ele achava um motivo para ter confiana no Mundo e em si prprio. Tinha uma filha, uma criaturinha com o seu sangue, 
com a sua carne. Uma filha! Era humano. No estava perdido.
   Todas as noites ia v-la e ver Olvia. Era l que descansava os nervos, que ganhava coragem e estmulo.
   Eram doces aqueles seres. Ana Maria brincava sentada nos seus joelhos, com os brinquedos que ele lhe trazia. Chamava-lhe pai, enquanto Olvia apenas os contemplava 
com os seus olhos fundos, que envolviam os dois como uma enorme onda quente, amiga e protetora. Depois a pequena ia para a cama. Uma noite (relembrando-a, Eugnio 
odeia-se), ao despedir-se de Olvia, o beijo que lhe deu foi mais quente e demorado, as suas mos viajaram pelo corpo dela, num movimento inequvoco. Mas ela mirou-o 
bem nos olhos, e, serena, sem ressentimento, perguntou-lhe:
   - Eugnio, isso  absolutamente indispensvel?
   No. No era. Tinha sido um gesto irrefletido. Ele era um porco.
   Ela tornou a beijar-lhe o rosto. Disse-lhe que ambos agora procuravam algo de mais alto e ao mesmo tempo de mais fundo. No haveria pecado nas relaes carnais 
que pudessem ter. Acontecia que nas circunstncias em que se encontravam elas apenas seriam uma pedra de tropeo, um motivo de novos dissabores, um desvio do caminho 
que se tinham traado. Onde estava hoje o prazer das outras noites? A dvida, o remorso misturara-se a ele, desvirtuando-o. Agora, precisavam de pensar em algo de 
superior, de mais duradouro. Continuarem como simples amantes apenas agravaria a situao moral dele, impedindo ao mesmo tempo que ambos conservassem os olhos limpos 
para ver a realidade. O desejo enevoa o esprito.
   Ele sara envergonhado de si prprio. Voltara noutros dias. Fizera a si prprio promessas de abandonar Isabel. Agora, essa ligao parecia-lhe ainda mais gratuitamente 
horrvel. Em casa, porm, encontrava ambiente pouco propcio ao florescimento dos seus bons propsitos. Ele fazia parte daquele sistema, inexoravelmente. Era difcil 
reagir. No achava jeito de livrar-se de Isabel. Um sbado no foi ao consultrio, procurando pretexto para o rompimento. Segunda-feira, Isabel telefonou para a 
fbrica. Teve de inventar desculpas, de fazer promessas.
   Quinze curtos dias durou o seu convvio com Olvia. Tinha chegado o Vero. Eunice quis ir para Santa Margarida. Planeava recepes. Nos week-ends, receberia amigos. 
Filipe, Isabel e Dora. O sr. e a sr.a Secretria da Educao. O Procurador Geral da Repblica, com a famlia. Sintra iria tambm passar os sbados e domingos na 
chcara.
   Eugnio no tivera outro remdio seno ir tambm.
   A solido do campo avivara-lhe os remorsos. Mas num desquite, mesmo sem se sentir ainda com coragem para prop-lo. Olvia no lhe fizera a menor insinuao. Dizia 
apenas que o sentia mais maduro, que o sofrimento comeava a dar-lhe personalidade. No mais, mantinha-se reticente. Os seus olhos humanos diziam-lhe coisas que ele 
ainda no podia entender.
   Estariam agora vivos ou mortos aqueles grandes olhos insondveis?
   
   O auto estava  porta do hospital. Eugnio desce com o corao aos pulos, a garganta seca, um amolecimento trmulo a quebrar-lhe o corpo todo.
   Entra no hall. Deserto. Em que quarto estar Olvia? Irm Isolda, no segundo andar, lhe dar a informao. Sobe pelo lento elevador. Os segundos parecem-lhe eternos. 
Ele agora tem medo de saber...
   O corredor sombrio do segundo andar. Um fantasma branco. irm Isolda.
   - Boa noite, doutor.
   Os olhos de Eugnio fixam-se nela, numa desesperada interrogao. Em voz baixa, com quem conta um doce segredo, ela diz:
   - A Dr.a Olvia morreu ao escurecer, na santa paz do Senhor. O corpo est sendo velado na capela.
   
    noite. Est aberta a janela do quarto de Olvia e o vento sacode o estore claro, que se baloua no ar como um leno que acena. O luar  uma fresca neblina azulada.
   Silncio.
   Sentado, com a filha adormecida no .colo, Eugnio pensa na morta. Os minutos passam. Pela sua mente j desfilaram todos os fantasmas. No lhe deixaram na alma 
nenhum pavor, nenhuma angstia, mas sim uma grande e profunda tristeza. Ele sabe que a vida vai mudar, que ele se acha de novo parado diante de uma encruzilhada. 
No pode mais retomar a velha estrada. Voltar  condio antiga seria morrer e ele precisa viver por amor de Ana Maria, por amor de Olvia, por amor de si mesmo.
   Que importa o que lhe possa acontecer de mau daqui por diante? S atravs do sofrimento e da luta  que ele poder encontrar-se a si mesmo. Mais tarde h-de vir-lhe 
uma serena aceitao da vida e no fim talvez ele descubra Deus.
   Ana Maria dorme tranqila, a sua respirao  doce e regular e no sono ela sorri. Eugnio contempla a filha. Que misteriosas imagens lhe estaro povoando os sonhos?
   A vida deve ter um sentido. Agora Eugnio comea a adivinhar nela contornos mais lgicos, o princpio de um desenho ntido. Ser bom e ser forte na bondade, fugir 
 violncia e  ambio desmedida, ter olhos para a profunda beleza das coisas, ser s vezes como uma criana que est a todo o instante redescobrindo o Mundo. "A 
vida comea todos os dias" - costumava dizer Olvia. Na memria de Eugnio soa a voz querida, desenha-se a imagem da que morreu. De repente, ele tem a impresso 
de que est sendo vigiado por olhos invisveis. Esta idia causa-lhe um leve estremecimento. Num gesto involuntrio, ele volta a cabea, procurando...
   Silncio.
   Eugnio aperta mais a filha contra o peito e no seu corpo sente o calor do corpo dela. Acontea o que acontecer - promete ele a si mesmo - nada conseguir separ-lo 
de Ana Maria. Por amor dela h-de achar coragem para vencer todos os obstculos - Eunice, o sogro, a sociedade. Desde j ele sabe que o maior obstculo est dentro 
de si mesmo, no seu corpo, na sua carne, nos seus nervos.
   Ana Maria move a cabea, balbucia uma palavra, choraminga e depois fica de novo tranqila. Eugnio ergue-se com a filha, beija-lhe a testa longamente e depois 
entrega-a  dona da casa, que em silncio a conduz para a cama.
   Eugnio acende a pequena lmpada ao p do sof, rel a carta que Olvia lhe escreveu poucas horas antes de morrer. Encontrou-a ali, em cima daquela mesma mesa, 
ao voltar do enterro. No envelope estava escrito simplesmente: Para Eugnio:
   
   Meu querido: o Dr. Teixeira Torres acha que a interveno deve ser feita imediatamente e daqui a pouquinho tenho que ir para o hospital. No sei porque me veio 
a idia de que posso morrer na mesa de operaes e aqui te estou escrevendo porque no me perdoaria a mim mesma se me fosse embora desta vida sem te dizer umas quantas 
coisas que no te diria se estivesse viva.
   H pouco sentia dores horrveis, mas agora estou sob a ao da morfina e  por isso que encontro alguma tranqilidade para te escrever. Mas estarei mesmo tranqila? 
Acho que sim. De certo  a esperana de que tudo corra bem e que daqui a quinze dias eu esteja de novo no meu quarto, com a nossa filha, e, meio rindo e meio chorando, 
venha a reler e rasgar esta carta, que ento me parecer muito tola e ao mesmo tempo muito estranha.
   Quero falar de ti. Lembras-te daquela tarde em que nos encontramos nas escadas da Faculdade? Mal nos conhecamos, tu me cumprimentaste atrapalhado, eu te sorri 
um pouco desajeitada e cada qual continuou o seu caminho. Tu naturalmente me esqueceste no instante seguinte, mas eu continuei pensando em ti, e no sei porqu, 
fiquei com a certeza de que havias de ter uma grande, uma imensa importncia na minha vida. So pressentimentos misteriosos que ningum consegue explicar.
   Hoje tens tudo quanto sonhavas: posio social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugnio indeciso e infeliz, meio desarvorado 
e amargo subindo as escadas do edifcio da Faculdade, envergonhado da sua roupa surrada. Continua em ti a sensao de inferioridade (perdoa que te fale assim...), 
o vazio interior, a falta de objetivos maiores. Comeas agora a pensar no passado com uma pontinha de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de conscincia, 
no  mesmo? Pois ainda passars horas mais amargas e eu chego at a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, h-de nascer o novo Eugnio.
   Uma noite me disseste que Deus no existe, porque em mais de vinte anos de vida no o pudeste encontrar. Cr que nisso se manifesta a magia de Deus. Um Ser que 
existe mas  invisvel para uns, mal e mal perceptvel para outros e de uma nitidez maravilhosa para os que nasceram simples ou para os que adquiriram simplicidade 
por meio do sofrimento ou da funda compreenso da vida. Dia vir em que nalguma volta do teu caminho hs-de encontrar Deus. Um amigo meu, que se dizia ateu, nas 
noites de tormenta desafiava Deus, gritava para as nuvens, provocando o raio. Deus  to poderoso que est presente at nos pensamentos dos que dizem no acreditar 
na sua existncia. Nunca encontrei um ateu sereno. Eles se preocupam tanto com Deus como o melhor dos destas.
   O argumento mais fraco que tenho contra o atesmo  que ele  absolutamente intil e estril; no constri nada, no leva a coisa nenhuma.
   Se soubesses como tenho confiana em ti, como tenho a certeza na tua vitria final...
   Deixo-te Ana Maria e fico tranqila. J estou vendo vocs dois juntos e muito amigos, na nova vida, caminhando de mos dadas. Pensa apenas nisto: h nela muito 
de mim e principalmente muito de ti. Ana Maria parece trazer escrito no rosto o nome do pai.  uma marca de Deus, Genoca, compreende bem isto. Vais continuar nela: 
 como se te fosse dado modelar, com o barro de que foste feito, um novo Eugnio.
   Quando eu estava ainda em Nova Itlia, li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro, em grandes negcios, sindicatos, monoplios e no sei mais qu. Estive 
pensando muito na fria cega com que os homens se atiram  caa do dinheiro.  essa a causa principal dos dramas, das injustias, da incompreenso da nossa poca. 
Eles se esquecem do que tm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relaes de criatura para criatura. De que serve construir arranha-cus 
se no h mais almas humanas para morar neles?
   Quero que abras os olhos, Eugnio, que acordes enquanto  tempo. Peo-te que pegues na minha Bblia, que est na estante de livros, perto do rdio, e leias apenas 
o Sermo da Montanha. No te ser difcil achar, pois a pgina est marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar nesse trecho, principalmente no 
ponto em que Jesus nos fala dos lrios do campo, que no trabalham nem fiam e no entanto nem Salomo em toda a sua glria jamais se vestiu com um deles.
   Est claro que no devemos tomar as parbolas de Cristo ao p da letra e ficar de papo para o ar, esperando que tudo nos caia do Cu.  indispensvel trabalhar, 
pois um mundo de criaturas passivas seria tambm triste e sem beleza. Mas precisamos dar um sentido humano s nossas construes. E quando o amor ao dinheiro, ao 
sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lrios do campo e as aves do Cu.
   No penses que estou fazendo o elogio do puro esprito contemplativo e da renncia, ou que ache que o povo deva viver narcotizado pela esperana da felicidade 
na "outra vida". H na Terra um grande trabalho a realizar.  tarefa para seres fortes, para coraes corajosos. No podemos cruzar os braos enquanto os aproveitadores 
sem escrpulos engendram os monoplios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruis. Temos de fazer-lhes frente.  indispensvel que conquistemos este mundo, no 
com as armas do dio e da violncia e sim com as do amor e da persuaso. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ao e no um puro contemplativo.
   Quando falo em conquista, quero dizer a conquista de uma situao decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, do esprito de cooperao.
   E quando falo em aceitar a vida no me refiro  aceitao resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misrias do Mundo. Refiro-me, 
sim,  aceitao da luta necessria, do sofrimento que essa luta nos trar, das horas amargas a que ela forosamente nos h-de levar.
   Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu amigo Filipe Lobo, que seria um campeo da nossa causa se orientasse a sua 
ambio, o seu mpeto construtor e a sua coragem num sentido social e no apenas egoisticamente pessoal.
   No sei, querido, mas acho que estou febril. Este entusiasmo, portanto, vai por conta da febre.
   Ouo agora um rudo. Deve ser a ambulncia que vem buscar-me. Senti um calafrio e parece que a minha coragem teve um pequeno desfalecimento. Ests vendo o tremor 
da minha letra?  que sou humana, Genoca, profundamente humana, to humana que te confesso, corando um pouco (apesar dos trinta anos e da profisso), que antes de 
ir para o hospital eu quisera beijar-te muito e muito.
   Ana Maria fica com D. Frida. Sei que, depois, se eu morrer, virs busc-la para a nova vida.
   Reli o que acabo de escrever. Estou fazendo um esforo para no chorar. Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro de duas semanas eu esteja queimando esta 
carta, que j agora me parece um pouco melodramtica.
   Antes que esquea: na gaveta da cmoda h um mao de cartas que te escrevi de Nova Itlia expressamente "para no te mandar". Agora, podes l-las todas. No encontrars 
nada do meu passado, do qual nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de no fazer perguntas.  pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como a minha 
vida j foi feia e escura e como lutei e sofri para encontrar a tranqilidade, a paz de Deus.
   Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo pattico. Mas permite que eu escreva
   Tua para a eternidade
   Olvia.
   
   Eugnio dobra a carta com todo o carinho. Seus olhos esto inundados de lgrimas e ele encontra um esquisito prazer no sofrimento e na tristeza. Lembra-se dos 
anos que Olvia passou em Nova Itlia. Nunca se esquecera dele, amara-o sem egosmo, fora fiel at ao fim.
   Mas agora est morta.  horrvel a idia de que a esta hora o corpo dela esteja a decompor-se debaixo da terra. Do que foi uma mulher terna e compreensiva, bela 
e corajosa, resta apenas uma carcaa repugnante, um monte de carne podre e fervilhante de vermes. Eugnio aperta os lbios, sente o gosto salgado das lgrimas que 
lhe entram pela boca.  impossvel - pensa ele - que tudo acabe na morte. Seria demasiadamente cruel que Deus nos desse uma capacidade de criar e sentir a beleza 
e nos destinasse ao mesmo tempo ao desaparecimento total, e, pior do que isso, ao apodrecimento irremedivel.
   
   Dez horas. Eugnio sai. A noite  morna e clara. Ele caminha para as ruas centrais. Lembra-se de outras noites em que andava por aqueles mesmos lugares em companhia 
de Olvia. Ela sempre tinha histrias para lhe contar. Histrias da vida. Da vida que ela j sofrera e que ele ainda no conhecia de maneira profunda.
   Chegou  praa e parou para olhar o arcabouo enorme do "Megatrio". Contou os andares. Vinte!
   Visto assim,  noite, a sobressair dos outros edifcios, o arranha-cus de Filipe Lobo tinha qualquer coisa de monstruoso e descomunal. Eugnio acendeu um cigarro, 
pensou em Filipe e na sua ambio desmedida, na sua sede de grandioso, na sua idolatria ao formidvel. Veio-lhe  mente tambm a imagem de Sintra e com ela a lembrana 
dos seus sindicatos, monoplios e organizaes comerciais. No entanto as estrelas brilhavam, por cima dos arranha-cus e dos monoplios, puras e distantes.
   Continuou a caminhar. As ruas do centro da cidade eram um tumulto. Claro de vitrinas. Letreiros luminosos. Gente a caminhar nas caladas e no meio da rua. Eugnio 
seguia sem destino. E uma voz sem cor murmurava-lhe interiormente, com estranha obstinao: "Nem Salomo em toda a sua glria se cobriu jamais como um deles".
   
   Num daqueles dias Eunice ofereceu um jantar a Tlio Alta mira, pintor paulista muito discutido, que havia pouco expusera as suas telas no salo do Crculo de 
Cultura, de que ela era secretria. Aclio Castanho esteve presente  festa, embora no aprovasse a arte de Resende. "Fora das linhas clssicas - escreveu ele no 
Frum - no h salvao. O moderno, o rigorosamente moderno ainda paga onerosos tributos ao clssico. Anda por a, como triste conseqncia da propaganda bolchevista, 
uma arte (merecer este nome?) primria, infantil, negride e desprovida de qualquer finura, do menor vestgio de bom gosto e de cultura. Para esses inovadores de 
m morte, o supremo refinamento  darem a impresso de que no sabem desenhar. Dizem que isso representa uma busca do ingnuo, da infantil pureza das linhas. Mas, 
entre os que, conhecem anatomia plstica e erram deliberadamente e os que, por no saberem em absoluto desenhar, abraam a pseudo escola nova como extremo recurso, 
existe uma diferena abismal".
   O jantar comeara com uma discusso entre Tlio Alta mira e Aclio Castanho, em torno de pintura e pintores. O velho Sintra,  cabeceira da mesa, sorria, tolerante, 
procurando insinuar no sorriso compreensivo que no era de todo leigo naquela matria. Filipe amassava o guardanapo, impaciente, porque lhe era insuportvel ficar 
calado. Para ele s existia uma arte digna do homem forte, do homem verdadeiramente msculo - A arquitetura, ajudada pela sua serva, a escultura. Pintura, msica 
e literatura eram ocupaes para mulheres e para homens fracos, doentes ou efeminados. Eunice, sorridente, dando mostras de uma grande alegria, olhava de Castanho 
para Altamira e, como quem lana azeite na fogueira para aviv-la, de quando em quando fazia breves observaes maliciosas, que provocavam o acirramento da polmica.
   Isabel estava tristonha.
   Eugnio evitava-lhe os olhos. Sabia que havia de encontrar neles uma censura e ao mesmo tempo uma interrogao. Porque no tinha ido ao consultrio no ltimo 
sbado? Porque fugia dela?
   Quando o jantar terminou e os convivas se ergueram para tomar caf no living-room, Aclio falava em Miguel-ngelo, ao passo que Altamira, chupando um enorme charuto 
com aflita avidez, soltava vagos resmungos de preguiosa aquiescncia. Era um homem baixo, forte e de aspecto rude. Vestia-se com desleixo e a sua cabeleira estava 
crescida e revolta. No rosto entumecido, os lbios carnudos e vermelhos - o inferior saliente e cado - emprestavam quela fisionomia uma qualidade imoral.
   - Vs todos tendes ainda muito que aprender de mestre Miguel-ngelo - sentenciou Aclio Castanho.
   As duas mulheres tinham subido at ao quarto de Eunice. O pintor aproveitou-lhes a ausncia e deixou escapar um arroto que a custo reprimira quando estava  mesa. 
Aclio no pde evitar que os lbios se lhe crispassem de leve, marcando a sua repugnncia por aquela sonora manifestao de animalidade.
   - Miguel-ngelo - trovejou Filipe - s  grande por ser o autor da cpula e no por ter pintado aqueles monos na Capela Sixtina.
   Com ar displicente, puxando as calas para se sentar, Sintra arriscou uma opinio:
   - Hoje em dia no temos mais nas artes figuras como Miguel-ngelo, Leonardo da Vinci... e... - a memria aqui traiu-o - etc.. .. etc.. ..
   Altamira, que naquele instante ia sentar-se, tornou a endireitar o corpo e investiu para Sintra.
   - Mas como no, coronel! - exclamou. - E Diego de Rivera? Nunca ouviu falar no gnio mexicano da pintura mural?
   Fez-se curto silncio. Sentado a um canto, Eugnio pensava em Olvia. Nunca se sentira to estranho em sua casa como naquele dia. Lembrava-se de outras festas: 
um jantar a Friedmann, um ch a Bid Sayo. Ele suportava todas essas ocasies com colarinho duro, camisa engomada e um sorriso falso. Agora tinha de estar ali aturando 
aquele pintor de aspecto desagradvel, que mamava o fino charuto que Sintra lhe oferecera. O pior era que no conseguia dizer uma s palavra. Limitava-se a sorrir 
ou a sacudir a cabea quando algum dizia alguma coisa olhando para ele. Olvia estava a todos os Instantes no seu pensamento. O que ele sentia era saudade, desalento, 
melancolia, desejos de acariciar a cabea da filha, de ficar a ss para pensar na morta. Se houvesse um meio de fugir...
   Atirado para trs na poltrona, Filipe soltou o vozeiro:
   - Vi uns quadros murais do Diego de Rivera, quando estive nos Estados Unidos.
   - E que tal? - perguntou o pintor, com a mo estendida e o charuto entre os dedos.
   - Assim. . . assim. Rivera  pernstico como todo o mestio.
   - Mas, meu caro amigo - retorquiu o pintor com veemncia - que  que a arte tem que ver com essa questo de raas? Oh! Nem me diga...
   Eugnio contemplava Aclio Castanho, que lhe parecia ainda mais plido que de costume. Estava vestido de escuro e os seus olhos negros tinham um brilho de febre. 
A sua testa larga, cor de marfim, pregueava-se toda de rugas, quando ele ficava a pensar, de olhos erguidos para o alto, ausentes.
   Quando Eunice e Isabel desceram, falava-se do bolchevismo de Diego de Rivera. Os olhos de Aclio fuzilavam.
   -  incrvel - dizia ele - a indiferena e a cumplicidade dos intelectuais e da chamada classe conservadora diante da bolchevizao do Ocidente. - O fogo estava 
apenas nos olhos.
   A voz continuava fria e calculada. -  lamentvel o desrespeito que por a anda  tradio, ao que  belo e nobre,  conquista de todos estes sculos de cultura, 
de bom gosto, de vontade organizada e de disciplina.
   Eunice escutava-o com interessada seriedade.
   - Vejam, por exemplo - continuou Castanho - o quanto h de dissolvente, de iconoclasta, de subversivo... de... de... de venenoso nos quadros murais desse mexicano. 
Nenhum respeito a Deus. A Lenine se d importncia espiritual maior do que  de Cristo. Nenhum respeito  Igreja...
   - Ora... a Igreja... Bah! - fez Altamira. Encolheu os ombros com desdm.
   Desprezando a interrupo, Castanho continuou.
   - Nunca andamos to baixo em matria de livros e de arte.
   Nos ltimos tempos tem surgido uma literatura srdida, que prolifera como mldio e que vai mofando a conscincia da nossa mocidade. Principiou com esse ignbil 
Judeus sem Dinheiro.
   No h mais respeito  gramtica, aos mtodos tradicionais do bom romance psicolgico. Os escritores so fotgrafos, reles fotgrafos que s sabem focar as suas 
mquinas em cenas imundas de misria e imoralidade. Esses detestveis escritores proletrios (o nome at me d nusea...) descobriram uma justificativa para os seus 
apetites literrios depravados: finalidade social.
   O pintor remexeu-se na cadeira.
   - Mas venha c, Dr.... Dr.... - No lhe ocorreu o nome do outro. - Venha c...
   Castanho no lhe deu ateno, prosseguindo:
   - Pornografia, quadros de misria, termos da gria, efeitos negrides, eis os grandes condimentos dos nossos chamados romances proletrios. Cheiram mal desde 
a primeira at  ltima pgina. E todos ns somos um pouco culpados do nascimento e da aparente prosperidade desses escritores.
   Altamira bateu a cinza do charuto e investiu:
   - So apenas romances que nos mostram a realidade, e a realidade, meu caro doutor, nem sempre  isto... - Fez um gesto largo que abrangia o living-room.
   - Mas realidade tambm no  s essa que sentimos com os olhos, com a ponta dos dedos, com o nariz.
   - Eu sei doutor, que o senhor vai falar no sexto sentido. - Lutou com novo arroto, venceu-o e continuou: - Mas veja bem: so cinco sentidos contra um!
   - Eu no perco tempo com romances - declarou Filipe. - Eles me irritam, me fazem perder a pacincia. Um cidado ocupado que preza o seu tempo no se pode entregar 
 leitura dessas histrias de mentira. - Endireitou o corpo, olhou em torno como se fosse fazer uma grande revelao e prosseguiu: - E da poesia.. . nem se fala. 
Chego a ter raiva. Os teus olhos so isto, a tua boca  aquilo... Vo pro diabo!
   Os olhos de Eunice espremeram-se, e, com um sorriso de malcia, procurando dar  voz um tom casual:
   - Isso de gostar ou no de poesia - disse ela -  questo de maior ou menor permeabilidade s impresses de beleza. No  de duvidar que,  fora de tanto construir, 
o Filipe tenha fabricado para si mesmo uma epiderme de cimento armado.
   Sintra soltou a sua risada prolongada e baixa. Isabel deu  sua incompreenso a forma de um plido sorriso. E Filipe, limpando dos joelhos a cinza do charuto, 
retorquiu:
   - A est.. . A verdadeira poesia  a poesia da mquina, da pedra, dos arranha-cus. Nova Iorque  um poema de pedra e cimento armado. - Abriu os grandes braos. 
- Mas no se trata de poesia feita de palavricas aucaradas e sim de expresses duras e fortes como o ao. E flexveis tambm.
   - Como voc gostaria de Verharen! - exclamou Eunice. - Mas  pena que o seu americanismo o tenha feito esquecer o francs...
   Castanho e Altamira estavam de novo atracados. Dizia o primeiro:
   - A nossa sociedade vai sendo aos poucos solapada pelo bolchevismo. O plano  diablico. No  s a literatura que prepara terreno para o amor livre, para o atesmo, 
para a imoralidade e para a revoluo comunista.  o cinema, tambm,  o amoralismo dos filmes. Divrcios, histrias escabrosas, msicas sensuais, danas lbricas, 
nudismo, anedotas canalhas, bebedeiras, crimes, suicdios... O cinema explora tudo isso. O pblico vai ficando impregnado de idias materialistas.
   Castanho falava sem se alterar, pronunciando as palavras com toda a nitidez, com frio entusiasmo didtico.
   Eugnio, absorto nos seus pensamentos, via-se com Olvia, na noite da formatura, sentados ambos ao p da esttua do Patriarca, olhando desconsoladamente para 
as estrelas. Como era suave e boa a presena dela... Tinha uma qualidade sedativa, era a paz...
   Entrou uma criada, que serviu licores. Altamira emborcou o seu clice e, como se tivesse bebido entusiasmo, rebateu as palavras do adversrio:
   - E que  essa desordem que o cinema foca seno um reflexo da descrena das criaturas diante do descalabro econmico e moral e da morte da f? - Ergueu-se, lambendo 
os beios. A sua cala estava subida e tinha joelheiras pronunciadas. - De repente os homens viram que tudo quanto lhes haviam ensinado em casa e no colgio, a respeito 
de Deus, da Igreja, da virtude, da recompensa na outra vida, eram lorotas. Descobriram que tinham um corpo cheio de desejos e que para satisfazer esses desejos bastava 
que eles pulassem muro das convenes. Ficaram loucos de alegria quando viram que esse muro era feito de fumaa e no de pedra e cal, como parecia. Foi uma corrida 
maluca. S ficaram para o lado de c do muro os tmidos e os doentes.
   Soluou, botou a mo no peito e pediu desculpa s senhoras.
   Encurvado na sua cadeira, as mos enlaadas descansando sobre os joelhos, Aclio Castanho sacudiu a cabea obstinadamente.
   - S a castidade  que nos pode elevar acima dos animais irracionais - disse, sentencioso. E, depois de um curto silncio, como que cedendo a uma imposio da 
prpria conscincia, acrescentou: - A frase no  minha. Li-a num pensador ingls contemporneo.
   - Castidade? - riu Altamira. - O senhor, com essa idade e nesta poca, ainda me vem com conversa fiada?
   Isabel estava de olhos baixos. Filipe resmungava qualquer coisa a Sintra, com ar aborrecido. Eunice examinava o pintor com olhos frios.
   Eugnio voltara  tona da realidade e prestava ateno  conversa. Era de certo modo interessante - achava ele assistir s discusses, colocando num ngulo afastado 
e neutro. Fazia o possvel para exercitar a sua tolerncia. Seria meio caminho para a aceitao total da vida e das criaturas. Esforava-se por no querer mal a 
Castanho, para no aborrecer Eunice. A questo era contempl-los com ternura humana. Mas bastaria desejar isso para o conseguir plenamente?
   Castanho olhava para o clice de licor, ainda cheio, que se equilibrava na guarda da poltrona.
   - Pode rir - disse ele a Altamira. - Enquanto voc e os outros fumam tranqilamente os seus charutos - (fez um sinal na direco de Sintra e Filipe) - os judeus 
vo minando o nosso edifcio social, preparando a queda da nossa civilizao. Tm nas mos o cinema e a Imprensa.  uma vingana lenta e perversa, que eles vm preparando 
h sculos.
   Caminhando para a sua cadeira e olhando para Eugnio com ar humorstico, o pintor murmurou:
   - Olhe. . . ele acredita tambm nessa lenda do protocolo dos sbios de Sio...
   Sacudiu a cabea, sorrindo, num gesto de quem acha estar diante de um caso perdido.
   - Tlio Altamira - falou Eunice como se estivesse num teatro e aquela fosse a sua deixa. - Quer-me fazer um favor?
   - Ps na sua voz doura de namorada, entortou a cabea de leve e, como o pintor ficasse imvel, esperando o pedido, ela continuou: - Diga-nos com franqueza: o 
que  que voc pensa de tudo isso de todos esses ismos, ideais, aspectos do Mundo e o mais que segue. ..
   Tlio Altamira deps o charuto apagado no cinzeiro e disse simplesmente:
   - Ningum pode desviar o curso do rio da Histria, com o perdo do lugar comum...
   - E ento? - perguntou Eunice, exigindo uma concluso.
   O pintor encolheu os ombros.
   - Sou um simples pinta-monos e no um profeta, minha prezada senhora.
   Castanho levantou-se num gesto de impacincia, olhou firme para o pintor e falou:
   - Pois eu vou dizer-lhe corajosamente o que penso, doa a quem doer. Acredito na nobreza de nascimento, na nobreza de sentimentos, bem como na cultura, no estoicismo 
e nas virtudes cavalheirescas.
   - Palavras... - murmurou Altamira, tratando de reacender com deselegncia o charuto. - Palavrinhas bonitas de quem nunca conheceu a misria e a necessidade...
   Castanho passou a fina mo esguia pelos cabelos, lambeu os lbios.
   - Tenho a ombridade de no me deixar embriagar nem amolecer por essa lengalenga de liberdade, igualdade e humanidade - continuou. - Olhem para a Natureza e convenam-se 
de que igualdade  uma idia impossvel. Eu acredito na hierarquia, na diviso das classes da sociedade segundo o ideal de Plato. A classe baixa formada de camponeses, 
lavradores e homens de negcio...
   Altamira olhou para Sintra e sorriu. Filipe fez uma careta, com misto de desgosto e de desprezo. Castanho continuou:
   - A classe mdia composta de soldados... e a elite formada pelos homens de mentalidade superior...
   - O senhor, por exemplo... - interrompeu-o o pintor.
   - ..pelos que tiveram capacidade de adquirir conhecimentos cientficos e estudar filosofia. Esses so os aptos para se tornarem os timoneiros do Estado... - Plato 
 do tempo da ona! - exclamou Altamira.
   Castanho calara-se. O suor - um suor discreto, comportado, observou Eugnio - escorria-lhe pelo rosto emaciado. Fez-se um silncio, ao cabo do qual Filipe declarou:
   - No entendo essas histrias de Plato. Comigo  no fascismo. Mussolini disciplinou a Itlia. Hitler reergueu a Alemanha. Disciplina! Construir uma nao parece-se 
com construir um grande edifcio.  preciso primeiro um plano, uma idia. Depois, bom material de resistncia, bases slidas, equilbrio...
   - E a beleza de linhas - acrescentou Eunice. - O fascismo  belo e vertiginoso. "Vivere pericolosamente".
   - Frases... - disse o pintor com displicncia.
   - Olhe que houve frases que derrubaram governos - interveio Sintra. - Uma palavra s vezes move multides.
   Olhou para a filha para lhe pedir aplauso.
   Eugnio - era curioso - lembrava-se da sua primeira operao de importncia. O tiroteio longe. O paciente magro e plido. Os olhos de Olvia negros, quentes, 
humanos... De repente, surpreendeu-se a contemplar os olhos de Isabel. Corou. Remexeu-se na cadeira, perturbado.
   - No meio da chatice da Europa decadente - falou Filipe - ergueu-se o grande arranha-cus do fascismo.
   Castanho tirou o clice de licor do brao da cadeira (no bebia lcool nem fumava) e p-lo em cima da mesinha do centro.
   - Resta saber - disse ele - se as bases desse edifcio so slidas. Tenho grandes dvidas.
   Altamira deu a sua opinio:
   - O fascismo  um castelo pomposo edificado sobre areia movedia.
   Filipe fez um gesto desligado.
   - S respondo pelos arranha-cus que eu mesmo construo.
   Eugnio pensou no "Megatrio". O grande arcabouo na noite... Lembrou-se em seguida de Dora. Por onde andaria ela? Provavelmente estava com Simo. O caso continuava 
sem soluo. Os pais dela ainda se opunham ao casamento. Era uma oposio formal mas terica. Preocupado com os negcios, Filipe no se lembrava de dar conselhos 
 filha, no fazia o menor movimento nem dizia a menor palavra no sentido de impedir que ela se encontrasse com o rapaz.
   Por alguns instantes a conversa neutralizou-se. Isabel falou a Eunice de um filme que vira no Rex.
   Apiedando-se do isolamento silencioso em que Eugnio se encontrava, Altamira fez-lhe uma pergunta paternal:
   - Ento. .. como vai a clnica?
   - Regularmente.
   Sintra e Filipe discutiam a taxa bromatolgica. E, enquanto ; Eunice dizia ao pintor: "...gostei principalmente da sua "Volpia", porque em nenhum outro quadro 
o senso de volume...
   Isabel lanava para Eugnio um furtivo olhar de angustiosa interrogao.
   Do fundo da sua poltrona, Eugnio olhava e escutava em silncio. A imagem de Olvia estava sempre no fundo do seu esprito. Ele via e julgava as outras criaturas 
atravs das idias dela. Por isso se sentia sereno. Tudo agora tinha para ele uma transparncia de vidro. Sim. Ele na verdade no pertencia ao mundo de Eunice. Era 
um intruso. Precisava ir-se. Os seus mortos exigiam-no. Alm da vida continuavam decerto a esperar nele. No podia tornar a decepcion-los.
   De repente, Eugnio foi arrancado do fundo do seu devaneio pelo calor de uma nova discusso:
   - Mas o judeu  simplesmente o bode expiatrio - berrava o pintor. -  sempre necessrio descobrir um culpado para as coisas ms que acontecem. Abra a Histria.. 
Sempre ". foi assim em todos os tempos.
   Sintra deu voz a uma opinio que lera numa revista:
   - Os judeus so um mau elemento para um pas como o nosso. Porque no vo para o campo, ficam atravancando as cidades, abrindo pequenos negcios, vendendo em 
prestaes, desequilibrando o oramento da classe proletria...
   - No gosto de judeus - declarou Filipe, resumindo nestas palavras definitivas a sua maneira de encarar o problema.
   Castanho contemplou longamente Eunice, com expresso sria no rosto doentio.
   Depois, sem tirar os olhos dela, disse:
   - Mas os fatos a esto. Que era esse detestvel e paranico
   Lenine seno um judeu? E esse insuportvel Trotsky?
   Foi essa raa que fez a revoluo russa. O judeu no tem espinha dorsal. - Castanho sacudiu a cabea, num gesto nervoso que traduzia a sua tolerncia. - O judeu 
 um molusco. Sujeita-se a todas as misrias, contando que consiga o fim que deseja... Julga-se muito acima do bem e do mal.
   Altamira fez um gesto de desdm.
   - Os judeus so homens como os outros... Tm defeitos e qualidades.
   - Os meus melhores fregueses so judeus... - declarou Sintra, com um sorriso mais tolerante.
   Castanho fitou os olhos nele com infinito desprezo.
   - Parece incrvel que os senhores industriais e comerciantes, os pilares da famosa classe conservadora, no compreendam o perigo que nos ameaa a todos. Bons 
fregueses, no? Pois essa tolerncia, essa nsia de lucros vai ser a runa da vossa classe. A hora  grave e os senhores capitalistas olham apenas para os lucros 
imediatos, sem cuidarem do futuro. Amanh, quando a revoluo estiver na rua, os senhores membros das classes conservadoras se encolhero de medo, entregaro o seu 
amado ouro para no perder a vida. - Fez uma pausa. E com voz sempre serena, mas olhos em fogo, acrescentou:
   - Uma coisa lhes afirmo. Hei-de lutar. - Fechou os dedos como se empunhasse um florete. - Vivo, eles no me tero.
   Com ar aborrecido, o pintor voltou-se para Castanho e disse:
   - Olhe c.uma coisa, doutor. A troco de qu os revolucionrios haviam de querer o senhor vivo ou morto? Ora, no me amole...
   Houve como um hiato na conversa, um vcuo repentino de expectativa. Castanho pareceu prestes a reagir com palavras violentas, mas conteve-se. Voltou-se para Eunice 
e, com fingida naturalidade, perguntou-lhe:
   - J leu o Chesterton que lhe mandei?
   Voltou as costas para Altamira, que se recostou na cadeira, dizendo para Filipe, com voz sonolenta:
   - Seu Lobo, eu animava-me a pintar numa parede desse seu... seu... como  mesmo o nome do bicho?
   - "Megatrio"...
   - Isso. Pois eu animava-me a pintar numa das paredes do "Megatrio" um grande quadro mural. - Comeou a fazer gestos largos, dando a impresso de que pintava 
com uma pistola automtica. - O quadro chamar-se-ia: o "Perigo Vermelho". O nosso amigo Sintra, sentado numa confortvel cadeira, fumando um charuto, representar 
o capitalismo. E " notem que o charuto ser um zepelim. Um judeu desses que vendem gravatas na rua ser o smbolo do perigo vermelho. " Com a unha do dedo mnimo 
ele procurar raspar, com uma bruta pacincia, o p da cadeira do coronel Sintra, com a perversa inteno de quebr-la e fazer vir abaixo o capitalismo.
   E ali o nosso amigo Paranhos - apontou com o dedo para Castanho - aparecer a cavalo, fantasiado de D. Quixote, armado cavaleiro e montado no burro da cultura, 
pronto a investir contra o perigo semita.
   Desatou a rir.
   - Pois eu cedo-lhe todas as partes do " Megatrio" - disse Filipe, sacudido de riso.
   Castanho ergueu-se. Eugnio percebeu que as mos dele tremiam. Perfilado, grave, procurando mostrar-se sereno, ele parou na frente de Altamira.
   - J que procura ser irnico - disse-lhe - vou dizer-lhe com toda a franqueza uma coisa que no disse nem escrevi antes, por um sentimento no s de cavalheirismo 
como tambm de piedade. O senhor  um pintor detestvel. - Estas ltimas palavras foram sibiladas.
   Sintra interveio, segurando Castanho por um brao.
   - Vamos, vamos, que  isso?
   - Mau desenhista - continuou Aclio - mau colorista.. .
   Altamira encolhia os ombros.
   - Que  que se vai fazer? Nasci burro...
   - Procura na originalidade, no arbitrrio e no extico um ": refgio para a sua falta de conhecimentos bsicos... E se encontra quem o elogia e tolera,  porque 
estamos numa terra de botocudos. Era o que eu lhe queria dizer.
   Voltou-se para as duas mulheres, enxugando a testa com " o leno imaculado:
   - Peo perdo se me excedi.
   Eunice esforava-se por manter a calma, por dizer alguma coisa de esprito que se adaptasse s circunstncias.
   De repente, como se s ento tivesse descoberto a existncia de Eugnio l no seu canto afastado, Filipe perguntou-lhe, brincalho:
   - E voc com quem fica, Genoca? Com Mussolini ou com Staline?
   E Eugnio surpreendeu-se a repetir as seguintes palavras, que ouvira numa noite dos lbios de Olvia:
   - Antes de Mussolini e de Staline j existiam as estrelas e depois que eles tiverem passado elas ainda continuaro a brilhar.
   Eunice voltou a cabea para o marido e ficou a contempl-lo com a testa franzida, cheia de surpresa.
   Ele encontrou-se numa rua sombria, parado na calada, olhando o desfilar de meninas do orfanato. Eram criaturinhas plidas, apagadas e tristonhas, vestidas de 
pelcia xadrez, com grosseiras meias de algodo a cobrir-lhes as pobres pernas magras. Iam duas a duas, as mais jovens nas primeiras filas, formando uma escada que 
subia, at se sumir no cu da noite. Eugnio sentia uma indefinvel aflio; sempre tivera pena das meninas sem pais, queria acariciar aquelas cabeas, mas alguma 
coisa lhe imobilizava os membros. Na freira que comandava as meninas ele reconheceu a me. Era uma cara de cera, imvel, como a que vira no caixo, entre flores. 
Quis gritar para avis-la de que estava ali. As meninas caminhavam e j no eram orfzinhas e sim anjos, mas nem mais anjos continuavam a ser, pois uma perversa 
mo lhes aparara as asas com a tesoura com que o pobre ngelo cortava as suas fazendas. (Estava enferrujada, havia anos se achava debaixo da terra com o cadver 
do alfaiate). As meninas do orfanato pararam e Eugnio viu que a primeira da longa fileira era a sua filha. Como estava triste, de vestidinho xadrez e de meias de 
algodo, como tremia de frio! Dava a mo a uma companheira que ainda era ela, que tinha os olhos dela, as feies dela, a mesma altura e se chamava Eugnia. Ana 
Maria e Eugnia, de mos dadas, tiritando de frio e de tristeza. Pobres meninas do orfanato! Eugnio queria correr para salvar a filha e para se salvar a si prprio, 
porque de sbito ele sentia que alguma desgraa muito grande ia acontecer. Pensou em precipitar-se para a fileira, mas que fora malfica era a que o prendia? De 
novo as meninas comearam a caminhar e se perderam na noite cinzenta, na noite fria.
   Eugnio acordou angustiado. Ficou ruminando no sonho por alguns instantes. Acendeu a luz. Olhou o relgio de cabeceira. Quatro horas da manh. Ergueu-se ainda 
tonto, enfiou          os chinelos e foi at  janela. A noite estava clara e estrelada.
   Havia silncio no quarto contguo, onde Eunice dormia. E de repente, ainda com restos de nvoa do sono a embaciar-lhe a mente, ele teve a sensao de que se achava 
sozinho no Mundo e de que aquele silncio havia de continuar indefinidamente.
   Teve vontade de gritar, de acordar algum... Abriu a janela.
   O vento fresco da noite bateu-lhe no rosto, nas mos, no pescoo. Era tolice pensar naquelas coisas. Foi at ao banheiro, molhou a ponta da toalha em gua fria 
e passou-a pelo rosto, apertou-a contra as plpebras, demoradamente. E de repente, deu com a prpria imagem no espelho. Apesar da intensidade da luz, a princpio 
uma espcie de nuvem se interps entre os seus olhos e o vidro. Depois, a nuvem dissipou-se e Eugnio pde ver-se com os cabelos em desalinho e uma expresso de 
espanto nos olhos. O "outro" fazia-lhe perguntas, exigia-lhe satisfaes. Tinha sido em vo todo o sofrimento de Olvia?
   Ana Maria continuaria na vida sem me, sem pai, sem amparo? "Onde estavam os protestos de regenerao? O que havia por enquanto era a deplorvel cobardia de uma 
pobre carne sem vontade, que amava o conforto e se negava a desprender-se das coisas que lhe proporcionavam gozo, bem estar.
   E Eugnio, olhando em torno do coruscante quarto de banho de ladrilhos brancos e amarelos, surpreendeu-se de ainda estar ali, naquela casa, de continuar a ser 
o marido de Eunice Sintra, o genro de Vicente Sintra. Os ltimos dias haviam passado num atordoamento. Ele no conseguia ver claro. Tinha de libertar-se. Mas como? 
Quando? Por onde? No podia fugir como um criminoso, precisava de dar uma explicao, uma justificativa. Havia a fbrica, o consultrio, e, fosse como fosse, devia 
considerao a Eunice. s vezes, envergonhava-se da prpria fraqueza que permitia aquela indecente protelao.
   Para apaziguar a conscincia, preparava a fuga. Punha em dia os papis do escritrio, pensava em desmontar o consultrio, liquidava contas particulares. Mas o 
difcil, o insuportavelmente difcil, seria falar a Eunice, contar-lhe tudo. Sabia que no fim de contas, incrdula, o menos que ela podia fazer era rir dos seus 
romnticos propsitos de regenerao. Previa tambm a natural reao do sogro. Primeiro, ele julgaria que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Depois, havia 
de invocar mil razes tericas e prticas: a sociedade, a reputao de Eunice, a divulgao do desquite pelos jornais, a explorao dos inimigos, a maledicncia 
a inventar razes que no existiam...
   Eugnio acendeu um cigarro e desceu para o living-room. Abriu um livro. Tornou a fech-lo em seguida. Deitou-se no sof, ps o cigarro na borda do cinzeiro, fechou 
os olhos, procurou recapturar o sono. Tornou a lembrar-se do sonho. Ana Maria na fileira das meninas do orfanato. Sim, aquele seria o seu destino natural... ela 
no tinha pai nem me. A me morrera-lhe e o pai talvez nunca chegasse a estar realmente vivo.
   O silncio persistia, agora mais pesado e morno e escuro. E de sbito Eugnio sentiu a presena de Olvia na sala. Quem primeiro que a percebeu foi o seu corao, 
que comeou a bater com mais fora. Olvia achava-se sentada a seu lado, no sof. Mas ele estava apavorado, porque sabia que Olvia tinha morrido, ele prprio vira 
o seu caixo descer  terra. Agora mal discernia as feies, era como naquelas noites em que os dois ficavam em silncio, frente a frente, no quarto dela, a luz 
apagada, o luar entrando pela janela. O medo abafava-o, ele procurava convencer-se de que estava sonhando. Havia pouco tinha um cigarro nos dedos, pusera-o depois 
no cinzeiro. Se o cigarro ainda estivesse ali, seria uma prova de que no estava sonhando. Olhou... Viu imprecisamente a brasa do cigarro. Sim, estava acordado. 
E Olvia continuava a seu lado. Ela ia dizer-lhe alguma coisa. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Quis falar primeiro, gritar que ela tivesse confiana, pois ele 
no havia de abandonar Ana Maria. Porque compreendia que Olvia tinha voltado para lhe pedir contas. Perdo! - esforava-se por dizer. - Perdo! Mas a voz no lhe 
saa. Foi ento que viu que a luz do living-room de novo se achava acesa e que ele estivera mesmo a dormir. Tinha sido um pesadelo. Adormecera com o livro em cima 
do peito. O cigarro ardia ainda na borda do cinzeiro.
   Com o rosto molhado em suor, Eugnio levantou-se, foi at  cozinha, abriu o refrigerador, bebeu um copo de gua gelada e depois passou pela testa, pela face 
e pelo pescoo um pequeno cubo de gelo.
   Subiu a escada, entrou no banheiro, despiu-se e tomou um duche frio, demorado, procurando fazer que ele lhe varresse do corpo o sono e do esprito os pensamentos 
sombrios.
   Estava agora ali, no terrao, olhando a noite com uma sensao de frescura na epiderme e uma grande lucidez de idias. Brilhavam no Cu as estrelas de Olvia. 
Havia um mistrio no Mundo. Seria que os mortos voltavam? Sabia agora que existiam conscincias assombradas.
   Os tanques da Hidrulica pareciam grandes chapas de alumnio. Vinha de longe o canto dos galos.
   E de repente, como se brotasse da madrugada, como se descesse das estrelas, como se subisse da terra molhada de sereno, uma esquisita emoo tomou conta de Eugnio, 
envolveu-o por todos os lados, deu-lhe um arrepio, fez que ele contrasse o rosto como se sentisse dor fsica, que cravasse as unhas nas palmas das mos. Era uma 
sensao que no sabia definir. Saudade de Olvia e de Ana Maria, misturada com dio de si prprio, com a raiva da impotncia diante da inexorabilidade da vida.
   - Tudo depende de mim, s de mim... -murmurou para si prprio. - Porque no hei-de ter coragem?
   A serenidade dos tanques da Hidrulica quebrou-se por um instante, pois Eugnio via-os agora tremulamente atravs das suas lgrimas.
   
   Uma necessidade urgente de ver Ana Maria imediatamente, como se disso dependesse a vida de ambos, fez que ele se vestisse  pressa e sasse da casa, cauteloso 
como um ladro. Eram quatro e vinte. As ruas estavam desertas. Eugnio ouvia o som dos prprios passos na calada e recordava-se de outras madrugadas, de antigas 
emoes. Revia-se nas horas mais dolorosas da sua vida e de repente perguntou a si prprio se um dia chegaria a encontrar a paz, a grande paz interior que tanto 
desejava.
   Na metade do caminho ocorreu-lhe que, para ver Ana Maria, teria de acordar os Falk e que acordar os Falk s cinco da manh, sem um motivo imperioso, seria estpido. 
Mas apesar disso continuou a caminhar. Esperaria o clarear do dia no quarto de Olvia. Pensou confusamente em ficar l para sempre, em no voltar mais para casa 
de Sintra...
   O jardim dos Falk tinha um aspecto irreal  luz da madrugada. Eugnio abriu a porta devagar e entrou na ponta dos ps.
   O tempo passava. Sentado debaixo da lmpada acesa da mesinha do centro, Eugnio relia as cartas que Olvia escrevera de Nova Itlia, as cartas que nunca lhe mandara. 
E a cada releitura elas ofereciam-lhe novas revelaes. Era doloroso que s agora ele comeasse na verdade a conhecer Olvia. Toda aquela bondade, toda aquela profunda 
compreenso da vida, tinham permanecido escondida para ele. No seu egosmo, na sua cegueira, ele no atentara na alma da companheira. No princpio eram amigos, ela 
animava-o, mostrava compreend-lo. Depois fizeram-se amantes e Olvia dava-lhe o prazer, resolvendo-lhe providencialmente o problema sexual. No fazia alvoroo, 
no pedia compensaes, no falava em amor. Era uma situao que lhe convinha. Ele simplesmente a usava como quem usa um objeto. E no entanto ela tinha uma alma, 
um esprito.
   Mas que ter ela visto em mim? - perguntava-se ele. Que terei eu feito para merecer esse amor, essa dedicao, essa fidelidade que continua at mesmo na morte?
   Eugnio acariciava as cartas. Havia um trecho que o impressionava, que lhe dava uma grande tristeza, uma indescritvel pena:
   
   O inverno aqui  terrvel, meu querido. Hoje est um dia chuvoso, a cerrao esconde os montes, meus dedos esto duros e eu sinto-me inclinada  melancolia. As 
pessoas que entram em casa trazem nos sapatos o barro dos caminhos.  grande o meu desconforto. Ana Maria est com o narizinho vermelho, mas parece no sentir frio, 
pois quer tirar o casaco de l e sair para o ptio. Uma goteira pinga e a boa velha em cuja casa moramos resmunga na cozinha uma velha cano napolitana. Se no 
fosse a minha f em Deus, em ti e no futuro da nossa filha, eu agora estaria triste. Mas eu recuso-me a capitular  tristeza. A chuva e a cerrao ho-de passar, 
amanh, de certo, o Sol j estar alumiando os parreirais. Penso em ti. Enquanto as horas passam tu amadureces como as uvas. E sabes? - s vezes surpreendo-me a 
envolver-te a ti e a Ana Maria no mesmo sentimento maternal.
   
   Mais adiante:
   Nossa filha fez dois anos ontem. J fala, j faz perguntas e j sabe ficar parada, de cabecinha torta, pensando ningum sabe em qu. Tenho de lhe explicar que 
ela tambm tem um pai, como as outras meninas. Ana Maria indaga coisas sobre esse pai que nunca viu mas que j principia a amar. Para ela, pois, existe  maneira 
de Deus: tua filha no te v mas sabe que "s", sente em mim, e de certo modo nela prpria, a tua existncia. Porque ser que ainda h homens que no acreditam em 
Deus? O simples milagre de existir  uma afirmao de Deus.
   
   Eugnio fecha os olhos e v Olvia e Ana Maria em Nova Itlia, num dia de chuva. Que estaria ele fazendo  hora em que ela lhe escrevia aquelas palavras? Talvez 
resfolgasse como um animal nos braos de Isabel, ou escutasse, indiferente, a voz fria de Eunice e a risada polida e condescendente de Sintra.
   
   Procurar a nossa felicidade atravs da felicidade dos outros - aconselhava Olvia noutra carta sem data. - No estou pregando o ascetismo, a santidade, no estou 
elogiando o puro esprito de sacrifcio e renncia. Tudo isso seria inumano, significaria ainda uma fuga da vida. Mas o que procuro, o que desejo,  segurar a vida 
pelos ombros e estreit-la contra o peito, beij-la na face. Vida, entretanto, no  o ambiente em que te achas. As maneiras estudadas, as frases convencionais, 
o excesso de conforto, os perfumes caros e a preocupao do dinheiro so apenas uma pssima contrafao da vida. Buscar a poesia da vida ser coisa que tenha nexo?
   
   Ele agora vivia... Tinha tido apenas a iluso de viver, mas na verdade andara morto por entre os homens.
   
   O dia mais importante da minha vida foi aquele em que, recordando todos os meus erros, achei que j chegara a hora de procurar uma nova maneira de ser til ao 
prximo, de dar novo rumo s minhas relaes humanas. Que era que eu tinha feito seno satisfazer os meus desejos, o meu egosmo? Podia ser considerada uma criatura 
boa apenas porque no matava, porque no roubava, porque no agredia? A bondade no deve ser uma virtude passiva. No dia em que eu achei Deus, encontrei a paz para 
mim e ao mesmo tempo percebi que de certa maneira no haveria paz para mim. Descobri que a paz interior s se conquista com o sacrifcio da paz exterior. Era preciso 
fazer alguma coisa pelos outros. O Mundo est cheio de sofrimento, de gritos de socorro. Que tinha eu feito at ento para diminuir esse sofrimento, para atender 
a esses apelos? Eu via em meu redor pessoas aflitas que, para se salvarem, esperavam apenas a mo que as apoiasse, nada mais que isso. E Deus dera-me duas mos.
   Pensei tudo isso numa noite de insnia. Quando o dia nasceu, senti que tinha nascido de novo com ele. Era uma mulher nova.
   
   Eugnio levantou-se e foi abrir a janela. O dia comeava a clarear.
   Quando ele ia a sair, a filha agarrou-o pela aba do casaco.
   - Pu qu tu vai imbia, pai? - perguntou. - Pu qu?
   Ergueu a cabea, muito sria, arregalou os olhos, apertou os lbios, e assim na ponta dos ps, com uma das mos abertas com a palma para o ar, era toda ela um 
interrogao.
   Eugnio acocorou-se e tomou-a nos braos.
   - O pai tem de trabalhar. ..
   - Pu qu tu tem de tabai, pai?
   As mos gorduchas, com covinhas nas juntas, seguravam o rosto de Eugnio.
   - Fica quietinha com D. Frida que o pai j volta. Olha... vou-te trazer uma boneca. Queres?
   Ela sacudiu a cabea trs vezes, mas o seu rosto continuou srio. Eugnio mirou-a longamente, em silncio.
   - Pai.. . Onde  que est a me?
   - Queres uma boneca ou um cachorrinho? - perguntou ele com a voz j velada.
   Os olhos de Ana Maria no deixavam os dele: eram srios e profundos como os de Olvia.
   - Eu quero a me.
   - A me j vem.
   - Onde  que ela foi?
   - Foi passear.
   - Pu qu no me levou?
   - As meninas devem ficar em casa muito quietinhas.
   Apertou-a contra o peito, beijou-lhe os cabelos, a testa, as mos.
   Depois ergueu-se, dizendo:
   - O pap j volta, sim?
   Desceu para o jardim. Ao fechar o porto, voltou-se. Ana Maria, parada junto da porta, acenava-lhe com a mo:
   - Adeusinho, minha filha!
   Como se de repente se lembrasse de alguma coisa, ela gritou:
   - Pu qu tu no vem durmi com nis?
   Durante todo o trajeto da casa dos Falk ao centro da cidade, a voz de Ana Maria perseguiu Eugnio. "Pu qu tu no vem dumi com nis? "
   
   A manh estava cheia de Sol, o Cu era de um puro e fresco azul.
    hoje ou nunca - dizia Eugnio para si prprio. - Hoje ou nunca. Custe o que custar.
   Avistou o arcabouo do "Megatrio". Parou como sempre para contempl-lo. O edifcio dava-lhe uma vaga sensao de medo.
   Eugnio continuou a caminhar. Agora pensava em Isabel. Ela telefonava-lhe com insistncia, estava-lhe sendo difcil desembaraar-se dela. Era curioso como de 
repente as coisas mudavam. Mais do que nunca ele via a gravidade horrvel daquela ligao. Era uma traio a Filipe, a Dora, a Olvia e a si prprio. Devia terminar 
tudo de uma vez para sempre.
   
   Quando chegou a casa, encontrou Eunice lendo no living-room.
   - Bom dia.
   - Bom dia - respondeu ela, sem levantar os olhos do livro.
   Eugnio parou na frente da mulher. Temera aquele instante e agora achava-se tomado de uma fria calma. Era como nas operaes. Antes de vestir a mscara e as luvas 
era presa do medo - as mos tremiam-lhe, o corao batia-lhe em ritmo acelerado, a garganta ficava ressequida e ele sentia o estmago com uma agudeza nauseante. 
Mal, porm, pegava do bisturi, voltava-lhe a calma. Era uma dolorosa calma, por trs da qual havia nervos retesados que a qualquer momento podiam afrouxar.
   Eugnio contemplava Eunice e procurava recapitular naquele breve instante toda a humilhao que ela, voluntria ou involuntariamente, lhe infligira.
   - Que  que h? - indagou ela com ar desligado.
   Ele sentiu um leve desfalecimento e por uma frao de segundo esteve prestes a fraquejar. Mas dominou-se. Pensara centenas de vezes no que ia dizer, preparara 
o discurso, colecionara argumentos e agora no sabia como principiar.
   - Tenho um assunto muito importante a tratar contigo. Quando podemos conversar? - perguntou, descobrindo de imediato nesta pergunta o cobarde desejo de transferir 
o colquio para outra ocasio.
   - Podemos conversar agora, porque no?
   Fechou o livro, marchando antes com refinado cuidado a pgina que estava lendo.
   Sem saber que fazer com as mos, Eugnio meteu-as nos bolsos do casaco.
   - Eunice... - principiou ele, hesitante. Calou-se. E de repente surpreendeu-se a dizer coisas em que no havia pensado antes. - Parece incrvel que, depois de 
mais de trs anos de casados, ainda no tenhamos nenhuma intimidade um com o outro, nenhuma franqueza...
   - E achas que a culpa  minha?
   Ele sacudiu a cabea, numa negativa.
   - A culpa  exclusivamente minha. Eu devia saber que gua e azeite no se misturam. Devia compreender que tu... Enfim, foi um erro que ns os dois cometemos... 
este casamento.
   - Agora  tarde - disse ela encolhendo os ombros e tornando a abrir o livro.
   - No  tarde, no, Eunice. Quero dizer-te alguma coisa que j devia ter tido a coragem de dizer. Nesta casa tenho-me sentido apenas como um intruso.
   - Por tua culpa.
   - Porqu por minha culpa?
   - Em vez de olhos tens dois espelhos convexos ou cncavos - sei l! - que deformam as imagens. Nunca vs as pessoas como elas so, nunca recebes as palavras com 
o sentido que realmente tm.  o teu maldito complexo de inferioridade.
   Eugnio sentiu-se desarmado. As coisas tomavam um rumo inesperado e ele perdia terreno. Reagiu, mas sem nenhum mpeto.
   - No sabers olhar a vida a no ser atravs dos teus psicanalistas? Em vez de olhos humanos no ters nas rbitas dois livros... mil livros?
   Eunice sorriu. Estendeu a mo, apanhou um cigarro da caixa de metal cromado que estava numa mesa ao p do sof. Eugnio pde notar que os dedos dela tremiam um 
pouco ao acender o cigarro. Houve um curto silncio.
   - Em vo eu procurei curar-te, Eugnio. Tentei todos os meios. Por fim, cheguei at a humilhar-te. Tudo intil. - Encolheu os ombros. - Confesso-me fracassada.
   Eugnio sacudiu a perna nervosamente.
   - Resta agora jogar no lixo a cobaia morta. Que  que te impede de fazer isso. A piedade?
   Os olhos de ambos encontraram-se por um instante, fitaram-se sem pestanejar. Foi Eugnio quem primeiro desviou os seus. Sentou-se - porque tinha de fazer ou dizer 
alguma coisa.
   - Lixo. .. piedade... -murmurou Eunice. - Sempre a idia de que te rebaixam, de que te desejam humilhar. E vens dizer-nos essas coisas com ar de vtima, de mrtir, 
como se fosses a nica parte prejudicada em toda essa desagradvel histria.. - O cigarro ardia-lhe esquecido entre os dedos. - Tu esqueces-te decerto de que eu 
tambm sou uma criatura de carne e nervos. A minha pacincia tem um limite e no fim de contas eu tambm tenho direito a um bocado de paz e de... de felicidade. Pensas 
que no me foi difcil suportar as tuas desconfianas, as tuas melancolias... as... as tuas susceptibilidades exageradas. - Como que embriagada pelas prprias palavras, 
ela exaltava-se cada vez mais. - Nunca passaste de um insatisfeito, de um desmancha-prazeres, de um egosta, em suma.
   Eugnio escutava-a em silncio, de olhos desviados. Eunice conteve-se, levou o cigarro aos lbios e, mais serena, acrescentou:
   - Se eu me exaltei foi por culpa tua. Achas que no sou humana. O meu mal talvez seja levar a srio essa coisa que se chama boa educao. H sentimentos vulgares 
de que uma pessoa bem educada tem pudor.  uma questo de formao, um sentimento que se herda ou que se adquire com o convvio de pessoas de bom-tom. No sei se 
me entendes...
   Eugnio sentiu estas ltimas palavras como uma boa agulhada.
   - Compreendo perfeitamente. No temos nada de comum. Tu s uma mulher fina, educada e culta. Eu sou um homem vulgar.
   Eunice tornou a sacudir os ombros. Baixou os olhos para o livro. Mas Eugnio sentiu que ela no estava envergando as palavras impressas na pgina.
   - Interpreta como quiseres as minhas palavras - disse ela. - Mas fica certo de que foste tu que me foraste a falar assim.
   Ele ergueu-se. Sentia uma estranha sensao de alvio. Agora podia dizer tudo.
   - Pois bem. Isso torna mais fcil a confisso que vou fazer.
   - H ainda uma confisso?
   - H - retorquiu ele quase com raiva.-  que eu fui suficientemente patife para casar contigo sem te amar, s por causa do teu dinheiro.
   A testa de Eunice enrugou-se, os olhos apertaram-se-lhe e os lbios tiveram uma ligeira crispao nervosa.
   - Eu era pobre e odiava a pobreza. Este casamento... - as palavras trancavam-se-lhe na garganta - ...este casamento era uma oportunidade para eu fazer a minha 
carreira, para...
   Calou-se, sufocado. Eunice mordeu o lbio. Tinha deixado cair o livro. Fez-se um silncio pesado, ao cabo do qual ela disse:
   - Pensas que ests contando novidades? Julgas que, com essa "confisso", vais ferir o meu amor prprio? Sorriu, apanhou o livro, ps o cigarro no cinzeiro. - 
Agora deixa que eu diga porque foi que casei contigo. Foi por uma extravagncia e um pouco por pura piedade. E tambm por piedade procurei curar esse teu complexo 
lamentvel... Era uma obra de caridade e no fim de contas o emprego de marido de uma jovem rica te era mais vantajoso que o de mdico da Assistncia Pblica. E eu 
sentia-me boa por ter-te proporcionado essa oportunidade...
   Sorriu vitoriosa.
   - Ainda h mais alguma coisa - continuou ele.- Tenho na minha vida outra mulher...
   Corou ao dizer estas palavras.
   - Todos os homens tm...- interrompeu-o Eunice. At os empregados do comrcio.
   - Uma mulher que me fez compreender o meu erro horroroso e me deu coragem para procurar corrigi-lo e pensar numa vida decente.
   - Isso  romance.
   -  a verdade. Ela morreu h duas semanas. Mas s agora  que comeo a viver.
   Eunice mirou-o com expresso interrogadora.
   - Tenho uma filha dela.
   - Uma filha?
   Eugnio tornou a sentar-se. Caiu pesadamente na poltrona, como se tivesse chegado ao limite das suas foras. O silncio prolongou-se de maneira insuportvel. 
Eunice brincava com o livro e, com surpresa, Eugnio ouviu-a dizer em voz baixa, como se falasse para si mesma:
   - O lamentvel  que tivssemos chegado os dois a esta situao...
   As suas faces tiveram um estremecimento nervoso. Com voz mansa, como se ditasse um testamento do leito de morte, Eugnio falou:
   - Vou-me embora hoje mesmo. Depois combinarei detalhes com teu pai... Levo s o que  meu, exclusivamente meu... Gostaria que tu pedisses desquite, fica melhor 
que parta de ti. Podes alegar incompatibilidade de gnios. Ou o que quiseres...
   Levantou-se e, sem mais uma palavra, saiu da sala.
   
   Quando Eugnio terminou de contar a sua histria, o Dr. Seixas coou a barba intonsa e fitou no amigo os seus olhos azuis de criana.
   - Isso at me cheira a histria da carochinha - disse ele, ao cabo de alguns instantes de reflexivo silncio.
   - E o mais estranho  que para mim mesmo tudo agora parece tambm uma espcie de conto de fadas... Nem sei como tive coragem para deixar aquela casa. ..
   Seixas ergueu-se da cadeira. Estava no novo consultrio de Eugnio - duas salas de aluguer mais baratas, num edifcio modesto.
   - Coragem vai voc precisar daqui por diante.
   Comeou a passear de um lado para o outro, examinando os quadros que se viam na parede, parando um momento diante de um armrio de vidro onde se enfileiravam 
instrumentos cirrgicos.
   - Acha que procedi mal? - perguntou Eugnio de repente.
   O outro encolheu os ombros e, sem se voltar, respondeu:
   - Voc tem trinta e um anos. Deve saber o que est fazendo...
   Eugnio achava-se um tanto decepcionado. Considerava o Dr. Seixas uma espcie de aliado, esperava encontrar nele aplauso e estmulo, mesmo que fosse sob a forma 
de uma cordial descompostura.
   O diabo entendesse aquele velho esquisito!
   - Pode ficar certo de que as coisas no se podiam passar de outra maneira. Depois da morte de Olvia, daquela carta que lhe mostrei...
   - Claro, claro! - retrucou Seixas, impaciente. - No estou dizendo o contrrio. Voc  jovem. Eu  que estou mais para l do que para c... Dizem que os hereges 
mais danados fazem as pazes com a Igreja na hora da morte. Talvez eu j me esteja preparando para adorar o bezerro-de-ouro, para vender a alma por trinta moedas 
de prata... - Soltou uma risada curta e rascante. - Mas quem  que quer uma alma velha e escangalhada?
   Calou-se, acendeu um cigarro, os seus olhos ficaram pensativos por alguns segundos.
   - Genoca, o dinheiro tem uma importncia brutal na vida.
   Eu s vezes penso se no fui uma besta vivendo como sempre vivi... No tanto por minha causa, porque no fim de contas cada um pode fazer o que bem entender com 
a carcaa que Deus lhe deu. Mas em qualquer hora eu morro. Muito bem, no se perde grande coisa... Que vai ser da minha famlia, da minha velha, da minha filha? 
Nunca pude manter um seguro, os que cheguei a fazer caducaram... Economias? Nem me fale... Seu Genoca, o dinheiro tem uma importncia cachorra!
   Eugnio sentia agora um enregelamento interior, uma impresso de vcuo, de desamparo. Era como se presenciasse o desmoronamento de um velho dolo.
   - E se lhe fosse possvel voltar? - perguntou. - O senhor teria coragem de seguir outro caminho, de viver de outra maneira?
   Seixas botou o chapu na cabea.
   - Sei l! Bom. Vou andando. Seja feliz.
   - Aparea, doutor.
   - Hei-de aparecer. Vou-lhe mandar amanh um cliente desses que no tm onde cair mortos.  para voc se ir habituando... - Caminhou para a porta e, j com a mo 
no trinco, voltou-se. - O sacerdcio da Medicina, o sublime sacerdcio! - Soltou uma risada. - Sacerdcio uma ova. . . Pode ser uma escassa dzia de malucos como 
este seu amigo burro e sentimental. D-me o fogo.
   Eugnio apressou-se a passar-lhe a caixa de fsforos. Depois de reacender o cigarro, Seixas continuou:
   - Para muitos a profisso mdica no passa de um balco... O que importa  a fria. Voc no leu o jornal no outro dia? Um grupo de mdicos, numa cidade dos Estados 
Unidos, combinou-se para simular uma operao numa viva milionria. Inventaram uma doena, botaram a miservel na mesa da operao, abriram-lhe a barriga e fecharam 
em seguida sem tocar numa tripa. Bumba! A mulher morreu. A conta foi de um milho ou coisa parecida. Gangsters! E tudo por causa do dinheiro. - Chupou o cigarro 
de palha. - Seu Eugnio, oua o que lhe digo. O dinheiro  uma coisa nojenta. Um sujeito decente no se escraviza a ele.
   Abriu a porta e tornou a fech-la atrs de si com muito estrondo.
   Naquela tarde, o consultrio esteve movimentado. Os clientes - verificou Eugnio ao tomar notas para o ficheiro que estava organizando - eram na sua maioria empregados 
do comrcio, funcionrios pblicos, estudantes pobres e prostitutas. Chegavam quase sempre acanhados, falavam com dificuldade, ou ento, como a me de uma criana 
que engolira um alfinete, desatavam numa loquacidade nervosa e interminvel.
   
   Eugnio surpreendia-se a tomar pelos pacientes um interesse no s profissional como tambm humano. Era-lhe agradvel ver que algum de certo modo lhe pedia auxlio, 
algum precisava dos seus servios e que se lhe proporcionava a oportunidade de ser til a outrem. As horas daquela tarde passaram-se quase despercebidas. Ao escurecer 
foi-se o ltimo cliente.
   Era um empregado do comrcio, sofria de estmago e tinha pavor ao cancro.
   - Ento a coisa  o que eu pensava, doutor?
   - Pode ir descansado - respondeu Eugnio, como se fosse senhor do destino das criaturas. - O seu caso no tem nenhuma gravidade. Venha fazer as injees aqui, 
no lhe cobro nada.
   - Muito obrigado, doutor, Deus lhe pague.
   
   s sete horas, Eugnio saiu. Ia de alma limpa, com uma curiosa sensao de liberdade a ferver-lhe no peito. Quantas emoes experimentara naqueles dez dias de 
vida nova! Fora-lhe custoso desembaraar-se dos laos que o prendiam  vida antiga. Tivera de enfrentar Sintra. Um dilogo difcil. O sogro viera-lhe com argumentos 
macios... E se eles deixassem as coisas como estavam e esperassem - por exemplo - mais um ano? O tempo s vezes era o remdio aconselhado para males daquela natureza. 
E se o casal fizesse uma viagem a Buenos Aires ou  Europa?... Essa histria de desquite, no meio burgus e cheio de preconceitos em que vivemos.. . Pense bem, seu 
Eugnio, voc  um moo sensato.
   -  intil. Estou resolvido.
   Sintra, vencido, limitara-se a fazer um gesto polido. Era um gentleman. S lhe restava discutir os detalhes daquela separao. Um advogado trataria do desquite 
amigvel. O crculo de amigos do casal seria discretamente notificado: incompatibilidade de gnios.
   Eugnio esclareceu que levaria apenas o que era seu: roupas, objetos de uso particular, livros. De dinheiro, ficaria apenas com o que ganhara na profisso. Deixaria 
o automvel. Desligar-se-ia da fbrica e dela no queria um real. Ao ouvir esta ltima condio, Sintra no pde conter o seu espanto:
   - Mas voc deve estar doido varrido!
   Eugnio caminhava pelas caladas cheias de gente, rumo ao seu quarto. Doido varrido! Nunca estivera to lcido em toda a sua vida. Enxergava claro, descobria 
aos poucos novas perspectivas no Mundo. Era certo que viriam dissabores, dias amargos e difceis... Mas que importava? Tudo que lhe pudesse acontecer nada seria 
comparado com o que Olvia sofrera por ele, com a vida obscura e dolorosa de seu pai, com os sacrifcios silenciosos de sua me.
   Continuou a andar, olhando com esquisito prazer para as pessoas que passavam. Todas elas deviam ter os seus dramas, os seus problemas morais e materiais, as suas 
pequenas e grandes alegrias. Eram seres humanos. Viviam!
   "A vida comea todos os dias." Esta frase visitou-lhe a mente durante todo o trajeto do consultrio a casa.
   
   Eugnio fazia as refeies com os Falk. Dona Frida era uma senhora alta, gorda, loura e grisalha, de olhos cinzentos e nariz adunco; tinha um ar de "Walkiria 
aposentada", como costumava dizer-lhe o Dr. Seixas. Cara um dia gravemente enferma e Olvia, que ento cursava o quinto ano de Medicina, tomara conta dela, desveladamente. 
Restabelecida, Dona Frida tomou-se de amores pela jovem, levou-a para sua casa e passou a consider-la pessoa de famlia. Dera-lhe duas salas independentes e toda 
a liberdade.
   Hans Falk era a exata reproduo do bom tipo alemo explorado pela caricatura: amigo do cachimbo, da salsicha e da cerveja. Gordo, de calva lustrosa, cachao 
vermelho e ndio, olhos sonolentos de expresso brincalhona. Nascera em Munique; aos vinte anos, emigrara para o Brasil. Estava agora com cinqenta e cinco. E certas 
noites, fumando o comprido cachimbo de loua com pinturas que representavam cenas da Baviera, suspirava pelos bons tempos do Vaterland, da velha Alemanha de antes 
da Guerra, to diferente do Terceiro Reich, de que os jornais lhe davam sombrias notcias.
   A sala de jantar dos Falk era simples e asseada, tinha um morno ar de domesticidade. Num aparador de nogueira enfileiravam-se grandes caneces de barro, com figuras 
coloridas e inscries simblicas. Nas paredes havia paisagens de cidades alems (litografias de velhas revistas, emolduradas pelo prprio Falk), um retrato de Bismark 
e outro de Hindenburgo. Os estores das janelas eram de algodo de saco de farinha com florinhas amarelas, obra tambm de Hans, que, ao coment-la, costumava fazer 
dissertaes sobre a economia no lar, defendendo a tese de que tudo se aproveita.
   Naquela noite o velho Hans estava melanclico. Tivera no clube uma violenta discusso com um compatriota partidrio do nazismo.
   - Puxa diabo! - disse ele. - A gente no fica descansado nem longe da Alemanha. Que tenho eu com Hitler?
   
   - Porqu tu vai ao clube? - perguntou Dona Frida.
   Hans baixou a cabea para o prato e espetou a salsicha no garfo. Eugnio olhou para Ana Maria, que, sentada  mesa, na sua frente, com um babador amarrado ao 
pescoo, batia com a colher no prato, gritando:
   - Eu quelo lingia! Eu quelo lingia! -E apontava para o prato de salsichas.
   - Criana no pode comer isso - retrucou-lhe D. Frida. Come pur de batatinha, sim?
   Eugnio olhou melanclico para o quinto lugar na mesa. Era onde costumava sentar-se Olvia. O prato ali continuava, com o talher, o copo e o guardanapo, onde 
se via bordada a letra O. D. Frida dizia sempre:
   - O lugar de Olvia continua.  como se ela estivesse sempre conosco.
   Se Olvia se achasse ali com eles, em pessoa, tudo seria de uma felicidade completa. Ele ganharia mais coragem para continuar no seu trabalho, Ana Maria teria 
uma me, a vida oferecer-lhe-ia uma face mais risonha e desanuviada.
   Terminado o jantar, Hans sentou-se na cadeira de balano (feita por ele prprio) e acendeu o cachimbo. A criada retirou os pratos da mesa e D. Frida deu um livro 
de gravuras a Ana Maria.
   Eugnio foi para a sala de visitas que fora de Olvia e que ele agora ocupava. Tudo ali continuava como no tempo em que ela era viva.
   Mas Olvia estaria realmente morta? - perguntou Eugnio a si mesmo. Sentia a presena dela nas suas prprias palavras, nos olhos de Ana Maria, na saudade dos 
Falk, no aspecto e no perfume daquela sala e principalmente nas cartas que ela deixara.
   Olvia de certo modo estava viva. A sua memria acompanhava-o por toda a parte. O doloroso era que essa maneira subjetiva e espiritual de existir no lhe bastava. 
Talvez ele fosse ainda grosseiramente materialista. Havia momentos - como este agora de silncio e de solido - em que ele desejava ter Olvia ao alcance das suas 
mos, senti-la na epiderme, aspirar o perfume dos seus cabelos, ouvir-lhe a voz profunda e envolvente. As horas de solido eram as horas de perigo. De manh, havia 
o Sol, as visitas aos doentes, os rudos da casa e da rua - coisas que lhe ocupavam o esprito.  tarde, o consultrio, o desfile sensacional, que ele comeava a 
sentir no enfrentar a vida, no oferecer-lhe batalha em campo aberto. Mas  noite, na quietude do quarto, ele temia a visita do medo, pensava no futuro, lembrava-se 
do conforto e das facilidades da vida antiga.
   Eugnio sentou-se no sof, acariciou-lhe o estofo, num vago desejo fsico de mulher. Os minutos passaram-se. Ele pensou em Eunice, em Filipe, em Isabel, em outras 
pessoas que conhecera durante o tempo em que fora "genro do velho Sintra". A vida l no outro mundo continuava. No havia dvida de que era agradvel, fcil, deslizava 
macia e mornamente, sem atritos nem solavancos. No fosse a maldita conscincia que Deus nos d! Deus... Mas, no fim de contas, Deus existia mesmo? Talvez existisse 
e um dia se lhe revelasse, trazendo-lhe a paz definitiva, o desprendimento absoluto das coisas materiais.
   - Genoca! - Era a voz de D. Frida. Ela fazia um esforo comovente para se familiarizar com o hspede. A Ana Maria diz que no dorme sem o pap dela.
   Eugnio foi at ao quarto de dormir dos Falk. Ana Maria estava deitada na cama do casal, com a chupeta na boca. Tinha adquirido o hbito de dormir assegurando 
na orelha do pai. Quando o viu, choramingou:
   - Pai, eu quelo a tu olelha.
   Ele deitou-se ao lado da filha, tendo o cuidado de conservar os sapatos fora da cama. O quarto estava em penumbra. Ana Maria segurou a orelha do pai.
   - Eu vou-te comprar um burrinho.
   - Para qu?
   - Pra tu dormires segurando na orelha dele.
   - No pecisa. Eu tenho tu.
   Eugnio sentia no rosto a respirao morna da criana. Ana Maria cheirava a leite e a banana.
   - Bai! - fez ela, piscando.
   Quando dizia bai com voz arrastada, em vez de pai, era porque o sono j lhe tinha jogado areia nos olhos.
   - Que ?
   - Conta uma histria.
   - Oh! O pai no sabe.  hora do nen dormir.
   - Conta, bai, aquela do pco.
   - Est bem. Era uma vez um porco. - Eugnio falava num cicio. - O porco foi no mato. - Calou-se, vendo a menina de olhos fechados.
   - E depois? - resmungou ela.
   - Ah! No mato tinha um cachorro. O cachorro mordeu a vaca.. . - Nova pausa. Era a histria de todas as noites. Nunca chegava a termin-la. O sono arrebatava-lhe 
a ouvinte prometendo-lhe de certo as histrias mais bonitas dos sonhos. - E a vaca. . .
   - A vaca fez buuu. . . - completou Ana Maria.
   Depois, silncio.
   Passaram-se os minutos. Eugnio perdeu-se nos prprios pensamentos. E quando verificou que a filha cara no sono, ergueu-se com cuidado e saiu do quarto na ponta 
dos ps.
   
   Naquela noite releu ainda as cartas de Olvia. Dizia uma delas:
   J pensaste na importncia social que os mdicos tm e no enorme trabalho que ainda est por fazer em matria de higiene?
   s vezes eu me pergunto se, por estarmos parados a cuidar apenas de ns mesmos, no somos um pouco culpados da misria e da desgraa que anda pelo Mundo.
   Consola-me a idia de que, num dia que no estar muito longe, um de ns comece um trabalho srio nesse sentido.
   Na carta datada de 5 de Maio havia este trecho:
   Quando aprendi a conhecer-te, vi em ti uma criatura que amava a vida mas no a vivia integralmente, um ser que possua grandes qualidades humanas em potncia 
mas que no era ainda humano. Pelo que me contaste do teu passado, senti que te haviam humilhado, que a tua alma tinha sido desfigurada, torcida, violentada e que 
teus olhos se habituaram a olhar a vida com desconfiana e quase com rancor.
   Numa carta escrita em princpios do Inverno, Olvia falava em Sintra, nos seus monoplios e grandes empresas, e continuava:
   Viver como certos homens  simplesmente inumano. Procurar a riqueza por amor da riqueza  fugir da vida. Procurar a paz e a felicidade do dinheiro  qualquer 
coisa que se parece com o esprito daquele macaco da histria infantil. Deram-lhe um bocado de leite numa panela e, para ter a iluso de que tinha a panela sempre 
cheia, o macaco punha o leite a ferver, para que a espuma crescesse e transbordasse.
   No tenho nenhuma preveno contra os ricos, seria tola se tivesse. H os que sabem empregar humanamente a sua riqueza. Elogiar a pobreza seria tambm doentio. 
O Mundo foi feito para que todos nele tivessem um lugar decente. No h nada que melhor ilustre a moral egosta de certas criaturas do que a fbula da cigarra e 
da formiga. Parece que a cigarra leu o Sermo da Montanha e quis imitar os lrios do campo. Passou o Vero a cantar, ao passo que as formigas trabalhavam e mais 
trabalhavam, como os homens, que,  maneira desse teu amigo Lobo, vivem s cegas, s pensam em dinheiro, esquecidos de que so mortais e de que existem o Sol, os 
campos e as cigarras. O ideal, meu querido, seria um mundo em que as cigarras e formigas vivessem em harmonia inteligente.
   Estas so coisas que penso e que nunca te quis dizer, preferindo fazer que as sentisses por ti mesmo. Porque s valem as experincias que fazemos com a nossa 
prpria carne. Pode ser que tudo isso seja apenas um grande sonho. Mas sonhar tambm  humano.
   
   Eugnio dobrou cuidadosamente as cartas e guardou-as.
   Ergueu-se. Eram nove horas. Quando ia tirar um livro da estante, o telefone tilintou. Chamada urgente. Apanhou o chapu, a maleta, e ganhou a rua.
   
   - Eu no compreendo, Eugnio, no compreendo. Tenho ficado quase maluca pensando. ..
   Isabel olhava para ele com olhos ansiados; a ruga no sobrolho marcava o seu esforo para decifrar aquele enigma.
   - Quando Filipe me contou que vocs se iam separar, deu -me uma tontura... Acho que fiquei branca, pensei que tinha descoberto que ns... que... nem sei quanta 
coisa me passou pela cabea naquele momento.. .
   Eugnio olhava fixamente para o clice de vinho do Porto que pedira, apenas como pretexto para ocuparem a mesa por alguns instantes. Estavam no fundo de uma casa 
de ch, quela hora quase deserta. Ele relutara muito em concordar com o encontro.
   Isabel insistira, telefonara-lhe repetidamente. Ele achara melhor vir para matar de vez o assunto.
   Houve um demorado silncio. Eugnio continuava de olhos baixos.
   - Diga o que  que h - pediu ela.
   Ele levantou os olhos. A insistncia de Isabel no lhe dava raiva, dava-lhe pena. E atravs desse sentimento de piedade ele desprezava o outro Eugnio, o que 
fora suficientemente cnico, vaidoso e sensual para se fazer amante da mulher de um amigo.
   - H apenas isto: eu estava cego e agora vejo claro. Ns no podemos continuar como dantes.  horrvel...
   - E porque  que s agora voc v que  horrvel?
   - Eu j disse que antes estava cego.
   Ela sacudia a cabea num movimento nervoso, a expresso de seu rosto era a de uma pessoa ansiada que procura em vo enxergar atravs de um nevoeiro.
   - Mas no compreendo, no compreendo... H tantos meses que ns... E s agora... no! Por favor, Eugnio, diga a verdade...
   - Eu disse a verdade.
   Isabel levou o clice aos lbios. A mo tremia-lhe.
   - E porque foi que vocs se separaram?
   Ao fazer a pergunta avanou a cabea, quase agressiva, como quem joga a cartada definitiva. Eugnio desviou dela o olhar e fitou-o no vcuo.
   - Ora...  uma histria muito comprida.
   - Voc no est sendo sincero.
   Ele mudou de tom.
   - Pense no seu marido. Isabel, pense na sua filha.
   - S agora  que voc diz isso?
   - No. .. S agora  que tenho coragem de pensar nisso.
   - Porque no tem coragem de dizer que se aborreceu de mim? - A voz dela era velada, quase rouca. - No pense que vim pedir-lhe para voltar, no desci to baixo 
assim. Mas queria ao menos uma explicao... uma...
   Os olhos de Isabel ganharam um brilho lquido e de repente ela calou-se. Quando tornou a levar o clice aos lbios, Eugnio teve a perfeita impresso de ver uma 
criana que, choramingando, toma o remdio amargo forada pelas ameaas de um mais velho.
   - Olhe aqui, Isabel - disse ele com brandura. - Pense bem. No acha que cometemos um erro e que ainda  tempo de evitarmos que ele tenha conseqncias srias? 
Sua filha est moa... seria to doloroso para ela se...
   Calou-se antes de formular a hiptese desagradvel. Quis falar tambm em Filipe, lembrar-lhe que ela o podia reconquistar. Anteviu, porm, o ridculo da situao. 
Tomara ares de pregador protestante. Depois de tudo que acontecera, isso seria positivamente grotesco.
   Eugnio acendeu um cigarro. Isabel continuou a bebericar o seu cocktail, os olhos molhados fitos no amante com uma expresso atnita. Era uma criatura desamparada 
- pensava ele - sem idias, sem f; tivera educao medocre. Nunca abria um livro - ele sabia - folheava apenas revistas, mas gostava mais de figurinos que de revistas. 
Filipe contara-lhe o seu noivado com Isabel. Fora um idlio de romance. Nos primeiros anos de casamento, ambos lutaram, lado a lado. Ele era pobre e ambicioso, acabava 
de ganhar o diploma de engenheiro, procurava tomar p no Mundo. Tinham passado horas amargas, enfrentando juntos situaes difceis. Filipe trabalhava formidavelmente, 
fazia progressos, subia aos poucos.
   Vieram melhores dias. Dora nasceu. Festejou o dcimo aniversrio j numa casa confortvel, numa festa brilhante, com muitos convivas. Depois,  medida que Filipe 
prosperava social e financeiramente, as relaes dos Lobos na alta roda alargavam-se. O casal fez uma viagem aos Estados Unidos. Filipe voltou cheio de planos, obcecado 
pelas manias americanas de racionalizao, organizao, embriagado pelo colossal. Os seus nome e retrato apareciam nos jornais, eram entrevistas em que ele externava 
impresses da Amrica do Norte e formulava planos para o futuro. Madame Lobo dava recepes. Madame Lobo fazia parte de comits de caridade. Madame Lobo era dama 
da primeira sociedade da metrpole. O Dr. Lobo ia construir o maior arranha-cus da Amrica Latina. O Dr. Lobo trabalhava quinze horas por dia. O Dr. Lobo tinha 
desmedidas ambies, faltava-lhe tempo para ser humano. Esquecia-se da mulher, esquecia-se da filha. O "Megatrio" exigia-lhe cuidados paternais. Erguer aqueles 
trinta andares era quase o mesmo que construir um Imprio. Madame Lobo olhava com temor a aproximao dos quarenta anos. Os seus chs e gardens-parties e obras de 
caridade no conseguiam apaziguar-lhe aquele indefinvel desejo que a trazia inquieta... E um dia, na casa dos Sintra, um aperto de mo mais demorado, um olhar mais 
quente e longo.. .
   Eugnio pensava estas coisas olhando para Isabel. Com que limpidez ele compreendia tudo, como era maravilhosa a viso que tinha agora das coisas...
   Isabel deps o clice na mesa e, com alguma relutncia, perguntou:
   - Ento, no h outra mulher?
   Eugnio hesitou um instante. Contar-lhe a verdade seria complicar a situao, aumentar a misria de Isabel, que no acreditaria na sua histria. Olvia para ela 
no passaria de um mito. Sacudiu a cabea negativamente.
   - Podes ficar certa de que no h.
   - Ento.. . tudo acabado?
   - Tudo acabado.
   Breve pausa. Isabel levantou-se. Eugnio fez o mesmo. Entreolharam-se por um instante.
   - Adeus.
   Apertaram-se as mos.
   - Adeus.
   Depois de alguns minutos, Eugnio pagou as bebidas e saiu. Comprou um jornal no primeiro stand, abriu-o e procurou a pgina dos pequenos anncios. L estava a 
nota que mandara publicar: "Deseja-se saber o paradeiro de Ernesto Fontes. (Seguiam-se os sinais). Quem der uma informao segura ao Dr. Eugnio Fontes, Rua da Paz, 
675, receber boa gratificao." Mandara ler aquelas mesmas palavras nas estaes de rdio locais. Havia de achar Ernesto, custasse o que custasse.
   Olhou o relgio. Duas horas. Tinha de ir ao consultrio. Entrou num eltrico. No podia esquecer a expresso do rosto de Isabel. Ela sofria, devia ser a dor do 
orgulho ferido, do abandono e - quem sabe? - do remorso. E tudo por causa dele!
   A sala de espera do consultrio estava j cheia. Eugnio tirou o casaco, vestiu o avental branco, lavou as mos e disse  empregada que mandasse entrar os clientes 
pela ordem. Comeou o desfile. Naquela tarde, foi particularmente doloroso. Trs homens e duas mulheres com doenas venreas. Estavam amarelos e abatidos, tinham 
um ar de misria e de vergonha. Eram todos jovens, com exceo de um dos homens, que devia j andar pelos cinqenta. Confessou muito constrangido que era casado, 
tinha filhos, no sabia como fora aquilo...
   E enquanto lhes fazia curativos e os animava com palavras, Eugnio pensava no que a carne tem de perecvel e de frgil. O cheiro do iodofrmio enchia o ar, entrava-lhe 
pelas narinas, dando-lhe uma impresso de doena e de irremedivel sordidez.
   Naquela noite ele precisava de estrelas, de muitas estrelas, para se convencer de que havia esperana no Mundo.
   O quinto cliente foi uma menina franzina, de olhos assustados que entrou na companhia do pai. Este ltimo disse chamar-se Anaurelino Mendona. Queria saber se 
a filha ainda era virgem. Tratava-a com brutalidade, chamava-lhe sem-vergonha. Ela chorava.
   - O senhor no adianta nada tratando-a assim - disse-lhe Eugnio.
   - Mas ela  uma sem-vergonha mesmo, doutor. Que  que tinha de andar fazendo essas brincadeiras como mulher -toa, Olhe, doutor, tinha tudo em casa, no faltava 
nada. Isso  assanhamento, essa sem-vergonha, no sei porque no morreu quando teve o tifo...
   O exame foi rpido. Eugnio olhou para o pai longamente, hesitante.
   - Ento, doutor?  jovem ou no  jovem?
   Ele sacudiu a cabea.
   - No . E o desfloramento  recente.
   A menina desatou a chorar. Muito vermelho, o pai balbuciou:
   - Essa ordinria. . . essa. . . - A clera engasgou-o.
   Eugnio teve pena da menina.
   - Que idade tem ela?
   Nenhum dos dois respondeu. A rapariga continuava a soluar, com as mos cobrindo o rosto. O pai fungava e mirava-a com olhos torvos. Depois de alguns instantes, 
dominando-se, pediu:
   - O senhor d-me um atestado, doutor.
   Eugnio sentou-se  escrivaninha, perguntou o nome e a idade da menina.
   - Aurora - respondeu o pai. - Quinze anos. Aurora Mendona. Tenho at vergonha dela usar o meu nome, essa safada...
   Rompeu tambm em choro, as lgrimas escorriam-lhe pelo rosto queimado, ele enxugava-as com a manga do casaco.
   Aurora - pensou Eugnio. - Um nome to fresco. Madrugada, cu cor-de-rosa. Estas idias trouxeram-lhe a imagem de Ana Maria. Ela tambm era mulher. Um calafrio 
percorreu-lhe o corpo.
   Ergueu-se e deu o atestado ao homem.
   - E agora, doutor? - perguntou este com ar humilde, quase de splica. - E agora que  que eu vou fazer com a menina em casa neste estado? - E suspirando fundo, 
com uma lgrima a pingar-lhe no nariz, continuou: "Ele"  casado, o canalha... S matando.
   As mos de grossos dedos, que seguravam o atestado, tremiam.
   
   - Quer fazer-me um favor? - perguntou o mdico.
   O homem sacudiu a cabea afirmativamente.
   - No maltrate a sua filha. Pense bem no que lhe estou dizendo. Ela tem s quinze anos,  uma criana...
   - Criana que faz essas coisas, doutor? E depois a desavergonhada confessa que no foi  fora...
   Eugnio encolheu os ombros.
   - Seja como for. A violncia s pode piorar a situao. Todos ns erramos. E depois pense que o senhor pode ser to culpado do que aconteceu como ela. Talvez 
at mais culpado...
   - Essa... ora essa... e o senhor ainda me diz isso?
   Os olhos do homem exprimiam estonteada revolta.
   Quando os clientes saram, Eugnio escancarou a janela, sorveu demoradamente o ar fresco da tarde. De certo modo, sentia-se alegre. Comeava a tomar a vida pelos 
ombros e tentava beij-la na face, como lhe aconselhava Olvia. Era um beijo de sacrifcio, que ele dava ainda com alguma repugnncia, num desfalecimento de medo, 
violentando a sua natureza mais ntima. Mas havia nesse beijo um estranho elemento de fascnio. E ele sabia - se sabia! - que um dia, no muito remoto, ele ainda 
beijaria com amor essa mesma vida incoerente, srdida, brutal e, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, bela. Naquela noite chegou a casa um pouco cansado e melanclico. 
Tomou um banho demorado, trocou a roupa e dirigiu-se para a sala de refeies. Quando se inclinou para beijar a filha, foi recebido com uma reclamao:
   - Tu no tsse o meu volino, pai!
   E de repente ele lembrou-se de que, na vspera, Ana Maria lhe encomendara um violino igual ao de um homem que ela vira tocar na rua.
   - Ora... O pap esqueceu-se...
   A menina apertou os lbios e pelo seu rosto passou uma nuvem de tristeza.
   D. Frida, para quem Eugnio j no era uma pessoa de cerimnia e sim um novo membro da famlia, comeou naquela instante a censurar o marido. Hans tinha passado 
a tarde a beber e a jogar com amigos bomios como ele. Aquilo tinha lugar? Enquanto ele vadiava, os concorrentes andavam na rua trabalhando, aproveitando oportunidades, 
fazendo bons negcios. Ainda por cima, no fim do ms vinha a conta do bar, uma barbaridade! E no meio do seu discurso, que cada vez se acalorava mais, D. Frida rompeu 
a falar alemo. De quando em quando, Hans erguia a cabea do prato e piscava um olho para Eugnio.
   Ana Maria olhava para o pai e murmurava: meu volino...
   Eugnio, numa sensao de desconforto, lembrou-se de uma noite, havia muitos anos, em que  hora do jantar ele procurava fugir ao olhar do pai. E por breves segundos 
julgou ver no rosto da filha os olhos do pobre ngelo.
   - O meu violino...
   D. Frida deixou o marido em paz por alguns segundos e voltou-se para Ana Maria.
   - Quietinha! seno o papai fica brabo.
   A menina entortou a cabea com ar interrogador:
   -  mesmo, pai?
   Eugnio franziu a testa e sacudiu a cabea afirmativamente.
   Reconheceu Olvia nos olhos de Ana Maria, que brilharam de uma luz humana de tolerncia e de paz. Era estranho - pensou ele - era inquietador como os mortos estavam 
voltando a cada instante.
   - No precisa o violino, no ? - disse ela. - Amanh tu tais...
   Eugnio inclinou-se e beijou-lhe a ponta dos dedinhos.
   Naquela noite, por volta das dez horas, Eugnio foi chamado para atender um doente na cidade baixa. Voltou a p, s onze menos vinte, e passou pelo "Megatrio", 
que exercia sobre ele poderosa fascinao. De algum modo aquele edifcio achava-se ligado ao seu caso sentimental, aos seus problemas ntimos,  carta de Olvia. 
Sempre que passava por ele, parava para contempl-lo. O arranha-cus de Filipe crescia cada vez mais.
   Agora ali estava, subindo arrogante para as estrelas, levado - achava Eugnio - no pelo desejo lrico de se aproximar delas, mas sim pelo orgulhoso propsito 
de domin-las.
   Eugnio levantou a aba do chapu e ergueu os olhos para os ltimos andares. Com uma das mos no bolso e a outra segurando a mala, ficou imvel por alguns instantes. 
Ouviu de repente uma voz de timbre familiar.
   - Olhe o Dr. Eugnio!
   Voltou a cabea e viu Dora e Simo sentados num dos bancos da praa, bem na frente do "Megatrio".
   - No tinha visto vocs... - disse ele, aproximando-se.
   - Estamos conversando... -explicou Dora.
   Sem erguer a cabea, Simo resmungou:
   - Faz quase meia hora que nenhum de ns diz uma palavra...
   Eugnio contemplou-os em silncio. O banco ficava debaixo de uma rvore. O contorno das folhas estampava-se no rosto e no pescoo de Dora, num rendilhado mvel 
de sombra. Ela estava vestida de branco e o seu chapeuzinho de palha negra com abas reviradas dava-lhe um ar comovedoramente infantil.
   De cabea baixa, encurvado, braos apoiados nas coxas e mos entrelaadas, Simo olhava para o bico das botas. Devia estar com o pensamento longe. Eugnio bem 
o conhecia. O rapaz estaria ruminando no s as suas prprias dores, como tambm as dores dos da raa e - quem sabe? - as dores da Humanidade inteira.
   - Porque no se senta um bocadinho, doutor?
   No tom de voz de Dora, Eugnio julgou descobrir um pedido de socorro. Era um convite sincero. Os olhos dela suplicavam.
   - Bom, estou sem sono... - disse ele tirando o chapu e sentando- se ao lado de Dora. - Estive vendo um doente... - Nenhuma resposta. - Um caso bem grave. - Os 
outros dois continuavam silenciosos. Simo acendia um cigarro. Ofereceu um a Eugnio. - No, obrigado.
   O "Megatrio" dava a impresso de um trax de esqueleto descomunal. Atravs das simtricas costelas de cimento armado, Eugnio via as estrelas. Pela rua passavam 
eltricos e automveis. O trnsito de pedestres diminua.
   - Que  que voc tem, Simo? - perguntou com ar profissional.
   E no instante mesmo em que fez a pergunta no pde fugir a um sentimento de auto-aplauso. Porque falara num tom de voz humana, dando - parecia-lhe - a impresso 
de quem quer realmente ajudar.
   Simo limitou-se a encolher os ombros. Mas Dora no se conteve e contou:
   - Hoje na Faculdade um professor falou contra os judeus e ele retirou-se da aula. Houve muita complicao, parece que ele vai ser suspenso...
   - Eu tenho boas relaes como o diretor da Faculdade, Simo. Se voc quiser...
   Simo interrompeu-o com um gesto de irritao:
   - Mas que me importa se me botarem fora? Que diferena faz para o Mundo se Simo Kantermann se formar em medicina ou for simplesmente um vendedor de mveis a 
prestaes? O que me di  a injustia desse dio aos judeus. Ns somos homens como os outros.
   Estas ltimas frases, pronunciadas numa surdina, tiveram no esprito de Eugnio a fora de um grito de desespero.
   - Como  que os homens podem ser to cegos, to cruis... - murmurou ele, sacudindo a cabea. E uma voz interior lhe cochichou: tu tambm foste cego e cruel.
   Dora brincava com a bolsa de couro negro, olhando aflita para o rapaz.
   - Nasce um judeu no Brasil neste mesmo instante - continuou Simo - e j cai em cima dele toda a maldio milenar da raa. Porqu? Porqu? Porque ainda continuamos 
sendo judeus? Mas ns j no seramos judeus se no fosse o dio dos cristos. Eles nos perseguem, nos torturam... Temos uma tradio, sim. Mas essa tradio j 
teria desaparecido se no fosse esse inexplicvel dio que nos obriga a atitudes de defesa. Veja bem: de defesa e no de agresso.
   Jogou longe o cigarro, empertigou o busto e olhou para Eugnio. Era um rapaz de rosto comprido e belo. Tinha olhos escuros e de expresso triste.
   - Abra a Histria. Ela est cheia dos gritos de dor e de angstia do meu povo. Negaram aos judeus o direito de ter uma ptria. Eles viveram atravs de anos como 
feras acossadas, alimentaram as fogueiras da Inquisio, morreram sob a espada dos Cruzados e mais tarde nos pogroms da Rssia, da Polnia e da Romnia... No leu 
ainda sobre os horrores de um campo de concentrao da Alemanha moderna? Pois l vamos encontrar milhares de judeus que esto recebendo o prmio do seu sacrifcio 
nas trincheiras da Grande Guerra, quando como "soldados alemes" defendiam essa ptria que os renega e expulsa. E apesar de tudo isso, ns ainda no aprendemos a 
odiar!
   Imvel, o "Megatrio" parecia tambm escutar. Eugnio olhava para uma estrela de brilho irisado que aparecia bem por cima do ltimo andar. Um vento fresco bolia 
nas folhagens das rvores, fazendo as sombras danar no rosto, nos braos e no peito de Dora.
   - Somos uns doentes de justia.  a nossa grande glria diante de Deus e  o nosso maior mal perante os homens. Temos dado ao Mundo notveis escritores, filsofos, 
polticos, cientistas. no obstante todo o bem que fizeram  Humanidade, eles continuam a ser judeus. Porque querem? No. Porque o Mundo no lhes permite ser outra 
coisa. Os cristos nos odeiam e no entanto a nossa raa lhes deu esse Cristo de amor e de perdo. De perdo. Tem graa!
   Soltou uma risada que mais pareceu um soluo. Eugnio e Dora continuavam calados.
   - ramos um velho povo de pastores, veja a Bblia. Transformaram-nos num exrcito de pequenos comerciantes astutos e s vezes, ou quase sempre, ignbeis, porque 
nos negaram o direito de possuir terras. H dois mil anos somos escorraados, vilipendiados, apontados com o dedo, ridicularizados e massacrados. Se fssemos um 
povo inferior, j nos teramos anulado, teramos ficado refocilando na lama... No entanto, continuamos a dar ao Mundo filsofos, sbios, msicos, escritores... Muitos 
dizem que somos perigosos justamente porque a nossa raa  formada de homens superiores. Mas ser lcito, ser decente, ser lgico esmagar um povo s porque ele 
tem altas qualidades de inteligncia?
   - Escute, Simo, o dio do seu professor  um caso isolado. No Brasil, felizmente, ainda no h preconceitos de raa. Veja, por exemplo, o problema dos negros! 
Eu acho...
   - Mas o senhor pensa que eu no sou suficientemente humano e suficientemente judeu para sentir na minha carne, no meu esprito, o sofrimento da carne e do esprito 
dos judeus da Alemanha, da Romnia, da Rssia... de todo o Mundo?
   Dora segurou o brao de Simo.
   - No fales assim. O Dr. Eugnio  teu amigo.
   - Olhe o meu caso, doutor - prosseguiu Simo, mais sereno. - No sou judeu ortodoxo. Rompi com a tradio. Considero-me to bom brasileiro como o senhor. Mas, 
s vezes, fao a mim prprio perguntas assim: eu teria renegado a crena dos meus pais por cobardia, por querer fugir a essa marca humilhante de ser judeu? E se 
eu continuasse a ser visceralmente judeu, no seria assim mesmo um homem, um ente que tem o direito de amar, de possuir uma mulher de qualquer sangue, de respirar 
este ar, de viver como os outros?  nesses instantes que me vem uma espcie de raiva, um desejo de ser judeu, fanaticamente judeu, e de enfrentar o dio dos que 
perseguem o meu povo. Procuro a companhia dos cristos, naturalmente, no porque seja cristo, mas sim porque sou um ser humano igual a eles. Mas sempre ando perseguido 
por essa certeza horrvel de que, por mais que eu faa, por mais que me esforce, nunca deixarei de ser judeu, porque eles, os outros, no permitiro que isso acontea. 
Mais tarde ou mais cedo, ho-de lanar-me em rosto a palavra maldita: judeu.
   Ergueu-se de repente e parou na frente de Eugnio.
   - E porque "judeu" h-de ser uma palavra maldita, um insulto, uma vergonha? Dizem que ns matamos Cristo. Mas se os cristos queimaram Joana d'Arc, a sua santa!
   - Fala baixo - pediu Dora.
   - Dizem que os grandes capitalistas que infelicitam o Mundo so judeus. Mas acontece que eles no so judeus e sim apenas capitalistas, isto , uma classe que 
no tem ptria. Criticam em ns o nosso carter antinacionalista. No entanto, durante a Grande Guerra, milhares de soldados judeus davam o seu sangue nas trincheiras, 
sob as bandeiras da Rssia, da Alemanha, da Inglaterra... E, enquanto essa raa "sem ptria" se estraalhava nos campos de batalha, os capitalistas que mantinham 
a fogueira acesa, vendendo armas e munies para as duas partes em guerra, eram scios entre si, passando por cima de fronteiras e bandeiras...
   -  incrvel. .. - murmurou Eugnio, achando-se em seguida estpido por ter dito uma palavra to inexpressiva e intil.
   Dora contemplava Simo e nos seus olhos havia uma expresso de amor, misturada com piedade e medo. Simo tornou a sentar-se. Fez-se um silncio curto e depois 
ele prosseguiu:
   - Isto chama-se pedra - bateu com o p na laje da calada. - Aquilo ali  uma casa. Um gato  um gato. Mas o trgico  que nos obrigam a ser sempre judeus s 
para depois nos humilharem e nos desprezarem por isso. E o que mais me di  a injustia dessas coisas. Ao mesmo tempo sinto orgulho por ver que apesar de tudo, 
a minha gente, no fundo, conservou a sua grande pureza. E no dia em que o judeu deixar de ter uma "razo moral", ele desaparecer como povo. No existem vinte milhes 
de judeus no Mundo. Os outros bilhes de seres humanos em dois mil anos teriam podido eliminar facilmente a "raa maldita" da superfcie da Terra, se no fosse essa 
"razo moral".
   - Ama o teu prximo como a ti prprio... - murmurou Eugnio. E ficou pensando no que em seu lugar Olvia teria dito naquelas circunstncias.
   - A est - interveio Simo. - Confiscar os bens do prximo, mand-lo para a fogueira, eis uma bela maneira de am-lo... Cristo aprovaria essa perseguio aos 
judeus? Ou ser que o judeu no pode ser considerado um "prximo", como qualquer criatura humana?
   Os trs ficaram em silncio olhando para o "Megatrio".
   -  o caso de vocs? - perguntou Eugnio, ao cabo de alguns segundos.
   Dora encolheu os ombros. Simo fez um gesto de desnimo.
   - No tem soluo.
   Olhou para Dora com apaixonado rancor:
   - E eu no sei porque  que gosto dela! - acrescentou, dirigindo-se a Eugnio. -  apenas um monte de carne de forma agradvel aos olhos. A cabea  oca. Tudo 
o que acabei de dizer, para ela no passa de lenda. Dora no compreende, no tem a menor noo da existncia do problema. No fundo, para ela, turco, russo, polaco 
e judeus tudo  uma mesma raa, sem angstias, sem conscincia...
   Segurou no queixo de Dora. Os seus olhos brilharam.
   - Mas eu gosto dela. - Franziu a testa, apertou os lbios. - Como um maluco. Sei que ela pertence a um outro mundo diferente do meu. Desde o primeiro dia em que 
descobri que a amava, compreendi que a minha vida estava desgraada e que eu no ia ter mais sossego.
   De repente tornaram os trs a ficar em silncio. O "Megatrio" continuava a escutar. As estrelas brilhavam puras.
   - E que  que vocs pretendem fazer? - perguntou Eugnio.
   Simo deu de ombros.
   - Veja a nossa situao. Meus pais opem-se ao nosso casamento porque Dora no  judia. Os pais de Dora no querem saber de mim porque sou judeu. Podamos casar 
sem o consentimento deles. Bonito de dizer. Com que dinheiro amos viver? Sou pobre e mesmo que conseguisse um bom emprego seramos infelizes porque Dora se criou 
no luxo, habituada a vestidos caros, automveis, perfumes. E mesmo que, por fim, sem outro remdio o pai dela me aceitasse, que seria de mim? Mais tarde ou mais 
cedo, no mundo de Dora, algum me lanaria em rosto o nome maldito: judeu. Nossos filhos seriam desprezados pelos judeus e olhados tambm com reserva pelos cristos.
   Est vendo que beco sem sada? E o pior de tudo  que eu no posso passar sem essa menina.
   Tornou a olhar com estranha expresso para Dora.
   Eugnio tinha piedade deles, mas no era s piedade - verificava com alegria - era simpatia humana, era quase amor. Principiava a am-los como irmos mais jovens. 
Amava-os por que eram jovens e infelizes; amava-os porque os via aflitos, amava-os porque sabia que em seu lugar Olvia sentiria a mesma emoo.
   -  inacreditvel - disse ele - que coisas aparentemente to pequenas, obstculos to fceis de remover, tenham, s vezes, fora para estragar uma vida, duas 
vidas, mil vidas...
   Dora e Simo entreolharam-se com amor. Por alguns instantes esqueceram a presena de Eugnio.
   - Vocs acham - perguntou o ltimo - que adianta alguma coisa falar com o Filipe? No posso acreditar que ele no compreenda. Enfim, j foi jovem, amou, casou...
   Simo fez uma careta pessimista:
   - O engenheiro Filipe Lobo s compreende as criaturas de cimento armado e de pedra.
   Fez com a cabea um sinal na direo do arranha-cus. E os trs ficaram de novo em silncio, olhando para o "Megatrio".
   
   Mas havia dias escuros na nova vida de Eugnio. Surgiam contrariedades e l vinha a hora em que, de repente, estonteado, ele defrontava o outro Eugnio, o cobarde, 
indeciso, o fraco. Certa madrugada numa casa pobre de subrbio, ele viu-se sozinho esperando a chegada da morte. O doente perdia o pulso, a sua respirao era imperceptvel. 
O sono empanava as idias de Eugnio, amolantava-lhe o corpo. Ele sabia que nada mais podia fazer, mas no era humano deixar que a pobre criatura morresse ao abandono. 
Os minutos passavam. Pouco antes das quatro da manh, Eugnio aplicou ao moribundo uma injeo de morfina. Clareava o dia e l estava o doente ainda vivo, olhos 
esgazeados, rosto impassvel. Dir-se-ia que o fio de vida que lhe restava se lhe concentrara nos olhos midos e sujos, que ganhavam um brilho vidrado. A mulher do 
doente olhava para Eugnio e choramingava:
   -Si nis fosse rico o Manuel se sarvava, - Eugnio sentia a cabea em fogo. Foi at  janela e abriu-a com gesto desesperado.
   - No vai fazer mal p'r'ele, doutor?
   Eugnio no lhe deu resposta. Recebia em pleno rosto o ar fresco da madrugada. Olhou para as luzes da cidade. Pensou no seu quarto na casa do velho Sintra. Poderia 
estar dormindo tranqilamente quela hora. No outro dia, sairia no Packard para ir  fbrica assinar papis.  tarde, teria Isabel nos seus braos... Na mesa dos 
Sintras havia cristais, bons vinhos, comidas finas... Levou a mo  testa. Lembrou-se de uma frase de Olvia: ""A bondade no  uma virtude passiva." Como era fcil 
ser mau e como era ainda mil vezes mais fcil ser indiferente! A roda da vida girava e no fim de tudo estava a morte, o silncio, o aniquilamento. E quem lhe garantia 
que Olvia do "outro lado", tivesse encontrado o seu Deus e no apenas o apodrecimento e o nada?
   -Doutor! - gritou a mulher. - Ele est roncando.
   Eugnio correu para o doente e viu que a morte, afinal, chegava.
   - Faa alguma coisa, doutor! Por amor de Deus, salve o meu marido!
   O doente estertorava, seus olhos perdiam o brilho e da boca entreaberta saa-lhe um ronco horrvel.
   A mulher acendeu uma vela e tentou p-la nas mos do marido. A vela caiu, prendeu fogo no leno, a chama cresceu. Eugnio abafou o fogo com um coberto. A mulher, 
que se atirara ao cho, rolava de um lado para outro, gemendo:
   -  um aviso, ele vai pro Inferno... ai meu Deus... ai...  castigo!
   Eugnio, a muito custo aplicou-lhe uma injeo de ter.
   Dentro de alguns segundos ela ficou absolutamente calma, estendida no soalho. Quando Eugnio se ergueu para examinar o doente, verificou que ele j estava morto.
   Chamou os vizinhos, passou o atestado de bito, disse que voltaria mais tarde, pegou no chapu e na maleta e foi-se embora.
   
   No dia seguinte, confiou as suas dvidas ao Dr. Seixas:
   - O que eu no posso compreender, o que nunca perguntei a Olvia  porque  que, sendo to bom e misericordioso, o Deus dela permite que na terra haja tanta misria 
e tanto sofrimento. E depois a gente fica bestificado diante de certas cenas perfeitamente gratuitas. Por exemplo, essa histria que lhe contei h pouco... A mulher 
vai botar a vela na mo do marido moribundo, a vela cai e prende fogo ao cobertor e l estou eu todo atrapalhado procurando abafar a chama, enquanto o pobre homem 
morre e a mulher rola no cho aos gritos. Contado, parece mentira.
   Seixas encolheu os ombros. Grudada no lbio inferior, pendia-lhe uma ponta de cigarro apagado.
   - J desisti de compreender a vida - disse ele. - O melhor  no pensar muito e no fazer perguntas. Para qu? Quando a gente tem uma ferida, faz o possvel para 
no meter o dedo nela. Voc parece que  desses que gostam de escarafunchar nas prprias feridas...
   Tornaram a falar em doentes, em mdicos, na vida e em Deus.
   - H coisas engraadas - disse Seixas, acendendo o cigarro. - Quando ns salvamos um doente  costume dizer. " Abaixo de Deus, doutor, eu devo a minha vida ao 
senhor." Est bem. No somos nada. Deve haver Algum maior que governa esta droga. Mas quando o doente morre, porque  que tiram Deus do brinquedo e s nos culpam 
a ns?
   Soltou um ronco de impacincia e foi-se.
   
   Os jornais daquele dia noticiavam a viagem de Eunice e do pai  Europa. Seguiam para o Rio, de onde embarcariam no Neptunia. A notcia esclarecia que o conhecido 
industrial ia numa viagem de recreio e de negcios. Eugnio dobrou o jornal e ficou a pensar em Eunice com uma ponta de melancolia. No fim de contas, ele de certo 
modo s quisera que ela viesse a amar outro, estaria sempre presa a ele. Era lamentvel que as coisas tivessem chegado quele ponto.
   A caminho do consultrio, naquela tarde, Eugnio ainda pensava em Eunice. Ela era frvola, esnobe, irnica... mas que se podia esperar de uma rapariga que se 
criara sem me, aos cuidados de um pai que apenas queria v-la instruda e admirada? No fundo, ela no tinha culpa. Ningum tinha culpa no Mundo. Todos andavam s 
tontas. Pensou em Dora e Simo, lembrou-se de que na vspera vira Isabel de longe, dentro de um automvel. Tornou a pensar em Eunice. Apesar de tudo, tinha dela 
algumas recordaes agradveis. A lua de mel fora estranhamente deliciosa, cheia de pequenas revelaes. Como a gente vivia a iludir-se!
   Passou pelo "Megatrio". Eram quase duas horas da tarde. Os operrios trabalhavam freneticamente. Eugnio deteve-se um instante para olhar a obra.
   Um carro parou junto da calada e Filipe Lobo saltou de dentro dele.
   - Mas, homem de Deus - exclamou. - Por onde tens andado?
   Apertaram-se as mos. A ltima vez que Eugnio vira Filipe fora poucos dias aps o seu rompimento com Eunice. Filipe procurara-o para tentar uma reconciliao.
   - Aonde vais?
   - Ia indo para o consultrio.
   Filipe tomou-lhe o brao.
   - Os doentes que esperem. Se fosse em Esparta, eles seriam jogados desfiladeiro abaixo. Vem comigo, vamos subir ao ltimo andar do "Megatrio". J estiveste l? 
No? Pois vais ver um espetculo formidvel.
   Eugnio deixou-se levar. Atravessaram a rua. Entraram no "Megatrio". Filipe empurrou Eugnio para dentro do elevador de carga.
   - Vamos agora ao ponto mais alto da cidade!
   
   Enquanto o elevador subia, Filipe, examinando Eugnio da cabea aos ps, perguntou:
   - Mas que  que tens feito?
   Eugnio fez um gesto vago.
   - Trabalho um bocado.
   Filipe acendeu um charuto, tirou uma baforada e, segurando Eugnio pela aba do casaco, disse-lhe com fingida seriedade:
   - Um homem como tu merecia ser jogado l no ltimo andar para se esborrachar na calada! Acho que me compreendes, no?
   Eugnio sacudiu a cabea, sorrindo. Agora j no prestava mais ateno ao que Filipe lhe dizia, pois, e  medida que subiam, comeava a sentir vertigens. A praa 
l em baixo parecia pertencer a uma cidade de brinquedo. Os eltricos eram vermes rastejando.
   Chegaram ao ltimo andar. Ventava forte. Eugnio segurou o chapu pela aba.
   - Vem por aqui.
   Filipe estendeu a mo a Eugnio para que ele passasse por uma tbua estendida entre duas vigas de cimento. Com uma sensao de vertigem, Eugnio olhou em torno. 
Dali de cima avistava-se toda a cidade, o rio, as ilhas, as montanhas.
   - No  um colosso? - perguntou Filipe.
   Operrios passavam com carrinhos de mo cheios de argamassa, despejavam-nos sobre uma rede de finas vigas de ferro que pareciam os nervos simtricos daquele monstro.
   - Quanto tempo falta para terminar o colosso? - perguntou Eugnio.
   - Em dez meses, no mximo, estamos tomando champanhe na soteia do "Megatrio"! - bradou ele, como se quisesse que o vento levasse a notcia para todo o Mundo.
   Eugnio contemplava a cidade, mudo. Via-se l em baixo, muito chata e silenciosa, coalhada de telhados claros e claros, rendada de ruas, manchada de arvoredos, 
com zonas de Sol e de sombra, pontilhada de coruscaes - absurda, incompreensvel, comovente.
   No alto de uma colina branquejava o cemitrio.
   Eugnio teve um estremecimento quando Filipe lhe apertou o brao.
   
   - Olha essa paisagem, homem! - disse-lhe o engenheiro, estendendo o brao. - Que sensao de vitria a gente tem aqui em cima...
   Um avio descolava do rio, alava-se na direo das montanhas.
   - Olha aquele avio, pensa neste arranha-cus, naqueles outros grandes edifcios e em tudo o mais que o homem construiu aqui e em outras partes do Mundo. - Apertou 
com mais fora o brao do amigo. - Se todos pensassem como tu, a terra ainda seria nua e desolada.
   - Mas  preciso um pouco de tudo para fazer um mundo... - retorquiu Eugnio, lembrando-se de uma sentena muito do gosto do velho professor do Columbia College.
   - Sim. Queres dizer que  preciso haver mdicos e construtores, advogados e sapateiros, alfaiates e poetas. Concordo. Mas eu falo  na maneira de sentir a vida. 
Tu lembras-te daquele dia em que te procurei para te fazer ver a loucura que tinhas cometido? - Eugnio sacudiu a cabea afirmativamente. - Quis abrir-te os olhos. 
s moo, tens vida como o diabo na tua frente, podias fazer coisas formidveis com o dinheiro do Sintra. S um fraco  que se importa com o que o povo pode dizer. 
Que  o povo? O povo  aquilo.
   Mostrou l em baixo vultos midos e escuros que se agigantavam nas ruas e nas caladas.
   - O povo no pensa, no tem vontade. Palavras so palavras. Pedra  pedra. Pois bem. Tu vieste com uma lenga lenga muito sem entusiasmo. Falaste em cegueira, 
em falta de personalidade, disseste que estavas morto e querias viver de verdade. V se isto no  vida. Neste terreno existia uma baica colonial de porta e janela. 
Hoje se est erguendo em lugar dela um arranha-cus de trinta andares. No  colossal?
   - No digo o contrrio, Filipe. Eu admiro-te, admiro a tua obra, mas acho... acho...
   Filipe mirou-o, num desafio.
   - Fala com franqueza. Que  que achas?
   Eugnio ficou calado por um instante e depois disse:
   - Ns somos homens, Filipe, e vivemos quase como mquinas. Essa nsia de progredir, de acumular dinheiro, de construir, faz a gente esquecer o que tem de humano. 
Tu nunca pensaste? ... Bom. No tenho nada com a tua vida.
   
   Olhou para o rio. Uma vela branca passava diante de uma pequena ilha rochosa.
   Filipe soltou uma risada.
   - Humano! Essa  boa! Haver algum mais humano do que eu? - Bateu no peito, mordendo o charuto com fria. Tenho ambies, sou um bom garfo, aprecio uma mulher 
bonita, contribuo todos os meses com 30.000 para obras de caridade, sou vaidoso e tenho vcios. Macacos me mordam se isto no  ser humano!
   Eugnio sacudiu a cabea devagarinho.
   - No me compreendeste, no me compreendeste.
   Procurava uma oportunidade para falar no caso de Dora e do Simo.
   - Olha, menino - prosseguiu Filipe. - No h sentimento mais humano do que querer gozar a vida. O Mundo  dos ativos, dos que acordam cedo e dos que tm a audcia 
de dar os grandes golpes. Vocs, sentimentais, vivem falando em humanidade e no entanto no so humanos. So mas  uma espcie de santos. No fundo doentes. O Mundo 
no precisa dos doentes. Os doentes so uma pedra no caminho dos sos. Se eu no construsse esta casa, se fosse um simples empregadinho de escritrio ou de loja, 
acho que teria a impresso perfeita de que estava morto. Morto.
   
   Tirou o chapu. O vento revolveu-lhe os cabelos. Eugnio acompanhava com os olhos a marcha do veleiro no rio.
   - S h uma verdade - continuou Filipe. - O forte engole o fraco e para o fraco s h uma esperana.  fazer-se forte e entrar na competio. Porque  que eu 
admiro Mussolini e acho que o regime ideal  o fascista, o do brao de ferro?
   Porque ele no anda com essa conversa mole de santo. Olha s o forte engole o fraco e para o fraco s h uma esperana.  fazer-se Forte choramingaram, falaram 
em pobres negros massacrados, etc. Mas os da minha tmpera pensaram nas belas estradas que Mussolini vai abrir naquela terra selvagem, nos edifcios que vai construir, 
nas plantaes que vai fazer. O massacre durou meses. Mas esses edifcios estradas e todos os outros benefcios da civilizao italiana vo durar toda a eternidade.
   Eugnio escutava-o, ainda com os olhos fitos no veleiro, que rumava agora para uma das margens do rio.
   - Eternidade! - murmurou ele. - Eternidade! Voc j pensou no que lhe pode servir o "Megatrio" depois da sua morte?
   - Um homem forte nunca pensa em Deus - retrucou Filipe. - Mas, apesar de tudo, sente que Deus existe. Deus  um grande construtor. Ele saber compreender os construtores 
menores. . .
   Ao mesmo tempo que ouvia o amigo, Eugnio tinha tambm a conscincia daquela sensao de medo e vertigem, que era como que uma estranha msica de fundo para as 
palavras do engenheiro. O vento continuava a soprar. Os elevadores subiam e desciam. De quando em quando, um homem gritava uma ordem ou fazia uma observao.
   De pernas abertas, casaco desabotoado, mos nos quadris, Filipe olhava em torno, fazia perguntas aos operrios, dava-lhes instrues. Depois, voltou-se para Eugnio:
   - O "Megatrio" - declarou - d servio para duzentos e quarenta e cinco homens. Amanh, est embelezando a capital, ser o orgulho do Brasil. Uma cidade dentro 
da cidade.  ou no  uma coisa formidvel?
   - Mas precisas de saber - retorquiu Eugnio - que no sou contra o "Megatrio". Seria tolo se fosse. O que eu estou tentando dizer  que ele no  tudo, "tudo", 
compreendes? Depois de terminares esta casa, hs-de querer construir outra, depois outra e mais outra, sempre na mesma fria. J pensaste numa coisa?
   Filipe encarou Eugnio. Pausa breve.
   - Que coisa?
   - Na tua filha, na Dora. Quem  que ocupa um lugar maior no teu corao? Ela ou o "Megatrio"?
   Filipe soltou uma risada.
   - Ora, ora, Eugnio! Duas coisas to diferentes. Parece pergunta de criana.
   - As perguntas das crianas em geral so as que nos deixam mais atrapalhados...
   - Mas como  que foste pensar nisso? Dora tem tudo, casa, vestidos, automvel, perfumes, amigas. Tu compreendes que ela no est em idade de andar ao colo. Depois, 
no devemos dar muito mimo aos filhos, criam-se umas nulidades...
   - No fujas do assunto. Bem sabes o que eu quero dizer...
   Filipe tornou a encar-lo numa interrogao.
   - O judeuzinho atrevido?
   Eugnio sacudiu a cabea afirmativamente.
   - Pois qualquer dia eu sei o que vou fazer para acabar essa histria. No tenho tempo a perder com besteiras de crianas. Se ele insistir, dou-lhe umas palmadas 
naquele lugar.
   Jogou fora o charuto, olhou a curva que ele descreveu no ar antes de cair para a rua...
   - Palmadas no resolvem o problema.
   - Os judeus so cobardes.
   - So antes de tudo perseverantes... - retrucou Eugnio.
   Filipe encolheu os ombros.
   - No gosto de judeus.
   Era um argumento definitivo.
   - Judeu  uma palavra apenas. O importante  saber que os judeus tambm so homens.
   - Maus homens, por sinal. ..
   - Eu disse que so homens, e  sabido que existem homens bons e maus.
   Filipe deitou a mo ao ombro de Eugnio.
   - Olha, Eugnio, queres saber uma coisa? Esse sujeito no casa com a minha menina. No se fala mais nisso.
   - Mas no  questo de falar ou no falar, Filipe.  questo de sentir. Dora gosta do rapaz...
   Filipe olhou para Eugnio com ar desconfiado:
   - Isso est-me cheirando a sermo encomendado. Mas uma coisa eu te peo, Eugnio: vive como quiseres, mas no metas as tuas caraminholas na cabea da minha filha. 
Enfim, sou pai dela e um pai deve fazer valer a sua autoridade.
   - Mas autoridade  uma palavra, tambm... -insistiu Eugnio.
   - Estou-te desconhecendo. Para as coisas boas no tens essa tenacidade. - Olhou para os lados. - Queres ver o que  autoridade? Escuta s. - Gritou para um dos 
homens. Maneco, desa, v at ao caf e me traga uma carteira de cigarros
   "Astria".
   Atirou-lhe uma moeda. O homem apanhou-a no ar, fez um sinal de assentimento quase servil e desceu pelo elevador. Filipe voltou-se para Eugnio. - Isto  autoridade. 
Eu mando, ele obedece-me. Eu sou patro e ele  empregado.
   
   - Tu esqueces-te de que ele  ainda um homem e que pode dizer no.
   - Se ele dissesse "no", hoje mesmo seria posto fora, perderia o emprego.
   - O Mundo  grande. No lhe faltaria trabalho.
   Filipe fez um gesto de capitulao.
   - Assim no se pode discutir.
   Poucos minutos depois, desceram. Ao despedir-se de Eugnio, Filipe pediu:
   - No me fales mais nesse caso de Dora, ouviste?
   Eugnio olhou o outro bem nos olhos.
   - Prometo. Mas tu vais fazer-me tambm uma promessa.
   - Qual ?
   - Pensar no que eu te perguntei sobre a Dora e o "Megatrio".
   - Besteira!
   Filipe fez um gesto brincalho. Eugnio foi-se, achando esquisito que o outro no se oferecesse para lev-lo ao consultrio no seu carro.
   Naquele dia, chegaram aos ouvidos de Eugnio as ltimas verses sobre o rompimento com Eunice. Dizia-se que ele havia apanhado a mulher nos braos de Filipe - 
afirmavam uns -, nos braos de Aclio Castanho - garantiam outros. Contavam-se detalhes: o velho Sintra dera duzentos contos ao genro para ele pedir desquite sem 
fazer escndalo, alegando incompatibilidade de gnios. Outros inclinavam-se para histrias de carter mais picante. A verdade, diziam, era que Eugnio era um impotente 
sexual, e Eunice, por piedade, optara por um desquite amigvel em que o verdadeiro motivo da separao ficasse escondido.
   Eugnio ouviu os mexericos sem se perturbar. Limitou-se a sorrir, e depois que ficou a ss no pde deixar de perguntar a si mesmo como lhe fora possvel encarar 
os fatos de uma maneira to desligada, to superior e serena. Se lhe tivessem contado aquelas infmias em outro tempo, ele teria sentido dor fsica, teria ficado 
num estado de absoluta prostrao, numa angstia que se prolongaria durante dias e dias.
   Os homens eram perversos - concluiu ele. Mas depois corrigiu-se: havia homens muito perversos. No bastariam as misrias reais da vida, aquelas de que tinha todos 
os dias dolorosas amostras na sua clnica? Algumas pessoas achavam um prazer depravado em inventar misrias. Como podia uma criatura de alma limpa andar pelos caminhos 
da vida? Lembrou-se das palavras de Olvia, numa das suas cartas: "Tu uma vez comparaste a vida a um transatlntico e te perguntaste a ti mesmo: estarei fazendo 
uma viagem agradvel? Mas eu asseguro que o mais humano seria perguntar: estarei sendo um bom companheiro de viagem? " Realmente, os homens, em geral, eram maus 
companheiros de viagem. Apesar da imensido e das incertezas do mar, apesar do perigo das tempestades, do raio e da fragilidade do navio, eles ainda se obstinavam 
em ser inimigos uns dos outros. O sensato seria que se unissem numa atitude de defesa e que se trocassem gentilezas, a fim de que a viagem fosse mais agradvel para 
todos.
   Enquanto a seringa fervia e o paciente - um rapaz magro e amarelo - esperava, sem casaco, com uma das mangas arregaadas, Eugnio chegava mais uma vez  mesma 
concluso. A gentileza podia melhorar o Mundo. Se os homens cultivassem a gentileza seria possvel atenuar um pouco tudo quanto a vida tem de spero e brutal.
   Eugnio olhava para o brao magro do cliente, mas na realidade s via as imagens dos seus pensamentos. A chama do lcool extinguiu-se. Eugnio segurou a seringa 
com a pina.
   
   Naquela noite, em casa, releu uma das ltimas cartas que Olvia lhe escrevera de Nova Itlia:
   
   Fiz ptimas relaes com um senhor italiano, o Dr. Candia. Deve ter perto de sessenta anos,  uma criatura esquisita. Mora h oito anos no Brasil, comprou terras 
em Nova Itlia, tem uma linda vivenda com pomar. Da minha janela, avista-se a propriedade dele. O Dr. Candia  um solitrio, foge dos homens mas gosta muito dos 
bichos. Simpatizo com ele.  um tipo alto, forte, corado e o bigode grisalho, que escorre pelos cantos da boca e lhe d um ar de av bondoso. O meu velho amigo  
um grande caminhador, ele em pessoa faz as suas compras, desce  vila e vai de armazm em armazm com um cesto no brao. Vivemos a discutir. Ele  ateu, cptico 
e cnico, mas simpatiquissimo. Confesso que quase sempre me embaraa com as suas perguntas inesperadas, que formula sorrindo e cofiando o bigode. Fica-me olhando 
com os olhos muito azuis. Ainda um dia destes, como eu lhe falasse em no violncia, ele me props o seguinte problema:
   - O coronel Tinoco  o chefe poltico da terra. Muito bem. O coronel Tinoco  um homem mau. Diga-me uma coisa: se ele mandasse um dos seus capangas matar a Ana 
Maria na sua presena, a senhora se manteria fiel aos seus propsitos de no-violncia e continuaria ainda amando o coronel Tinoco como o seu Deus manda?
   Fiquei atrapalhada,  claro; mas ocorreu-me responder-lhe com outra pergunta:
   - No ser doentio a gente estar cavacando deste modo no mundo das possibilidades? E se um cometa se chocar de repente com a Terra? Se de um momento para outro 
falhar a lei da gravidade?
   O Dr. Candia sacudiu a cabea, sorrindo sempre.
   - Confesse que a vida  horrvel - retrucou ele. - Confesse tambm que a possibiLidade de o coronel Tinoco mandar matar a sua filha  menos remota que a do cometa 
dar uma cabeada na Terra. Que velho impossvel! mas gosto dele, apesar de tudo. Trouxe-me um cesto de morangos muito maduros. Disse que era para reparar o mal que 
,me causava com as suas perguntas cpticas e embaraosas.
   Ontem apareceu-me de novo com um cesto de uvas e mas. Abriu um jornal, mostrou-me uma meia dzia de noticias que tivera o cuidado de marcar com lpis encarnado 
- roubos, desfalques, guerras, assaltos, chantages, atos de crueldade e disse-me num tom de mestre-escola:
   - O Mundo est cheio de criaturas perversas e audaciosas e egostas, que no escoLhem meios para conseguirem a satisfao de seus desejos. Muito bem. Que  que 
a senhora, com a sua filosofia do amor, tolerncia e boa vontade, prope fazer para libertar o Mundo da influncia dos polticos sem escrpulos, dos traficantes 
gananciosos, de todos os males que o afligem? Os patifes usam da violncia. Que fazeis vs, os pacifistas? Cruzais os braos e ficais na contemplao de Deus?
   Sacudi a cabea numa negativa vigorosa, convidei o Dr. Candia a sentar-se, tomei de um lpis e de uma folha de papel, disposta a mostrar-lhe que o meu pLano de 
campanha nada tem de vago, passivo ou fatalista.
   
   Congregar os homens de boa vontade partidrios do pacifismo e determinar a cada um a sua tarefa, tendo em vista que todos, desde o arteso mais humilde at ao 
intelectual mais reputado, podem prestar servios  causa dentro do raio da sua atividade.
   Devem usar-se as armas do amor e da persuaso.
   Fugir sempre a toda e qualquer violncia, mas saber opor  guerra e aos outros coragem serena.
   Mobilizar todas as foras morais e utiLiz-las na guerra  guerra e aos outros males sociais.
   Fazer que homens de esprito so, desinteressados e lcidos, subam aos postos de governo e fiquem senhores da situao.
   Educar as crianas, procurando dar-lhes desde o jardim da infncia uma conscincia social.
   Procurar influir em todos os meios de publicidade moderna: literatura, cinema, teatro, imprensa, rdio, fazendo o boicote de tudo quanto  mau e vicioso.
   No esquecer que o exemplo individual  uma poderosa arma de propaganda.
   Estar disposto ao sacrifcio e nunca fugir  luta.
   Dar assistncia eficiente  infncia.
   Encher o pas de escolas, hospitais e dispensrios.
   Conseguir aos poucos a sociaLizao da medicina.
   O Dr. Candia leu estas proposies, sorriu, sacudiu a cabea devagarinho e acabou dizendo que eu era muito jovem (imagina!) e que no conhecia o Mundo.
   - As suas idias no passam de um sonho. A fora sempre h-de vencer. No h nenhuma lgica na brutal balbrdia da vida.
   Retruquei-lhe que, falando com sinceridade, eu no acreditava em que se conseguisse um mundo perfeito, mas por outro lado tinha uma confiana absoluta em que, 
ao cabo de algumas dezenas de anos de reeducao, uma sensvel melhoria de vida se havia de operar. No s isso: seria tambm possvel obter alguns resultados imediatos 
bem apreciveis.
   - Fique ento com a bela iluso - concluiu ele, amvel. Isso conforta. Deu-me um lindo cacho de uvas, duas mas, um beijo na testa e foi-se.
   
   Eugnio tornou a guardar a carta. Olhou para o retrato de Olvia, que estava debaixo da lmpada. Estendeu-se no sof, com os olhos fitos nele. E assim adormeceu... 
Acordou no meio da noite e imaginou, na tontura da sonolncia, que estava em outros tempos: tivera naquela noite Olvia em seus braos, a madrugada raiava e era 
preciso que ele se fosse, pois a me devia estar a esper-lo em casa, aflita...
   
   Uma manh, Simo foi buscar Eugnio a toda a pressa para ir socorrer-lhe o pai, que se debatia numa nova crise de angina do peito. Um automvel levou-os a toda 
velocidade  casa de Mendel Kantermann. Era uma casa pequena e hmida, de uma porta e duas janelas. Logo ao entrar, Eugnio sentiu no ar que respirava a pobreza 
em que aquela gente vivia.
   Deitado de lado, na sua velha cama de casal, plido, encurvado e imvel, Mendel Kantermann gemia e ofegava. Nos seus olhos, Eugnio reconheceu uma expresso que 
j lhe era familiar: o pavor da morte.
   Ao p da cama, com a cabea inclinada, as mos enlaadas e o olhar de mrtir posto no marido, a me de Simo parecia j orar por alma do defunto. Era uma mulher 
baixa e rolia, de feies monglicas e olhos de ovelha sacrificada. No dizia palavra. Limitava-se a suspirar de quando em quando. Era a imagem viva do desalento 
e da dor.
   Eugnio quebrou uma ampola de ter amilnitroso e levou-a s narinas do doente, fazendo-o aspirar longamente os seus vapores. Aplicou-lhe em seguida uma injeo 
de sedol.
   Os minutos passaram-se. Eugnio tomava o pulso do paciente. A mulher continuava fechada no seu silncio de desgraa.
   
   Mendel Kantermann j respirava com mais fora. Era um homem de quase sessenta anos, de barba grisalha, pele flcida e muito branca. Os seus olhos eram de um azul 
opaco e triste.
   Eugnio bateu-lhe no ombro, afetuosamente:
   - O pior j passou - disse com jovialidade.
   Mendel fez um meio sorriso e ergueu os olhos para a mulher. Eugnio tirou o bloco de notas e a caneta automaticamente e rabiscou uma receita. Arrancou a folha 
do bloco e deu-a a Simo.
   - Mande aviar. A est o modo de tomar. Depois do consultrio, eu volto aqui.
   Quando Eugnio se ergueu, os olhos do doente suplicaram-lhe que ficasse. Mendel murmurou qualquer coisa ininteligvel que lhe saiu num fio de voz.
   - No tenha medo - tranqilizou-o Eugnio. - Eu volto.
   Tornou a bater-lhe no ombro e passou com Simo para a sala de jantar. Olhou o relgio: oito e dez.
   - Onde  que eu posso lavar as mos? - perguntou.
   - Mam - gritou o rapaz. - Traga uma bacia com gua e toalha.
   Dali a um instante, a mulher entrou com as coisas que o filho pedira. Tinha um caminhar miudinho, segurava a bacia com um cuidado compungido e triste, como se 
trouxesse nos braos o cadver de uma criana.
   Eugnio fazia recomendaes quanto  dieta e outras atenes que deviam dispensar ao doente. Ele fumava? Tomava lcool? Fazia algum exerccio violento? Precisava 
muito de repouso - repouso absoluto.
   A mulher ps a bacia e a toalha em cima da mesa e retirou-se. Simo acompanhou-a com os olhos e, quando a viu desaparecer no outro quarto, disse em voz baixa:
   - Tem um seio s.
   Eugnio ensaboava as mos.
   - Cancro?
   Simo sacudiu a cabea, numa triste negativa.
   - Antes fosse. Cancro  uma crueldade da Natureza. Ela perdeu um seio por causa da crueldade dos homens. - Fez uma curta pausa. Suspirou fundo. - Em 1906, houve 
na Rssia uma srie de pogroms. Um cossaco cortou-lhe o seio a fio de espada.
   Eugnio franziu a testa. Tanta crueldade chegava a parecer fico. M fico, por sinal. A nica coisa que lhe ocorreu dizer foi:
   - Bom.. . Em todo o caso est viva e a ferida no lhe por a vida em perigo. Ao passo que se fosse cancro...
   Simo empertigou-se de repente, como se tivesse recebido uma picada de agulha.
   - Vida? O senhor chama vida a isto?
   Eugnio enxugava as mos. Sabia onde estas palavras podiam conduzir aquele dilogo. Simo tinha um prazer mrbido em cavocar nas prprias feridas. Era melhor 
mudar de assunto.
   - Como vai Dora?
   Mal pronunciara estas palavras, Eugnio compreendeu que tinha entrado por outro porto no mesmo terreno perigoso.
   - Vai bem.. . - disse Simo com ar vago. - Sabe? - perguntou com mais vivacidade. - Um dia eu trouxe a Dora at c. Queria que ela visse quem so os meus pais 
e como  a casa em que vivemos. Mostrei tudo.
   Puxou Eugnio pelo brao e levou-o ao seu quarto de dormir. Era um cubculo que cheirava a mofo. Nele mal cabia a cama desengonada de ferro e uma mesa sem lustro, 
de pernas raquticas. Livros - brochuras encardidas compradas no sebo - empilhavam-se nos cantos, debaixo da cama e da mesa e no peitoril da janela.
   - Olhe - disse Simo. - Mostrei tudo  Dora, no escondi nada. Ela conheceu meu pai, minha me, viu bem como eles so. Bichos de um outro mundo... Fiz questo 
de mostrar que a minha gente no tem nada de comum com a gente dela.
   Calou-se. Eugnio perguntou:
   - E porque fez voc isso?
   - Por amor da verdade, para que nunca ela possa dizer que a enganei.
   - S por isso?
   Simo encolheu os ombros.
   - Talvez tambm por um certo prazer doentio de tortur-la... A alma da gente tem mistrios...
   - Como se ela tivesse culpa de pertencer a outra classe...
   Voltaram para a varanda. Eugnio fechou a maleta e preparou-se para sair.
   Simo postou-se-lhe na frente, com ar quase agressivo.
   - Doutor: no pense que eu procurei o senhor porque no quero pagar... Quero, sim - afirmou com nfase.
   Eugnio sorriu.
   - Mas ningum est falando em dinheiro.
   - Eu estou falando em dinheiro. No quero que o senhor pense...
   - Mas eu no estou pensando em coisa nenhuma...
   - Preciso deixar isso bem claro. Quero que o senhor mande a conta.
   - E se eu no quiser mandar?
   Simo no teve resposta imediata. Hesitou um instante e noutro tom, a voz levemente alterada, perguntou:
   - Caridade? - E sorriu com desdm.
   Eugnio apanhou o chapu constrangido.
   - Segundo as praxes correntes - disse ele, esforando-se para no parecer sentencioso - quem pratica a caridade se exalta, quem a recebe de certo modo se humilha. 
No, no se trata dessa caridade...
   - Piedade, ento? - tornou a indagar Simo, como quem quer a todo o custo discutir.
   - Tambm no  piedade. D a isso o nome que quiser. Esprito de camaradagem, simpatia humana, solidariedade...
   Caminhou para a porta.
   - No fundo - insistiu Simo, que o seguia - no fundo, sempre uma forma de egosmo.
    o mal da raa - pensou Eugnio - a mania de discutir, a volpia de vestir um escafandro e descer ao fundo de todas as coisas. Mas  que existem lagos rasos. 
E lembrou-se de um filme do Charlot. O heri vestiu fato de banho, armou o salto elegante e precipitou-se no regato, sonhando com um grande mergulho. O regato, porm, 
tinha apenas um palmo de profundidade e l ficou Charlie Chaplin com os ps para o ar e a cabea enterrada no lodo.
   - A troco de que havemos de nos atormentar por causa de palavras? - perguntou Eugnio.
   Simo agradeceu. Parecia perceber que o outro na verdade no tivera nenhuma inteno de tomar ares de protetor.
   - Mas  que o senhor vive da Medicina, precisa ganhar...
   - As minhas necessidades so pequenas, posso viver com pouco. Agora s tenho uma ambio...
   Calou-se, como se parasse  beira de uma confisso.
   Simo esperava.
   - Bom - desconversou o outro. - Mande aviar a receita imediatamente e no deixe o velho fazer travessuras. Recomende-me  velha. Adeus!
   
   Chegando a casa, Eugnio encontrou l o Dr. Seixas, que estava sentado na sala de jantar de D. Frida, com Ana Maria em cima dos joelhos. Com as mozinhas aferradas 
nas barbas do mdico, a menina cantarolava:
   - ia o Pai Noel! ia o Pai Noel!
   Seixas ria a sua risada gutural e spera, sacudia as pernas, fazendo a menina saltar como se estivesse sobre o lombo de um cavalo a todo o galope.
   - Larga a minha barba, sua bruaquinha!
   - Bom dia! - exclamou Eugnio ao entrar. Seixas no respondeu.
   - De quem  essa carinha de sapo cururu? - perguntou ele puxando as bochechas de Ana Maria.
   -  do vov - respondeu ela puxando por sua vez as barbas do velho.
   Mas de repente Seixas ergueu-se, ps a menina no cho e gritou:
   - Seu Genoca, arranjei outro abacaxi p'ra voc. Temos que carnear uma rs na Santa Casa.
   - Quando?
   - Hoje, agora.
   - Ventre agudo?
   - Direitinho.
   Entraram num auto de praa. Seixas contou a histria. Tratava-se de uma mulher pauprrima, viva e me de cinco filhos. Morava na Colnia Africana e tinha sido 
durante algum tempo sua lavadeira.
   -  uma mulata velha, magra e escangalhada. Mas vamos ver se salvamos ela. P'ra qu, no sei?...
   - Agentar o choque operatrio?
   - Olhe... s vezes esses magros do cada surpresa na gente!
   Depois de curto silncio, Seixas tornou a falar.
   - Seu Genoca, quando ser que essa pobre gente que no pode pagar vai ter o seu hospital, a sua assistncia mdica decente?
   
   Coou a barba com gesto de irritao. Eugnio recostou-se no banco estofado do carro e disse:
   - Talvez um dia tenhamos a Medicina socializada...
   - Os nossos bisnetos. .. talvez - rosnou o outro.
   - Um grande hospital de urgncia, com um perfeito servio de ambulncia, todos os recursos da tcnica, muitos mdicos... - Foi falando como quem conta passagens 
de um sonho maravilhoso.
   Eugnio estava satisfeito consigo mesmo. J no lhe custava falar a linguagem humana. Alegrava-se por ver como nos ltimos tempos j pensava menos em si prprio, 
vivendo mais voltado para fora.
   Seixas mordia o cigarro em silncio, olhando para a rua.
   - E quando a Medicina estiver socializada - continuou Eugnio - s seguiriam a profisso mdica os que tivessem verdadeira vocao. Veramos mdicos com esprito 
mdico...
   - Dois malucos sonhando de olhos abertos dentro de auto de praa. ..
   - Quem sabe? Coisas mais difceis j o homem realizou.
   Seixas cuspiu para fora.
   - O homem  um animal cabeudo. Cabeudo e mal intencionado.
   - Mas, apesar de tudo, o senhor gosta do bicho homem. Confesse.
   - Sou como mulher sem-vergonha, que s gosta de homem que d bordoada nela. Em suma, o tipo do velho errado. - Jogou fora o cigarro. E, de repente, atirando-se 
para a frente, gritou: - Eh jovem! Mais depressa com essa joa.
   Voltou-se para Eugnio e prosseguiu noutro tom:
   - Ainda h muita coisa errada em matria de sade. Ainda ontem me apareceu no consultrio uma menina cheia de doenas. Por sinal era bem graciosa, a diabinha! 
Pensei que fosse " mulher de vida." Qual nada!  casada, seu Genoca, casada h dois meses. - Fez uma pausa para acender novo cigarro com os seus dedos amarelecidos 
de fumo e de iodo. - O homem casou cheio de porcarias. Uma barbaridade. O resultado  que ela perde o respeito ao marido e - adeus! -  meio passo dado para procurar 
um amante...
   - E os filhos, se vierem - perguntou Eugnio. - Nascem doentes, o pai no os saber educar em assuntos sexuais, porque na sua vez no teve quem o educasse. Os 
rapazes crescem, enchem-se de doenas que vo transmitir no futuro s esposas. E assim por diante, numa cadeia sem fim...
   O automvel parou em frente da Santa Casa de Misericrdia. Apearam-se. O Dr. Seixas pagou ao motorista. Subiram as escadas apressadamente.
   - E tudo por causa de um falso pudor - explodiu Seixas, j meio ofegante, ao chegar aos ltimos degraus. - O exame pr-nupcial obrigatrio podia cortar essa cadeia.
   Entraram no hospital, atravessaram o saguo, comearam a subir a escada que levava ao primeiro andar.
   - Convencionou-se que o exame pr-nupcial  uma coisa indecente, imoral...
   Chegaram ao primeiro andar.
   - Mas  preciso fazer alguma coisa! - berrou o Dr. Seixas. A sua voz ecoou no corredor triste. - Algum tem que comear!
   - Mas que  que ns podemos fazer? - indagou Eugnio. - No temos dinheiro, no temos influncia poltica. Tentar alguma coisa  tornarmo-nos suspeitos e corrermos 
o risco de ir parar  cadeia.
   - A vida j  uma cadeia. Mas ns podemos falar, discutir, contar essas misrias ao maior nmero possvel de amigos e conhecidos. Um dia,  possvel que algum 
sujeito importante leve a coisa a srio.
   Atirou o chapu para o cabide e foi tirando o casaco.
   Uma enfermeira aproximou-se.
   - Mande para a sala de operaes aquela sujeita que eu trouxe hoje.
   
   A interveno durou vinte e cinco minutos e Eugnio foi particularmente feliz. Operou com alegria, divertindo-se com as piadas ocasionais do Dr. Seixas, que o 
auxiliava. Teve a impresso de que estava cortando a carne de uma mmia. A pele da mulher parecia pergaminho velho.
   - Daqui a dez dias ela est no arroio batendo roupa - profetizou Seixas quando tiraram a paciente da mesa de operaes. - So uns animais! - acrescentou, para 
esconder a sua ternura.
   
   - Tenho outra surpresa para voc - disse o velho mdico no corredor.
   - Boa?
   - Boa por um lado, ruim por outro. Est aqui um doente que  seu velho conhecido e que quer ver voc...
   Eugnio sentiu um desfalecimento, pois a primeira imagem que lhe veio  mente foi a de Ernesto. Quis perguntar de quem se tratava, mas no teve medo.
   - Aqui - disse Seixas, parando diante de uma porta.
   Entraram. Era uma vasta sala, em que se enfileirava uma dzia de camas. Um cheiro pestilencial de corpos suados, de fenol e de roupas sujas pairava no ar. Estavam 
deitados ou sentados naquelas camas homens magros, amarelos e barbudos.
   Homens? Parecia antes pertencerem a um outro ramo do reino animal, um tipo intermedirio entre o macaco e o homem. Em alguns deles s os olhos tinham brilho. 
Devia ser o brilho da febre. Noutros j os olhos tambm principiavam a morrer.
   Alguns gemiam. Outros - os que se aproximavam da convalescena - comeavam a sorrir um plido e horrendo sorriso de dentes amarelos.
   Seixas parou diante de uma das camas e perguntou a Eugnio:
   - Conhece?
   Eugnio olhou, comovido. O doente que o amigo mostrava com a mo cabeluda era um homem calvo, de barba crescida pintalgada de prata, olhos midos mas vivos. Tinha 
um curioso ar de superioridade e, se por qualquer estranha razo se tornasse necessrio escolher por eleio um chefe para aquela sub-humanidade, via-se logo que 
os votos na certa seriam todos para aquele homenzinho, que se achava ali especado entre os duros travesseiros de fronha encardida e spera.
   - Florismal! - murmurou Eugnio. Aproximou-se da cama e apertou a mo do doente, que lhe mostrou os dentes midos e podres, num sorriso amigo. - Mas qu qu isso?
   Florismal fez um gesto manso com a mo de criana e falou com voz fraca mas digna:
   - So voltas da vida, voltas da vida.
   Eugnio sentou-se junto dele, fazendo um esforo desesperado para evitar que a sua repugnncia pelo fartum que o doente e a cama exalavam se lhe traduzisse na 
expresso do rosto.
   - Mas eu no sabia que o senhor estava doente. Como vai passando?
   - Estou bem, perfeitamente bem - respondeu Florismal com voz pausada, como um chefe de Estado que responde aos ministros que foram saber da sua sade. - E o doutor 
como vai? - indagou ele por sua vez.
   - No me chame doutor. . .
   - Oh! O seu a seu dono. - Ajeitou a coberta, abotoou a camisa. - Eu soube da morte dos velhos. - Comps o rosto numa mscara de compuno. -  a vida, Genoca! 
Posso chamar voc de Genoca? Pois . A vida s vezes  madrasta.
   Seixas aproximou-se da cama, tomou o pulso do doente, e fitando os olhos nele, entre agressivo e brincalho, perguntou:
   - Mas no fim de contas quando  que voc resolve esticar a canela?
   Florismal sorriu e com ar diplomtico respondeu:
   - Tenho estado parlamentando com a Morte, mas no chegamos ainda a um acordo.
   - . Voc vai acabar logrando ela.
   Florismal sorriu de orgulho.
   - Lbia no me falta.  o que todos dizem.
   
   Depois, ficando srio e assumindo uma atitude profissional, pediu:
   - Olhe, doutor, faa o possvel para me tirar deste hospital com urgncia. Tenho vrias causas l fora esperando por mim. Ouviu falar na morte daquele ricao, 
o Ribas? Pois vou pegar o inventrio dele... - Furou o ar com a mo estendida, num gesto muito macio. - J combinamos a percentagem, etc., etc.... Desta vez, fao 
a minha independncia.
   Quando Seixas convidou o amigo para sair, Florismal prendeu a mo de Eugnio na sua e perguntou-lhe quase sem segredo:
   - Genoca, quem foi Florismal? - Ficou sorrindo, numa alvoroada expectativa.
   Imediatamente, Eugnio se reviu na casa paterna, com nove anos, diante do Dr. Florismal de colarinho duro, casaco de mescla e calas de fantasia. Respondeu comovido:
   - Foi um dos doze pares de Frana.
   Uma luz de saudade passou pelos olhos do doente.
   - Bons tempos! -murmurou ele, apertando mais forte a mo de Eugnio e olhando para o teto. - Bons tempos! Mas deixe estar que lhes ho-de voltar. Ora se ho!
   No corredor, quase ao p da escada, Seixas contou que Florismal teria poucos dias de vida. E, como Eugnio voltasse para ele olhos interrogadores, esclareceu:
   - O corao do coitado no vale um nquel.
   Uma semana depois, Florismal morreu. Quando um novo dia clareou aquela sala triste, todos os sub-homens continuaram a gemer ou a sorrir os seus sorrisos de caveira, 
todos menos Florismal, que a morte surpreendera no sono. O seu rosto conservava a expresso de dignidade. Eugnio pagou-lhe o enterro, comprou-lhe uma sepultura 
modesta. Voltou do cemitrio pensando nos seus mortos. Era uma tarde de fim de Vero, a luz do Sol tinha uma doce qualidade de madureza, o ar era macio e levemente 
azulado. Eugnio sentia uma calma aceitao dos homens e das coisas. Tudo estava bem e ele no desejava mais nada alm da posse daquela paz interior que comeava 
agora a entrever. A morte no o assustava. A sua a sede de sucesso parecia extinta. J no sonhava mais com a glria e principiava a no ter medo da vida.
   Sentia um desejo de ternura, de bondade, de gestos mansos. Mas sabia tambm que aquele instante ia passar, que amanh haveria no ar, na luz do Sol, e na face 
das coisas um elemento qualquer de estranheza, de hostilidade, que havia de provocar nele outras reaes. Viriam momentos de fraqueza e de desnimo. Surgiriam dificuldades, 
motivos de irritao. Os seus nervos seriam mil vezes postos  prova. A dvida tornaria a entrar-lhe na alma. Mas Olvia ainda estaria na sua memria, para ajud-lo 
a vencer as crises, at que de novo viessem instantes preciosos como aquele, de pura aceitao, de harmonia, de paz.
   Quando chegou a casa, Ana Maria, que estava brincando no jardim, correu ao seu encontro e pendurou-se-lhe ao pescoo.
   - Que foi que tu me tsse?
   - Um beijo.
   - Ora! Bso no quelo.
   Eugnio inclinou-se e deu-lhe um beijo estralado nas bochechas e depois, erguendo-a nos braos, olhou-a bem nos olhos. Ana Maria estava ainda fresca do banho 
e a sua pele exalava um perfume suave e ingnuo de sabonete. Eugnio contemplou a cara redonda e sria, de franja negra, mida e lustrosa. E naquele minuto sentiu 
mais que nunca o quanto amava aquela criaturinha, que acontecera em sua vida como um milagre. Era um sinal de Deus - como lhe dissera Olvia.
   Entrou em casa com a filha nos braos.
   Toda risonha e alvoroada, D. Frida veio contar a Eugnio a ltima proeza da afilhada. Estava vermelha e saltitante, juntava as mos num gesto de quem vai orar 
e dizia:
   - Venha ver, venha ver o que  que a engraadinha fez. Venha ver uma vez.
   Arrastou Eugnio at  copa e, junto de uma mesa esmaltada de azul, ajoelhou-se. Dentro de uma caixa de sapatos estava aninhado um gatinho cinzento com malhas 
negras, uma das patas amarrada com uma tira de pano branco.
   - Veja s! - disse D. Frida, olhando do gato para Eugnio. - Mimi machucou a perninha dele e, sem ningum mandar, Ana Maria veio direitinha e botou gua na perninha 
do gato e amarrou com um paninho. Ela estava to quieta e engraadinha que eu vim na ponta dos ps pensando que era travessura. Pois imagine! Ach! Eu disse: que 
 que tu ests fazendo?  madrinha - ela disse - estou fazendo curativo no gatinho. A riqueza da engraadinha!
   Ana Maria segurou o rosto do pai com ambas as mos:
   - O pobe do gatinho falou: pode faz a inzeo, no di.
   Eugnio ficou srio, olhou para a filha e depois exclamou:
   - Sua mentirosa! Gato no fala.
   - Fala sim.
   - No fala.
   - Como foi que tu contou a histria do Gato de Bota que falava?
   Vencido, sem mais argumentos, Eugnio cobriu-lhe o rosto de beijos.
   No banheiro, Hans Falk cantava a velha valsa dos bebedores de cerveja. Anoitecia.
   Naquela noite Eugnio mais uma vez folheou o lbum de fotografias de Olvia. Via-a com onze anos, de cabelos compridos, ar assustado, vestidinho branco, com faixa 
presumivelmente azul na cintura cada, tristemente cada. Debaixo da fotografia uma data - 1918. Depois, um retrato dos quinze anos, de blusa branca, saia e boina 
escuras. Eugnio examinava aquelas fotografias, comovido, procurava parecenas com a Olvia que ele conhecera, estudava detalhes e, com os olhos j meio turvos, 
continuava a folhear. Havia uma srie de pequenas fotografias de Kodak. Cinco raparigas abraadas, Olvia no meio. Uma cena de piquenique. Olvia debaixo de uma 
rvore (1921) lendo um livro. Olvia trepada num muro. Olvia em primeiro plano, sorrindo. Eugnio examinou a fotografia. Teve um vago cime dos pensamentos que 
Olvia pudesse ter na hora em que tirara aquele retrato. Para quem sorria? De quem sorria? Como seria o seu mundo interior e exterior? Que paixes lhe fariam vibrar 
o corpo de dezoito anos? Quem era aquele rapaz de rosto oval e belo, olhos oblquos e boca petulante, que a fotografia da pgina seguinte mostrava? Um mistrio para 
Eugnio, desde a primeira vez que o vira. Por baixo do retrato havia um nome e duas datas: Carlos- 1921-1923. Pela centsima vez, Eugnio deteve-se diante da imagem 
do desconhecido, a fazer conjecturas. Olvia no tinha irmos. Nunca lhe falara em nenhum Carlos. Por que motivo estava tal fotografia naquele lbum de recordaes? 
Examinando-a mais de perto, verificava ainda mais uma vez que a sua superfcie esmaltada estava quebrada em muitos pontos, dando a impresso de que a fotografia 
havia sido massada por mo raivosa. Eugnio no se podia furtar a um sentimento de cime, pois tinha a desconfiana de que aquele Carlos estava ligado  parte escura 
do passado de Olvia. Sim, talvez fosse o homem que primeiro a tivera nos seus braos.
   Ainda com o lbum nas mos, recostou a cabea no respaldo da poltrona. Como Olvia devia ter amado aquele Carlos para se entregar a ele! Na sua mente formavam-se 
imagens odiosas, que queria espant-las, evit-las, mas era intil. Ele via aquela Olvia de dezoito anos nos braos de Carlos, via-a estremecer de prazer e chegava 
a ouvir confusamente as palavras de amor que ela murmurava. Insuportvel! No reconhecia a sua Olvia, a verdadeira Olvia, na figura que se movia em .seus pensamentos. 
Tornou a inclinar-se sobre o retrato misterioso e surpreendeu-se a odiar aquele homem que no conhecia. Ultimamente sentia uma doentia curiosidade com relao  
vida passada de Olvia. Havia escrito a vrias pessoas da vila de S. Martinho, perguntando se havia parentes vivos da famlia de Orlando Miranda e pedindo informaes 
sobre uma moa chamada Olvia Miranda, que estudara na capital, formando-se em Medicina, etc. Semanas depois vieram-lhe duas cartas quase ao mesmo tempo. O signatrio 
da primeira dizia ser dos moradores mais antigos do lugar e afirmava no ter a menor idia de quem fosse Orlando Miranda. No seria um engano, no se trataria do 
coronel Orlando Moreira? O signatrio da outra carta dizia que conhecera, sim, uma moa chamada Olvia, que tinha ido estudar na capital e que havia morrido afogada 
por ocasio do Centenrio. Eugnio rasgou as cartas, decepcionado. No era crvel que, numa vila pequena como S. Martinho, a famlia de Olvia no fosse conhecida. 
Mas se se tratasse de outra localidade? No era possvel. Lembrava-se perfeitamente de que Olvia lhe falava s vezes de S. Martinho, contava-lhe histrias, descrevia-lhe 
aspectos da vila, a fonte histrica em que Giuseppe Garibaldi e o seu cavalo beberam gua, a casa em que Bento Gonalves passara uma noite... Eugnio lembrava-se 
at de que, num dia de bom humor, ao sarem do Hospital do Sagrado Corao, onde Olvia acabava de fazer uma pequena operao, ele lhe dissera, numa reverncia brincalhona: 
"Abram alas para passar o orgulho de S. Martinho".
   Fechou o lbum. Tinha a impresso de que morreria de velho sem desvendar de todo o mistrio de Olvia. No conhecera em toda a sua vida criatura to humana na 
sua presena fsica, nos seus atos, nas suas palavras e nas suas intenes. Mas por outro lado o seu desprendimento, a sua falta de egosmo davam-lhe um carter 
inumano. No tinha parentes vivos. Pouco ou nunca falava no seu passado. Rasgara todos os papis que pudessem guardar lembranas desse tempo. S aquelas fotografias 
diziam alguma coisa dele...
   
   No Hospital, j no se falava no nome de Olvia. Dentro de alguns anos, o Dr. Teixeira Torres, Irm Isolda e as outras enfermeiras e empregadas a esqueceriam 
completamente. As pessoas a quem prestava socorro mdico, Olvia nunca dizia o nome, nunca fazia confisses. Mesmo os Falk, que tanto a estimavam, haviam-na tido 
em sua companhia apenas durante trs anos, com intervalos de ausncia. Entre o casal e a pensionista, nunca houvera troca de confidncias. Ana Maria j quase no 
se lembrava da me. Eugnio e os padrinhos falavam-lhe nela, contavam-lhe histrias do seu amor, da sua bondade, mostravam-lhe o lugar que ela ocupava  mesa, diziam 
que l do Cu ela estava sorrindo para a filha querida. Mas na memria de Ana Maria decerto a sua imagem ficava cada vez mais apagada.
   Eugnio olhou em torno do quarto. Olvia estava presente - ele sentia - naqueles mveis, naqueles objetos, no perfume que andava no ar. Estava presente nas suas 
cartas, no prprio brilho das estrelas e tambm na alma e no sangue de Ana Maria.
   Mas dentro de algum tempo - sentia Eugnio dolorosamente - ela seria apenas um smbolo, um nome sem corpo, um rosto sem feies.
   Foi deitar-se impressionado. E naquela noite, sonhou que Olvia tinha sido apenas um sonho em sua vida.
   
   No princpio daquele Inverno, Eugnio verificou com surpresa que a sua clientela aumentava de maneira notvel. Divulgada principalmente nos crculos da classe 
mdia, a notcia do seu rompimento com Eunice dera-lhe uma espcie de popularidade. Um homem que deixava a cmoda posio de marido de uma moa rica, para voltar 
a ser simples mdico de cinco mil ris a consulta, era qualquer coisa de raro e quase milagroso. Criavam-se lendas em torno do seu nome. Os pobres procuravam-no 
porque sabiam que o Dr. Eugnio os atenderia gratuitamente. Os moos preferiam aquele mdico de trinta anos para lhe confiar a soluo dos seus problemas sexuais 
e a cura de molstias vergonhosas, porque "vocs sabem, ele  moo e compreende essas coisas". Seixas ouvira uma das suas clientes que certa vizinha lhe dissera 
ir consultar com Eugnio "porque  um moo to simptico, assim to... to no sei como... quero dizer... a gente fica logo com confiana nele". As idias de Eugnio 
relativas  socializao da Medicina valeram-lhe uma vasta clientela de operrios e de simpatizantes do socialismo, que o procuravam com um ar confiado e amigo de 
quem diz: "O senhor  um dos nossos". E atravs dos primeiros amigos e admiradores que ia conquistando na nova vida, Eugnio encontrou os primeiros inimigos e detratores.
   Um dia, Seixas entrou intempestivamente no consultrio e foi logo dizendo:
   - O Dr. Eugnio Fontes est ficando importante. J andam falando mal dele.
   - Quem? - indagou Eugnio, que estava sentado  mesa, fazendo anotaes numa ficha.
   - Ora quem! Honrados e distintos colegas...
   - Est claro que no podia ser de outro modo. De que  que me acusam?
   Seixas sentou-se na beira da mesa e comeou a brincar com o corta-papel.
   - Dizem que voc  comunista.
   Eugnio sorriu, ergueu-se e foi colocar a ficha no ficheiro de ao.
   - Sempre as palavras! Comunista, socialista, fascista... como se elas tivessem algum sentido separadas dos fatos. - Empurrou a gaveta do arquivo com fora. Paf! 
- Que mais eles dizem?
   - Que voc quer a Medicina socializada porque tem mentalidade de funcionrio pblico.
   Eugnio tornou a sentar-se, recostou-se na cadeira, cruzando os braos.
   - E que voc foi posto para fora da firma Sintra porque deu um desfalque...
   Eugnio no pde evitar que o seu desagrado, a sua surpresa e uma sombra de clera se lhe refletissem no rosto.
   - Quem foi que disse isso?
   O outro encolheu os ombros.
   - Voc sabe que nunca aparece quem disse... Vem uma pessoa com ar amigo e conta que algum lhe falou que um certo fulano andava dizendo... No fim de contas, ningum 
disse nada, mas o boato fica.
   
   Eugnio consultou o relgio, ergueu-se, tirou o avental e foi lavar as mos.
   - Parece mentira. .. - comeou a dizer.
   - No ligue importncia. Isso  sinal de que voc est subindo.
   - Mas no se trata de subir, eu no quero subir no sentido que em geral se d a essa palavra. Quero fazer alguma coisa de til. S peo que me deixem em paz. 
Em paz!
   Estava ferido. Mas de leve. E a dor dessas feridas dava-lhe uma espcie de estranho gozo. Ele tinha de sofrer, precisava de sofrer.
   - Que  que voc quer? Quem tem medo de se molhar no vai pra chuva.
   Eugnio vestiu-se, apanhou o chapu e convidou o amigo para sarem.
   Na rua, depois de caminhar alguns passos em silncio, Seixas perguntou:
   - Como vai a minha neta?
   -Ah! Vai muito bem. Ontem, perguntou-me por onde andava o "vov babudo".
   Seixas sorriu, mas os bigodes esconderam-lhe o sorriso.
   - Que criana aquela, seu Genoca! Tem coisas que deixam a gente pensando... - Sacudiu a cabea lentamente ao passo que seus olhos exprimiam saudade e ternura. 
De repente, porm, mudou de tom. - No fique muito orgulhoso. A Ana Maria puxou mas foi pela Olvia.
   
   Eugnio imaginou Olvia a caminhar a seu lado. E desejou ardentemente, dolorosamente, a sua presena fsica. Era enervante senti-la daquela maneira impalpvel, 
pois havia momentos em que ele se lembrava apenas das suas idias e no da sua imagem, e isso no fim dava-lhe a sensao de que Olvia nunca passara de uma abstrao.
   Seixas apertou-lhe o brao. Pararam.
   - Veja s esse bicho.
   Estavam na frente do "Megatrio". Eugnio olhou. O edifcio subia assustadoramente.
   Os dois amigos ficaram por alguns segundos em absoluto
   
   - P'ra qu essa bruta casa? - perguntou Seixas. - P'ra qu?  a mania de imitar as coisas estrangeiras, sem nenhuma necessidade. Coisa mesmo de bugre. Com esse 
dinheiro, seu Genoca, quanta coisa til se podia fazer. ..
   - Um grande hospital, por exemplo. . .
   - E a todas essas os aluguis sobem...
   Pausa. Seixas fungava.
   - Voc tem visto o maluco? - perguntou.
   - O Filipe? Faz mais de um ms que no falo com ele.
   - E a Dora?
   - Anda por a, sempre s voltas com o namorado.
   Seixas soltou um ronco em que exprimiu o seu descontentamento, a sua desconfiana e os seus maus pressgios.
   - Qualquer dia aparece grvida.
   - Eu no acho que...
   Seixas fez um gesto de impacincia:
   - Mas que  que voc quer mais que eles faam? So moos, desejam-se e andam soltos. Casar no podem. O pai da menina no tem tempo para se preocupar com ela. 
A me  uma vaca. Vaca? Vaca ao menos tem a sua utilidade, amamenta os bezerros, d leite pros filhos dos outros. Que  que voc quer que eles faam? Desde que o 
Mundo  Mundo as coisas so assim.
   - E ser que ns, ns, no podemos fazer alguma coisa por eles?
   Seixas contemplou Eugnio por um instante, com olho hostil.
   - Ns? - Cuspiu o cigarro na sarjeta. - Ns no podemos nem com as nossas calas.
   
   Por aqueles dias, Eugnio teve em mos um caso impressionantemente pitoresco. Chamado a casa de um antigo funcionrio pblico, foi recebido  porta por sua esposa, 
que lhe disse, aflita:
   - Doutor, eu chamei o senhor para ver o meu marido. Faa o favor de entrar. Mas d o chapu. Por aqui...
   Introduziu Eugnio na modesta sala de visitas. Uma moa magra e sardenta estava sentada no sof de mos dadas com um rapaz plido, de uma magreza doentia. Eugnio 
cumprimentou-os discretamente com um sinal de cabea. A dona da casa fez apresentaes sumrias.
   
   - Minha filha e meu futuro genro.
   - Muito prazer - murmurou, Eugnio.
   A moa sacudiu a cabea oxigenada. O rapaz resmungou uma palavra curta.
   - Sente, doutor, tem cadeira - convidou a mulher. Tinha um modo desagradavelmente spero de falar e seus olhos, de um cinzento esverdeado, no inspiravam confiana.
   Eugnio sentou-se. Noivo e noiva fitaram os olhos nele.
   - O meu marido  funcionrio do Tesouro, doutor. Foi sempre um homem muito calmo, nunca teve doena sria. Pois diz que agora de repente, d uma coisa no pobre! 
Foi assim: h dias que tnhamos notado uma mudana nele, no foi, Jandira? - A filha confirmou com um sinal de cabea. Pois . O Trajano no anda bom, pensei eu 
c comigo. Quando foi ontem, ele se fechou no quarto e ficou l mais de uma hora. O senhor sabe o que era que ele estava fazendo? Pois eu lhe conto. Estava arrumando 
as malas. Arrumou tudo, doutor. Para que  que tu arrumaste a mala? - digo. Ele nem gua. Foi para a escrivaninha e comeou a tomar notas. Depois levantou-se e mostrou-me 
o papel. - Olha, Ernestina (Ernestina sou eu), devo tanto p'r Almeida, tanto pro alfaiate, o Garcia da repartio deve-me 45.000 e a aplice do meu seguro est 
na gaveta da direita. - Mas que  isso, Trajano? - Ele nem gua, sempre srio. A primeira coisa que me veio foi que ele se ia matar. Comecei a cuidar dele sem dizer 
nada. At que finalmente hoje de manh o Trajano mandou chamar a Jandira e o Ricardo, meu filho, e quando nos viu todos aqui na sala disse assim: olhem, vocs tomem 
conta de tudo, que vou-me embora. - Mas p'ra onde Trajano? - Vou-me apresentar ao diretor do hospcio. Estou louco. S quero que me botem na primeira classe, no 
se esqueam de pagar todos os meses. - Doutor, o senhor imagina como ns ficamos. O Ricardo nem ligou, o sem-vergonha. Mas a Jandira ficou to nervosa... o senhor 
nem faz idia. Felizmente veio o seu Licurgo, o noivo dela, e disse que a gente devia chamar o doutor.
   Calou-se, botou a mo espalmada sobre o peito ofegante.
   - Onde est o seu marido? - perguntou Eugnio.
   - Est no quarto, deitado. Diz que amanh de manh vai se apresentar no hospcio. O senhor pode calcular o meu estado. O pobre do Trajano, sempre to gua-morna 
e de repente d essa coisa nele. Por favor, doutor, v ver o que .
   Eugnio encontrou um homem baixo e calvo, de fisionomia simptica e ar tranqilo.
   - Boa noite, seu Trajano - disse ele como se cumprimentasse um velho conhecido.
   O outro sentou-se na cama, firmou a luneta no nariz examinou o rosto do mdico, como para ver se o conhecia, e depois respondeu:
   - Boa noite. Faa o favor de sentar-se.
   Mostrou-lhe uma cadeira ao p da cama. Eugnio sentou-se.
   - Que  que h com o senhor, seu Trajano?
   - Comigo? Nada, no h nada.
   - Ouvi dizer que o senhor vai-se internar no hospcio...
   O velhote sacudiu a cabea de mansinho.
   - Vou, sim senhor - declarou, humilde e macio.
   Eugnio assumiu uma atitude paternal.
   - Mas no  possvel. Como  que um homem so como o senhor vai-se meter num lugar desses?
   - Eu estou louco. O senhor  o mdico que a Ernestina chamou, no ? Pois eu estou louco. Alis no  de hoje. Sempre estive louco.
   Eugnio sorriu, aproximou mais a cadeira da cama, bateu no joelho de seu interlocutor.
   - Venha c. Conte a sua histria.
   Um sorriso de mofa animou por um segundo o rosto do velho.
   - Estou com sessenta anos, seu moo, e sempre procurei ser um homem decente. S de funcionalismo pblico tenho trinta e cinco na cacunda, o senhor veja bem. Podia 
ser pelo menos chefe de seco. . Mas no sou. Podia ser, novos passaram por cima de mim, subiram e hoje esto ganhando o dobro do que eu ganho. Isso no  nada. 
Nunca perdi ponto, s falto ao trabalho por doena grave. Nunca aceitei gorjeta, acho que um funcionrio tem obrigao de atender a todos com presteza. Que foi que 
arranjei com isso? Nada. Os malandros subiram. Eu fiquei. V vendo bem. Aqui em casa nunca tenho razo. Procuro ser bom marido, bom pai... mas quem foi que disse 
que me do importncia? Me censuram porque ganho pouco, porque no me aumentam o ordenado, porque no pego no bico dos chefes. Dizem que no me mexo, que sou um 
banana, um trouxa, no sei mais o qu...
    hora do almoo e do jantar, azucrinam-me os ouvidos com conversazinhas indiretas, diz-que-diz-que. Porque a Fulana tem um refrigerador, porque o Sicrano comprou 
um auto, porque a filha no sei de quem tem um vestido assim ou assado. Um inferno! Metem-se em despesas, inventam modas e no fim do ms empurram-me p'ra cima do 
credor e eu  que tenho de inventar desculpas. Desmoralizam-me na frente das visitas. Ningum se lembra que eu ando com as calas lustrosas no traseiro, que trabalho 
como um burro, que no tenho vcios, que... que...
   Fez uma pausa. Suspirou de mansinho. Depois, mais calmo:
   - Pois . Agora temos o caso da Jandira. A Jandira  uma menina feia e pobre, o senhor decerto j a viu. No havia jeito de arranjar noivo. Um dia apareceu esse 
magricela, o seu Licurgo, tuberculoso declarado. Eu fui contra o noivado. O senhor compreende, o rapaz est mal,  doente, ganha pouco. Casam e amanh ele pega a 
doena na mulher, os filhos nascem uns chavecos e, adeus, tia Chica!, misria bate na porta deles.
   Pois quase me deram pancada quando eu falei que no queria o casamento. Bom. Isso no  nada. Converso com os meus amigos sobre coisas da vida. Eles pensam dum 
jeito e eu penso de outro. Eles acham que o Mundo  dos espertos e dos velhacos. Eu acho que um sujeito precisa antes de tudo ser decente. As nossas opinies nunca 
combinam. Me chamam de trouxa. E o pior  que me fazem de trouxa. Me pedem dinheiro emprestado e nunca mais pagam. Quando protesto contra alguma patifaria, eles 
do risadas na minha cara e dizem que sou um tipo que se no usa mais. Um dia destes, lendo nos jornais a maluqueira do Mundo: notcias de desfalques, roubos, patifarias, 
etc.... comecei a perguntar a mim mesmo se no fim de contas o maluco no era eu... Os ladres andam soltos, sobem na vida. Os caloteiros sem-vergonha levam a vida 
de lorde, tm crdito em toda a parte. ... Eu estou louco. Louco varrido, seu moo. - Cruzou os braos, entortou a cabea e olhou para Eugnio com ar interrogador. 
- Como  que s aos sessenta anos  que descubro isso? Mais um sinal de que a loucura, da braba, mesmo. - Pausa. Suspirou de leve. - Pensei ento num plano que estou 
executando tintim por tintim.
   
   Arrumei as minhas coisas, deixei em ordem os meus papis e vou-me meter num hospcio. Tenho esperana de encontrar l gente que me compreenda. Pode ser que na 
casa dos malucos um dia eu chegue a ser autoridade, encontre algum que me oua, me atenda, concorde comigo.
   Eugnio sacudiu a cabea, sorrindo. Bateu no joelho do homem e disse:
   - Seu Trajano: chamaram-me para atender o senhor. Mas no posso.
   - E porqu? - perguntou o homem com infinita doura na voz e no olhar.
   - Porque eu tambm estou louco.
   O funcionrio ps-se em p de repente:
   - O senhor est mas  brincando comigo! O que eu lhe disse  srio, muito srio, a coisa mais sria de toda a minha vida.
   - Eu sei, eu sei...
   - O senhor pensa que me pode impedir de fazer o que eu quero? Est muito enganado.
   Exaltava-se, fazia gestos desordenados.
   - Fao porque fao e porque fao, est ouvindo? - Bateu no peito. - Sou um pobre homem derrotado, sacrificado, desmoralizado. A mulher no me ouve, a filha no 
me ouve - fazia a enumerao batendo com o indicador da mo direita nos dedos da esquerda -, o chefe da seco no me ouve, ningum me ouve. Sou um zero  esquerda. 
Mas neste corpo velho, estragado, est ouvindo? Nesta carcaa desgraada, quem manda ainda sou eu! Fao dela o que bem entender.  a minha vingana. Vou pro hospcio, 
vou pro hospcio e vou pro hospcio!
   Estava todo trmulo, os olhos tinham uma luz estranha.
   Eugnio j no sorria. Com a testa franzida, ele lutava com a prpria perplexidade, sem saber se aquele homem era um humorista, um ator, um louco ou as trs coisas 
juntas.
   
   Entrou no consultrio pelo brao do marido. Estava quase cega de ambos os olhos. Era uma mulher baixa, de expresso humilde e tristonha. Via-se que tinha sido 
bela, mas que algum mal prolongado lhe devastara o corpo, destruindo-lhe as feies, manchando-lhe e enrugando-lhe a pele, deixando-lhe as carnes flcidas. O marido, 
homem de aspecto neutro, explicou o caso em poucas palavras e extremamente constrangido. Eugnio comeou a fazer perguntas. Teria ela na famlia algum caso de cegueira? 
Desde quando comeava a notar que perdia a viso? As respostas vinham-lhe lentas e quebradas, ora da mulher, ora do marido.
   Eugnio voltou-se para o homem.
   - O senhor vai-me fazer o favor de passar para a sala de espera.
   O outro quis protestar:
   - Mas, doutor...
   Eugnio empurrou-o com delicadeza na direo da porta.
   -  indispensvel. S uns dez minutos...
   Quando se viu a ss com a mulher, Eugnio voltou-se para ela e sem o menor prembulo soltou a pergunta brusca:
   - Quando foi que fez o aborto?
   Ela titubeou, gaguejou e respondeu atarantada:
   - Faz. . . faz trs meses.
   Rpido, implacvel, sem dar  interlocutora tempo para se refazer, Eugnio tornou a perguntar:
   - Quantos abortos j fez? Responda com franqueza. Pense em que pode ficar irremediavelmente cega.
   Os lbios de mulher tremeram, as suas mos apertaram nervosamente o fecho niquelado da bolsa.
   - Dez - balbuciou.
   Eugnio soltou profundo suspiro.
   Tinha de entregar a paciente a um oculista.
   Mas para onde devia mandar o marido?
   
   Era um homem alto, espigado, de maneiras distintas e devia ter pouco mais de quarenta anos. Vestia-se com muito apuro, as mulheres admiravam-no, o seu nome andava 
ligado a aventuras amorosas, a confusos rumores de adultrio. Eugnio conhecia-o de vista, dos tempos em que freqentava as altas rodas da cidade. Ele passeava pelos 
clubes e pelas festas as suas roupas bem cortadas, as suas maneiras de gentleman e a sua aurola de Casanova.
   Eugnio ficou surpreso ao v-lo entrar naquela tarde, inesperadamente no consultrio. Sentou-se na cadeira que ele lhe ofereceu, cruzou as pernas e principiou 
dizendo que tinha relaes com os maiores mdicos da capital, mas que no os procurara justamente por isso. O seu caso era delicado, de ordem muito ntima; ele preferira 
procurar um mdico fora do crculo das suas relaes. Passara pelo edifcio, vira a placa, entrara levado por um impulso. Traou uma rpida autobiografia. Falava 
com palavras precisas e medidas. Seu rosto era triste. Disse o que sentia de uns tempos quela parte: debilidade geral, dor nas costas, falta de memria, tremor 
das mos, vista fraca e uma quase permanente sensao de angstia. Por fim, ao cabo de breve relutncia, confessou:
   - Por mais absurdo que parea, doutor, todas as noites tenho na minha cama em sonhos as mulheres mais bonitas da cidade. So dez, quinze, vinte... Amanheo esgotado, 
deprimido. J tenho medo de dormir. s vezes, levanto-me, fumo, caminho no quarto ou saio, fao tudo para espantar o sono.
   Por alguns instantes, Eugnio lutou com o prprio embarao. Era uma confisso inesperada.
   - Com que freqncia o senhor procura mulheres na realidade para o ato normal?
   Antes de responder o homem tirou do bolso traseiro das calas uma cigarreira de prata com monograma de ouro. Ofereceu um cigarro a Eugnio, que recusou com um 
gesto polido, acendeu outro e, inclinando-se para a frente, confessou:
   - A  que est o pior, doutor. J no posso procurar mulheres, com medo do fracasso.
   - Mas trata-se apenas de medo, de desconfiana, ou...?
   O outro sacudiu a cabea numa vagarosa negativa, fitando os olhos na janela com uma expresso vaga.
   - No. Na realidade j fracassei uma vez. Foi um caso embaraoso que me deixou muito envergonhado. Depois disso...
   Calou-se. Eugnio sentiu um drama, uma longa e complicada histria por trs daquelas palavras.
   -  horrvel, doutor. Se isto continua... eu...
   Tirou uma baforada de fumo; os seus olhos tinham um brilho ansiado e o cigarro ardia-lhe nos dedos trmulos.
   
   Numa manh de domingo, Eugnio foi a casa de Seixas busc-lo para um passeio a p. Encontrou-o ainda na cama e, enquanto se vestia, ficou a conversar com a mulher 
dele, que era uma senhora magra e alta, encurvada e tranqila.
   - O pobre do Seixas - disse ela com a sua voz branda, quase inaudvel - passou uma noite horrorosa. Teve uma chamada de madrugada e voltou tossindo. - Puxou a 
manga do casaco de Eugnio, como para lhe contar um segredo, e balbuciou um pedido: - Faa ele tomar uma colher de xarope, sim?
   - O seu marido  pior que uma criana, D. Quinota. E, depois, no acredita em mdicos nem em remdios.
   A mulher franziu o nariz e assim com um ar de quem tenta          convencer uma criana replicou:
   - Mas, com jeitinho, o senhor arranja, no ?
   Naquele momento, a filha do Seixas, uma jovem trintona e feia, entrou trazendo uma bandeja com duas xcaras de caf e um prato de bolinhos.
   - Coma esses bolinhos - recomendou D. Quinota - que fui eu mesma que os fiz.
   Seixas fazia barulho no quarto de banho; tinidos de vidros, batidas de madeiras, bufidos, pigarros, roncos, rangidos, gluglus de gua... Era como se um macaco 
estivesse solto l dentro.
   Tomando o caf em goles midos e mastigando os bolos, Eugnio olhava a sala. Num vaso, em cima da mesinha de centro, via-se um lindo ramalhete de flores frescas 
e coloridas. Era um contraste com a tristeza daquela sala antiga e sem brilho.
   - Aposto como voc est estranhando estas flores - disse-lhe Seixas ao entrar, enfiando ainda uma das mangas do casaco. - No sou um homem dessas besteiras. A 
Quinota tambm no morre de amores por flores. Mas eu j lhe conto a histria toda...
   Tomou de p e  pressa o caf que a mulher lhe deu. Empurrou Eugnio para a porta. Saram. A manh estava fria e nublada.
   - Aquelas flores esto ali em cima da mesa da sala porque existe nesta cidade um homem que no quer ficar esquecido depois de morrer.
   Eugnio olhou para o amigo, sem compreender.
   - Todos os sbados vem um guri trazer um ramo de flores muito bonitas p'ra minha mulher, da parte do Dr. Ilia Dubov.
   
   - Aquele mdico judeu-russo que foi operado pelo Teixeira Torres a semana passada?
   - Esse mesmo. Eu at fao troa com a Quinota, digo que o russo quer conquistar ela. - Soltou uma risada. - Um dia destes levei minha mulher ao hospital e o Dubov 
disse assim p'ra ela: "Olhe D. Quinota..." (Ele tem um jeito engraado de falar, pronuncia as palavras com cuidado, assim como se tivesse medo de morder as slabas...). 
"Olhe, D. Quinota, ele disse, as flores que eu lhe mando no so dadas, so emprestadas, ouviu? Quando eu morrer a senhora tem de levar todos os sbados um bouquet 
bem bonito na minha sepultura, sim?  uma dvida sagrada." - Seixas calou-se, coou a barba, rosnou a sua risada baixa e rouca. - Veja, Genoca. O pobre homem no 
se conforma com o esquecimento depois da morte.  sozinho no Mundo. No tem mulher, nem filho, nem amigos... Morre... e adeus! Ningum nunca mais se lembra dele, 
 como se o miservel nunca tivesse existido. Gosta da vida, apesar da vida ter sido to ruim p'ra ele. Ah! Se voc soubesse a histria desse homem! Uma noite destas, 
estive at tarde ao p da cama dele. Meti-lhe uma boa dose de morfina e o Dubov ficou calmo e desatou a lngua.
   Acendeu o cigarro e comeou a contar:
   - Pois o Dr. Ilia Dubov nasceu em Odessa, formou-se muito jovem, herdou uma pequena fortuna e foi feliz na clnica. Casou com uma jovem lindssima, dessas que 
chamam a ateno quando passam na rua, ou quando entram num salo. O pobre do Dubov  um bicho de feio. Voc j o viu? Pois vale a pena. Imagine um macaco cinzento 
e inchado, com bigode de piaaba... No acredito que o Dubov aos vinte e poucos anos fosse menos feio do que hoje aos cinqenta e dois. Que foi que a mulher viu 
nele? No sei. As mulheres s vezes tm cada idia...
   - De certo era uma jovem pobre, o Dr. Dubov tinha dinheiro, uma bonita posio...
   - Bom. O fato  que casaram. O Dubov mostrou-me o retrato dela. Que pedao, seu Genoca!  uma dessas belezas de deixar um cristo tonto.
   
   -  ou era?
   Seixas encolheu os ombros.
   - Era... Hoje deve estar escangalhada, se  que os vermes j no jantaram aquelas carnes. Mas vamos ao que interessa. Casaram e o Dubov viveu um ano no Paraso. 
Eu queria que voc visse a cara dele quando me contou isso... Ficou todo derretido, os olhos encheram-se de lgrimas e ele mexeu tanto com a boca desdentada que. 
acabou quase engolindo o bigode.
   Calou-se para atravessar a rua. Ao chegarem  calada fronteira, continuou:
   - Depois veio a Guerra. Dubov foi para a frente como capito-mdico e comeu o po que o diabo amassou. - Riu para dentro. Os seus olhos apertaram-se, gaiatos. 
- Ele descreveu-me os combates, sacudia os braos de um lado p'ra outro, enchia as bochechas de vento e depois, muito srio, fazia: pum! pum! Pois muito bem. Quando 
rebentou a Revoluo, Dubov estava de licena em S. Petersburgo. Conseguiu fugir milagrosamente com a mulher. Levaram duas maletas de mo, as jias dela e algum 
dinheiro. Passaram para a ustria, foram morar em Viena. Dubov fez boas relaes com alguns mdicos de fama, andou pelos hospitais e no sei mais o qu. O tempo 
passou-se e o diabo do homem firmou-se, fez nome, fez clnica e fez dinheiro. A mulher, essa ento causava sucesso nos lugares onde aparecia. A gente pode imaginar... 
uma jovem bonita pelo brao de um orangotango... Mas a vida em Viena estava dura depois da guerra. Muita pobreza, muita tristeza, muito nervosismo. A mulher do Dubov 
de uma hora p'ra outra deu p'ra ficar triste, triste e p'ra emagrecer... O coitado do Dubov, desesperado, chamou os melhores mdicos de Viena p'ra tratarem dela. 
Ningum acertava com a doena. Acho que at o Freud entrou na dana.
   Seixas fez uma pausa. Dobraram a primeira esquina, na direo do rio.
   - Aonde  que vamos?
   - Que tal um passeio pela beira do cais? - sugeriu Eugnio.
   Seixas sacudiu a cabea, concordando, e retomou a histria:
   - As coisas estavam nesse p quando um dia a Madame Dubov, folheando uma revista francesa, viu a figura de um oficial da Legio Estrangeira encostado a uma palmeira 
ou coisa que o valha. Foi a conta. Desatou o choro. Mas que  que tu tens, minha jia? - perguntou o Dubov. A mulher disse em soluos que estava com saudade do deserto. 
Mas tu nunca foste ao deserto, joiazinha! (Eu queria que voc visse como o Dubov me contou essa passagem...). E a joiazinha confessou que desde menina tinha desejos 
de ver um legionrio em carne e osso. Queria ir para Marrocos! Quero porque quero e porque quero! O pobre do Dubov ficou atordoado e disse que sim, esperando que 
aquele desejo esquisito passasse com o tempo. Qual nada! Dali por diante no houve jeito de tirar aquela mania da cabea da jovem. Resultado: fazem as malas e embarcam 
p'ra Marrocos.
   - E Madame Dubov consegue realizar o seu sonho. V um legionrio, verifica que  um sujeito barbudo, suado, rude e mal-cheirante...
   - Espere. Madame Dubov ganha vida nova em Marrocos. Faz sucesso no hotel, nos cafs, nos teatros... O pobre Dubov satisfaz-lhe todas as vontades. E um dia, ao 
erguerem-se da mesa de um caf, Madame Dubov deixa cair as luvas. O marido, pesado e desajeitado, abaixa-se, gemendo, pra apanhar-lhas. Muito tarde! Um oficial 
da Legio Estrangeira, ligeiro como um serelepe, salta da sua cadeira, apanha as luvas, entrega-as a Madame Dubov, bate os calcanhares, faz uma continncia e sorri.
   - Romance!
   - No me estrague a histria. Madame Dubov agradece, sorri e sai pelo brao do marido. Dois dias depois, voltando de um hospital ou de coisa parecida, Dubov encontra 
a mulher e o tal oficial tomando ch na mesma mesa, no terrao do hotel. Fica todo atrapalhado, a mulher levanta-se e faz as apresentaes. Tenente Fulano, Dr. Dubov, 
etc., muito prazer. Bom. Deixa ver. No me lembro bem do que aconteceu depois. Estou com uma memria cachorra. Ah! O Dubov passa uns dias distrado nos hospitais 
e em conferncias e uma tarde recebe a visita do tenente da Legio, que parece muito nervoso. P'ra voc avaliar melhor o que foi essa cena precisa saber que o Dubov 
 o sujeito mais delicado do Mundo, todo cheio de beija-mos, de mesuras, de curvaturas e essas bobagens todas. O tenente chega, bate os calcanhares e diz  queima-roupa. 
- "Dr. Dubov: tenho a honra de comunicar-lhe que estou apaixonado pela sua esposa". Dubov perde a fala, depois faz uma fora danada e consegue dizer: "Mas, meu caro 
tenente, meu caro tenente... " E no saa mais nada. O tenente estava na frente dele, muito plido, todo perfilado; aquilo parecia desafio pra duelo. Dubov caiu 
numa cadeira e disse: "C'est dommage! C'est dommage! Je... je" - nem me lembro que foi mais que o coitado disse. P'ra encurtar o caso. O oficial ia para Paris gozar 
licena. Foi. Foi e levou a mulher do Dubov, que deixou uma carta ao marido, pedindo perdo e dizendo que ia seguir o nico homem que tinha amado em toda a sua vida. 
Veja voc!
   - Folhetim, puro folhetim - murmurou Eugnio.
   - Pois  p'ra voc ver. Dubov ficou como um maluco. Foi tambm p'ra Paris, bateu cabea e por fim conseguiu saber que os fujes estavam parando num hotel da "Place 
de la Conmrde". Devia procur-los? Hesitou. Teve medo. Passaram-se os dias. Dubov ficara sabendo que sua mulher e o amante levavam uma vida de bomia desbragada, 
embriagavam-se de champanhe, viviam em cabars e teatros.
   Seixas fez uma pausa curta, cuspiu longe a ponta de cigarro e prosseguiu:
   - Sabe em que deu essa coisa toda? Prepare-se pro choque e no me chame de mentiroso. Pois o tenente meteu uma bala na cabea porque Madame Dubov fugiu p'r Amrica 
do Sul com um fabricante de perfumes, riqussimo.
   Olhou para Eugnio, para ver o efeito que o lance dramtico tinha produzido nele.
   - Incrvel!
   - No  mesmo uma coisa maluca? Imagine o estado do Dubov. Ficou atirado em Paris sem coragem p'ra nada. Caiu de cama, passou semanas assim meio inconsciente, 
com febre alta, variando. Logo que se pilhou de novo de p e com foras, tratou de procurar a mulher. No podia viver longe dela.
   Conseguiu saber que o perfumista estava no Brasil. Juntou os ltimos dinheirinhos e embarcou pro Rio. Chegou e ficou abafado pela paisagem, nunca tinha visto 
tanto Cu, tanto Sol, tanto verde. Mas j o perfumista e Madame Dubov haviam seguido pra Argentina. Dubov no tinha mais um nquel no bolso. Passou a levar uma vida 
miservel. Tentou clinicar. No fez nem p'r cigarro. Acabou mdico de bordo num desses vapores do Lloyd. O vapor ia at Porto Alegre. Porto Alegre era mais ou menos 
perto de Buenos Aires. O pobre homem tinha a vaga esperana de um dia encontrar a mulher.
   Seixas tornou a calar-se. Achavam-se j  beira do cais. O rio estava tranqilo. Pararam os dois e ficaram olhando para o casco negro de um navio.
   - Durante dois anos o Dubov andou de l para c, num desses barcos. Por fim cansou. Veio p'ra terra. Meteu-se no interior. Passou misria. Envelheceu. Se no 
tivesse encontrado amigos, morria de fome. Mas a coisa melhorou; no fim de contas o Dubov era um bom mdico e a clientela foi aparecendo. O homem ganhou algum dinheirinho 
e mudou-se p'ra c. Foi prosperando, prosperando, o tempo passou-se e hoje ele tem o seu p de meia.
   Continuaram a andar.
   - Quantos anos faz que a mulher fugiu?
   - Quase vinte.
   - E Dubov ainda se lembra dela?
   Seixas sacudiu a cabea afirmativamente.
   - E l est ele no hospital. Fez a quarta operao na bexiga. Desta vez no escapa. Veja o que  o Mundo. O Dr. Ilia Dubov nasceu em Odessa; aquela viagem a Marrocos 
foi a desgraa dele, e o infeliz vai deixar a carcaa em Porto Alegre.
   Houve um curto silncio, ao cabo do qual os dois amigos comearam a falar impessoalmente em viagens.
   Catorze dias depois, o Dr. Dubov morreu. Deixou o dinheiro que possua - cento e vinte contos de ris - para o Colgio Israelita, sob a condio de construrem 
com ele um novo pavilho em cujo prtico aparecesse bem visvel o nome por extenso do doador.
   Seixas e Eugnio foram ao enterro. Na pequena casa do cemitrio dos judeus deparou-se-lhes uma cena de um grotesco horrendo. No momento em que eles entraram, 
o cadver, sustido por dois homens, achava-se de p, completamente nu, com um tarbuche branco na cabea, visto como, segundo o rito israelita, ele no podia comparecer 
na presena de Deus com a cabea destapada, por causa dos pensamentos impuros.
   Era uma viso imprevista e chocante. As feies entumecidas tocadas de uma palidez cinzenta, os bigodes grossos e hirsutos, com aquela espcie de turbante branco 
na cabea, o Dr. Dubov lembrava o Rembrandt dos anos de velhice e decadncia. Ali estava ele, na sua ridcula nudez, inerme, sem nenhuma defesa, enquanto dois homens 
tristes lhe levavam o corpo, contando anedotas em yiddish.
   - Veja a que est sujeito um pobre homem depois que morre... - murmurou Seixas. E em seguida, num sarcasmo a que a piedade se misturava, exclamou: - Era ndio 
feio, meu Deus!
   Naquele dia, Eugnio voltou do cemitrio com a sua experincia enriquecida. No fim de contas, ele no era ningum e a sua vida parecia-lhe algo de insignificante, 
na sua falta de episdio e de aventura. O caso de Ilia Dubov deixara-o impressionado. Apesar da misria fsica e moral, aquele homem amava a vida. Era-lhe doloroso, 
insuportvel, desesperante, pensar no esquecimento absoluto. J que no lhe era possvel vencer a morte fsica, queria pelo menos uma garantia, por plida que fosse, 
de que o seu nome no se apagaria de todo da vida e da memria dos homens. D. Quinota levar-lhe-ia flores  sepultura por algum tempo. O seu nome no prtico do novo 
pavilho do Colgio Israelita seria para os homens indiferentes o lembrete de que existira no Mundo um certo Dr. Ilia Dubov, natural de Odessa.
   Eugnio levou dias para esquecer aquela viso. O morto nu, de p, a cabea enrolada no turbante improvisado, a barriga flacidamente cada, os braos e as pernas 
muito finos - o remate de uma vida de sofrimento, de amor, de aventura...
   E a lembrana dessa viso vinha-lhe de mistura com as palavras de uma carta de Olvia, em que ela lhe dizia: "Pensemos apenas nisto: no fomos consultados para 
vir para este Mundo e no seremos consultados quando tivermos de partir. Isto d bem a medida da nossa importncia material na terra. Mas deve ser um elemento de 
consolo e no de desespero".
   
   Uma tarde de sbado em que o consultrio estava fechado, Eugnio examinava o ficheiro. Cada ficha, longe de ser apenas um amontoado de nomes, sinais caractersticos, 
sintomas, etc., era tambm um drama, uma vida humana. E, relendo as fichas que tinha sob os olhos, ele relembrava as histrias ligadas a cada uma daquelas pessoas. 
Eram casos quase incrveis, que pareciam mais inveno descabelada de escritor de fico do que realidade palpvel, visvel, audvel. Agora que tantas criaturas 
haviam passado diante dos seus olhos, numa nudez ou seminudez que s vezes era fsica, outras apenas moral e no raro fsica e moral ao mesmo tempo - ele ficava 
com a impresso estonteadora de que um invisvel e caprichoso empresrio estava empenhado, ningum sabia por que misteriosa razo, em fazer... desfilar diante dele 
toda a numerosa comparsaria da vida. Nos seus tempos de mdico da Assistncia Pblica e de auxiliar do Dr. Teixeira Torres no Hospital do Sagrado Corao, tinha 
visto misrias, casos dolorosos, feridas do Corpo e do esprito. Mas desviava os olhos desses aspectos indesejveis da vida e fazia por esquec-los, to depressa 
isso lhe fosse possvel. Atendia os pacientes como quem cumpre uma obrigao repugnante. No lhes penetrava na intimidade. De resto, como mdico da Assistncia, 
s prestava os primeiros socorros, apoiando-se o mais possvel nos enfermeiros; como assistente do Dr. Teixeira Torres, nunca sentira o peso de nenhuma responsabilidade, 
muito poucas vezes se vira na conjuntura de resolver por si prprio. Durante quase dois anos exercera a Medicina sem nenhum interesse humano, sem o menor esprito 
profissional, e atormentado sempre pela conscincia permanente da sua inadaptao, da sua aparentemente absoluta falta de qualidades mdicas. Os trs anos que passara 
na casa dos Sintra foram como uma esponja embebida em perfume com que ele apagara da memria aquelas imagens desagradveis. Montara um consultrio - muito branco 
e limpo e intil para apaziguar a prpria conscincia, na tentativa de se convencer a si prprio e aos outros de que continuava a ter uma profisso liberal, de que 
ainda era o Dr. Eugnio Fontes, mdico e no simplesmente "aquele jovem que casou com a filha do Sintra". Aparecia-lhe uma clientela limpa, elegante e vaga, que 
tinha o cuidado de no sofrer de males vergonhosos e indiscretos. Os doutores de fama convidavam-no para ajud-los nas suas operaes. E esses convites - compreendia 
Eugnio - ele ainda os devia ao prestgio social do sogro.
   Mas agora tudo era diferente. Ele comeava a ser um mdico de verdade. Estava diante da vida. Atendia os seus clientes com toda a solicitude e s vezes tinha 
de forar a sua Natureza para ser delicado e no se encolher diante de criaturas que, pelo aspecto fsico ou pela natureza de seus males, lhe inspiravam repugnncia 
ou mal-estar. Fazia-lhes perguntas, interessava-se pela vida deles. Aos poucos ia perdendo os velhos temores de fracasso e aquela sensao de que os outros no tinham 
confiana nele. Atirava-se  clnica cheio de coragem e isso j era metade da vitria. Atravs da confiana abandonada dos que o procuravam, ele ia, dia a dia, adquirindo 
confiana em si mesmo.
   Vivia em contacto com a misria humana, entrava na intimidade dos seus clientes, era convidado a dar opinies e conselhos em torno de assuntos que muitas vezes 
escapavam s atribuies e mesmo aos conhecimentos de um simples mdico. Caa de surpresa em surpresa. Cada dia que passava trazia-lhe novas revelaes, aspectos 
desconhecidos e at mesmo insuspeitados da vida. E Eugnio que, atravs, de suas angstias, de um modo confuso achava que tinha esgotado quase todas as possibilidades 
dramticas da vida, surpreendia-se a descobrir novas formas de sofrimento, desconhecidas fontes de aflio e inquietude, complicaes desnorteantes, males sem cura, 
vidas irremediavelmente fracassadas, conscincias perdidas na loucura, almas submersas... Para ele aquilo valia como um descobrimento da vida. Os seus horizontes 
humanos alargavam-se. s vezes, diante de uma alma, de uma vida, de uma simples criatura de aparncia prosaica e pouco sugestiva, detinha-se ele, um pouco temeroso, 
como o mergulhador que antes de armar o salto para o mergulho se pergunta a si mesmo que grandes profundidades se escondero debaixo da superfcie aparentemente 
inocente do lago, que grandes segredos dormiriam no fundo daquela alma.
   Vinham at ele pessoas aparentemente normais que lhe confessavam apetites sexuais depravados. Maridos e mulheres - uns com cinismo ou ingenuidade, outros com 
constrangida relutncia - contavam-lhe segredos de alcova. Moos cheios de vergonha e de misria vinham mostrar-lhe as marcas que lhes deixara no corpo o amor comprado. 
As psicoses mais estranhas se lhe deparavam atravs dos casos mais variados e complexos. Eugnio sentia-se pequeno diante do drama tumeroso da vida. Tomava por ele 
interesse mdico e ao mesmo tempo humano. Como homem, sentia desejos de compreender, de ser til ao prximo, de confortar, de ajudar. Como mdico, queria dar o remdio 
que cura ou alivia. Na maioria das vezes, porm, ficava impotente, de braos cruzados diante de uma encruzilhada de onde partiam mil caminhos. Qual deles tomar?
   O trabalho era intenso, os momentos de folga faziam-se cada vez mais raros e curtos e ele mal tinha tempo de passar os olhos  pressa pelos livros de medicina. 
Como seria interessante, diante dos casos que surgiam, fazer clnica psicanaltica! As suas leituras neste sector da Medicina eram superficiais e fracas e ele sentia-se 
desencorajado para se embrenhar em estudos mais srios.
   "Mdico de gente pobre  como mulher de beco: faz tudo" - era o que Seixas costumava dizer-lhe com seu humor amargo sempre que ele lhe manifestava o desejo de 
se dedicar a uma especialidade.
   Os dias passavam. E a comparsaria continuava a desfilar. Aquelas criaturas acobardadas e doentes que iam ao consultrio de Eugnio exibir as suas feridas, comeavam 
a ter para ele o valor de uma cruel advertncia. Era como se algum estivesse todo o tempo a segredar-lhe: a carne  fraca e apodrece. Tu tambm apodrecers.
   -Mande entrar o seguinte, D. Amlia. - Era assim que ele dizia  sua auxiliar, quando o ltimo cliente lhe saa do consultrio.
   
   Havia homens que sofriam dores atrozes, provindas de males sem remdio. Arrastavam uma existncia miservel de sofrimento e deformao. Alguns estavam de tal 
maneira desfigurados pela doena que j comeavam quase a perder a aparncia humana. No se podia dizer que vivessem. Aquilo era uma baa e srdida imitao de vida. 
Mas, apesar de tudo, eles temiam histericamente a morte, apegavam-se ao Mundo, queriam viver.
   Entravam naquela sala branca, de aspecto frio, cavalheiros ou senhoras perfumados e bem vestidos, postura digna e s vezes at orgulhosa. Mal, porm, a porta 
se fechava e eles se viam a ss com o mdico, qualquer coisa em seu aspecto se quebrava, se dobrava, amolecia. As suas feies relaxavam-se, havia sbitas ou lentas 
mutaes de mscaras e as confisses surgiam espontneas ou arrancadas dolorosamente pedao a pedao pelo mdico. Revelavam-se misrias. Esboavam-se dramas em que 
o doloroso e o risvel andavam a par. Eugnio pensava nos sermes do rev. Parker, na capela do Columbia College. O bom homem berrava, batendo no plpito: " Eu bem 
vos conheo! Sois como sepulcros caiados por fora mas por dentro cheios de sujeira e podrido."
   A sua primeira reao diante daquela parada de dor e de misria fsica e moral tinha sido uma mistura de asco e de pavor. A vida era ignbil e assustadora. Sentira 
mpetos de fugir daquele espetculo desagradvel. Chegara a lembrar-se com uma sombra de saudade de outros tempos mais tranqilos. Desejara que passassem o mais 
depressa possvel as horas do consultrio. Mas depois,  medida que se escoavam os minutos e o homens, ele ia aceitando aquelas feridas e aqueles dramas e atravs 
deles ia perdendo o medo e a repugnncia  vida. Tudo era uma questo de hbito. Lembrava-se constantemente das palavras de Olvia. Ela pronunciara-as depois de 
uma operao em que ambos tinham ajudado o Dr. Teixeira Torres, no Hospital do Sagrado Corao: "S a vida ensina a viver, Genoca.  preciso a gente ver primeiro 
tudo que a vida tem de mau e de srdido para depois podermos descobrir o que ela tem de belo e de bom, de profundamente bom. " Era verdade - achava Eugnio agora. 
Ele sentia-se cada dia mais forte, mais rico em experincia.
   Aquela repugnante dana do consultrio, em torno do amor, da cobia, da inveja, do cime, do dio, da sensualidade, de todos os apetites baixos; aquele horripilante 
bal que lhe parecia sem plano nem regente e em que os danarinos eram gente de carnes e vsceras carcomidas - levaram-no a concluses desoladoramente materialistas. 
Aquilo positivamente no tinha sentido. E a morte era o apodrecimento total e absoluto. O fim.
   Mas atentando mais nas pessoas e nos fatos ela chegava  concluso de que o que via, o que podia palpar, cheirar e ouvir no era tudo. Havia algo de indefinvel 
para alm da matria. Ele no sabia bem o que era, tinha apenas uma idia imprecisa, nevoenta. Ou seria apenas o seu desejo de acreditar que, em alguma parte do 
Universo, Olvia continuava ainda a existir? Ou seria a sua relutncia em aceitar a destruio irremedivel da morte?
   Encontrava homens e mulheres resignados, cheios de f, de bondade, compreenso, desprendimento. E no meio das histrias srdidas e dolorosas havia atos de beleza 
e de coragem. E, depois, o mistrio estava em tudo, at nas coisas bvias e aparentemente simples.
   Pensava longamente em Olvia. Ela estava morta. Era concebvel que sua gentileza, sua bondade, seu esprito de tolerncia, sua coragem e sua incomensurvel f 
tambm tivessem apodrecido com a carne?
   No. Havia no Mundo uma imensa harmonia. Ele tendia a crer que todas aquelas misrias e conflitos desaparecessem dentro da grande harmonia universal. Tudo estava 
bem.
   Ele, como os outros, tinha um corpo mortal, uma carne sensvel. Era-lhe duro resignar-se ao sofrimento e  infelicidade. No entanto havia fatos irremediveis, 
inevitveis... Mas seriam mesmo inevitveis e irremediveis? E se um dia os homens de gnio e de boa-vontade descobrissem um meio de empregar todas as conquistas 
do engenho humano no sentido de minorar os males da humanidade? Talvez conseguissem achar trabalho para todos, po para todos, sade para todos ou pelo menos para 
a grande maioria. ..
   Ou no valia a pena reagir? E se valesse, qual seria o meio da reao, no caso em que o nosso corpo se consumisse sob a ao de mal incurvel? A reao pelo esprito, 
pela f? L vinha de novo alguma coisa que lhe parecia separada da matria. Tinha visto a f operar milagres. Conhecia a histria de um homem cego e mudo de nascena 
que aprendera a ler e escrever, dando uma finalidade til  vida. Havia lido a respeito de um paraltico que a f conseguira transformar num homem cheio de surpreendente 
vitalidade.
   Esses pensamentos davam-lhe uma espcie de tontura. Ele sabia que nunca havia de chegar  Verdade. Quando muito, conseguiria vislumbrar pequenas verdades.
   Havia dias em que o servio era tanto que Eugnio no tinha tempo nem para concertar as idias. Os resultados financeiros do seu trabalho em geral eram magros, 
mas isso, longe de ser para ele motivo de descorooamento, era um estmulo. J pagara um tributo pesado demais  cobia e  vaidade. Era preciso limpar-se dos velhos 
erros.
   Era com freqncia chamado no meio da noite. Certa madrugada, um homem veio busc-lo para ver a filhinha que estava passando muito mal. Eugnio saiu com ele. 
Chovia e o vento era gelado. No caminho, o homem desfez-se em desculpas por t-lo tirado da cama quela hora. Mas o caso era grave. Um automvel deixou-os numa rua 
de subrbio, diante de uma casa de tbua, perdida no fundo de terreno alagadio. Eugnio sentia nos ps a umidade do cho, a chuva batia-lhe no rosto, mida e fria. 
Sair  rua numa noite assim era desagradvel - pensou ele - mas morar permanentemente num lugar mido e insalubre como aquele era mil vezes mais desagradvel. Essa 
idia consolou-o. E levou-o instantaneamente a outros pensamentos que ele ia formulando enquanto a seu lado o homenzinho caminhava a murmurar palavras a que ele 
no dava ateno. Havia muita coisa a fazer no Mundo. Proporcionar uma vida melhor quela gente, por exemplo. No se faria isso com revolues, porque a violncia 
gera a violncia e seus frutos sempre so perigosos. Os homens viviam demasiadamente preocupados com palavras, pulavam em redor delas e esqueciam-se dos fatos. E 
os fatos continuavam.
    cabeceira da pequena doente, lutou com a morte at o amanhecer. Quando o dia clareou a chuva tinha parado, o Cu estava limpo e a criana fora de perigo.
   Eugnio voltou para casa a p. Tomaria o eltrico dali a duas quadras. Seus ps chapinhavam nas poas de gua. Sapos coaxavam num banhado vizinho. Um passarinho 
arrepiado piava, tristemente, pousado no galho de uma rvore. Eugnio ia assobiando. Lembrava-se dos tempos de menino, quando, nas manhs de Inverno, ia a caminho 
da escola. A mo de Ernesto apertava a sua, mo mais moa, mais frgil que se entregava, como a pedir proteo.
   Eugnio assobiava com fora. Estava contente porque tinha salvo a vida de uma criana. Dera mais um passo para a salvao da sua prpria vida.
   
   - Mande entrar o seguinte, D. Amlia - disse Eugnio, sentando-se  mesa para rabiscar um apontamento. Ouviu a batida da porta e um rudo macio de passos. Ergueu 
a cabea e surpreendeu-se por ver na sua frente, imveis e silenciosos como condenados que esperam uma sentena do juiz, Dora e Simo. Ela muito plida e com ar 
abatido. Ele, mal disfarando a sua agitao. Eugnio teve um mau pressentimento. Ergueu-se e, esforando-se para falar com naturalidade, perguntou:
   - Mas que milagre  este? Ento, que  que h?
   Estendeu ambos os braos para a frente, por um breve instante, e reteve, nas suas, duas mos flcidas e frias.
   - Vamos sentar... - convidou.
   Dora sentou-se. Era visvel o tremor das suas mos. Pelo irregular subir e descer dos seios, podia adivinhar-se-lhe o ritmo do corao.
   Simo ficou de p, segurando o chapu de feltro com ambas as mos, de modo como se o quisesse rasgar. Olhou Eugnio bem nos olhos, numa quase expresso que lembrava 
a do desafio e depois, com voz apertada, disse:
   -  melhor. .. melhor dizer logo tudo. .. - Fez uma pausa breve, em que respirou trs vezes. - A Dora est grvida.
   Eugnio abriu a boca de leve, para dizer alguma coisa e por alguns segundos ficou com a respirao suspensa. Dora cobriu o rosto com as mos e desatou num choro 
convulso.
   - Tem a certeza?
   - Quase absoluta.
   Fez-se um silncio de nervosa indeciso. Simo olhava para Eugnio. Eugnio olhava para Dora.
   - Saia um instante.
   Simo hesitou, como se no tivesse compreendido a ordem.
   - Saia! - repetiu Eugnio, impaciente. Controlou-se e acrescentou com brandura: - Quero fazer um exame nela.
   Simo retirou-se. Quando voltou, alguns minutos depois, encontrou Dora ainda mais plida, ao p da janela, e Eugnio a esper-lo, no centro da sala.
   - Ento?
   O outro sacudiu a cabea devagarinho.
   - No h a menor dvida. Gravidez de trs meses.
   Tirou com raiva as luvas de borracha. Foi lavar as mos, enquanto Simo e Dora se entreolhavam em atnito silncio.
   Eugnio no podia afastar do pensamento a Dora de treze anos que entrara na igreja, ainda de carpins, toda vestida de cor-de-rosa, com uma grinalda de flores 
de seda a circundar-lhe os cabelos. O que se passava agora era brutal, de uma crueldade gratuita.
   Voltou-se para eles, enxugando as mos.
   - S o senhor nos pode ajudar... - balbuciou Simo Por favor, seja nosso amigo.
   Eugnio largou a toalha e caminhou at  mesa. Sentou-se na cadeira giratria, pegou no corta-papel e comeou a bater com a lmina de osso na palma da mo esquerda. 
Era preciso recuperar a calma, pr em ordem as idias, achar uma sada. O grande obstculo imediato seriam os pais da menina. Filipe ficaria furioso quando soubesse 
de tudo; seria capaz de uma violncia. Havia depois a sociedade, a famosa sociedade a que os Lobos pertenciam. Era bem uma sociedade de lobos que se entredevoravam. 
Se a notcia da gravidez de Dora se divulgasse, eles teriam um pratinho extraordinrio, de um raro e esquisito sabor.
   - Ento? - perguntou Eugnio, olhando para o rapaz.
   Simo aproximou-se da mesa, segurou-lhe as bordas com ambas as mos, encurvou o busto e disse baixinho:
   - Tudo depende do senhor.. .
   Os olhos de Eugnio refletiram a sua dvida, a sua quase incompreenso diante daquelas palavras. Ele "no queria" compreender. A idia que lhe vinha agora era 
em si mesma to brutal, to repugnante, que ele se recusava a pensar em que Simo estivesse insinuando que... No, no era possvel.
   - O senhor j pensou no que pode acontecer se essa criana nascer? - perguntou Simo. - O pai de Dora tem raiva de mim. . . Ela vive numa sociedade que no compreende 
certas coisas... Eu... eu... sou um judeu. Entregar-se, antes do casamento, a um cristo, para eles j  uma vergonha... mas entregar-se a um judeu chega a ser monstruosidade. 
- O rapaz tremia todo e a sua voz a espaos ficava rouca, quase inaudvel. - Pense bem, doutor. O pai de Dora  capaz de uma brutalidade...
   No  que eu tenha medo, s penso nela... O culpado de tudo fui eu... Ela  uma menina que no sabe nada, mas eu tinha obrigao de enxergar claro, de evitar 
o que sucedeu um porco, uma besta! - Bateu no peito com fora. - E por causa da minha fraqueza ela vai sofrer.
   Eugnio fazia um esforo desesperado para conservar a calma. Batia cada vez com mais fora e rpido com o corta-papel na palma da mo. Estava mais calmo. Agora, 
todo o seu desalento se denunciava no arrastado da voz, na expresso de cansao dos olhos, nas rugas da testa. Recostou a cabea no respaldo do sof e ficou num 
silncio O sofrimento desfigurava-lhe o rosto, matava-lhe a frescura juvenil.
   Eugnio ergueu-se. Fez Dora sentar-se no sof, aproximou-se de Simo, bateu-lhe no ombro:
   - Tenha calma - disse. - Sente-se ali, junto de Dora.
   Simo obedeceu sem a menor palavra. Eugnio encostou-se  mesa e falou:
   - No h duas solues para o caso. O remdio  contar tudo ao Filipe... - Simo esboou um gesto de protesto. Eugnio interveio logo. - Calma, Simo, escute 
primeiro o que vou dizer. No fim de contas, o pai de Dora  um ente humano, que saber compreender. Dentro de um ms ou dois j no ser possvel para Dora esconder 
o seu estado. Todos vo notar... Eu me encarrego de falar com o Filipe. Vou sugerir Eu j ia enfraquecendo... Sacudiu a cabea lentamente que mande a Dora p'ra fora, 
para uma estncia, para um sanatrio numa cidade do interior... Eugnio esperava. Simo murmurou:
   - Essa soluo pode ser muito cmoda pr senhor... Pense no que pode acontecer a ela, pense no que vai ser a vida dessa criana. Alm de filho de judeu ser um 
filho... um filho... - Ofegava, estava prestes a pronunciar um palavro, Mas quando Eugnio explodiu:
   - Cale a boca! Voc no sabe o que est dizendo...
   Simo deixou-se cair no sof e cobriu o rosto com ambas as mos. Dora ensaiou um tmido gesto de carinho, passou os dedos de leve pelos cabelos escuros e ondulados 
do rapaz, depois olhou para Eugnio e no seu olhar havia uma splica e um pedido de desculpa. Fez-se longo silncio. Eugnio acendeu um cigarro, enfiou Sou as mos 
nos bolsos das calas e comeou a caminhar  toa pela sala. Pensou no Dr. Seixas. Se ao menos ele estivesse ali, podia dar-lhes uma sugesto. Era um homem de experincia, 
conhecia o Mundo.
   Simo ergueu a cabea, empertigou o corpo.
   - Desculpe, doutor. O senhor compreende a minha situao. Faz duas noites que no durmo.
   Houve um silncio curto. Dora, mordendo o lbio, olhava para a rua. Dir-se-ia que l fora, sob o seu olhar, se estivesse , desenrolando uma cena dolorosa mas 
de um fascnio to perverso e to grande que no lhe permitia afastar os olhos dela. E ela, continuava a ver e a sofrer de prostrao. Eugnio olhou para Dora.
   - Pense bem, minha filha. Sua me no poder deixar de compreender. Voc ver como tudo vai ser fcil.
   - M... mam nunca se importou comigo. .. Eu sei que ela no vai compreender, eu sei, eu sei Nunca me deu um conselho, nunca me explicou nada... - As lgrimas 
de novo lhe vieram aos olhos. - Mam no me quer bem. O senhor vai ver. Eles s sabem brigar, repreender quando a gente procede mal... no  possvel... - comeou 
a protestar Eugnio.
   Como se cobrasse nimo de novo, Simo ergueu-se. Parecia j ter tomado uma grande resoluo. Aproximou-se de Eugnio e disse com firmeza:
   - Mas nestas ltimas horas tenho pensado muito e muito em toda esta histria. S h uma sada. Simo ergueu-se, agressivo. - O aborto.
   O mdico sacudiu a cabea.
   - No conte comigo.
   - O senhor  o nico amigo que temos.
   -  intil. Eu no faria isso em nenhuma mulher nestas circunstncias e muito menos em Dora.
   Simo cruzou os braos. Passara da indeciso para o desespero, do desespero para o desnimo, do desnimo de novo para a resoluo. Agora lanava mo do sarcasmo, 
depois olhou para Eugnio e no seu olhar havia uma splica e Avanou, agressivo, e sorrindo, um meio sorriso de desdm, um pedido de desculpa. murmurou:
   - A honra profissional, no? O sacerdcio sagrado da Medicina... Eu fazer um aborto? Oh! Nunca. - Descruzou os braos, brusco, seus olhos fuzilaram e Eugnio 
teve a impresso de que ele ia agredi-lo fisicamente: - Se  questo de dinheiro, diga logo - gritou Simo. - Vou roubar, matar, vou vender a minha alma mas consigo 
o dinheiro para comprar a sua conscincia.
   Eugnio disse simplesmente:
   - No seja teatral!
   Simo segurou-o pelos ombros e sacudiu-o repetidamente, como se o quisesse despertar.
   - Mas eu estou-lhe pedindo o que muitos mdicos fazem! Eu sei que  simples. Examine bem o caso.  questo de alguns minutos e tudo est acabado. Dora fica livre 
da vergonha. - Sacudia sempre Eugnio. - Por amor de Deus, do seu Deus! Essa criana vai ser uma infeliz, no temos o direito de botar no Mundo uma criatura que 
ns sabemos que vai sofrer. A culpa  minha, eu sei, estou disposto a ir para a cadeia, a humilhar-me, a ir pro Inferno! Mas faa o que eu lhe peo.
   Eugnio sacudia a cabea negativamente. Simo largou-o, enxugou o suor que lhe escorria pelo rosto e depois exclamou:
   - Cobarde!
   Eugnio sentiu um pequeno estremecimento. Como se lhe tivessem golpeado uma ferida mal curada. Mas dominou-se. Aproximou-se de Dora, tomou-lhe da mo e perguntou:
   - Pense bem. No acha melhor resignar-se, deixar que a criana nasa? Pense bem. Um filho, Dora. Estou certo de que seu pai concordar agora com o casamento. 
Imagine o seu filho, qual  a mulher que no deseja ter um filho? (Passou-lhe pela mente a imagem de Eunice: "Esses mamferos que nos deformam o corpo..."?. Voc 
conhece a Ana Maria?... No gostaria de ter uma filhinha como ela?
   Simo soltou uma risada. Estava parado atrs de Eugnio.
   - Ele tem coragem de falar na filha! Chega a ser engraado... A filha que ele conheceu s quando ela tinha quase trs anos... A filha que ele fez num momento 
de egosmo e de animalidade, como eu... - Eugnio tinha a impresso de que o apunhalavam pelas costas. - A filha que a outra teve, que a outra criou em silncio, 
enquanto ele, o moralista...
   Eugnio inteiriou o corpo, voltou-se e, com voz surda, gritou:
   - Cale a boca!
   Caminhou para Simo com ar agressivo. O outro ficou imvel. Dora deixou escapar um grito dbil e fino. Eugnio estacou. Sentiu que alguma coisa, um pensamento 
ou uma mo invisvel, o retinham. Soltou um fundo suspiro, como se ao expelir quisesse botar para fora, de mistura com o ar, toda a sua clera inesperada e indesejvel. 
Passou a mo pela cabea e foi de novo sentar-se  mesa. Ficou olhando inexpresivamente, primeiro para Dora, depois para Simo e finalmente, com voz alterada pela 
comoo, disse:
   - No adiantamos nada com violncias. Precisamos olhar os factos com calma. Eu no lhe tenho rancor, Simo, por dois motivos: primeiro, porque voc disse uma 
verdade a meu respeito. Segundo, porque, no estado em que voc se encontra, tudo se desculpa.
   E de novo Dora e Simo estavam de p na sua frente, ansiosos, expectantes.
   - Vou telefonar para o Filipe, contar tudo e pedir-lhe que venha buscar a Dora. - Eugnio falava com resoluta calma. Tomou do telefone. - Al! D. Amlia: consiga 
uma ligao urgente com o escritrio do Dr. Filipe Lobo. Urgente, est ouvindo?
   Por alguns segundos, Simo ficou imobilizado pela indeciso:
   - No faa isso, doutor, pelo amor de Deus! - exclamou, aps breves instantes.
   Dora tremia, agarrada ao brao do rapaz.
   - Al! Aqui  o Dr. Eugnio. Preciso falar imediatamente com o Dr. Filipe. - Pausa. Eugnio franziu a testa. - No pode? Mas  um assunto urgente. - Nova pausa. 
- Daqui a quinze minutos? Mas  muito tarde... Al... Al!
   Simo deu dois passos, estendeu o brao e cortou a ligao.
   - Pense no que est fazendo, doutor. D-nos mais uma oportunidade.
   Eugnio ps o telefone no lugar. A cabea comeava a doer-lhe. Sentia sede. O suor que lhe pingava da testa era frio e desagradvel.
   - O Filipe no pode atender... Est numa conferncia muito importante.. .
   Os lbios de Simo crisparam-se:
   - V? No tem tempo p'ra cuidar da filha. Negcios, negcios e negcios. Ele com o seu arranha-cus... O senhor com a sua conscincia profissional... Contando 
que o "Megatrio" cresa e que a sua conscincia esteja em paz, pouco importa o sofrimento dos outros, a vergonha e a tranqilidade dos outros... ... Eu sei...
   Silncio. Eugnio olhava perdidamente para uma folha de papel em branco que estava em cima da mesa.
   - Ento? - tornou a falar Simo. - O nosso problema pode ficar resolvido hoje mesmo. Depende do senhor. Um pouco de boa-vontade... Veja quanta coisa se pode evitar...
   Eugnio sacudia a cabea, numa negao obstinada.
   - No contem comigo...
   Simo suspirou com ar final. Ps o chapu na cabea e tomando o brao de Dora disse:
   - Est bem. Procuramos um amigo na hora de aperto. Ele no nos quis ajudar. Vamos procurar ento qualquer desconhecido... - Eugnio fitou os olhos do rapaz, numa 
interrogao. - No h-de faltar uma parteira ou um mdico que faa o que o senhor no quer. - Puxou Dora e caminhou para a porta.
   Foi um momento decisivo para Eugnio. Deix-los ir, livrar-se daquela responsabilidade? Mas Dora correria perigo de vida, nas mos de alguma parteira inescrupulosa, 
de algum charlato irresponsvel. Ele no podia permitir. ..
   Ergueu-se de um salto e em largas passadas tomou a dianteira do casal, postando-se entre ele e a porta.
   - Voc pode ir - disse a Simo - mas a Dora fica.
   A jovem olhou para o companheiro, indecisa.
   - Ela vai - afirmou Simo.
   - No permito. Vou entreg-la ao pai.
   Fez-se um silncio hesitante e tenso. Os trs ofegavam.
   - Vamos, Dora - disse Simo. E estendeu a mo, segurando a maaneta da porta.
   Eugnio viu que tinha de cometer um ato de violncia. Teria direito a isso? Valeria a pena opor-se pela fora a que eles fossem? Talvez Simo no levasse a cabo 
a ameaa. Teria Tempo de avisar Filipe, para que ele interviesse...
   Simo abriu a porta e empurrou Dora para fora.
   Eugnio desviou os olhos e deixou-os ir.
   
   - Mande entrar o seguinte.
   Os minutos passavam. Os clientes sucediam-se. Eugnio atendia-os com ateno por vezes ausente. Estava preocupado. Aonde teriam ido Simo e Dora? No devia t-los 
deixado sair... Se tivesse sido mais enrgico... Era forte, dominaria Simo com relativa facilidade, se ele reagisse fisicamente. A sua obrigao, como amigo de 
Filipe... Obrigao... Amigo... Sempre as palavras. E a dvida, a incerteza... Por que lhe aconteciam aquelas coisas desagradveis?
   Passou-se meia hora. A custo Eugnio concentrava o esprito no que lhe diziam os clientes. Imaginava Dora de mil maneiras... Nas mos de uma parteira que ele 
conhecia... No consultrio de certo mdico de cujos escrpulos ele desconfiava... Via-a tomando drogas... Agonizando... Morta... Oh! Devia ter tido mais coragem. 
Mas odiava a violncia, antes de comet-la teria que violentar-se a si prprio. Ou tudo tinha sido apenas por cobardia? Talvez... Mas no, a indeciso nem sempre 
tem razes no medo... A verdade era que, fosse como fosse, precisava de avisar Filipe...
   Vestiu-se, apanhou o chapu, desculpou-se com os clientes que estavam na sala de espera, e precipitou-se para a rua. Entrou num automvel e deu o endereo do 
escritrio de Filipe.
   - Est ainda muito ocupado - informou um dos empregados.
   - Mas o meu caso  urgente.
   O homem olhou o relgio de pulso.
   - Tenha pacincia. Cinco minutos, no mximo.
   Trs minutos depois abria-se a porta do gabinete de Filipe.
   
   Saram dele dois homens de meia idade, seguidos de Filipe, que dizia:
   - Estamos combinados, no?
   Houve uma troca confusa de palavras de amabilidade, acordo e despedida.
   Filipe avistou Eugnio e fez-lhe um sinal amistoso:
   - Al, bicho! Espera l dentro, que eu j volto.
   Acompanhou os dois homens at o elevador. Eugnio entrou no gabinete. Estava perturbado, o corao batia-lhe descompassado, sentia a boca ressequida e amarga. 
Como iria contar a Filipe o fato desagradvel? Qual seria a reao dele? Desejou mil vezes no estar envolvido naquilo.
   
   Filipe entrou radiante. Fechou a porta, abraou Eugnio.
   - Menino: acabo de dar um golpe de mestre! Venci uma dificuldade formidvel. Estou com o dia ganho. Mas que cara  essa? Morreu algum?
   Eugnio no sabia como comear. Filipe ofereceu-lhe um charuto, que ele recusou.
   - Desembuche, homem!
   Era melhor dizer logo tudo sem rodeios.
   - Est-se passando uma coisa muito sria, Filipe... Com Dora - acrescentou, ainda sem coragem de dizer toda a verdade.
   
   Filipe suspendeu a respirao, franziu a testa.
   - O automvel? ... - murmurou. - Diga logo, homem!
   Eugnio sacudiu a cabea.
   - A Dora est grvida.
   Filipe olhou estupefato o amigo.
   - O qu? A Dora... a mi... Mas no  possvel! ...
   - Infelizmente  verdade. Eu... eu mesmo a examinei - acrescentou o outro com relutncia, corando.
   Contou-lhe tudo. Filipe deixou-se cair na sua cadeira. Mas o seu estonteamento foi de curta durao.
   - Aquele judeu patife... - murmurou, quebrando um lpis nas mos. - E voc... porque no impediu que eles sassem do seu consultrio?. . .
   - Eu telefonei-lhe, Filipe, disseram que voc no podia atender. . .
   - Devia ter usado de fora. . . devia ter dado bordoada naquele judeu canalha... E agora? Aonde andaro eles?
   Pegou no telefone, pediu ligao com sua casa.
   - Al... Al! Que diabo! Al!  o Filipe. A Dora j apareceu? - Pausa. - No? Desde manh?
   Ps o telefone no gancho, num gesto furioso. Olhou para Eugnio e disse-lhe por entre dentes:
   - Como mdico e como homem, voc  responsvel pelo que acontecer  minha filha. - Cresceu para ele, trmulo de raiva. - Mas se ao menos voc tivesse sido homem 
para impedir que aquele tipo levasse a Dora... - Calou-se. E depois cuspiu a palavra que o outro temia. - Cobarde!
   Eugnio sentiu o sangue afluir-lhe  cabea. Contraiu-se-lhe o rosto numa mscara de raiva e ele vociferou:
   - Patife!
   Surpreendido diante daquela reao, Filipe arrefeceu um pouco. Mas j Eugnio rompera todas as barreiras da timidez, da convenincia e as suas palavras jorraram:
   - Pois como mdico e como homem, ouviu?, eu responsabilizo voc, e s voc, pelo que aconteceu, pelo que est acontecendo e pelo que. . . pelo que ainda vai acontecer.. 
. ofegava, estava vermelho e as suas mos tremiam. - Dora tem razo.
   Voc quer mais bem ao "Megatrio" do que a ela. Abandonou-a p'ra cuidar do seu arranha-cus. Porque  um vaidoso, um exibicionista, um sujeito desumano. V! Veja 
se agora o seu arranha-cus, o seu dinheiro e o seu renome podem remediar o mal que est feito, veja se...
   A comoo cortou-lhe a voz.
   Filipe tinha desviado os olhos e no seu rosto, pela primeira vez, Eugnio via vestgios de sofrimento, de acobardamento e de misria.
   Calou-se, admirado do que dissera e de ter tido fora e mpeto para o dizer. Veio um repentino amolecimento interior e sem que nenhum dos dois pronunciasse mais 
uma palavra, ele saiu do gabinete, atravessou a sala de espera, ganhou o corredor e precipitou-se escadas abaixo, sem esperar o elevador.
   
   Passaram o resto da tarde  procura de Dora. Filipe pediu o auxlio do chefe da polcia, de quem era amigo particular. Eugnio foi buscar Seixas, contou-lhe o 
que se passava e Rogou-lhe que o ajudasse a descobrir Dora. Tomaram um automvel, apanharam um guia telefnico e visitaram todas as parteiras, todos os mdicos suspeitos 
da cidade. No tinham achado o menor vestgio. Foram  casa de Simo. O casal Kantermann estava tambm apreensivo porque o rapaz passara a noite em claro, sara 
de manh e ainda no dera sinal de vida. Seixas entrou na primeira farmcia e telefonou para a casa de Filipe. Comunicou-se com Isabel, que lhe declarou que at 
quela hora no haviam descoberto nada.
   Seixas voltou para o automvel. Encontrou Eugnio num deplorvel estado de nimo.
   - Coragem, rapaz! Parece que  voc que est grvido...
   Eugnio no respondeu. Debatia-se num mundo escuro. Lembrava-se apenas de que poderia ter evitado aquele drama. Tinha sido um cobarde.
   - Eu podia ter evitado isso...
   Seixas olhou-o de soslaio:
   - Eu no sabia que voc era Deus...
   - Bastava que eu tivesse tido a coragem de dar um par de socos no rapaz... Prendia a menina, chamava o pai...
   Seixas encolheu os ombros.
   - O pai vinha - retrucou - e dava um par de socos na menina e provavelmente um par de tiros no rapaz. Cobria a rapariga de vergonha, dizia-lhe meia dzia de palavres, 
falava na sua honra, no seu nome, seu dele, Dr. Filipe, e com toda a certeza empregando o seu prestgio e os seus recursos conseguiria que outro mdico fizesse com 
toda a naturalidade e bem pago o aborto que voc muito honestamente no quis fazer... Deixe de ser besta! Sossegue o peito, rapaz. E por falar nisso, p'ra onde  
que vamos agora?
   - Sei l...
   - Vamos para casa. O remdio agora  esperar. Porque no janta comigo? Bota-se mais gua no feijo.
   - Estou sem fome.
   Seixas deu ao motorista o endereo de Eugnio. O auto ps-se em movimento.
   - Parece incrvel - murmurou Eugnio - que no seja possvel viver sem empregar a violncia. Se eu tivesse outro temperamento, fosse um impulsivo, por exemplo, 
Dora agora estaria a salvo em sua casa...
   - A salvo? Quem sabe? Olhe. Examine a questo por todos os lados. Dora pode fazer o aborto e ser bem sucedida. Admitamos que no tenha feito e que Filipe a encontre, 
aceite a situao e espere a passagem do perodo normal da gravidez. Quem nos garante que Dora no morra de parto? J lhe disse: sossegue esse corao. No mexa 
na ferida que ela comea a doer e a sangrar. Pense noutra coisa. Espere, tenha pacincia.
   Deixou Eugnio  porta da casa e prometeu levar-lhe pessoalmente ou dar-lhe por telefone as notcias que obtivesse no decorrer da noite.
   Eugnio encontrou em casa algum alvio. Ana Maria agarrou-se-lhe s pernas, fazendo as perguntas do costume:
   - Qu que tu me tsse? E o meu pesente?
   
   Eugnio tomou-a nos braos. Cada vez se identificava mais com aquela criaturinha. Beijou-lhe a testa, os cabelos e os seus pensamentos foram imediatamente para 
Dora. Ana Maria ia crescer, fazer-se jovem como a filha de Filipe. O Mundo era mau e tudo levava a crer que fosse piorando  medida que os anos passassem. Ele precisava 
de ser forte e ter os olhos limpos, a fim de saber guiar a filha nos caminhos da vida. Sentou-se, ps Ana Maria sobre os joelhos e apanhou o retrato de Olvia.
   - Quem , minha filha?
   - A mam.
   - Onde  que ela est?
   - T no Cu.
   - Quem foi que te disse?
   - A madinha Fida.
   - E quem  que mora mais l no Cu?
   - Deus - respondeu a menina, muito sria. E Eugnio percebeu uma expresso de Olvia naquele rostinho redondo e gordo.
   Deus... Se ao menos ele pudesse acreditar como Olvia acreditava, tudo estaria bem.
    hora do jantar, verificou que os Falk estavam alegres. Hans tinha feito aquela tarde um bom negcio. D. Frida cantarolava. Ana Maria batia com a colher no prato. 
O velho Falk contou uma anedota dos seus tempos de jovem, em Hamburgo. Eugnio beliscou os alimentos. No se haviam erguido da mesa quando o telefone tilintou. Eugnio 
teve um estremecimento, levantou-se bruscamente e correu para o aparelho.
   - Al! ... Qu?. . Ah! - Mudando de tom: -  com o senhor, seu Falk.
   Passou o auscultador ao outro. Tinha-se-lhe alterado o ritmo da respirao.
   
   Depois que Ana Maria adormeceu, Eugnio ficou a ler os jornais da tarde. No conseguia prestar ateno ao que lia. Ruminava as cenas desagradveis da tarde. Vistas 
de longe, no tempo e no espao, elas tinham um sabor levemente melodramtico. Agora lembrava-se de detalhes... Eram quase dez horas quando Seixas irrompeu na sala, 
de chapu na cabea. Sentou-se no sof, respirando fundo, olhou para Eugnio, que estava em ansiosa expectativa, e disse em voz baixa e cansada:
   - Esta vida  mesmo uma ...uma. .. - Soltou um palavro. Eugnio viu que os olhos dele estavam midos. - Pois voc no h-de ver?
   Eugnio esperava, incapaz de uma palavra, abafado por um mau pressentimento.
   - Sempre acontece o pior... - continuou Seixas.  Anunciata, aquela cachorra, fez o aborto... veio uma hemorragia... quando ela viu a coisa preta, pediu socorro 
pro Resende... O Resende no quis ficar com a responsabilidade... Chamou o pai de Dora...
   Calou-se. Ergueu-se, atirou o chapu para cima da mesa, passou os dedos pela cabeceira hirsuta e grisalha.
   - No foi possvel fazer mais nada. A menina morreu ao escurecer. D-me um cigarro.
   Estendeu para Eugnio a mo cabeluda, que tremia.
   
   Eugnio no teve nimo para ir ver o corpo de Dora. Passou a noite em claro, lutando com os prprios pensamentos e numa impresso de febre. No outro dia,  tarde, 
Seixas contou-lhe que o enterro tinha sido muito concorrido. Filipe e a mulher estavam desesperados. Ela tivera um desmaio na hora de sair o fretro.
   - E Simo? - indagou Eugnio.
   Seixas fez um gesto vago.
   - Estive hoje na casa dele. Os velhos esto alarmados. O rapaz ainda no apareceu.
   Fez-se um curto silncio, ao cabo do qual, amaciando a voz, Seixas murmurou:
   - A Dora estava to linda no caixo, parecia adormecida. E era uma criana ainda... - Suspirou. Comeou a enrolar um cigarro melancolicamente. - A Quinota mandou 
um bouquet bem bonito. As flores que ela tinha comprado pro Dr. Ilia... - Sorriu. Umedeceu as bordas do papel com a ponta da lngua. - O russo desta vez ficou logrado.
   
   Aquele fim de Inverno foi particularmente escuro e triste para Eugnio. A morte de Dora abrira-lhe as velhas feridas que ainda estavam sangrando. J no o atormentava 
mais a sensao de culpa, a lembrana de que um gesto poderia ter evitado o desastre. O que ele sentia com dolorosa agudeza era a inutilidade de todos os gestos. 
Ningum podia com o destino - sua me era quem tinha razo. A vida rolava  revelia de nossos desejos e os homens eram por ela arrastados inapelavelmente. Eugnio 
lembrava-se de ter ouvido da boca de um dos seus clientes: "Eu no sou trouxa, doutor, aproveito o mais que posso. Conscincia? Conversa fiada. O Mundo  dos patifes."
   Havia dias em que para ele a face das criaturas e das coisas se apresentava fria e hostil. O estmulo e a alegria tinham desaparecido do Mundo e, pior que tudo, 
Olvia mesmo parecia ter desertado da sua vida.
   Eugnio procurava reagir contra esses pensamentos, esforava-se por afugentar o pessimismo e a dvida, pois sentia que entregar-se a eles seria trair a morta 
querida.
   Uma tarde saiu do consultrio particularmente deprimido. Chovia e a umidade fria das ruas dava-lhe uma sensao de desconforto sem remdio. O Cu era cinzento. 
Os homens passavam encolhidos. No se tinha a impresso de um fim de dia e sim de um fim de Mundo. Eugnio fazia reflexes amargas. nAquela manh assistira a uma 
cena desoladora. Morrera-lhe um velho cliente. O padre ainda estava ao p da cama a dar-lhe a extrema-uno e j os trs filhos do moribundo discutiam em voz alta, 
na varanda, a partilha dos bens, pois sabia-se que o homem no deixara testamento. No pareciam irmos: naquele momento eram apenas inimigos. A cobia desfigurava-lhes 
os rostos, dava-lhes uma aparncia de demnios, de feras esfaimadas.
   Por toda a parte - pensava Eugnio - ele via a ganncia e a avareza e o dio, a mesquinhez e a malcia. Como seria Possvel salvar os homens?
   Pensou em Olvia. Sentiu que ela estava morta. Devia ser o frio, a cinza do Cu, a chuva gelada, a tristeza das pedras e das criaturas. Porque ele sabia que Olvia 
no podia morrer.
   Continuou a caminhar com as mos metidas no bolso do impermevel. Pensou em Seixas. O velho vivia ultimamente atormentado pelos credores e pela bronquite crnica. 
Arrastava o corpanzil doente e cansado pelo consultrio, pelas casas dos clientes, pelas ruas, resmungando, blasfemando e dizendo que no sobreviveria quele Inverno.
   Ao atravessar a rua, Eugnio leu numa placa de metal: Alfaiataria Londres. Lembrou-se do pai. Viu-o mentalmente, encurvado sobre o trabalho, magro, paciente, 
infeliz. A me atravessava a sala com uma pilha de pratos nos braos, Ernesto rachando lenha no fundo do quintal. Como tudo aquilo era estranho, parecia pertencer 
a uma outra vida - vozes, gestos e imagens de um mundo perdido!
   Chegou a casa sentindo necessidade de calor humano. Doa-lhe aquela solido glacial. Na sala de jantar, Hans Falk fumava o cachimbo e lia o jornal alemo. D. 
Frida tricotava ao p da mesa. Ana Maria veio correndo ao encontro do pai. Eugnio tomou-a nos braos e apertou-a contra o peito. A menina segurou-lhe o rosto com 
ambas as mos.
   - Pap, eu quelo i dormir no teu quarto. J estou mocinha.
   - No meu quarto? - admirou-se Eugnio. - Mas tu vais deixar D. Frida sozinha, minha filha?
   - A madinha dorme com o padinho.
   Os Falk desataram a rir.
   - Ento tu queres mesmo dormir no quarto do pai?
   Ana Maria encolheu os ombros, enrugou o nariz e entortou a cabea, numa espantada interrogao:
   - Pus eu no sou tua filha?
   E, como acontecia sempre que no tinha argumentos, Eugnio deu-lhe o sonoro beijo da capitulao.
   Naquela noite, a cama de Ana Maria foi posta ao lado da do pai. As sete horas, Eugnio teve de se deitar ao lado da filha, a fim de que ela lhe segurasse a orelha.
   Eugnio olhava aquele rosto delicado, sereno, ali a seu lado. A voz de Olvia cochichava-lhe na memria: " como se agora te fosse dado modelar, com o barro de 
que foste feito, um novo Eugnio. E pensa em que vais continuar nela." Ele precisava ter coragem. Fraquejar agora seria decepcionar Olvia, que tanto esperava dele...
   Quando Ana Maria caiu no sono Eugnio levantou-se de mansinho e deixou o quarto. A sala que fora de Olvia deu-lhe uma angstia enorme. Ele teve vontade de sair. 
Meter-se num cinema ou num caf. Precisava de barulho para ter a certeza de que o resto das criaturas do Mundo no havia perecido. Tornou a vestir o impermevel 
e a calar as galochas.
   - Vou sair, D. Frida - disse em voz alta para a sala de jantar. - Se telefonarem, faa o favor de dizer que volto s dez.
   Botou o chapu e saiu. A chuva continuava a cair fina e fria.
   No Teatro de S. Pedro, anunciavam uma comdia. Quase irrefletidamente, Eugnio comprou um bilhete e entrou. O ambiente era morno e tenuamente perfumado. O excesso 
de luzes e de olhos deu-lhe uma vaga sensao de mal-estar.
   Felizmente, a sua cadeira ficava numa extremidade de fila, no era preciso incomodar ningum. Sentou-se, passou os olhos pela platia, pela fila das frisas... 
Sobressalto. Numa das frisas mais prximas do palco, achava-se Eunice, ao lado do pai. Vestida de preto, muito branca e loura, um louro quase platina. Eugnio desviou 
os olhos, conturbado. O seu primeiro mpeto foi de se erguer e ir-se embora. Uma rpida reflexo convenceu-o de que o mais aconselhvel seria ficar. Sim - considerava 
ele com o corao ainda em marcha um pouco descompassada - por que no ficar? No tinha mais nada com Eunice. Eram dois estranhos. Caminhos opostos. Mundos diferentes. 
Mas apesar de tudo - pensava ele - devo estar vermelho. Remexeu-se na cadeira. Mal ousava olhar para os lados. Devia haver, ali no teatro, outros conhecidos. Fatalmente 
o enxergariam na platia, fariam comentrios... Que me importa? Cometi algum crime? Lembrou-se dos boatos maliciosos, perversos mesmo, que haviam corrido quando 
se divulgara a notcia do desquite. Eugnio sacudia nervosamente a perna. Um senhor na fila seguinte voltou a cabea e olhou para ele de maneira significativa.
   Eugnio caiu em si: estava sacudindo a cadeira da frente.
   Se as luzes se apagassem e a cortina se abrisse, estaria salva a situao. Alguns segundos depois a intensidade das luzes diminuiu de maneira sensvel e a orquestra 
comeou a tocar. Eugnio olhou disfaradamente para a frisa de Eunice. Sintra inclinava-se para a filha, ao passo que um homem se erguia no fundo da frisa. Castanho. 
O rosto comprido e plido, os olhos rebrilhando. Ensaio sobre a Tragdia Grega. Castanho inclinou-se para Eunice. Disse-lhe alguma coisa. Ela sorriu. Eugnio continuava 
a observ-los dissimuladamente. "Pour enfan ter de belles penses." Sintra sacudiu a cabea, sempre de dentes  mostra. Monoplio do leite. "V voc, menino, que 
tem jeito para essas coisas." Eugnio sentia-se calmo agora.
   Era a calma orgulhosa do homem que acaba de se certificar de que no errou o caminho. Sim, ele tinha orgulho da sua solido. No pertencia ao mundo dos Sintras, 
dos Castanhos. Sentia-se forte, senhor de si mesmo e da sua vida. Ficou olhando para o palco. A msica cessou. Ouviram-se vrias pancadas repetidas, depois mais 
trs batidas espaadas. A cortina correu.
   A "outra" representao comeou-pensou Eugnio.-Qual seria a pea mais convencional? A do palco? Ou aquela em que Eunice era a figura central? Imaginou-a em cena, 
de pijama de seda, sentada  maneira oriental em cima de um div, lendo um livro, o cigarro ardendo metido na piteira de mbar que seus dedos seguravam em refinada 
pose.
   Uma enorme gargalhada coletiva chamou Eugnio  realidade. Ele passou a concentrar a ateno no que acontecia no palco. Era uma histria vulgar, com maus dilogos, 
cheia de trocadilhos e de anedotas.
   De repente, uma estranha sensao tomou-lhe conta do ser.
    que ele queria integrar-se na alegria geral, rir com os outros, esquecer a presena de Eunice, de Sintra, de Castanho e do seu passado, esquecer a chuva e o 
frio l de fora, esquecer a morte de Dora, a maldade dos homens, a incongruncia da vida. No podia. Isso dava-lhe uma angstia - a angstia, da separao, do isolamento, 
do abandono. Queria ser simples, por exemplo, como aquele velho gordo ali a seu lado. Ele ria em gargalhadas sonoras, o seu rosto pregueava-se todo, a papada tremia 
como gelatina, seus ombros redondos subiam e desciam. Ser simples, aceitar tudo, no ter memria.
   Quando a cortina tornou a fechar-se e as luzes se acenderam, Eugnio ergueu-se e saiu. No saguo, parou um instante, lembrando-se do dia da festa de formatura. 
Bem ali, ao lado daquela coluna, encontrara Olvia sozinha, com uma braada de rosas vermelhas.
   Acendeu um cigarro. Ficava ou no para ver o resto da pea? Hesitou um instante. "No fico" - resolveu.
   Saiu do teatro, atravessou a rua na direo da praa. Caa uma garoa rala. Eugnio parou um instante para contemplar o monumento junto do qual ele e Olvia se 
haviam sentado naquela noite, submetidos ao peso dos diplomas. O drago continuava na mesma postura, subindo pela escada, a pata erguida, os dentes arreganhados; 
seu dorso de bronze reluzia.
   Eugnio continuou a andar. Pensava agora em Eunice. Parecia-lhe impossvel que por trs anos vivera com ela, na mesma casa, como marido e mulher. No entanto, 
agora ela parecia-lhe uma estranha. Como se nunca lhe tivesse dirigido a menor palavra...
   Desceu a rua. Surpreendeu-se, instantes depois, a assobiar uma msica alegre. Era bom sentir-se forte. Havia um indefinvel encanto na sua solido.
   Ao passar pelo "Megatrio", parou. Ficou perturbado como se defrontasse uma pessoa que lhe conhecesse os dramas ntimos. Olhou para o banco em que naquela noite 
ficara sentado a conversar com Dora e Simo. L estava ele, desolado, batido pela chuva.
   Eugnio, retomou a marcha. Ao entrar em casa, encontrou no corredor D. Frida, que lhe disse:
   - Olha, Genoca, telefonaram da casa do seu Travis. O menino est com muita febre.
   - Faz muito tempo?
   - Neste instantinho.
   Eugnio sacudiu a cabea, voltou-se e tornou a sair. A chuva estava mais forte. Mas nada agora importava. Ele sentia que em breve lhe voltaria a calma, a aceitao, 
a grande paz.
   
   Setembro entrou com ventanias e fortes aguaceiros. Mas, numa manh de Outubro Ana Maria e o velho Falk encheram a casa com o seu alvoroo. Eugnio acordou com 
os gritos da filha, que pulava na cama, gritando:
   - Oia o Sol! Oia o Sol munito, pap!
   Eugnio saltou da cama e ouviu em seguida a voz comovida de Hans Falk, que bradava no quintal:
   - Venha ver, Frida! Que beleza!
   Eugnio abriu a janela e inclinou-se para fora.
   Falk apontava para o fundo do quintal, onde se erguia um pessegueiro todo coberto de flores. Era a rvore de que ele cuidava com carinho de pai.
   - Veja, Genoca - dizia ele, olhando para cima, muito vermelho. - Que beleza!
   O Cu era de um azul limpo e luminoso. O vento cheirava a seiva e a flor.
   Naquela manh, Eugnio saiu para a rua em lua-de-mel com o Mundo. A tarde, o consultrio teve um movimento maior que o do costume.
   Ao anoitecer, Seixas entrou e encontrou o amigo  mesa, sorrindo e a ler alguma coisa.
   - Que  que voc tem? - perguntou. - Viu passarinho verde?
   - Mas  uma maravilha! - exclamou Eugnio, erguendo a cabea. - Cada dia que passa  uma revelao, uma surpresa.
   
   Seixas sentou-se, limpando a cinza do colete.
   - Quando voc chegar  minha idade no achar mais maravilhas nem encontrar surpresas e revelaes...
   Eugnio examinava as fichas:
   - Sabe da ltima? Estou encontrando na vida, em carne e osso, velhos conhecidos de livros...
   - ?
   Seixas parecia pouco entusiasmado. Enrolava um cigarro com grande pachorra.
   - Fausto... por exemplo. - Tomou uma das fichas.C est ele. Sei que no volta mais. Desenganei-o. Mas tomei o nome verdadeiro do homem, a idade e duas notas 
sobre o caso. - Largou a ficha. Apanhou outra. - Este aqui  Hamlet. E ontem falei com Pigmalio.
   Atirou para trs na cadeira e olhou para o amigo. Seixas umedecia com a lngua a borda do papel do cigarro. Seus olhos azuis estavam fitos em Eugnio, parados, 
vazios, alheios.
   - Conhece a lenda de Pigmalio?
   Seixas apalpou os bolsos,  procura da caixa de fsforos.
   - No me interesso por contos da carochinha.
   - Mas  impossvel que no tenha ouvido falar em Fausto.
   - Aquele velho gaiteiro que no podia com as calas e que se engraou pela Margarida? Esse  meu conhecido.
   - Grau dez. Pois tenho lidado com essa gente toda.  claro no fundo os seus casos so semelhantes aos daquelas personagens clssicas.
   Seixas chupou o cigarro, tirou uma baforada, desinteressado. Mas Eugnio estava resolvido a vencer-lhe a indiferena. E comeou a contar.
   
   Fausto entrou-lhe no consultrio na pessoa de um velho baixo, calvo e de pernas tortas. Chegou cheio de mesuras, disse o nome e pediu segredo para o que ia dizer. 
Tinha sessenta e oito anos e era vivo. Ia casar outra vez dentro de alguns meses e queria... queria - piscou o olho. - O senhor sabe... no sou propriamente um 
moo.. .
   Eugnio examinava-lhe os traos fisionmicos. A cara do velho lembrava-lhe a mscara de um fauno.
   - Que idade tem a sua noiva?
   - Dezoito.  caixeirinha do Sloper. Um mimo. - Beijou a ponta dos dedos. - O senhor no imagina.
   Eugnio ficou um instante pensativo e depois, com infinito cuidado, perguntou:
   - E o senhor no tem medo?
   - Medo de qu?
   - Medo da diferena de idades.
   O velho inclinou-se para a frente, deu uma palmadinha no joelho de Eugnio e disse:
   - A vida  curta, doutor, cada um aproveita com pode. a moa quer... Eu  que no vou botar fora esse biscate, no sou bobo.
   Seus olhinhos diludos animaram-se.
   -E o senhor quer rejuvenescer...
   - Isso, doutor. Nem que seja por dois anos. Um ano mesmo... Olhe, para falar a verdade, j me contentava com seis meses. Me receite alguma coisa, me d um regime. 
No fao questo de dinheiro. - Calou-se um instante. O seu rosto escureceu. - P'ra conseguir isso eu era capaz de vender at a minha alma.
   Hamlet apareceu a Eugnio na pessoa de um guarda-livros alto, magro e tristonho. No tinha ainda trinta anos e vivia num estado de profunda melancolia. Comia 
pouco e dormia mal. Achava a vida negra. No suportava o convvio social, no sabia conquistar amigos e desconfiava de tudo e de todos. Contou que se prejudicava 
na vida por causa da indeciso, da dvida. Andava ultimamente atormentado pela idia fixa do suicdio. No a levara ainda a cabo porque continuava a hesitar, a duvidar. 
Eugnio escutava-o de braos cruzados, com toda a pacincia. O guarda-livros falava sem olhar para o interlocutor.
   E com os olhos escuros e grados fixos no linleo continuou a falar com uma voz montona e branca, como se recitasse um monlogo.
   - Que  a vida, doutor? A vida... a vida... o senhor sabe... No vale a pena viver... Eu s vezes penso: ora, a gente nasce, vive sofrendo, mas para qu? Ningum 
 sincero, os homens so egostas. As mulheres tambm. A gente s vezes se apaixona, se faz de bobo e por quem, doutor? Por uma dessas diabas pintadas e falsas que 
amanh a terra come as carnes delas e elas ficam esqueleto, como qualquer cozinheira. O senhor de certo leu aquele versinho dos dois esqueletos, o do nobre e o do 
pobre, conversando debaixo da terra. O pobre ergueu-se e perguntou pro nobre: onde esto os teus avs nessa ossada branca? O outro no sabia. Todos na morte somos 
iguais. Mas o que  a morte? A morte, doutor, pode ser um sono sem sonhos. Ou ento a vida  o sonho da morte.
   Suas mos impressionantes, longussimas, magras, brancas e peludas, apertavam nervosamente um livro de capa de pano bege. Eugnio, com algum esforo, leu o ttulo: 
Problemas de Contabilidade.
   
   O Pigmalio de Eugnio chamava-se Romo Rosa, era um sujeito de cinqenta e poucos anos que vivia de agiotagem e morava numa casa cor-de-rosa e triste, perto 
da Ponte do Riacho. A mulher fugira-lhe com um sargento da Brigada Militar e o homem desesperado, tomara o creosote que a esposa infiel comprara alguns dias antes 
para deitar num dente que lhe doa. Romo Rosa deixou uma carta  polcia, pedindo que no culpasse ningum da sua morte (era leitor do folhetim do Correio do Povo) 
e legando tudo o que tinha s obras do Sanatrio Belm. Chamado a tempo, Eugnio p-lo em poucos instantes fora de perigo. No dia seguinte, abatido e triste, estendido 
na cama de casal, boca e lbios queimados, Romo Rosa contou a Eugnio o seu drama.
   - Veja, doutor, que ingratido! Achei a Mimi num beco, era mulher -toa, doutor, mulher de soldado. Simpatizei com ela, o senhor v, to menina e j perdida... 
Tinha catorze anos, imagine... - Suspirou. Fez uma pausa curta. - Trouxe a desgraada p'ra minha casa, mandei dar um banho nela, a est a vizinha que pode contar... 
Mandei comprar vestidos bons, roupa de baixo, meia de seda, sapato e tudo. A Mimi era analfabeta, doutor, no sabia nem que letra era o A. Pois eu ensinei ela a 
ler com toda a pacincia. Eduquei ela. Mimi no come com a faca! Mimi tira a mo do nariz! Mimi no te ri desse jeito que  feio! Mimi no faz isto! Mimi no faz 
aquilo! Pois doutor, no  p'ra me gabar, mas transformei a criaturinha numa dama igual a essas da alta. Se o senhor visse ela depois de um ano, nem conhecia. Parecia 
uma moa dessas direitas, de famlia. - Mudou de tom. - Aceita uma cachacinha com mel, doutor?  da boa. No? Bom. Pois . Eduquei a menina e depois me apaixonei 
por ela e dei a maior prova de estimao que um homem pode dar a uma mulher. Casei com ela. Mas casei no duro, doutor, casamento com papel, padre, juiz e tudo. Enfim, 
tirei a Mimi da sujeira, a gente levava uma vida decente, a est a comadre Mariana que no me deixa mentir. - Tornou a suspirar, apertou as cobertas nos dedos crispados. 
- Pois essa infeliz me foge com um sargento da Brigada. - Olhou para Eugnio como quem pede uma explicao, um auxlio. Depois, com expresso filosfica, acrescentou: 
- Foi feita de barro ruim, doutor, o barro  que  ruim.
   
   Eugnio ergueu-se. Seixas tinha escutado as histrias sem dar mostras de entusiasmo e nem mesmo de interesse. Depois de alguns instantes, disse:
   - A vida tem de tudo.  um mercadinho bem sortido. - Mudou de tom. - Por falar em mercadinho, como esteve hoje o consultrio?
   - Um movimento incrvel. Estou modo.
   Sentou-se na mesa, na frente de Seixas.
   - Estou cansado mas feliz. - Olhou para cima da cabea do amigo, na direo da janela. O seu olhar perdeu-se na distncia.
   - A Olvia tinha razo. . . Felicidade  a certeza de que a nossa vida no se est passando inutilmente. So estes intervalos entre um trabalho cansativo e outro 
trabalho cansativo, estes intervalos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler um bom livro... O erro  pensar que o conforto permanente, 
e bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas so a verdadeira felicidade. Como  que eu podia aproveitar bem uma hora de conversa e brinquedo com Ana Maria 
se antes no tivesse passado muitas horas aqui, curando as mazelas dos outros e pensando nas minhas prprias mazelas?
   Seixas remexeu-se na cadeira.
   - Voc quer o contraste. Uma espcie de banho turco. Calor de vapor e depois - zuc! - gua fria em cima.
   - V que seja. Banho turco. O nosso mal tem sido fazer do conforto e do gozo - boas roupas, boas mulheres, boas comidas e boas bebidas, casas luxuosas, automveis 
e dinheiro em quantidade - o objetivo exclusivo ou quase exclusivo da vida. Comigo pelo menos a coisa foi assim. Eu queria o sucesso, a boa vida. Vestia esse desejo 
com palavras mais bonitas, disfarava-o... Consegui o que queria. O senhor sabe o resultado. Fui derrotado. S agora  que comeo a sentir-me forte e me vem uma 
grande paz por poder olhar todas essas coisas com uma espcie de indiferena superior.
   Seixas sacudiu a cabea devagarinho:
   - Bonitas falas, rapaz. Mas apenas falas. Espere a minha idade.
   Como se no o tivesse escutado, Eugnio prosseguiu:
   - Veja o mal que faz s pessoas a falta de um ideal superior, seja ele religioso, artstico ou simplesmente humano. O resultado disso  a corrida para o prazer. 
S h um objetivo: gozar. O gozo se compra. Para comprar  preciso dinheiro. O senhor, melhor que ningum, sabe que  custoso ganhar dinheiro honestamente. A vida 
 curta. A mocidade, mais curta ainda. Por isso ningum mais olha os meios de ganhar dinheiro. Eis as razes por que ns estamos no sculo do gangsterismo. Fazem-se 
as maiores bandalheiras, as maiores imoralidades...
   Como o cigarro colado ao lbio inferior, Seixas encarou o amigo e, esforando-se para parecer cnico, perguntou:
   - Mas... qu  moral?
   
   Eugnio sorriu.
   - No discutiremos esse assunto batido. Admitamos que moral seja uma coisa que varie de clima para clima. Mas h algo de eterno e de imutvel.  a natureza do 
homem. Finque uma agulha no brao de um chins, de um africano e de um boliviano que a reao ser a mesma...
   - Num faquir dizem que  diferente.
   Eugnio ignorou a interrupo brincalhona.
   - No considero um ato moral ou imoral em si mesmo. O que existe so atos que prejudicam o prximo e atos que no prejudicam e ainda atos que lhe trazem bem.
   - Voc est-me deixando tonto com essa lengalenga. Onde  que voc quer chegar?
   - Quero dizer que o excesso da ganncia, o excesso de avareza, o excesso de sensibilidade e o excesso de um mundo de outras coisas traz o desequilbrio geral, 
a desigualdade e as injustias.
   Seixas sacudiu a cabea rpida e repetidamente, como um homem que quer espantar o torpor da incompreenso.
   - No entendi nquel. Troque isso em midos.
   - Olhe. Na sua corrida doida para o prazer, o homem no escolhe caminho e esmaga os outros homens, s vezes por cegueira, outras vezes por clculo. Esse  o mal.
   Seixas limpou as calas sujas de cinza, ergueu-se devagar e disse:
   - Vou-me embora porque voc hoje deu para filosofar. Sou um homem simples. Prefiro no pensar na vida.
   - Espere, que samos juntos.
   Na rua, Eugnio perguntou a Seixas se tinha alguma notcia de Simo.
   - Tenho falado com ele. O pobre rapaz anda escangalhado, abatido, no vale um caracol. Me ofereci p'ra fazer nele umas injees de estricnina.
   - E o Filipe?
   - Falei com ele. Pedi que no perseguisse o rapaz. Fiz-lhe ver que era pior, todo o mundo no fim ia ficar sabendo a verdade sobre Dora. Ele acabou concordando 
comigo. Mas, apesar disso, tenho medo que se encontrem...
   Houve um longo silncio. Os dois amigos caminhavam lado a lado. Anoitecia. Acenderam-se os combustores.
   - E o senhor no acha que o Simo pode fazer alguma loucura?
   Seixas sacudiu a cabea.
   - Qual! O momento pior passou. Ele  moo; mais dia menos dia esquece. O tempo  remdio p'ra tudo.
   Sim, pensou Eugnio, o tempo cicatrizava todas as feridas. Em breve Dora desapareceria da vida de Filipe, de Isabel e de Simo, assim como a prpria Olvia havia 
de desaparecer da sua vida.
   Era doloroso mas inelutvel. E Olvia mesmo compreendia isso de maneira profunda, quando dizia que a vida comea todos os dias. O Mundo seria impossvel se as 
criaturas tivessem boa memria.
   
   Era a noite de 31 de Dezembro. Hans Falk olhava com ansiedade para o relgio de cuco. Faltavam dez minutos para a meia-noite. D. Frida dispunha na mesa os pratos 
com sanduches e croquetes. O rdio inundava a sala com os sons estridentes de uma marcha.
   Falk ergueu-se e foi at o barril de cerveja, na copa, e Tornou a encher o seu caneco. Estava a beber desde a hora do jantar. Tinha as faces muito vermelhas, 
os olhos brilhantes.
   Parado  janela, Eugnio olhava para o "Megatrio", que se erguia gigantesco acima da cidade, com todas as suas janelas iluminadas. Eram mais de trezentos quadros 
de luz recortados na estrutura enorme. Dois faris possantes, postados na soteia, varejavam o Cu com seus plidos feixes de luz.
   A msica cessou. Ouviu-se a voz do speaker:
   "Fala P. R. H. 2. dentro de alguns instantes transmitiremos para todos os cus da Amrica a cerimnia da inaugurao do "Megatrio", o grandioso edifcio construdo 
pela firma Lobo 8z C.a L.a Esse gigantesco arranha-cus, orgulho da nossa engenharia,  a casa mais alta da Amrica Latina. Foi ela projetada pelo notvel engenheiro-arquiteto 
Dr. Filipe Lobo, que dirigiu pessoalmente a sua construo.
   "O "Megatrio" ser inaugurado por S. Ex.a o Ex.a Sr. Governador do Estado. Estamos com os nossos microfones instalados no grande salo do 30  andar do "Megatrio", 
onde j se acham reunidas as altas autoridades estaduais, federais e municipais, representantes das principais sociedades da nossa capital e inmeras pessoas gradas. 
Senhores ouvintes: o espetculo  simplesmente deslumbrante. Ao soar da meia-noite, S. Ex.a o Governador pronunciar o discurso da inaugurao e em seguida rompero 
os fogos de artifcio da soteia deste monumental edifcio. Faltam poucos minutos para a meia-noite. Ouamos mais um pouco de msica. "
   Os compassos de uma valsa saram do alto-falante e encheram o ar. D. Frida atravessou a sala danando, tendo numa das mos um prato de avels, nozes e amndoas, 
e na outra um cesto com passas de uvas. Falk acompanhava o ritmo da valsa sacudindo de um lado para o outro o caneco de barro.
   - Meu Deus! - disse D. Frida, olhando para a mesa.Ser que no vai faltar comida?
   Estavam esperando alguns amigos depois da meia-noite.
   - Tenho cerveja, eu estou satisfeito - declarou Hans, piscando o olho e lambendo a espuma que lhe ficara no lbio superior.
   D. Frida comeu um croquete e deu uma reviravolta, cantarolando. Hans Falk levantou-se na ponta dos ps, avanou dois passos e deu uma palmada nas ndegas da mulher.
   - Prosit! - gritou.
   - Tem modos, Hans! - exclamou ela, soltando uma risada.
   
   Sem largar o copo, Hans enlaou-lhe a cintura e saram a danar. Estavam excitados como duas crianas.
   - Credo, Hans! Deixa-me ir arrumar as coisas.
   Largou o marido e correu para a cozinha. Hans tornou a emborcar o copzio.
   Eugnio olhava para o "Megatrio", fascinado. O casaro fazia parte da sua vida, era uma espcie de divindade onipresente, pois onde quer que ele estivesse na 
cidade, sempre enxergava aquele vulto cinzento subindo para o Cu. No podia ver o "Megatrio" sem ver passar mentalmente Filipe, Um claro fantasmagrico coroava 
a cabea do "Megatrio".
   Junto de Eugnio, Falk, a mulher e Ana Maria olhavam tambm.
   - Que bonito! ... - murmurava D. Frida.
   Ana Maria comeou a chorar, assustada. Eugnio passava-lhe a mo de leve pela cabea, dizendo:
   - No tenha medo, minha filha.
   - Aquilo morde, pai, eu tenho medo.
   - No morde, no - retrucou ele - o pap no deixa.
   Proteg-la... Sim. Proteg-la naquele momento e sempre. Era a grande misso da sua vida. Ele sentiu-se forte. Olhou para o "Megatrio" num sereno desafio.
   Seixas apareceu  meia-noite e vinte. Recebeu os abraos sem entusiasmo. Aceitou um copo de vinho. Beliscou um croquete. Olhou demoradamente para Ana Maria, que 
dormia estendida no sof.
   - Vamos fazer um brinde - props D. Frida.
   Com passo pouco firme, Hans Falk aproximou-se.
   - Viva!
   D. Frida encheu o copo de Eugnio e o seu.
   - A quem o brinde?
   -  vida.. . - sugeriu Eugnio.
   Seixas fez uma careta.
   - No bebo  sade dessa vaca - respondeu, spero.Cortei as relaes com a vida.
   - Deixe de histria - retrucou Eugnio. - No fundo, o senhor  apaixonado por ela.
   Seixas encolheu os ombros.
   - Vamos beber  sade de Ana Maria. De todos ns  a nica que ainda pode salvar-se.
   Os copos tiniram. E os quatro beberam em silncio.
   Quando chegaram os amigos que os Falk esperavam, Eugnio convidou Seixas para sair. Ganharam a rua. A noite estava morna e clara.
   - Aonde vamos? - indagou Eugnio.
   - Vamos andar sem rumo - murmurou Seixas. E depois de uma curta pausa: - Alis eu no fiz outra coisa desde que nasci.
   Eugnio ofereceu-lhe um cigarro.
   - O senhor est pessimista hoje.
   - Queria que eu andasse soltando foguetes? Este ano entro nos sessenta e um. No tem nenhuma graa.
   Caminharam alguns metros em silncio.
   - Curioso. .. - disse Eugnio. -  uma tolice, mas quando entra um novo ano a gente sempre faz planos, pensa no passado e vira filsofo.
   - Fazer planos no custa dinheiro.
   - E d uma certa coragem, anima... Ilude...
   A rua estava movimentada. Cafs e restaurantes fervilhantes de gente barulhenta. Grupos pelas esquinas falando alto, gesticulando, cantando. Eltricos cheios. 
Automveis com passageiros turbulentos, acenando, gritando.
   Passou a toda a velocidade o carro cinzento da Assistncia Pblica, buzinando longa e tristemente.
   - Bebedeira pela certa - murmurou Seixas. - estado de coma.
   - s vezes eu penso - disse ele - que a profisso mdica bem compreendida tem uma funo muito mais importante do que em geral se julga. J que na sua maioria 
os homens so doentes psquicos, acho que cabe aos mdicos fazer alguma coisa pela Humanidade. Os pequenos e os grandes mdicos, cada qual no seu sector. Imagine 
um homem que tem um complexo de inferioridade e consegue fazer-se ditador... Veja do que  capaz um delegado de polcia do interior quando no tem os parafusos bem 
apertados... Pense nos outros homens que exercem postos de comando, quando dispem da multido. Se fossem absolutamente sos no fariam guerras, no cometeriam crueldades...
   - Voc est-me saindo um filosofante pior que... pior que no sei quem.
   - Que excelentes homens de governo dariam os mdicos! Ningum como eles est em contacto to ntimo com a vida, com as criaturas. Ningum melhor que eles conhece 
as necessidades do povo...
   Seixas fez um gesto agressivo.
   - Mas o diabo  que, na maioria dos casos, quando os mdicos sobem aos postos do governo, esquecem-se de que so mdicos e passam a ser apenas polticos. Politiqueiros! 
Voc tem por a exemplos aos punhados. - Sacudia a cabea muitas,          muitas vezes. - Que bicho curioso  o homem! ... Vaidoso, vingativo, intolerante, leviano 
e principalmente fraco de memria. Esquece tudo, menos as coisas relacionadas com a barriga, com o sexo e com a vaidade.
   Eugnio sorria. E, como se no tivesse escutado as reflexes pessimistas do amigo, continuou:
   - E pense mais nisto: se os tcnicos em geral, os cientistas, os mdicos, os escritores, os artistas, os economistas trabalhassem juntos e de acordo com um plano 
bem traado, poderiam fazer alguma coisa para atenuar os males da Humanidade. No  possvel, est claro, conseguir um Mundo perfeito.  at mesmo inconcebvel. 
Mas no seria absurdo desejar acabar essas incoerncias do nosso sculo. Fome em poca de superproduo. Excesso de trabalho para uns e falta de trabalho para outros, 
e isso na era da mquina. Falta de sade num tempo em que a Medicina avanou tanto...
   Seixas fumava em silncio. Olhou para o amigo com o rabo dos olhos.
   - Diga-me uma coisa. Voc vai mesmo salvar a Humanidade?
   -  curioso como eu penso agora nestas coisas. Antigamente s pensava em mim prprio. Vivia como cego. Foi Olvia quem me fez enxergar claro. Ela fez-me ver que 
a felicidade no era o sucesso, o conforto. Uma simples frase deixou-me a pensar: "Considerai os lrios do campo. Eles no fiam nem tecem e no entanto nem Salomo 
em toda a sua glria se cobriu como um deles."
   - Fia-te na Virgem e no corras para ver o que acontece...
   Eugnio sorriu. Atravessaram uma rua. Ao chegarem  calada oposta, tornou a falar:
   - Tudo  uma questo de boa-vontade. Os elementos a esto. O difcil tem sido um acordo. Ningum quer dar o primeiro passo. O homem no  totalmente mau. Mas 
os homens so perigosos quando se renem em grupos.
   Passaram pela frente de um clube. Janelas iluminadas. Os sons de um jazz vinham l de dentro. Rumor de vozes.
   - Bastava que eles cumprissem o que Cristo pregou no Sermo da Montanha - prosseguiu Eugnio, jogando fora o seu cigarro. - No precisamos discutir a origem divina 
de Cristo. Podemos olh-lo apenas como homem. Mas o essencial  o esprito desse sermo, que  a condenao da guerra, da cobia e da violncia. O elogio do amor, 
da tolerncia, da pacincia e da paz.
   - Essas coisas escritas do certo. Na vida  diferente, homem. No se iluda. O Filipe, por exemplo, podia retrucar-lhe que sem cobia no haveria estmulo e sem 
estmulo era impossvel o progresso...
   Eugnio animou-se:
   - Mas o progresso  um meio e no um fim. Progresso: meio para atingir o conforto, e bem-estar, a felicidade. Mas um homem no deve querer tudo isso s para si 
e para os seus. Deve desejar bem-estar para toda a Humanidade.
   - Ser esse um sentimento humano? Olhe bem a vida e diga se os homens no se tm portado sempre como lobos. Lembre-se do egosmo, do instinto e diga-me se tudo 
isso que voc est pensando no  um sonho maluco.
   Entraram noutra rua menos movimentada.
   -Existem duas espcies de crueldade - disse Eugnio. A crueldade que se comete por cegueira, por incompreenso, e a crueldade que se comete por prazer. No primeiro 
caso, a educao dos sentimentos poderia melhorar a situao. O segundo  um caso de sanatrio. Por isso  que eu digo que h um grande trabalho para mdicos e professores.
   Seixas fez um gesto de impacincia.
   - Mas quem foi que lhe disse que os mdicos e professores no precisam por sua vez de mdicos e professores?
   - Seja como for, deve haver no Mundo um punhado de homens bons, inteligentes e fortes, que queiram fazer a tentativa.
   
   Eugnio admirava-se do prprio entusiasmo. Os argumentos acorriam-lhe com facilidade, as palavras saam-lhe com fluncia. Devia ser aquela noite diferente...
   - Quase nunca a bondade e a fora andam juntas - contraponteou Seixas, depois de alguns instantes de reflexo.O homem bom e sbio odeia a violncia. P'ra fazer 
que os malucos sigam as nossas prescries, precisamos met-los em camisas-de-foras. P'ra os homens sem juzo ouvirem os conselhos dos homens ajuizados  preciso 
usar da violncia. Ora, voc mesmo  contra a violncia. Os homens ajuizados so uma minoria insignificante... Em que ficamos?
   Caminharam por algum tempo em silncio. Os seus passos soavam tristemente na rua solitria.
   - Veja a guerra - disse Seixas. - Sob o ponto de vista humano  uma monstruosidade. Consulte homem por homem. Voc quer a guerra? No quero. E voc? Eu tambm 
no quero. Ningum quer. Mas a verdade  que a guerra sai. Tudo em conversa  muito fcil. Mas na vida, seu Genoca,  um buraco.
   -  uma questo de reeducao. No  com revolues que se conseguem esses milagres. Uma revoluo pode mudar um sistema de governo, mas no conseguir melhorar 
a natureza do homem.
   - Ento concorda que o homem  mesmo uma besta um pouco dominado pelo freio da religio, das leis e de mil outras coisinhas midas, inventadas por um grupo de 
homens com fins utilitrios...
   - Dr. Seixas! Estou desconhecendo o senhor. Que  isso?
   - Deve ser o vinho. Vamos falar em coisas mais srias. Melhorou o filho de Ulisses?
   - Melhorou. Apliquei-lhe mais uma dose de insulina. Seixas soltou um ronco de aquiescncia. Dobraram a primeira esquina. Eugnio notava que, sem prvia combinao, 
caminhavam para o "Megatrio".
   - Olhe o nosso caso em particular - disse Seixas, voltando insensivelmente ao caminho que queria evitar. - Que somos ns? Nada. Que  que podemos fazer? Muito 
pouco. Nem nos conseguimos salvar a ns mesmos, como  que vamos salvar o Mundo? Veja como  difcil conseguir a paz numa pequena famlia, veja a luta de uma pobre 
professora para manter a ordem numa classe de trinta alunos. E voc pensa em salvar a Humanidade!
   - Devemos ento fechar-nos no nosso egosmo e procurar apenas o nosso bem-estar, a nossa tranqilidade, a nossa felicidade?
   - Servimos de peteca para os brinquedos do destino.
   - Seja como for... eu acredito num futuro melhor.
   Seixas riu alto.
   - Diga antes que quer acreditar, que faz uma fora desesperada para no se entregar  descrena. - Tossiu longamente, aflito. - Quem  que pode ser otimista com 
esta tosse? E com letras vencidas no Banco? E com uma filha nervosa em casa? E com sessenta anos de uma vida fracassada?
   Aproximavam-se do "Megatrio". Eugnio queria fugir dele, a cada esquina fazia teno de mudar de rumo, mas inexplicavelmente continuava a caminhar sempre na 
direo do arranha-cus de Filipe.
   Passaram por um longo muro onde havia escrita de maneira rude uma legenda de dio.
   - Olhe isso a... - disse Seixas. -  muito mais fcil arrastar um povo acenando-lhe com uma bandeira de dio do que com uma bandeira de amor. H mais mpeto, 
mais... mais fora no dio. O dio  masculino, o amor  feminino.  mais fcil levar homens  guerra do que  orao.
   - No podemos esquecer o caso de Gandhi...
   - Mas os hindus tratam com os ingleses e os ingleses tm a velha mania de ser gentlemen.  o que salva a Inglaterra em todas as suas patifarias imperialistas.
   Eugnio ficou um instante a fazer reflexo. ,
   - A est. O esprito de gentileza podia salvar o Mundo. O que nos falta  isso: esprito de gentileza. Boas maneiras de homem para homem, de povo para povo.
   - Isso  um sonho. O dio e o egosmo so sentimentos naturais. O esprito de gentileza  uma coisa artificial.
   - Voltamos ento  necessidade da reeducao.
   - Trabalho p'ra gigantes. Os gigantes acabaram-se.
   - Vamos deixar ento a Humanidade de lado? Olhemos para o nosso pequeno crculo. Veja como nos faria bem e nos facilitaria tudo o esprito de gentileza...
   Seixas parou, pegou no brao de Eugnio. ..
   - Voc falou em Jesus Cristo... No vou nessa histria de levar uma tapa numa face e oferecer-lhe a outra. Se algum me desse uma bofetada eu respondia-lhe com 
um tapa-olho.
   - E depois?
   - Depois. . . ficava aliviado, aproximava-me do homem e dizia: "Deixe o vov ver o dodi." E botava carne crua ou arnica, conforme o caso. , Genoca, tudo isso 
so sonhos...
   - Mas um sonho deixa de ser apenas um sonho no dia em que algum o realiza.
   - Vida  vida. Histria da carochinha  histria da carochinha. Voc.est na casa dos trinta. Ainda pode sonhar. Escute o que lhe vou dizer. Torne a pensar nessas 
coisas quando tiver cinqenta anos. Nesse tempo, a minha carcaa j estar debaixo da terra. No poderei ouvir a sua opinio. No faz mal. Olhe. Saia sozinho uma 
noite como esta e diga assim: Dr. Seixas: voc era uma besta mas tinha toda a razo.  possvel que em alguma parte eu esteja escutando...
   Tinham chegado defronte do "Megatrio", diante do qual se comprimia pequena multido. Ficaram lado a lado, na beira da calada, olhando em silncio para o edifcio 
iluminado.
   - No h dvida que este troo  bonito. . . - murmurou Seixas.
   Eugnio sacudiu a cabea afirmativamente
   - Olhando eu sinto um calafrio.  como quando passa um batalho ao som de um dobrado. Quando ouo um bonito discurso. A gente  capaz de ir  guerra, matar, estraalhar 
os outros homens. Agora eu pergunto: at onde isso  devido  natureza do homem e at onde  conseqncia da educao defeituosa que todos recebemos?
   - No me faa mais perguntas - retrucou Seixas.
   O outro sorriu.
   - Hoje estou pior que o Simo. Querendo ir ao fundo das coisas.
   Fez-se um longo silncio. Seixas enrolou um cigarro lentamente.
   - No leve a srio a minha conversa - disse, riscando um fsforo. - Pode ser que voc tenha razo. Que diabo! Se eu no acreditasse na vida j tinha metido uma 
bala no coco.  que s vezes a gente anda amargo. No v muito atrs deste burro e rezingueiro que j est comeando a caducar. Hoje, a Quinota, quando me abraou 
 meia-noite, chorou, a coitada. Eu no perguntei porqu... No fim de contas, ela tem razo. Agentou firme todos estes anos, roendo um osso duro. Tem sido uma companheira 
de primeira ordem. - Suspirou. Chupou o cigarro. - H trinta anos, numa noite como esta, eu fiz l umas promessas... Mudar de vida, ganhar dinheiro, comprar uma 
casa, um carro... Qual! Tudo continuou como antes. Venderam-me um fumo brabo. - Olhou para o cigarro.o velho hoje est azedo. Vamos embora? Isto aqui  o meio do 
Mundo.
   Afastaram-se vagarosamente. Atravessaram a praa. E foram-se em silncio, cada qual voltado para dentro de si mesmo.
   
   No fim do Vero, Eugnio recebeu uma notcia que o encheu de grande e esquisita paz. Eunice e Castanho iam embarcar naqueles dias para o Uruguai, onde casariam 
sob contrato. "Pour enfanter de belles penses" - refletiu ele. Sim. Agora, Eunice e Aclio podiam passar dias inteiros a conversar sobre literatura e literatos. 
Leriam clssicos ingleses e franceses ao despertar. Almoariam Plato. Teriam os modernos ao ch das cinco. Jantariam os surrealistas. E dormiriam naturalmente com 
Freud.
   Pensou estas coisas sem perversidade, com uma sombra de ternura.
   Naquela manh de princpios de Abril, Eugnio saiu do quarto de banho, cantando. Estava tomado de uma grande e serena alegria, que se esforava por no analisar. 
Sentia-se em paz com o Mundo e com a sua conscincia.
    mesa do caf, abriu o jornal do dia. Procurou na coluna dos "Pequenos Anncios" a nota que publicava havia j meses, todas as quintas-feiras e domingos, pedindo 
notcias de Ernesto. Havia de encontr-lo, custasse o que custasse. Uma misteriosa intuio lhe dizia que o irmo ainda estava vivo e no muito longe.
   Continuou a folhear o dirio. Na ltima pgina, viu um retrato de Filipe, sentado  mesa de trabalho, diante de dois telefones, de um conversafone e de uma pilha 
de papis. Tratava-se e uma reportagem em quatro colunas, com cabealho vistoso.
   
   O CONSTRUTOR DO MEGATRIO EMPENHADO EM NOVA E GRANDIOSA REALIZAO
   
   O reprter fazia rasgados elogios ao Dr. Filipe Lobo, descrevia-lhe o tipo fsico e o ambiente em que ele trabalhava. As palavras dinmico e formidvel surgiam 
a cada passo. Filipe Lobo contava os seus planos. A firma de que era a figura principal adquirira vastos terrenos  beira do Guaba, onde pretendia construir em 
breve a vila balneria mais moderna e luxuosa da Amrica Latina. Teria ela um grande e original casino em estilo misso espanhola, numa rea de... Seguiam-se dados, 
cifras, pormenores.
   Eugnio dobrou o jornal, pensando em Dora. Era cruel que ela estivesse morta num dia to lindo como aquele.
   Tomou o ltimo gole de caf, ergueu-se e caminhou at  janela. A manh estava fresca e toucada pela luz de um doce Sol cor de ouro velho. Pairava no ar uma fina 
neblina violeta que amaciava todas as formas, dando  paisagem um suave tom diludo. Envolta nessa nvoa trespassada de Sol, a cidade parecia um brinquedo colorido, 
embrulhado em papel celofane.
    impossvel ser mau num dia como o de hoje - refletiu Eugnio, aceitando integralmente aquele momento. Teve um desejo de ternura. Pensou na filha, depois em 
Olvia. Um leve remorso toldou-lhe a clara superfcie da alegria. Ultimamente, ele pensava menos na morta querida. Os cuidados e complexidades da vida, o trabalho 
intenso e sem horrio certo desviavam-no daqueles momentos de intimidade em que ele podia pensar em Olvia, reler-lhe as cartas, recordar-lhe as palavras e os gestos.
   Deixou a janela e, como costumava fazer quase todas as manhs, pegou um livro de medicina para estudar. Leu algumas pginas com a ateno vaga. No podia esquecer 
a doura da hora. Deviam estar lindas as ruas sob aquele Sol maduro e amigo. Imaginou-lhe os reflexos nas rvores do parque, de sombras frescas, azuladas e cheirando 
a sereno. Os marrecos nadando no lago. Ana Maria atirando-lhes migalhas de po... Fechou o livro, brusco, tornou a met-lo na prateleira. Aproximou-se de novo da 
janela. O "Megatrio" l estava, esfumado no meio da neblina. A sua fachada de cimento achava-se marcada de recortes claros e simtricos, tabuletas, placas com nomes 
de mdicos, dentistas, engenheiros, advogados, modistas, escritrios, clubes...
   Se naquele instante - refletiu Eugnio - casse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que, num dia to maravilhosamente belo 
e macio, de Sol to dourado, os homens, na sua maioria, estavam metidos em escritrios, oficinas, fbricas... E se perguntasse a qualquer um deles: "Homem, porque 
trabalhas com tanta fria durante todas as horas de Sol?" - ouviria esta resposta singular: "Para ganhar a vida". E no entanto a vida ali estava a oferecer-se toda 
numa gratuitidade milagrosa. Os homens viviam to ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligncia tinham 
descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se no Mundo e no se conheciam uns aos outros, no se amavam como deviam. A competio transformava-os 
em inimigos. E havia muitos sculos tinham crucificado um profeta que se esforara por lhes mostrar que eles eram irmos, apenas e sempre irmos.
   Na memria de Eugnio soaram as palavras de Olvia: "Devemos ser um pouco como as cigarras". Era estranho como ele j no se lembrava com preciso do som da voz 
dela. . .
   - D. Frida! - gritou.
   - Uhu! - A resposta jovial veio do fundo da casa.
   - Faa o favor de aprontar a Ana Maria. Vamos dar um passeio no parque.
   Ao ouvir estas palavras, Ana Maria, que estava a brincar na cozinha, comeou a sapatear e a dar gritos de alegria.
   - No se esquea do po pros marrecos! - acrescentou Eugnio.
   Assobiando como um colegial, foi at ao quarto de dormir, tirou o roupo, vestiu o palet, botou a gravata, apanhou o chapu.
   Ana Maria chegou pouco depois, toda alvoroada. Estava vestida de azul. Parou no meio da sala, pegou nas pontas do vestido e com ar faceiro fez uma meia volta:
   - Olha, pai, como a nn est munita.
   E Eugnio reviu nela a Olvia da noite da formatura, no saguo do S. Pedro. O vestido vaporoso, a braada de rosas vermelhos, a pardia da faceirice feminina...
   Sim. No parque, ele pensaria em Olvia. Muito, muito...
   Ajoelhou-se, abraou a filha e beijou-lhe o rosto.
   Ana Maria afastou-o com as mos espalmadas e enrugando a testa numa expresso de contrariedade, choramingou:
   - Ai, pai! Tu vai desmanchar os meus bucles.
   Eugnio contemplou-a longamente. Era feliz. Aceitava a vida. Quisera que aquele momento leve e luminoso no tivesse fim. Mas sabia como ele era frgil, frgil... 
Fugia de analis-lo.
   Sentia no fundo do esprito a presena de um pensamento escuro, que estava  espreita... Era preciso no deixar que ele subisse  tona.
   
   - Vamos dar comida pros marrecos? - perguntou a Ana Maria, sacudindo-a. - Vamos dar um passeio no parque?
   Ela bateu palmas e ps-se a pular.
   - Vamo! Vamo! Ai que bom! Vamo d comida pros bicho!
   Mas Eugnio agora estava srio. Ana Maria franziu o sobrolho, entortou a cabea.
   - Pai. .. - estranhou ela. - Qu que tu tem?
   Ele no respondeu. Estava pensando na menina que atendera a noite passada. Era magra, suja, triste, mal vestida e mal alimentada. Caminharia fatalmente para uma 
tuberculose, se no a arrancassem da casa imunda em que vivia, se no lhe dessem o tratamento conveniente. Existiam na cidade, no Estado e no pas milhares de crianas 
nas mesmas condies...
   Eugnio ergueu-se e enfiou o chapu na cabea, abstrato.
   Sim, no bastava que ele se sentisse feliz, que tivesse Ana Maria a seu lado, corada, alegre, bem vestida e bem alimentada... Era preciso pensar nos outros e 
fazer alguma coisa em favor deles... Por que no comear algum trabalho em benefcio das crianas abandonadas? Dar-lhes alimentao adequada, boas roupas, higiene, 
instruo, assistncia mdica e dentria, colnias de frias, oportunidade de se divertirem, de serem alegres... A estava um grande plano. Tinha a certeza de que 
Seixas o ajudaria. Amava as crianas e os moos. Achava que os adultos e os velhos estavam irremediavelmente perdidos.
   "Mas ningum est perdido" - falou Olvia em seu esprito. Sim, era doloroso: ele havia esquecido por completo o som da voz dela. No entanto, sabia que Olvia 
estava viva, sentia-se agora invadido pela estranha impresso de que ela lhe marcara uma entrevista  sombra das rvores do Parque. Conversariam de si mesmos e dos 
outros, enquanto Ana Maria atirasse migalhas para os marrecos do lago...
   
   Sim. Fazer alguma coisa... No ser, apenas... Ana Maria puxou-lhe a manga do casaco, freneticamente.
   - Pai bobo! Pai bobo! Pai boobo!
   Eugnio baixou os olhos, ainda meio ausente.
   - Hem?
   - Vamos simbora duma vez. Os marrecos esto com fome.
   - Ah...
   E de mos dadas, pai e filha saram para o Sol.
   
   * * * *
   
   ERICO VERSSIMO nasceu em 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta, Estado do Rio Grande do Sul (Brasil), oriundo de uma das famlias mais antigas da regio e de 
ascendncia portuguesa.
   Fez os seus primeiros estudos no Grupo Escolar Venncio Aires e o pai desejava que Erico Verssimo fizesse depois estudos superiores na Universidade de Edimburgo. 
Mas a situao econmica da famlia sofreu graves dificuldades e o autor de O Senhor Embaixador apenas pde concluir o curso liceal no Ginsio Cruzeiro do Sul, em 
Porto Alegre.
   Aos dezoito anos, v-se obrigado a trabalhar num armazm de secos e molhados para ajudar a subsistncia da famlia, sendo essa amarga experincia o ruir dos seus 
belos sonhos da adolescncia e ao mesmo tempo o despertar consciente para os caminhos verdadeiros da vida, que saberia retratar mais tarde, como poucos escritores 
brasileiros do nosso tempo, nas suas melhores obras literrias.
   Aps diversos contactos com escritores como Joo Santana, Paulo de Gouveia, Augusto Meyer e outros, Erico Verssimo passa a desempenhar o cargo de secretrio 
de redao da Revista Globo, da quaL seria mais tarde diretor, onde publica diversos contos que, em 1931, reuniria no volume intitulado Fantoches, seguindo-se depois 
as obras Clarissa e Caminhos Cruzados, e com este ltimo livro obtm o "Prmio Graa Aranha" da Academia Brasileira.
   Entre as obras hoje mais lidas e conhecidas de Erico Verssimo, publicadas em exclusivo em Portugal pela Editora "Livros do Brasil", contam-se Msica ao Longe 
(1932), Um Lugar ao Sol (1936), Olhai os Lrios do Campo (1938), que seria o romance que consagraria Erico Verssimo como um dos maiores e mais autnticos escritores 
brasileiros contemporneos, Saga (1940), Gato Preto em Campo de Neve (1941), O Resto  Silncio (1942), a trilogia O Tempo e o Vento, composta pelos romances O Continente, 
O Retrato e O Arquiplago (1948, 1951 e 1961), O Senhor Embaixador, Incidente em Antares e Israel em Abril, etc.
   Tendo sido um dos escritores brasileiros que, com Jorge Amado, Graciliano Ramos e. Jos Lins do Rego, grande influncia exerceram em alguns dos nossos romancistas 
contemporneos - sobretudo nos "tempos hericos" do neo-realismo dos anos 40 -, Erico Verssimo foi consagrado em 1954 com o "Prmio Machado de Assis", da Academia 
Brasil,eira de Letras, que imps a obra e o nome deste Escritor na galeria dos mais importantes criadores literrios do nosso tempo.
   
   novembro 1998
